Análise Comparativa: Colossenses 1

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Bruce, F.F. (1984). The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans Publishing.
  • Dunn, J. D. G. (1996). The Epistles to the Colossians and to Philemon. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans Publishing.
  • Moo, D. J. (2008/2024). The Letters to the Colossians and to Philemon. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans Publishing.

Análise dos Autores

  • Autor A: F.F. Bruce The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians

    • Lente Teológica: Evangélica Clássica / Histórico-Crítica Conservadora. Bruce opera dentro de uma estrutura que aceita a confiabilidade histórica do texto e a autoria paulina, embora reconheça o papel de Timóteo e amanuenses.
    • Metodologia: Sua abordagem é marcada por uma exegese histórico-gramatical equilibrada. Ele foca fortemente no Sitz im Leben (situação de vida) da carta, conectando a teologia de Colossenses com a “heresia” incipiente (possivelmente gnóstica ou judaica sincrética) que ameaçava a igreja. Bruce tende a harmonizar a teologia de Colossenses com o corpus paulino indisputado (Romanos, Coríntios), vendo as diferenças de estilo como circunstanciais e não como prova de autoria deutero-paulina.
  • Autor B: James D. G. Dunn The Epistles to the Colossians and to Philemon.

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica / Nova Perspectiva sobre Paulo. Dunn é conhecido por enfatizar o contexto do Judaísmo do Segundo Templo. Ele frequentemente questiona pressupostos tradicionais sobre a autoria direta (sugerindo forte influência de Timóteo ou uma escola paulina) e foca na continuidade entre o Cristianismo primitivo e o pensamento judaico.
    • Metodologia: Dunn utiliza uma exegese filológica rigorosa (focada no grego) e a história das tradições. Ele lê o texto, especialmente o hino cristológico (1:15-20), através das lentes da Literatura de Sabedoria Judaica (Sapiencial) e do apocalipticismo judaico, minimizando influências gnósticas diretas em favor de paralelos com a literatura de Qumran e Fílon.
  • Autor C: Douglas J. Moo The Letters to the Colossians and to Philemon

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Exegese Canônica. Moo defende a autoria paulina e a coerência teológica da carta com o restante do Novo Testamento. Ele é cauteloso com reconstruções especulativas sobre a “heresia” de Colossos, preferindo focar no texto final.
    • Metodologia: Sua abordagem é de teologia bíblica e exegese sintática. Ele interage extensivamente com a erudição moderna (incluindo Dunn), mas frequentemente defende posições tradicionais (como a interpretação de “primogênito” como supremacia, não criação) contra leituras arianas ou universalistas modernas. Ele enfatiza a aplicação teológica da supremacia de Cristo para a vida da igreja.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de F.F. Bruce: A carta apresenta o Cristo Cósmico como a resposta suficiente a qualquer ensino sincrético, enfatizando que a plenitude da divindade reside nEle e que a reconciliação efetuada na cruz é universal em escopo, embora apropriada individualmente pela fé.

    • Argumento Expandido: Bruce argumenta que o “hino a Cristo” (1:15-20) não é meramente retórico, mas uma salvaguarda doutrinária. Ele vê termos como “imagem de Deus” não apenas como reflexo, mas como revelação ativa: “nele o invisível se tornou visível” (Bruce, com. Cl 1:15). Sobre a controversa frase “completo… o que resta das aflições de Cristo” (1:24), Bruce rejeita qualquer insuficiência na expiação, interpretando-a como o sofrimento apostólico necessário para a propagação do evangelho, possivelmente ligado às “dores de parto messiânicas” (Bruce, com. Cl 1:24).
  • Tese de James D. G. Dunn: Colossenses 1 é uma reapropriação da tradição da Sabedoria Judaica, onde Cristo é identificado como a Sabedoria divina pré-existente e o agente da criação, redefinindo o monoteísmo judaico para incluir Jesus sem abandoná-lo.

