Análise Comparativa: Efésios 1

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Bruce, F. F. (1984). The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Lincoln, A. T. (1990). Ephesians. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
  • Hoehner, H. W. (2002). Ephesians: An Exegetical Commentary (BAKER). Baker Books.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Harold W. Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary.

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Dispensacionalista Progressiva. Hoehner defende a autoria paulina autêntica e a integridade textual tradicional.
    • Metodologia: Exegese Gramatical-Histórica rigorosa. O autor foca exaustivamente na sintaxe grega, morfologia e crítica textual. Ele tende a rejeitar hipóteses de hinos litúrgicos pré-existentes se estes não forem gramaticalmente sustentáveis, preferindo ver o texto como uma composição ad hoc de Paulo em estilo litúrgico (Hoehner, p. 80).
  • Autor/Obra: F. F. Bruce, The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians.

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Histórico-Crítica Moderada. Bruce aceita a autoria paulina, mas reconhece as dificuldades textuais e estilísticas, tratando a carta como uma encíclica circular.
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Exposição Temática. Bruce foca menos em minúcias sintáticas (embora as aborde) e mais na continuidade teológica com as cartas indisputadas (Romanos, Coríntios) e a conexão vital com Colossenses. Ele enfatiza o conceito de Nova Humanidade e a união mística com Cristo.
  • Autor/Obra: Andrew T. Lincoln, Ephesians.

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica / Deuteropaulina. Lincoln argumenta que a carta foi escrita por um discípulo de Paulo após a morte do apóstolo, reinterpretando a teologia paulina para uma nova situação eclesial.
    • Metodologia: Crítica das Tradições e Análise Retórica/Litúrgica. Lincoln dá grande peso à forma literária (o gênero berakah ou bênção judaica) e compara constantemente o texto com Colossenses para demonstrar dependência literária e desenvolvimento teológico, especialmente na escatologia.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Hoehner: A carta é uma exposição autêntica de Paulo aos santos especificamente em Éfeso (e arredores), detalhando o plano eterno de Deus de abençoar os crentes com todas as bênçãos espirituais baseadas na trindade econômica e na demonstração histórica do poder de Deus em Cristo.

    • Argumento: Hoehner defende vigorosamente a inclusão da frase textual “em Éfeso” (ἐν Ἐφέσῳ) em 1:1 baseando-se em evidências externas e internas, rejeitando a teoria da carta circular pura (Hoehner, p. 27). Ele estrutura a eulogia (1:3-14) não como um hino estrito, mas como uma expressão espontânea de louvor que segue uma progressão trinitária: o Pai elege, o Filho redime, o Espírito sela (Hoehner, p. 80). Ele enfatiza que a herança (κληρονομία) refere-se tanto à posse de Deus nos santos quanto à herança futura dos crentes (Hoehner, p. 149).
  • Tese de Bruce: Efésios apresenta a consumação do propósito eterno de Deus de criar uma nova humanidade reconciliada, onde a união incorporativa “em Cristo” é o meio pelo qual a graça e a paz divinas são mediadas tanto a judeus quanto a gentios.

    • Argumento: Bruce argumenta que a frase “em Cristo” não aponta para Jesus como objeto de crença, mas implica que os crentes estão unidos a ele, “participantes juntos de sua nova vida” (Bruce, p. 221). Ele vê a eleição (1:4) como ocorrendo na eternidade, mas efetivada no tempo, enfatizando que Cristo é “fundação, origem e executor” dessa eleição (Bruce, p. 227). Bruce destaca que o “mistério” (1:9) é a unificação de um universo fragmentado e alienado, começando pela reconciliação de judeus e gentios na igreja (Bruce, p. 242-244).
  • Tese de Lincoln: A carta é uma reinterpretação litúrgica da tradição paulina, caracterizada por uma escatologia realizada, onde a Igreja é vista como o foco terrestre do governo cósmico de Cristo, já exaltado nos lugares celestiais.

