Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Tessalonicenses 4
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Bruce, F. F. (1982). 1 and 2 Thessalonians. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
- Green, G. L. (2002). The Letters to the Thessalonians. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans Publishing.
- Wanamaker, C. A. (1990). The Epistles to the Thessalonians. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans Publishing.
Análise dos Autores
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Autor A: Charles A. Wanamaker (NIGTC)
- Lente Teológica: Crítica Sócio-Retórica. O autor opera fortemente dentro da análise sociológica do Cristianismo primitivo, focando em como o texto funciona para criar coesão interna e definir fronteiras externas contra a sociedade pagã.
- Metodologia: Combina exegese gramatical rigorosa do texto grego (típico da série NIGTC) com análise retórica antiga (identificando seções como probatio e narratio). Ele interpreta as instruções éticas não apenas como moralidade, mas como ferramentas sociológicas para “definir as fronteiras da comunidade” e promover a “coesão interna” (Wanamaker, “Ethical Exhortation: 4:1-12”).
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Autor B: Gene L. Green (PNTC)
- Lente Teológica: Sócio-Histórica e Pastoral. Green enfatiza o contexto cultural greco-romano (citando profusamente filósofos morais e costumes da época) para contrastar a ética cristã com o paganismo circundante.
- Metodologia: Exegese focada na aplicação da “Vontade de Deus” contra a cultura prevalecente. Ele utiliza fontes primárias (Plutarco, Cícero, Musônio Rufo) para reconstruir o “cenário” sexual e social de Tessalônica, argumentando que a santificação é uma “revolução moral” contracultural (Green, “You should avoid sexual immorality”).
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Autor C: F. F. Bruce (WBC)
- Lente Teológica: Histórico-Crítica Evangélica. Representa uma abordagem acadêmica clássica, equilibrada, com forte ênfase na filologia e na história da tradição (ligações com o ensino de Jesus e o AT).
- Metodologia: Análise lexical detalhada e teologia bíblica. Bruce foca na Tradição (paradosis) recebida e na continuidade entre o ensino de Jesus e a doutrina paulina, evitando especulações sociológicas excessivas em favor da análise textual direta (Bruce, “(a) On Keeping the Traditions”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Charles A. Wanamaker: A seção 4:1-12 funciona retoricamente como uma probatio, onde Paulo reforça os “limites de grupo” (group boundaries) da comunidade cristã, exigindo uma separação radical da imoralidade pagã para garantir a sobrevivência e identidade social da igreja.
- Argumento Expandido: Wanamaker argumenta que a linguagem de parentesco (philadelphia, adelphoi) serve para criar uma nova estrutura social. Na ética sexual, ele defende que skeuos (vaso) em 4:4 refere-se eufemisticamente à genitália ou ao corpo, e não à esposa, pois a interpretação de “esposa” implicaria uma visão degradante da mulher como objeto e não se encaixaria no contexto de imoralidade sexual ilícita (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”). Sobre a escatologia (4:13-18), sua tese é que o problema em Tessalônica era o medo de que os mortos estivessem em “desvantagem” (disadvantaged) em relação à assunção aos céus, e não uma negação da ressurreição em si (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”).
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Tese de Gene L. Green: O capítulo 4 apresenta a santificação (hagiasmos) não como uma opção, mas como a Vontade de Deus imperativa, exigindo que os crentes rejeitem as normas sexuais permissivas da sociedade greco-romana e adotem uma ética de trabalho que evite a dependência do sistema de patronagem.
- Argumento Expandido: Green enfatiza que a conversão em 1:9-10 exige uma mudança ética radical. Ele destaca que a imoralidade sexual (porneia) era socialmente aceitável para homens na cultura grega, citando Demóstenes e outros para mostrar o contraste agudo do ensino de Paulo. Sobre 4:4 (skeuos), Green concorda que se refere ao corpo/própria pessoa, rejeitando a visão de “adquirir esposa” como linguisticamente ambígua e contextualmente improvável (Green, “You should avoid sexual immorality”). Em relação ao trabalho (4:11-12), Green inova ao conectar a “vida tranquila” à rejeição do sistema de clientelismo/patronagem, onde os cristãos não deveriam depender de patronos ricos, mas trabalhar com as próprias mãos (Green, “Fraternal ‘love’”).