    • Argumento Expandido: Dunn postula que o hino (1:15-20) utiliza categorias judaicas aplicadas à Sabedoria (como em Provérbios 8 e Fílon) para descrever Cristo. Para ele, o termo “primogênito” (1:15) e “imagem” funcionam para “construir uma ponte entre o Criador transcendente e a criação” (Dunn, com. Cl 1:15). Ele enfatiza que a “reconciliação de todas as coisas” (1:20) deve ser lida dentro de uma escatologia apocalíptica, onde os poderes hostis são pacificados, e vê o termo “mistério” (1:26-27) como estritamente apocalíptico — um segredo divino agora revelado, especificamente a inclusão dos gentios (Dunn, com. Cl 1:26-27).
  • Tese de Douglas J. Moo: O capítulo estabelece a Supremacia Absoluta e Exclusiva de Cristo tanto na criação quanto na redenção, servindo como antídoto contra falsos ensinos que sugerem a necessidade de intermediários ou práticas adicionais para a plenitude espiritual.

    • Argumento Expandido: Moo foca na cristologia elevada como polêmica contra a heresia de Colossos. Ele interpreta “primogênito de toda a criação” (1:15) através do Salmo 89:27, indicando “supremacia sobre” e não origem temporal, refutando leituras que diminuem a divindade de Cristo (Moo, com. Cl 1:15). Em contraste com leituras universalistas modernas de 1:20 (“reconciliar consigo todas as coisas”), Moo argumenta que isso se refere a uma pacificação cósmica onde as potências hostis são subjugadas, e não necessariamente salvas, mantendo a tensão do “já/ainda não” na escatologia (Moo, com. Cl 1:20). Ele também destaca a oração de Paulo (1:9-14) como um modelo de que o conhecimento espiritual deve levar a uma conduta ética (“andar de maneira digna”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de F.F. BruceVisão de James D. G. DunnVisão de Douglas J. Moo
Primogênito (Prōtotokos, 1:15)Traduz como “Primogênito antes de toda a criação”. Enfatiza a prioridade temporal e a soberania, rejeitando que Cristo seja uma criatura. Conecta ao Salmo 89:27 para denotar o herdeiro messiânico (Bruce, com. Cl 1:15).Vê como uma metáfora da Sabedoria Judaica. A ambiguidade é intencional para servir de ponte entre o Criador e a criatura. Não denota apenas prioridade temporal, mas a função da Sabedoria como agente criativo e revelador (Dunn, com. Cl 1:15).Traduz como “Supremo sobre toda a criação”. Interpreta o genitivo como indicando subordinação da criação a Cristo (soberania), e não partitivo (Cristo como parte da criação). Refuta vigorosamente o Arianismo (Moo, com. Cl 1:15).
Problema Central (1:24 - Aflições)O sofrimento é apostólico e ministerial. As “dores de parto messiânicas” continuam na igreja. Não há falta na expiação, mas o sofrimento é necessário para a propagação da mensagem aos Gentios (Bruce, com. Cl 1:24).O problema é escatológico/apocalíptico. Existe uma “cota divinamente designada de sofrimento” (tribulações messiânicas) que deve ser preenchida para desencadear o fim dos tempos. Paulo vê seu sofrimento como parte desse “gatilho” escatológico (Dunn, com. Cl 1:24).O sofrimento refere-se às tribulações messiânicas, mas Moo enfatiza a conexão com a comissão apostólica única de Paulo (“servo da igreja”). É uma extensão do trabalho de Cristo no mundo, mas distinta do sofrimento redentor da cruz (Moo, com. Cl 1:24).
Resolução Teológica (1:19 - Pleroma)Pleroma é a totalidade da essência e poder divinos. É uma refutação polêmica contra a “heresia de Colossos”, que distribuía o poder divino entre intermediários angélicos; em Cristo, a divindade reside integralmente (Bruce, com. Cl 1:19).Pleroma reflete a linguagem estoica e sapiencial de imanência divina. Significa a “completa presença de Deus” permeando a criação, agora focada e corporificada em Cristo, unindo criação e redenção (Dunn, com. Cl 1:19).Pleroma alude a Deus habitando no Templo (Sl 68:16). Cristo substitui o templo como o local exclusivo da habitação de Deus. Moo rejeita conexões gnósticas diretas, preferindo o background do Antigo Testamento (Moo, com. Cl 1:19).
Tom/EstiloPastoral e Histórico. Equilibra a exegese com a defesa da ortodoxia clássica e preocupação com a aplicação eclesiástica.Acadêmico e Crítico. Foca na história das tradições, filologia grega e paralelos com o Judaísmo do Segundo Templo e literatura sapiencial.Teológico e Exegético. Foca na coerência canônica, teologia bíblica robusta e refutação de más interpretações modernas (como o universalismo em 1:20).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: James D. G. Dunn. Dunn oferece a reconstrução mais rica do ambiente intelectual do primeiro século, conectando magistralmente o texto às tradições da Sabedoria Judaica e do apocalipticismo. Ele explica melhor como termos como “mistério” e “plenitude” funcionavam no judaísmo helenístico antes de serem apropriados pelo Cristianismo, evitando anacronismos gnósticos posteriores.
  • Melhor para Teologia: Douglas J. Moo. Moo fornece a exegese mais teologicamente consistente com o cânon bíblico. Sua análise de 1:15-20 como uma defesa da divindade de Cristo e sua interpretação cuidadosa da Reconciliação Cósmica (limitando o universalismo soteriológico sem negar o escopo cósmico da pacificação) são essenciais para a dogmática evangélica.
  • Síntese: Para uma exegese completa de Colossenses 1, a abordagem ideal integra a profundidade contextual de Dunn para entender a poesia do “Hino a Cristo” (1:15-20) como uma expressão da Sabedoria encarnada; utiliza Bruce para ancorar o texto na realidade histórica da igreja primitiva e seus desafios pastorais contra o sincretismo; e finaliza com Moo para estruturar as implicações doutrinárias da Supremacia de Cristo, garantindo que a aplicação teológica permaneça fiel à cristologia ortodoxa e à soteriologia da cruz.

