Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Tessalonicenses 1
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Wanamaker, C. A. (1990). The Epistles to the Thessalonians. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans Publishing.
- Green, G. L. (2002). The Letters to the Thessalonians. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans Publishing.
- Bruce, F. F. (1982). 1 and 2 Thessalonians. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wanamaker, C. A., The Epistles to the Thessalonians.
- Lente Teológica: Sócio-Retórica e Sócio-Científica. Wanamaker se destaca por aplicar teorias sociológicas modernas (como ressocialização e limites de grupo) e análise retórica clássica ao texto bíblico.
- Metodologia: O autor aborda o texto buscando entender a função da linguagem na formação da identidade da comunidade. Ele reclassifica a seção de ação de graças (1:2-10) como um Exordium retórico, cuja função é tornar a audiência benévola e atenta, introduzindo os temas principais da carta (Wanamaker, 1990, snip. 18-19). Ele enfatiza como a conversão funciona como um processo de ressocialização e estabelecimento de fronteiras entre os “salvos” e a humanidade não salva (Wanamaker, 1990, snip. 13).
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Autor/Obra: Green, G. L., The Letters to the Thessalonians.
- Lente Teológica: Sócio-Histórica com ênfase no contexto Greco-Romano. Green foca intensamente no Sitz im Leben cultural, político e filosófico de Tessalônica.
- Metodologia: Sua exegese é enriquecida por paralelos com a literatura antiga e inscrições imperiais. Ele destaca o confronto entre o “evangelho” de César e o Evangelho de Deus. Por exemplo, ele contrasta a eleição divina baseada no amor com a eleição política grega baseada no mérito (Green, 2002, snip. 84), e compara o termo euangelion cristão com as proclamações imperiais sobre Augusto (Green, 2002, snip. 87-88).
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Autor/Obra: Bruce, F. F., 1 and 2 Thessalonians.
- Lente Teológica: Crítico-Histórica e Gramatical (Evangélica Clássica). Bruce representa a exegese tradicional robusta, focada na filologia, crítica textual e teologia bíblica intra-canônica.
- Metodologia: O autor prioriza a análise da estrutura gramatical grega e a história da tradição. Diferente de Wanamaker e Green, Bruce está mais preocupado com a origem das fórmulas teológicas, sugerindo que 1:9-10 reflete um kerygma missionário pré-paulino ou uma fórmula judaico-cristã primitiva, notando a ausência de temas especificamente paulinos como a theologia crucis neste trecho (Bruce, 1982, snip. 163).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
Tese de Charles A. Wanamaker
- Resumo: O capítulo 1 funciona como um Exordium retórico projetado para reforçar a identidade social da comunidade e seu mundo simbólico apocalíptico, garantindo a coesão do grupo frente à hostilidade externa.
- Argumento Expandido: Wanamaker argumenta que a linguagem de “eleição” (1:4) e “igreja” (1:1) serve para criar fronteiras de grupo (group boundaries). Ele posita que “o caráter comunal do Cristianismo proveu o contexto no qual convertidos eram ressocializados” (Wanamaker, 1990, snip. 13). Ao analisar 1:9-10, ele rejeita a ideia de que seja meramente uma fórmula pré-paulina desconexa, argumentando que a cristologia funcional apresentada ali é central para a teologia apocalíptica de Paulo, que é a “convicção cristã básica” do apóstolo, essencial para sustentar a comunidade em meio à aflição (Wanamaker, 1990, snip. 65).
Tese de Gene L. Green
- Resumo: A carta estabelece uma contra-cultura onde a identidade da igreja é forjada em oposição às estruturas políticas e religiosas do Império Romano, onde o “evangelho” de Cristo desafia o culto imperial.