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Tese de F. F. Bruce: A exortação paulina baseia-se na “tradição” (paradosis) autoritativa de Jesus, onde a santidade sexual e a esperança escatológica são desdobramentos lógicos da união mística com Cristo e da habitação do Espírito Santo.
- Argumento Expandido: Bruce foca na autoridade derivada de “Jesus como Senhor”. Ele interpreta a instrução ética como parte de uma catequese prévia (tradição). Sobre 4:6 (en tō pragmati), Bruce refuta decisivamente a interpretação de “fraude comercial”, insistindo que o contexto exige uma leitura de transgressão sexual (“trespass sexually”). Na escatologia, ele sugere que a “Palavra do Senhor” em 4:15 pode ser uma revelação profética ou um agraphon (dito não escrito) de Jesus, e que a ansiedade dos Tessalonicenses era sobre se os mortos perderiam a glória da Parousia (Bruce, “On the Faithful Departed”). Ele mantém uma visão sóbria sobre a “assunção” (rapture), conectando as nuvens e a trombeta à teofania do AT (Bruce, “On the Faithful Departed”).
3. Análise Comparativa de Tópicos Chaves em 1 Tessalonicenses 4
A. A Metáfora de Skeuos (Vaso) em 4:4
- Wanamaker: Defende vigorosamente o sentido de corpo/genitália. Argumenta que interpretar como “esposa” reflete uma visão baixa da mulher e não faz sentido no contexto de proibir a porneia (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”).
- Green: Concorda com o sentido de corpo, citando o paralelo com 2 Timóteo 2:21. Ele argumenta que a instrução é para controlar as paixões do próprio corpo, contrastando com a luxúria pagã (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- Bruce: Também favorece corpo, utilizando o paralelo do AT (1 Sm 21:5) onde “vasos” refere-se aos corpos/órgãos sexuais dos homens. Rejeita “esposa” como uma interpretação que impõe um sentido não natural ao grego (Bruce, “(b) On Sexual Purity”).
- Consenso: Os três acadêmicos rejeitam a interpretação patrística/agostiniana de “vaso” como “esposa”, favorecendo uma leitura focada no autocontrole do corpo ou sexualidade.
B. A Natureza da Transgressão em 4:6 (en tō pragmati)
- Wanamaker: Rejeita a visão de fraude comercial. Interpreta como “tomar vantagem de um irmão” em matéria sexual, possivelmente adultério com a mulher de outro membro da comunidade, o que ameaçaria a coesão interna (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”).
- Green: Define en tō pragmati como um eufemismo para relações sexuais. A transgressão é o adultério, violando os limites da comunidade e defraudando o irmão (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- Bruce: Argumenta filologicamente que pleonektein (cobiçar/defraudar) aqui está ligado à luxúria sexual, não avareza financeira, dado o contexto de akatharsia (impureza) no versículo 7 (Bruce, “(b) On Sexual Purity”).
C. O Problema Escatológico (4:13-18)
- Wanamaker: Identifica o problema como uma preocupação de que os mortos estariam em desvantagem (disadvantaged) na Parousia, perdendo a assunção. Ele sugere que Paulo usa um midrash sobre uma tradição apocalíptica de Jesus (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”).
- Green: Sugere que a dor (grief) era exarcerbada pela ignorância teológica. A comunidade temia que a morte antes da Parousia excluísse os crentes da salvação final ou da participação plena no retorno real do Senhor. Ele destaca o gênero literário de “cartas de consolação” (Green, “Those who fall asleep”).