Cristologia da Sabedoria, Tribulações Messiânicas, Pleroma Divino e Reconciliação Cósmica são conceitos chaves destacados na análise.

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Saudação e Ação de Graças (1:1-8)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Apóstolo (Apostolos): Bruce nota que o termo é qualificado por “vontade de Deus”, aplicando-se não apenas à comissão na estrada de Damasco, mas a toda a descarga de seu ministério (Bruce,). Moo destaca que o termo aqui tem seu sentido oficial pleno de representante autorizado, não apenas “mensageiro” (Moo,).
  • Fé em Cristo (Pistis en Christō): Dunn observa uma divergência gramatical significativa. Paulo normalmente usa pistis Iēsou (fé de/em Jesus) ou pisteuein eis (crer em). A construção pistis en (fé em [dentro de]) com dativo é única e diverge do uso paulino normal, sugerindo uma esfera de operação da fé mais estática (Dunn,).
  • Esperança (Elpis): Moo argumenta que “esperança” aqui não é o sentimento subjetivo, mas o objeto da esperança (“a totalidade das bênçãos que aguardam o cristão”), visto que está “armazenada” nos céus (Moo,).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bruce: Destaca a ausência da frase “e do Senhor Jesus Cristo” na saudação de graça e paz (v.2), algo difícil de explicar dado o padrão litúrgico, mas sugere que a cristologia elevada da carta compensa essa omissão inicial (Bruce,).
  • Dunn: Traz uma profundidade teológica única ao analisar a frase “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (v.3). Ele argumenta que isso redefine o monoteísmo judaico: Deus não é mais apenas o Pai de Israel, mas definido por sua relação com Jesus, mantendo a alta cristologia dentro dos limites do monoteísmo (Dunn,).
  • Moo: Observa a conexão intertextual em “frutificar e crescer” (v.6). Ele vê isso como um eco deliberado do mandato da criação em Gênesis 1:28 (“sede fecundos e multiplicai-vos”), sugerindo que o evangelho está cumprindo o propósito original de Deus para a humanidade, que Israel cumpriu apenas preliminarmente (Moo,).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Autoria e Timóteo (v.1): Bruce sugere que a menção de Timóteo e o uso do plural “nós” na ação de graças indicam que Timóteo compartilha a responsabilidade da autoria em algum nível (Bruce,). Moo discorda, argumentando que Timóteo é listado como cortesia ou como amanuense, pois as referências pessoais (“Eu, Paulo”) dominam as seções chave, e dá a Timóteo o título de “cosender” (co-remetente) apenas (Moo,).
  • A “Verdade” do Evangelho (v.5): Dunn conecta “a palavra da verdade” ao debate sobre a inclusão dos gentios (ecoando Gálatas 2:5, 14), sugerindo uma polêmica contra um evangelho exclusivista judaico (Dunn,). Moo prefere ver “verdade” como confiabilidade e autenticidade (hebraico ‘emet), contrastando a confiabilidade do evangelho com o ensino falso instável, sem necessariamente invocar a controvérsia gentílica de Gálatas (Moo,).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 1:28: Moo e Bruce identificam o eco do mandato cultural (“frutificar e crescer”) na descrição do progresso do evangelho (v.6).
  • Salmo 19:4 / Romanos 10:18: Bruce conecta a expansão global do evangelho à linguagem do Salmista sobre o testemunho dos céus que “saiu por toda a terra” (Bruce,).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável entre os três que Epafras foi o fundador da igreja de Colossos e serviu como delegado fiel de Paulo, validando o evangelho que os colossenses receberam.