- Argumento Expandido: Green enfatiza a política da terminologia. Ele observa que ekklēsia era a assembleia de cidadãos, mas Paulo a redefine como “em Deus”, criando uma identidade social alternativa (Green, 2002, snip. 72). Ele interpreta a “fé” (pistis) e o “trabalho da fé” à luz das relações de patrono-cliente, onde a fé implica lealdade ativa (Green, 2002, snip. 80). Além disso, ele destaca que o termo “evangelho” era usado para os decretos de Augusto, e a igreja “combatia tais reivindicações imperiais com o anúncio do evangelho de Jesus Cristo” (Green, 2002, snip. 89), transformando a conversão em uma ruptura social radical com a idolatria cívica.
Tese de F. F. Bruce
- Resumo: O capítulo constitui uma ação de graças estendida que valida a autenticidade da conversão dos tessalonicenses, evidenciada pela tríade de virtudes (fé, amor, esperança) e pela aceitação de uma mensagem fundamentada na tradição cristã primitiva.
- Argumento Expandido: Bruce foca na evidência interna da fé. Ele argumenta que a “obra da fé” não é meramente retórica, mas a prova de uma eleição genuína (Bruce, 1982, snip. 143). Ele difere de Wanamaker ao ver em 1:9-10 uma fórmula pré-paulina, notando que o sumário da conversão “carece de algumas notas distintas do ensino de Paulo”, como a justificação, sugerindo que Paulo está citando uma tradição comum de pregação aos gentios (Bruce, 1982, snip. 163). Para Bruce, a “ira vindoura” (1:10) não é um processo impessoal, mas uma reação pessoal e necessária de Deus contra o mal, da qual Cristo é o libertador (Bruce, 1982, snip. 172).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Charles A. Wanamaker (NIGTC) | Visão de Gene L. Green (PNTC) | Visão de F. F. Bruce (WBC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave / Termo Grego | Mimesis (Imitação) / Exordium: Define imitação não apenas como discipulado ético, mas como um mecanismo de ressocialização onde o convertido adota uma nova identidade de grupo e rejeita a antiga (Wanamaker, snip. 13, 40). | Euangelion (Evangelho): Define em contraste direto com as inscrições imperiais romanas. O termo é político: as “boas novas” de César (Augusto) versus as “boas novas” do reinado de Deus que desafiam a lealdade cívica (Green, snip. 87-89). | Orge (Ira): Define teologicamente contra C.H. Dodd. Para Bruce, a ira não é um processo impessoal de causa e efeito, mas uma reação pessoal e necessária de um Deus santo contra o mal (Bruce, snip. 172). |
| Problema Central do Texto | Coesão Social: A necessidade retórica de estabelecer fronteiras de grupo (group boundaries) claras entre a comunidade “eleita” e o mundo hostil externo para garantir a sobrevivência da identidade cristã (Wanamaker, snip. 13). | Conflito de Lealdade: O choque entre a Pax Romana e a paz de Cristo. O problema é a idolatria cívica e a perseguição resultante da recusa em participar do culto imperial e das estruturas de poder da polis (Green, snip. 108, 110). | Origem da Tradição: A tensão teológica em 1:9-10. Bruce lida com a ausência de temas tipicamente paulinos (como a justificação), questionando se o texto reflete o pensamento maduro de Paulo ou uma tradição anterior (Bruce, snip. 163). |
| Resolução Teológica | Apocalíptica Funcional: A escatologia e a eleição funcionam para criar um “mundo simbólico” alternativo. O sofrimento é reinterpretado como sinal de eleição, gerando alegria e solidariedade interna (Wanamaker, snip. 45). | Subversão Política: A eleição divina é baseada no amor (agapēmenoi), subvertendo a eleição política grega baseada no mérito. A conversão é uma ruptura social radical: servir ao Deus “vivo e verdadeiro” deslegitima os ídolos imperiais mortos (Green, snip. 84, 111). | Kerygma Primitivo: Paulo cita uma fórmula missionária pré-paulina (judaico-cristã) em 1:9-10. A teologia foca na evidência objetiva da fé (obra, labor, perseverança) como prova da eleição, não em sentimentos subjetivos (Bruce, snip. 163, 175). |
| Tom/Estilo | Sócio-Retórico: Analítico, focado na função da linguagem e dinâmica de grupo. | Sócio-Histórico: Culturalmente rico, focado no confronto Império vs. Igreja. | Exegético-Clássico: Filológico, teológico e focado na história da tradição. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Gene L. Green (PNTC). Sua análise do Sitz im Leben da Tessalônica romana é superior, especialmente ao conectar o termo euangelion e a estrutura de patronagem com o culto a Augusto, oferecendo uma razão tangível para a “aflição” (thlipsis) política sofrida pelos convertidos.