- Bruce: Vê a questão como uma incerteza sobre a cronologia: se a ressurreição ocorreria após o arrebatamento, os mortos perderiam a glória inicial? Paulo responde garantindo a precedência dos mortos (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão do Charles A. Wanamaker (NIGTC) | Visão do Gene L. Green (PNTC) | Visão do F. F. Bruce (WBC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Skeuos (4:4): Define como um eufemismo para corpo/genitália. Rejeita vigorosamente a tradução de “esposa” como linguisticamente insustentável e depreciativa para a mulher (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”). | Skeuos (4:4): Define como corpo/própria pessoa, citando paralelos com 2Tm 2:21. Enfatiza o controle sobre o “vaso” contra as paixões desordenadas (Green, “You should avoid sexual immorality”). | Skeuos (4:4): Define como corpo. Rejeita a interpretação de “adquirir esposa” em favor de “ganhar controle sobre o corpo”, alinhando-se ao uso metafórico paulino em 2Co 4:7 (Bruce, “(b) On Sexual Purity”). |
| Problema Central do Texto | Manutenção de Fronteiras: O perigo da assimilação cultural e a quebra da coesão interna (group boundaries). Na escatologia, o medo de que os mortos estivessem em desvantagem na assunção (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”). | Choque Cultural e Ignorância: A tensão entre a ética sexual cristã e a permissividade greco-romana. Na escatologia, o luto excessivo causado pela ignorância teológica sobre o destino dos mortos (Green, “Those who fall asleep”). | Incerteza Cronológica: A dúvida sobre a sequência dos eventos finais. O medo de que os mortos perdessem a glória da Parousia ou tivessem uma participação inferior aos vivos (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”). |
| Resolução Teológica | Identidade Corporativa: A santificação define a identidade do grupo. A “Palavra do Senhor” (4:15) é usada para garantir a igualdade de status entre vivos e mortos na Parousia (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”). | Vontade de Deus e Esperança: A santidade é imperativo divino (Will of God), não opção. A esperança na ressurreição serve de consolo pastoral contra o desespero pagão (Green, “You should avoid sexual immorality”). | Tradição (Paradosis) e União: A união mística com Jesus (morto e ressurreto) garante que a morte física (“sono”) não rompe a comunhão. A precedência temporal da ressurreição resolve a ansiedade (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”). |
| Tom/Estilo | Sócio-Retórico: Foca na função social da linguagem e na estrutura retórica (probatio). | Sócio-Histórico: Rico em citações de fontes primárias antigas para ilustrar o contexto cultural. | Exegético-Clássico: Conciso, focado na filologia e na teologia bíblica comparativa. |
4. Veredito Acadêmico
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Melhor para Contexto: Gene L. Green (PNTC). Green oferece a reconstrução mais vívida do cenário de Tessalônica, contrastando magistralmente a ética cristã com os costumes sexuais e laborais (sistema de patronagem) do mundo greco-romano. Suas citações de Cícero, Plutarco e Musônio Rufo fornecem a “cor local” necessária para entender por que a instrução de Paulo era tão contracultural (Green, “You should avoid sexual immorality”).
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Melhor para Teologia: F. F. Bruce (WBC). Bruce demonstra uma precisão teológica superior ao conectar as instruções éticas e escatológicas à paradosis (tradição) recebida de Jesus. Ele evita especulações excessivas e ancora a exegese na teologia paulina mais ampla e no Antigo Testamento, especialmente ao tratar da natureza da “Palavra do Senhor” e da metáfora do “sono” (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”).
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Síntese: Para uma exegese robusta de 1 Tessalonicenses 4, deve-se utilizar a análise sociológica de Wanamaker para entender a função da santidade como marcador de identidade comunitária, preenchida pelo conteúdo histórico de Green, que elucida as pressões culturais específicas da sexualidade e do trabalho (patronagem). Finalmente, a sobriedade exegética de Bruce deve governar a interpretação doutrinária, assegurando que a leitura escatológica permaneça fiel à esperança cristã primitiva de união com Cristo, evitando excessos especulativos sobre o “arrebatamento”.