    • Argumento: Lincoln rejeita a leitura “em Éfeso” em 1:1, vendo a carta como circular ou pseudônima (Lincoln, p. 282, 296). Ele analisa 1:3-14 como uma berakah cristã que adapta formas de adoração judaica (Lincoln, p. 304). Uma ênfase chave é a mudança de perspectiva escatológica: diferentemente de Paulo (que mantinha tensão futurista), o autor de Efésios enfatiza que a ressurreição e o assentar-se nos céus são realidades presentes para o crente, constituindo uma “escatologia realizada” que responde a ansiedades cosmológicas sobre poderes espirituais (Lincoln, p. 331, 362). Ele vê a Igreja como o plêroma (plenitude) de Cristo, sendo preenchida por Aquele que preenche o cosmos (Lincoln, p. 461).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Hoehner (Autor A)Visão de Bruce (Autor B)Visão de Lincoln (Autor C)
Palavra-Chave / Termo Gregoπλήρωμα (Pleroma - 1:23)
Interpreta no sentido passivo: a Igreja é preenchida por Cristo, e Cristo (o particípio plēroumenou também é passivo) está “sendo preenchido” por Deus com moralidade e poder (Hoehner, p. 206).
πλήρωμα (Fullness - 1:23)
Vê a Igreja como o complemento de Cristo. Traduz o particípio no sentido passivo: Cristo é aquele que está “sendo constante e totalmente preenchido” (pelo Pai ou pela Igreja à medida que ela cresce) (Bruce, p. 278).
πλήρωμα (Fullness - 1:23)
Interpreta a Igreja como a plenitude de Cristo (passivo), mas defende que o particípio plēroumenou é médio com força ativa: Cristo é “aquele que preenche todas as coisas” no cosmos (Lincoln, p. 459).
Problema Central do TextoA variante textual ἐν Ἐφέσῳ (1:1).
O problema é a falta de saudações pessoais se a carta foi para Éfeso. Hoehner defende vigorosamente a inclusão da frase baseando-se em evidências externas e internas, rejeitando a teoria da carta circular pura (Hoehner, p. 27).
A ausência de ἐν Ἐφέσῳ (1:1).
O problema é a gramática estranha sem a locução geográfica. Bruce aceita a omissão como original, sugerindo que era uma carta circular com um espaço em branco para ser preenchido pelo leitor (Bruce, p. 220).
A inautenticidade do endereço (1:1).
O problema é a incompatibilidade histórica entre o conteúdo impessoal e o ministério de Paulo em Éfeso. Lincoln propõe que o original continha dois locais (Hierápolis e Laodiceia) ou foi universalizado posteriormente (Lincoln, p. 289).
Resolução TeológicaTrindade Econômica.
Resolve a estrutura da bênção (1:3-14) não como um hino fixo, mas como louvor espontâneo focado na operação trinitária: Pai (eleição), Filho (redenção), Espírito (selo) (Hoehner, p. 80).
União Incorporativa.
A frase “em Cristo” não aponta para Jesus como objeto, mas resolve a questão da eleição e santidade através da união vital e orgânica dos crentes com Ele na Nova Humanidade (Bruce, p. 221).
Escatologia Realizada.
Resolve a tensão temporal enfatizando que a ressurreição e entronização nos “lugares celestiais” são realidades presentes. O autor usa o gênero berakah para fundamentar a identidade da Igreja frente aos poderes cósmicos (Lincoln, p. 326).
Tom/EstiloExaustivo e Gramatical.
Foca em morfologia, crítica textual e defesa da autoria paulina.
Teológico e Pastoral.
Foca na aplicação espiritual e na grande narrativa da redenção.
Crítico e Litúrgico.
Foca na história das tradições, formas literárias e contexto histórico-religioso.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Lincoln (Autor C). Embora rejeite a autoria paulina direta, Lincoln fornece a análise mais rica sobre o Sitz im Leben litúrgico (a forma berakah), o pano de fundo judaico-helenístico e a relação do texto com o sincretismo religioso da Ásia Menor, especialmente no que tange aos “poderes” espirituais.
  • Melhor para Teologia: Bruce (Autor B). Bruce consegue capturar o coração pulsante da teologia paulina — a união mística com Cristo e a criação da Nova Humanidade — sem se perder excessivamente em minúcias técnicas, oferecendo uma leitura que conecta a doutrina profunda com a piedade cristã.
  • Síntese: Para uma exegese robusta de Efésios 1, deve-se utilizar Hoehner para estabelecer a base gramatical e a defesa da integridade textual (especialmente em 1:1); Lincoln para iluminar a estrutura litúrgica da eulogia (1:3-14) e o conceito de Escatologia Realizada vis-à-vis os poderes cósmicos; e Bruce para integrar esses elementos na teologia bíblica da aliança e da união com Cristo. A compreensão plena exige equilibrar a precisão sintática de Hoehner com a sensibilidade retórica de Lincoln.