📖 Perícope: A Oração e a Transferência de Reino (1:9-14)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Conhecimento (Epignōsis): Bruce define como um conhecimento que leva ao comportamento correto, citando Provérbios 1:7 (Bruce,). Moo concorda, notando que o termo denota um entendimento profundo que não é apenas intelectual, mas transformador (Moo,).
  • Herança (Klēros / Meris): Moo aponta que estes termos (“parte” e “herança”) são usados na LXX para a terra prometida (Deut 10:9), agora “cristificados” para se referir ao privilégio espiritual (Moo,).
  • Livrar/Resgatar (Rhyomai): Dunn nota que o verbo tem um sentido escatológico de livramento final em Paulo (Rm 7:24), mas aqui é usado como um ato passado decisivo de Deus (Dunn,).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bruce: Ao discutir “santos na luz” (v.12), Bruce introduz a possibilidade, apoiada por textos de Qumran, de que “santos” se refira a anjos, sugerindo que os crentes agora compartilham a sorte dos anjos, embora prefira a interpretação de crentes humanos (Bruce,).
  • Dunn: Destaca o caráter judaico da linguagem em 1:12-14. Ele argumenta que termos como “conhecimento da vontade” e “andar dignamente” são tropos judaicos que Paulo utiliza para afirmar que o Evangelho cumpre as expectativas judaicas, confrontando sinagogas locais que poderiam denegrir os gentios (Dunn,,).
  • Moo: Analisa a frase “reino do Filho do seu amor” (v.13) conectando-a especificamente à profecia messiânica de 2 Samuel 7:12-16, onde Deus promete amor eterno ao Filho Davídico. Isso ancora a cristologia de Colossenses na esperança messiânica de Israel (Moo,).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Identidade dos “Santos” (v.12): Há um debate sobre se hagioi refere-se a anjos ou humanos. Bruce abre a porta para a interpretação angélica baseada em Qumran (1QS 11:7-8) (Bruce,). Moo reconhece o paralelo de Qumran mas rejeita a interpretação angélica, argumentando que o uso predominante no NT e em Colossenses (1:2) refere-se ao povo de Deus (cristãos) (Moo,). Dunn fica no meio termo, sugerindo que pode haver uma alusão à adoração compartilhada com anjos (Dunn,).
  • Reino Presente ou Futuro (v.13): Dunn enfatiza a “escatologia realizada” radical aqui, notando que “transferiu” (aoristo) e “reino” sugerem uma realidade presente, o que é atípico para Paulo que geralmente reserva o Reino para o futuro (Dunn,). Bruce concorda com a escatologia realizada, mas distingue entre o “Reino de Cristo” (fase atual) e o “Reino de Deus” (consumação futura) (Bruce,).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Êxodo 6:6-8: Moo identifica este texto como programático para a linguagem de “resgatar”, “redimir” e “herança” usada nos versos 12-14 (Moo,).
  • Qumran (1QS/1QH): Tanto Bruce quanto Dunn citam extensivamente os Manuscritos do Mar Morto para iluminar o contraste “luz vs. trevas” e a “herança dos santos” (Bruce,; Dunn,).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a linguagem de “livramento das trevas” implica uma mudança de senhorio e esfera de poder, não apenas uma mudança intelectual.