Hagiasmos, Skeuos, Parousia e Philadelphia são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos [4:1-8] - Santificação e Ética Sexual
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Paralambanō (4:1): Termo técnico para recepção de tradição autoritativa. Wanamaker nota que refere-se a normas éticas inculcadas no momento da conversão, funcionando como “código comportamental judaico” adaptado (Wanamaker, “Ethical Exhortation”). Green expande, afirmando que o que receberam não foi apenas instrução escolar, mas “mandamentos” (parangelias) com autoridade divina (Green, “You know what instructions”).
- Skeuos (4:4): O termo mais debatido, literalmente “vaso”.
- Wanamaker: Interpreta eufemisticamente como genitália ou o corpo em seu aspecto sexual. Rejeita “esposa” por implicar uma visão baixa da mulher como objeto e não se encaixar no contexto de evitar a porneia (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”).
- Green: Interpreta como corpo ou a própria pessoa, traçando paralelo com 2 Timóteo 2:21 e rejeitando “adquirir esposa” (ktasthai) como improvável no contexto de controle de paixões (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- Bruce: Interpreta como corpo, utilizando o paralelo da LXX de 1 Samuel 21:5 onde skeuē refere-se aos órgãos sexuais masculinos, rejeitando a interpretação de Teodoro de Mopsuéstia e Agostinho de “esposa” (Bruce, “(b) On Sexual Purity”).
- En tō pragmati (4:6):
- Wanamaker: “Nesta matéria” (sexual). Rejeita interpretações de litígio legal ou comercial.
- Green: Eufemismo para “relação sexual”. A transgressão é o adultério (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- Bruce: “No assunto (em discussão)”, rejeitando a tese de “fraude nos negócios” defendida por alguns comentaristas como Beauvery (Bruce, “(b) On Sexual Purity”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Destaca a função sociológica da linguagem. O uso de adelphoi (irmãos) em 4:1 e 4:6 não é mero preenchimento, mas uma “metáfora organizacional” para criar coesão interna e definir fronteiras contra a sociedade pagã. Ele vê a instrução ética como uma ferramenta de sobrevivência do grupo (Wanamaker, “Ethical Exhortation”).
- Gene L. Green: Fornece o contexto mais rico sobre a permissividade sexual greco-romana. Ele cita Demóstenes (“Temos amantes para o prazer… esposas para filhos legítimos”) e Cícero (defendendo a liberdade sexual dos jovens) para demonstrar o choque cultural da ética paulina. Ele argumenta que a santidade era uma “revolução moral” contracultural (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- F. F. Bruce: Enfatiza a teologia do corpo. Ao discutir skeuos, ele conecta a santificação do corpo (4:4) com a habitação do Espírito Santo (4:8) e o corpo como santuário em 1 Coríntios 6:19. Ele traz uma precisão teológica sobre a natureza da “vontade de Deus” não como algo vago, mas especificamente a santificação do crente como reflexo da santidade divina de Levítico (Bruce, “(b) On Sexual Purity”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Transgressão (4:6): Existe um debate técnico sobre se pleonektein (defraudar/tirar vantagem) refere-se a negócios ou sexo.
- O Debate: Alguns estudiosos (citados por Bruce e Wanamaker) sugerem fraude comercial.
- Resolução: Todos os três autores concordam que o contexto imediato (akatharsia no v. 7) exige uma interpretação sexual. Wanamaker é o mais específico, sugerindo que “tirar vantagem do irmão” refere-se ao adultério com a mulher de outro membro da comunidade cristã, violando a estrutura patriarcal da família e a coesão do grupo (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”). Green concorda, notando que o adultério destrói a comunidade (Green, “You should avoid sexual immorality”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Levítico 11:44 / 19:2: Wanamaker e Bruce identificam a exigência de santidade (hagiasmos) como direta continuação da exigência de Deus a Israel (“Sede santos porque eu sou santo”).