Berakah, Pleroma, En Christo e Escatologia Realizada são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἀπόστολος (Apóstolo): Hoehner realiza uma análise diacrônica, notando que no grego clássico o termo se referia a navios de carga ou expedições militares, e raramente a pessoas. Ele destaca que Paulo usa o termo em sentido oficial, como um delegado com autoridade plena, comparável aos Doze, mas em uma categoria excepcional devido ao encontro com o Cristo ressuscitado (Hoehner, p. 38-39).
  • Ἅγιος (Santo): O termo é debatido quanto à sua natureza. Hoehner argumenta que não denota santidade inerente ou ética neste ponto, mas uma “posição” separada para Deus, comparando com o uso em Qumran (1QM 6:6) e o conceito cultual hebraico qōdeš (Hoehner, p. 45-46). Lincoln concorda que descreve o relacionamento com Deus, em continuidade com a designação de Israel no AT (Ex 19:6) (Lincoln, p. 294).
  • Πιστός (Fiel/Crente): Há debate se o adjetivo é passivo (fiel/confiável) ou ativo (crente/confiante). Hoehner defende o sentido ativo (“crentes em Cristo”) porque o sentido passivo seria redundante para “santos” e o contexto não contrasta santos fiéis com infiéis (Hoehner, p. 53). Lincoln também prefere o sentido de “exercer fé” (Lincoln, p. 294). Bruce reconhece ambas as possibilidades, mas prefere “crentes”, notando que a frase “em Cristo” é incorporativa, unindo crentes e santos como um único grupo (Bruce, p. 221).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Destaca que a ausência de co-autores (como Timóteo) é única em comparação com outras cartas da prisão (Colossenses, Filemom), usando isso para defender a autoria puramente paulina e a autoridade singular do apóstolo (Hoehner, p. 37).
  • Bruce: Observa que a saudação “graça e paz” combina a saudação grega com o Shalom hebraico, sugerindo que sua origem provável é a linguagem de culto público, apropriada por Paulo para uso epistolar (Bruce, p. 221).
  • Lincoln: Propõe uma teoria textual complexa para explicar a variante de 1:1. Ele sugere que o original continha dois locais, Hierápolis e Laodiceia, baseando-se na rota de Tíquico (Col 4:13). Um escriba teria removido os nomes para universalizar a carta (gerando a leitura “aos que estão [lacuna] e fiéis”), e mais tarde “em Éfeso” foi inserido devido à associação tradicional (Lincoln, p. 289).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Questão Textual de ἐν Ἐφέσῳ (em Éfeso):
    • O Debate: A frase “em Éfeso” está ausente nos melhores manuscritos (P46, Sinaítico, Vaticano).
    • Bruce (Histórico): Aceita a omissão como original. Vê a carta como uma encíclica circular, onde o espaço foi deixado em branco ou preenchido oralmente pelo portador (Tíquico) (Bruce, p. 219-220).
    • Lincoln (Crítico): Rejeita vigorosamente a leitura “em Éfeso” por razões internas (falta de saudações pessoais numa igreja onde Paulo viveu 3 anos). Ele argumenta que a sintaxe do texto remanescente (τοῖς οὖσιν καὶ πιστοῖς) é “extraordinariamente difícil” e impossível sem um locativo, apoiando sua tese de supressão deliberada de outros nomes (Lincoln, p. 282, 284).
    • Hoehner (Conservador): Defende a inclusão da frase. Argumenta que todas as testemunhas textuais existentes (mesmo as que omitem a frase no texto) têm o título “Aos Efésios”. Ele rejeita a teoria da carta circular como especulativa e sem paralelos na antiguidade, sustentando que a sintaxe sem a cidade seria “gramaticalmente estranha, se não impossível” (Hoehner, p. 25-26).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Lincoln identifica a raiz de “santos” em Êxodo 19:6 (LXX), estabelecendo a continuidade entre a Igreja e o Israel veterotestamentário (Lincoln, p. 294).
  • Hoehner traça o termo “apóstolo” (shaliah) até 1 Reis 14:6 (LXX - Aías), notando que a ideia central é a autorização do mensageiro, não apenas o envio (Hoehner, p. 38).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que os termos “santos” e “fiéis” referem-se ao mesmo grupo de pessoas, e que a frase “em Cristo” denota uma união vital e posicional, não meramente instrumental.