- Melhor para Teologia: F. F. Bruce (WBC). Bruce oferece a análise doutrinária mais robusta, protegendo o texto de leituras modernizantes (como a impessoalização da ira divina) e situando 1:9-10 dentro da história da tradição cristã primitiva (fórmulas kerygmáticas), demonstrando a continuidade entre a pregação apostólica e a fé tessalonicense.
- Síntese: Para uma compreensão holística de 1 Tessalonicenses 1, deve-se adotar a estrutura retórica proposta por Wanamaker para entender a função do texto em consolidar a comunidade; preencher essa estrutura com o conteúdo histórico-político de Green para entender o custo social da conversão; e fundamentar a exegese na precisão teológica de Bruce para garantir a ortodoxia da interpretação da ira e da eleição. O capítulo revela, assim, uma comunidade forjada na tensão escatológica (Wanamaker), em oposição imperial (Green) e sustentada pela tradição apostólica (Bruce).
Eleição Divina, Kerygma Missionário, Ressocialização e Culto Imperial são conceitos chaves destacados na análise.
Parte 3: Análise Exegética Detalhada (Verso a Verso)
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos [1:1] - O Prescrito Epistolar
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ekklēsia (Igreja): Termo secular grego para “assembleia de cidadãos” (dēmos).
- En Theō (Em Deus): Construção preposicional debatida.
- Silouanos (Silvano/Silas): Nome latino vs. semítico.
- Green destaca que ekklēsia era a assembleia política convocada, mas Paulo a ressignifica como uma assembleia “em Deus”, criando uma identidade alternativa à da polis (Green, snip. 72).
- Bruce nota a peculiaridade gramatical de “em Deus”, sugerindo que se “em Cristo” tem força incorporativa, “em Deus” também deve ter sentido espacial/locativo, e não meramente instrumental (Bruce, snip. 125).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Observa que este é o prescrito mais curto e simples de todas as cartas paulinas. Ele destaca a função sociológica da saudação: ao chamar a comunidade de “Igreja”, Paulo estabelece fronteiras de grupo (group boundaries) entre os “salvos” e a humanidade não salva, essencial para sustentar a identidade em um ambiente hostil (Wanamaker, snip. 1, 13).
- Gene L. Green: Fornece o background onomástico detalhado de Silas/Silvano, identificando Silvanus como o cognomen romano e Silas como a forma grega do aramaico S’ila. Ele conecta a posição de Silas como profeta em Jerusalém à sua autoridade na fundação da igreja em Tessalônica (Green, snip. 70).
- F. F. Bruce: Levanta a hipótese autoral baseada na fraseologia única. Ele sugere que a expressão incomum “igreja… em Deus o Pai” (raramente usada por Paulo, que prefere “em Cristo”) pode indicar que Silvano teve participação ativa na redação desta parte da carta (Bruce, snip. 125).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Instrumental vs. Espacial: Há um debate técnico sobre a preposição en (em). Wanamaker cita Best, que sugere um sentido instrumental (“trazida à existência por Deus”). Bruce rejeita isso, argumentando por um sentido espacial/místico (“que vive na esfera de Deus”), paralelo ao uso de “em Cristo” (Bruce, snip. 125; Wanamaker, snip. 12).
- Autoria: Enquanto Wanamaker vê a carta como uma personificação do pensamento de Paulo (usando o plural editorial), Bruce abre mais espaço para a co-autoria real de Silvano e Timóteo na composição do texto (Wanamaker, snip. 3; Bruce, snip. 119).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Green conecta ekklēsia diretamente ao hebraico qahal do AT (Deut 9:10; Jz 20:2), designando a assembleia de Yahweh. Isso estabelece a continuidade dos tessalonicenses com o antigo povo de Deus (Green, snip. 72).