- Salmo 94:1: Wanamaker e Green veem no título “Senhor Vingador” (ekdikos) em 4:6 uma alusão ao Deus de vingança dos Salmos e Deuteronômio 32:35, transferindo a função judicial de Yahweh para Jesus (Green, “You should avoid sexual immorality”).
- Ezequiel 36:27 / 37:14: Wanamaker e Green conectam a menção de “Deus que dá o Espírito Santo” (4:8) à promessa da Nova Aliança, onde o Espírito é o agente capacitador da obediência ética (Wanamaker, “Reinforcement of Sexual Norms”).
5. Consenso Mínimo
- A “vontade de Deus” é inequivocamente a santificação sexual, rejeitando as normas culturais pagãs, e a metáfora de “vaso” refere-se ao corpo/controle pessoal, não à esposa.
📖 Perícope: Versículos [4:9-12] - Amor Fraternal e Ética de Trabalho
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Theodidaktoi (4:9): “Ensinados por Deus”. Um neologismo provavelmente paulino.
- Wanamaker: Vê como referência à era escatológica de Isaías 54:13, indicando que a comunidade já participa da era da salvação (Wanamaker, “Familial Love”).
- Green: Concorda com a alusão a Isaías e Jeremias 31:33-34, enfatizando que o ensino moral é interno, via Espírito (Green, “Fraternal ‘love’”).
- Hēsychazein (4:11): “Viver tranquilamente”.
- Wanamaker: Interpreta politicamente como “manter um perfil baixo” para evitar perseguição externa (Wanamaker, “Familial Love”).
- Green: Interpreta socialmente como retirar-se da vida pública agitada e do sistema de clientelismo (Green, “Fraternal ‘love’”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Gene L. Green: Introduz uma análise socioeconômica vital sobre o Sistema de Patronagem. Ele argumenta que a exortação para “trabalhar com as próprias mãos” (4:11) é um ataque direto à dependência de patronos ricos. Os cristãos não deveriam ser “clientes” ociosos buscando favores, mas trabalhadores autossuficientes. Ele cita Filo e Plutarco sobre o desprezo aristocrático pelo trabalho manual para destacar o quão radical era a ordem de Paulo (Green, “Fraternal ‘love’”).
- Charles A. Wanamaker: Foca na estratégia de sobrevivência. Ele vê a ordem de “cuidar da própria vida” (prassein ta idia) não apenas como ética de trabalho, mas como uma medida defensiva para evitar atrito com a sociedade pagã hostil (tous exō). O objetivo é não dar motivos para mais opressão (Wanamaker, “Familial Love”).
- F. F. Bruce: Destaca a natureza expansiva do amor. Ele nota que philadelphia (amor de irmãos) era restrito a irmãos de sangue no grego secular, mas Paulo o expande para “todos os irmãos em toda a Macedônia”, criando uma rede de solidariedade transregional (Bruce, “(c) On Brotherly Love”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Causa da Ociosidade (4:11): Por que eles pararam de trabalhar?
- Bruce: Considera a visão tradicional de que a excitação escatológica (Parousia iminente) levou ao abandono do trabalho, mas admite que o texto não faz essa ligação explícita aqui (Bruce, “(c) On Brotherly Love”).
- Wanamaker: Rejeita a tese da “excitação escatológica” e a tese “gnóstica” (Schmithals). Ele alinha-se com a visão sociológica de que o problema era a exploração da generosidade cristã pelos pobres urbanos (Wanamaker, “Familial Love”).
- Green: Rejeita veementemente a causa escatológica. Argumenta decisivamente que o problema é o hábito cultural de dependência (clientelismo). A “vida tranquila” é o oposto da vida agitada de bajulação política nos fóruns e casas de patronos (Green, “Fraternal ‘love’”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 54:13: Citado unanimemente por Bruce, Wanamaker e Green como a base para o termo theodidaktoi (ensinados por Deus), cumprindo a profecia de que na Nova Aliança Deus ensinaria seu povo diretamente (Bruce, “(c) On Brotherly Love”).