📖 Perícope: O Hino Cristológico (1:15-20)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Imagem (Eikōn): Dunn define como a manifestação visível de Deus, usando Fílon para mostrar como o Logos funciona como a ponte entre o Deus invisível e o mundo visível (Dunn,).
  • Primogênito (Prōtotokos): O campo de batalha central.
    • Bruce: Enfatiza a prioridade temporal (“antes de toda criação”) e soberania, citando Salmo 89:27 (Bruce,).
    • Dunn: Vê como metáfora da Sabedoria (Provérbios 8), onde a ambiguidade entre “gerado” e “criado” permite que Cristo seja a ponte entre Criador e criatura (Dunn,).
    • Moo: Rejeita qualquer sentido de “primeiro criado”. Argumenta pelo genitivo de subordinação (“Supremo sobre”), baseando-se no Salmo 89 e no contexto de mediação da criação (Moo,).
  • Plenitude (Plērōma): Bruce vê como a totalidade da essência divina (Bruce,). Dunn vê como a completude da presença divina permeando a criação (Dunn,).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bruce: Foca na polêmica anti-gnóstica (ou pré-gnóstica). Ele argumenta que Plērōma foi usado para refutar a ideia de que o poder divino estava distribuído entre intermediários angélicos; em Cristo, o Plērōma reside corporalmente (Bruce,).
  • Dunn: Sua contribuição única é a leitura exaustiva através da Sabedoria Judaica. Ele argumenta que o hino não é sobre a pré-existência de uma segunda pessoa da trindade per se, mas sobre a Sabedoria de Deus (personificada) que agora é identificada com Jesus. Ele diz: “não há dualismo aqui… aquele que fala de Cristo fala de Deus” através da categoria de Sabedoria (Dunn,).
  • Moo: Destaca a estrutura quiástica do hino e a interrupção sintática nos versos 1:16 e 1:20 (as referências aos “tronos, potestades” e “sangue da cruz”). Ele sugere que Paulo pode ter redigido um hino existente para enfatizar a vitória sobre os poderes espirituais, algo crucial para a situação de Colossos (Moo,,).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Cabeça do Corpo” (v.18):
    • Dunn: Argumenta que no hino original (pré-paulino), “corpo” referia-se ao Cosmos (seguindo o estoicismo e Fílon). A frase “que é a igreja” seria uma glosa paulina para redefinir o corpo cósmico em termos eclesiais (Dunn,).
    • Bruce: Rejeita a ideia de que “corpo” significava cosmos no original. Ele afirma que a metáfora cabeça/corpo expressa uma relação vital e orgânica melhor aplicada à Igreja, e duvida da influência estoica direta (Bruce,,).
    • Moo: Concorda com Bruce que “corpo” como cosmos exige uma metáfora estendida duvidosa. Ele vê a transição para a igreja como uma evolução natural da metáfora paulina anterior (Moo,).
  • Reconciliação de “Todas as Coisas” (v.20):
    • Bruce: Rejeita o universalismo (salvação de todos). Vê a reconciliação como “pacificação”, onde poderes hostis são subjugados à força, não necessariamente salvos (Bruce,).
    • Moo: Concorda, chamando isso de “pacificação cósmica” ou “restauração”, onde a ordem é imposta sobre o caos rebelde (Moo,).
    • Dunn: Vê a reconciliação como a restauração da harmonia original da criação, implicando que a igreja tem um papel cósmico de ser o foco dessa reconciliação (Dunn,).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Provérbios 8:22-31: Dunn e Moo identificam este texto como o fundo primário para “Primogênito” e a agência de Cristo na criação (Dunn,; Moo,).
  • Salmo 89:27: Bruce e Moo citam este salmo messiânico como a chave para entender “Primogênito” como um título de exaltação real, não de origem biológica (Bruce,; Moo,).
  • Salmo 68:16: Moo sugere que “foi do agrado de Deus habitar” (v.19) ecoa a habitação de Deus no Templo/Sião (Moo,).