- Wanamaker nota o eco litúrgico judaico na saudação “graça e paz”, onde “paz” (shalom) reflete a bênção sacerdotal e o desejo de totalidade (Wanamaker, snip. 15).
5. Consenso Mínimo
- Os três concordam que a justaposição de “Deus Pai” e “Senhor Jesus Cristo” sob uma única preposição coloca Jesus em paridade divina com o Pai desde o início da carta.
📖 Perícope: Versículos [1:2-3] - Ação de Graças e a Tríade Cristã
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Adialeiptōs (Incessantemente): Advérbio de tempo.
- Mneian poioumenoi (Fazendo menção): Termo técnico de oração.
- Kopos (Labor/Fadiga) vs. Ergon (Obra): Distinção semântica.
- Hypomonē (Perseverança/Paciência): Termo ético-estoico cristianizado.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Foca na retórica do pathos. Ele argumenta que o elogio (tríade de virtudes) tem a função retórica de tornar a audiência “benévola e atenta” para a exortação (parênese) que virá depois. Wanamaker também desafia a distinção de Lutero entre fé e obras, notando que para Paulo, “obra de fé” não é oxímoro, mas a totalidade do novo estilo de vida cristão (Wanamaker, snip. 24-25).
- Gene L. Green: Interpreta a “obra da fé” através das lentes do sistema de Patronagem romano. No mundo greco-romano, a fides (fé/lealdade) de um cliente para com seu patrono era demonstrada por serviços ativos. Assim, a fé dos tessalonicenses não é abstrata, mas uma lealdade ativa a Deus (Green, snip. 80). Ele também define kopos (labor) especificamente como trabalho exaustivo e extenuante, além do mero ergon (Green, snip. 81).
- F. F. Bruce: Destaca a gramática da esperança. Ele insiste que “de nosso Senhor Jesus Cristo” é um genitivo objetivo dependente de “esperança” (esperança em Cristo), e não subjetivo (a esperança de Cristo). Bruce vê a tríade (fé, amor, esperança) como a quintessência da vida cristã, possivelmente uma fórmula pré-paulina (Bruce, snip. 140-141).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Conexão de “Incessantemente” (Adialeiptōs):
- Bruce (seguindo a pontuação Nestle-Aland) liga o advérbio ao particípio seguinte: “incessantemente lembrando” (Bruce, snip. 138).
- Wanamaker discorda, preferindo ligar ao verbo anterior “damos graças”, argumentando que isso mantém melhor o fluxo rítmico da frase e a prática de oração judaica regular (Wanamaker, snip. 23).
- Green concorda com Wanamaker, notando que em outros lugares o advérbio está invariavelmente associado a orações (Rm 1:9), sugerindo uma persistência na oração como ensinado em Lucas 18:1 (Green, snip. 77).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Bruce cita Números 11:12 (a ama que cuida da criança) mais tarde no capítulo 2, mas aqui a tríade Fé, Esperança e Amor é vista mais como uma inovação cristã primitiva do que um eco direto do AT.
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que a fé, amor e esperança não são virtudes internas passivas, mas produzem manifestações externas visíveis (obra, labor, perseverança).
📖 Perícope: Versículos [1:4-5] - Eleição e o Poder do Evangelho
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Eklogē (Eleição/Escolha): Termo teológico central.
- Plērophoria (Convicção/Plenitude): Significado debatido.
- Euangelion (Evangelho): Termo político vs. religioso.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Interpreta plērophoria como “grande convicção”, referindo-se à maneira confiante como os apóstolos pregaram, e não à recepção dos ouvintes. Ele argumenta que a eleição funciona socialmente para criar um senso de exclusividade e superioridade sobre as religiões de mistério e filosóficas, que falhavam em criar identidade comunitária forte (Wanamaker, snip. 32, 38).