5. Consenso Mínimo
- O amor fraternal (philadelphia) é uma característica divinamente implantada na comunidade, mas não deve ser explorado para justificar a ociosidade ou dependência financeira.
📖 Perícope: Versículos [4:13-18] - Escatologia e Esperança
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Koimōmenōn (4:13): “Os que dormem”. Todos concordam ser um eufemismo comum para morte, sem implicar “sono da alma”.
- Apantēsis (4:17): “Encontro”.
- Green: Termo técnico (cita Políbio e Cícero) para uma delegação cívica que sai da cidade para encontrar um dignitário (Parousia) e escoltá-lo de volta à cidade. Sugere um retorno à terra (Green, “Those who fall asleep”).
- Wanamaker: Reconhece o uso técnico, mas argumenta que o contexto de “nuvens” e “ar” sugere uma assunção ao céu (assumption), e não um retorno imediato à terra. Ele vê isso como paralelo a arrebatamentos apocalípticos (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”).
- Bruce: Mantém a ambiguidade. Nota o uso técnico de recepção de dignitários, mas afirma que o texto não determina se o grupo volta à terra ou vai ao céu, focando no estar “sempre com o Senhor” (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Traz a tese de Plevnik. O problema em Tessalônica não era a descrença na ressurreição, mas o medo de que os mortos estivessem em desvantagem (disadvantaged) na assunção. Acreditava-se (baseado em Elias/Enoque) que apenas os vivos seriam arrebatados. Paulo corrige isso afirmando que os mortos ressuscitam primeiro para não perderem a glória da subida (Wanamaker, “Instruction concerning the Parousia”).
- Gene L. Green: Explora a analogia Imperial. Descreve a Parousia com detalhes históricos de visitas imperiais (Vespasiano em Roma, segundo Josefo), onde multidões saíam para aclamar o imperador. Ele vê a descrição de Paulo como uma reivindicação de que a verdadeira “visita real” será a de Jesus, contrapondo-se ao culto imperial (Green, “Those who fall asleep”).
- F. F. Bruce: Analisa a “Palavra do Senhor” (4:15). Discute se é um agraphon (dito não escrito de Jesus) ou uma profecia cristã. Ele tende a ver como uma derivação da tradição apocalíptica de Jesus (como em Mateus 24), mas mediada por profecia na igreja primitiva. Ele destaca a sobriedade de Paulo ao usar imagens apocalípticas tradicionais (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Problema dos Tessalonicenses (4:13): Por que o luto excessivo?
- Wanamaker: Medo de perder a Assunção. Eles achavam que precisavam estar vivos para serem levados ao céu.
- Green: Ignorância teológica misturada com o desespero pagão. Cita inscrições fúnebres (“Não fui, fui, não sou, não me importo”) para mostrar a falta de esperança cultural. O medo era de exclusão da salvação final (Green, “Those who fall asleep”).
- Bruce: Dúvida sobre a cronologia. Se a ressurreição fosse um evento tardio, os mortos perderiam a glória da Parousia que os vivos (como Paulo esperava ser) desfrutariam.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Daniel 7:13: Wanamaker e Green conectam as “nuvens” à visão do Filho do Homem em Daniel, sendo o veículo de transporte divino.
- Êxodo 19 / Isaías 27:13: Bruce liga a “Trombeta de Deus” (salpinx) às teofanias do Sinai e à reunião escatológica dos exilados. Ele nota que a trombeta não é apenas militar, mas litúrgica e de convocação divina (Bruce, “(d) On the Faithful Departed”).
- Salmo 47:5: Bruce compara a subida de Deus “entre aclamações” e “ao som de trombeta” com a descrição da ascensão dos crentes.
5. Consenso Mínimo
- A morte física não separa o crente de Cristo; na Parousia, haverá uma reunião corporativa onde os mortos em Cristo têm prioridade temporal na ressurreição, garantindo que vivos e mortos participem igualmente da glória final.