5. Consenso Mínimo

  • Os três concordam que o hino apresenta Cristo como o agente tanto da criação (cosmologia) quanto da redenção (soteriologia), unindo as duas obras divinas em uma só pessoa.

📖 Perícope: Aplicação e Ministério de Paulo (1:21-29)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Preencher o que resta (Antanaplērō): Dunn analisa este verbo duplo composto (encher em lugar de/em troca de). Ele sugere um sentido de reciprocidade: Paulo sofre por sua vez após Cristo (Dunn,).
  • Mente/Entendimento (Dianoia): Moo observa que em 1:21, a “mente” hostil não é apenas intelectual, mas disposicional (“mindset”), traduzindo o conceito hebraico de coração (leb) (Moo,).
  • Mistério (Mystērion): Bruce define como um segredo divino, oculto por eras, agora revelado, especificamente a inclusão dos gentios (Bruce,).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bruce: Sobre “Cristo em vós” (v.27), Bruce oferece uma exegese pastoral, sugerindo que a frase pode significar “em vosso meio” (comunidade) ou “dentro de vós” (individual), mas prefere a habitação individual como base para a esperança da glória (Bruce,).
  • Dunn: Traz uma visão apocalíptica única para 1:24 (“o que resta das aflições de Cristo”). Ele argumenta que isso se refere às dores de parto messiânicas (tribulação escatológica). Existe uma “cota divinamente designada de sofrimento” necessária para desencadear o fim; Paulo vê seu sofrimento como preenchendo essa cota para apressar o escaton (Dunn,).
  • Moo: Em 1:28, destaca a repetição tripla da palavra “todo” (panta anthrōpon - todo homem). Moo vê isso como uma polêmica contra o elitismo dos falsos mestres que provavelmente restringiam a “plenitude” a um grupo seleto de iniciados (Moo,).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • As Aflições de Cristo (v.24):
    • Bruce: Enfatiza que não falta nada na expiação vicária. O sofrimento é “ministerial” e apostólico, necessário para a propagação do evangelho aos gentios (Bruce,).
    • Dunn: Concorda que não é expiatório, mas insiste no aspecto místico/corporativo. Paulo sofre porque sua carne está conectada ao corpo de Cristo; há uma continuidade entre o “corpo de carne” de Cristo (v.22) e a carne de Paulo sofrendo pelo corpo (igreja) (Dunn,).
    • Moo: Rejeita a ideia de que Paulo sofre “no lugar da igreja”. Ele vê o sofrimento como uma extensão do “Servo Sofredor” de Isaías (aplicado a Paulo em Atos 13:47), validando sua autoridade apostólica (Moo,).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Daniel 2: Bruce e Moo conectam o uso de “Mistério” (v.26) diretamente ao livro de Daniel (raz em aramaico), onde o mistério divino é revelado em estágios (Bruce,; Moo,).
  • Isaías 49:6: Bruce conecta o ministério de Paulo aos gentios (v.25-27) com a missão do Servo do Senhor de ser “luz para as nações” (Bruce,).

5. Consenso Mínimo

  • Existe acordo total de que o sofrimento de Paulo em 1:24 não adiciona mérito redentor à obra da cruz, mas é essencial para a extensão da mensagem do evangelho às nações.