- Gene L. Green: Faz a conexão mais forte com o Culto Imperial. Ele cita a Inscrição de Priene (9 a.C.) que celebra o aniversário de Augusto como o início dos euangelia (boas novas) para o mundo. Green argumenta que o uso de euangelion por Paulo é uma contra-narrativa direta às reivindicações imperiais: o evangelho de Deus vs. o evangelho de César (Green, snip. 87-88). Ele traduz plērophoria como “plenitude completa” da obra divina, não apenas convicção subjetiva (Green, snip. 91).
- F. F. Bruce: Foca na pneumatologia. Ele argumenta que “em palavra apenas” (en logō monon) refere-se a discurso retórico desacompanhado do Espírito. Ele defende que plērophoria significa “plena certeza” (full assurance) gerada pelo Espírito Santo nos ouvintes, citando paralelos em Heb 6:11 e Cl 4:12 (Bruce, snip. 151).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Plērophoria:
- Wanamaker: Subjetiva do pregador (a confiança de Paulo).
- Bruce: Subjetiva do ouvinte (a certeza dos tessalonicenses).
- Green: Objetiva/Quantitativa (a plenitude da manifestação divina).
- Base da Eleição:
- Green contrasta a eleição divina (baseada no amor, v.4) com a eleição política grega e romana, que era baseada no mérito e caráter do candidato. Na igreja, a eleição subverte a hierarquia social (Green, snip. 84).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Bruce e Wanamaker identificam a linguagem de “eleição” e “amados por Deus” como derivada de Deuteronômio 7:6-11 e Salmo 135:4, onde Israel é escolhido não por mérito, mas pelo amor de Yahweh (Bruce, snip. 145; Wanamaker, snip. 32).
- Green cita Isaías 52:7 e 61:1-2 como o fundo para o termo euangelion, anunciando a vitória de Yahweh (Green, snip. 89).
5. Consenso Mínimo
- A eleição dos tessalonicenses não é uma dedução teórica, mas um fato empírico (“sabendo”) evidenciado pelo poder tangível (milagres/Espírito) que acompanhou a pregação.
📖 Perícope: Versículos [1:6-8] - Mimesis e Ressonância
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mimētai (Imitadores): Conceito ético e pedagógico.
- Typos (Modelo/Exemplo): Molde, impressão.
- Exēchētai (Ressoou/Ecoou): Hapax legomenon no NT.
- Thlipsis (Aflição/Tribulação): Pressão externa vs. interna.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Vê a mimesis (imitação) como uma estratégia de legitimação de autoridade. Ao dizer que eles se tornaram imitadores “de nós”, Paulo estabelece sua superioridade moral e direito de guiar a comunidade (Wanamaker, snip. 43). Ele rejeita a visão de Malherbe de que a thlipsis era angústia interna, insistindo que se trata de opressão social externa (Wanamaker, snip. 44).
- Gene L. Green: Explica a rápida difusão da notícia (“ressoou”) baseando-se na geografia política. Tessalônica era uma metrópole estratégica na Via Egnatia e tinha um porto importante. Green argumenta que a cidade não era uma “ilha”, mas um “hub” que irradiava influência por toda a Macedônia e Acaia; evangelizar a cidade significava alcançar a província (Green, snip. 98, 100). Ele interpreta exēchētai vividamente como “trovão” ou “trombeta alta” (Green, snip. 99).
- F. F. Bruce: Foca na sucessão apostólica da imitação: Os tessalonicenses imitam Paulo/Senhor → tornam-se typos → outros crentes imitam os tessalonicenses. Ele nota que a referência à Acaia (onde Bruce coloca Corinto) sugere que Paulo já estava recebendo feedback da reputação deles em Corinto (Bruce, snip. 156).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da “Aflição” (Thlipsis):
- Wanamaker e Green concordam que a aflição é externa e social (perseguição, ostracismo). Wanamaker refuta explicitamente Malherbe, que sugeriu “angústia de coração” pela ruptura com o passado. Wanamaker argumenta que imitar o Senhor “em aflição” não faria sentido se fosse aflição interna, pois isso implicaria ambivalência interna em Cristo (Wanamaker, snip. 44).
- O Alcance de “Em Todo Lugar”:
- Green vê como hipérbole retórica fundamentada na infraestrutura romana (Via Egnatia).
- Bruce sugere que Áquila e Priscila podem ter trazido notícias a Paulo em Corinto, vindos de Roma via Egnatia (Bruce, snip. 159).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Green menciona Miquéias 4:2 e Salmo 18:5 em relação à palavra do Senhor “saindo” (exelēlythen), embora Paulo use o termo aqui para a fé deles (Green, snip. 104).
5. Consenso Mínimo
- A conversão dos tessalonicenses ocorreu em um contexto de sofrimento severo, e a alegria paradoxal do Espírito Santo nesse contexto foi o que tornou seu testemunho explosivo e digno de imitação.
📖 Perícope: Versículos [1:9-10] - A Natureza da Conversão
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Epistrephein (Converter-se/Voltar-se): Termo técnico de mudança de lealdade.
- Orge (Ira): Escatológica vs. Impessoal.
- Rhyomenon (Que livra): Particípio presente com força de título (“O Libertador”).
- Eidōlon (Ídolos): Deuses falsos vs. Deus Vivo.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Charles A. Wanamaker: Defende a autoria paulina contra a teoria de interpolação. Ele argumenta que “servir ao Deus vivo” e esperar o Filho cria um “mundo simbólico” apocalíptico. A ira vindoura tem uma função sócio-psicológica: dá aos cristãos marginalizados um senso de poder último sobre seus opressores, mitigando o sentimento de impotência atual (Wanamaker, snip. 64-65).
- Gene L. Green: Enfatiza o exclusivismo religioso. No mundo antigo, adicionar um deus era comum; substituir todos os deuses por um só era ofensivo e considerado “ateísmo” cívico. “Voltar-se dos ídolos” significava abandonar o culto familiar e cívico, a causa raiz da perseguição (Green, snip. 108). Ele nota que anamenein (esperar) aparece frequentemente na LXX referindo-se à esperança em Deus (Green, snip. 112).
- F. F. Bruce: Analisa a estrutura como uma fórmula missionária pré-paulina. Ele aponta a ausência de termos tipicamente paulinos como “justificação” ou theologia crucis. Ele destaca que anamenein é um hapax legomenon (ocorre apenas aqui) no NT, o que reforça a teoria de que Paulo está citando uma tradição catequética antiga, talvez judaico-cristã helenística (Bruce, snip. 163).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Origem do Texto (Fórmula vs. Composição Livre):
- Bruce argumenta fortemente que v. 9-10 é um resumo do Kerygma primitivo que Paulo herdou, devido à linguagem atípica (Bruce, snip. 163).
- Wanamaker contesta a ideia de que seja “não-paulino”, argumentando que as similaridades com a literatura missionária judaica helenística são esperadas, dado o background de Paulo, e que a estrutura se encaixa na teologia apocalíptica do apóstolo (Wanamaker, snip. 52-54).
- A Natureza da Ira (Orge):
- Bruce polemiza contra C.H. Dodd e Hanson, que veem a ira como um processo impessoal de causa e efeito. Bruce (e Green) insistem que a ira é pessoal e judicial, necessária para a santidade de Deus (Bruce, snip. 172; Green, snip. 115).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Green e Bruce citam Jeremias 10:10 (“O Senhor é o Deus verdadeiro; ele é o Deus vivo”) e Isaías 65:16 como base para o contraste “Deus vivo e verdadeiro” vs. ídolos mortos (Green, snip. 111).
- Green também nota o uso de Salmo 18:5 e Miquéias 4:2 para a ideia da “palavra saindo” (Green, snip. 104).
5. Consenso Mínimo
- A conversão cristã primitiva não era apenas uma mudança de crença, mas uma ruptura social radical (“dos ídolos para Deus”) e uma orientação temporal para o futuro (“esperar o Filho”), onde Jesus é definido funcionalmente como o Libertador do julgamento escatológico.