📖 Perícope: Versículos 1:3-14 (A Eulogia)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Εὐλογητὸς (Bendito): Hoehner distingue este termo (aplicado apenas a Deus no NT) de μακάριος (feliz/abençoado, aplicado a homens), notando que é uma declaração (“Bendito é Deus”) e não um desejo (Hoehner, p. 89).
  • Μυστήριον (Mistério - 1:9): Lincoln conecta este termo ao raz dos escritos apocalípticos e de Qumran (ex: 1QpHab 7.4), significando um segredo escatológico divino agora revelado, especificamente a união cósmica em Cristo (Lincoln, p. 353).
  • Ἀνακεφαλαιώσασθαι (Convergir/Resumir - 1:10): Bruce traduz como “reunir” ou “resumir”, ligando a Romanos 13:9 (Bruce, p. 242). Lincoln insiste que deriva de kephalaion (ponto principal/resumo) e não diretamente de kephalē (cabeça), embora reconheça a relação posterior com a liderança de Cristo (Lincoln, p. 358).
  • Ἀρραβὼν (Penhor/Garantia - 1:14): Bruce identifica como uma palavra de origem semítica comercial (fenícia), significando um depósito que garante a posse futura (Bruce, p. 252).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Argumenta que a “redenção” (ἀπολύτρωσις) em 1:7 refere-se primariamente ao perdão de pecados no presente, mas em 1:14 refere-se à libertação física futura do corpo, criando uma tensão escatológica resolvida pela “herança” de Deus nos santos (Hoehner, p. 148).
  • Bruce: Enfatiza a natureza forense da “adoção” (υἱοθεσία), notando que era uma prática romana e grega desconhecida na lei hebraica, mas teologicamente análoga à relação de YHWH com Israel em Oseias 11:1 (Bruce, p. 231).
  • Lincoln: Realiza uma análise estrutural exaustiva, identificando o trecho como uma berakah (bênção judaica) cristianizada. Ele nota o estilo de “prosa litúrgica” com influência semítica (paralelismo, redundância), comparável aos hinos de Qumran (1QS), rejeitando a ideia de que seja um hino grego estrito com métrica (Lincoln, p. 304, 309).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Sintaxe da Eleição (1:4):

    • O Debate: A frase “em amor” (ἐν ἀγάπῃ) conecta-se com o versículo 4 (santos em amor) ou com o versículo 5 (predestinou em amor)?
    • Bruce: Prefere conectar com o versículo 4. O objetivo da eleição é que o povo seja santo e irrepreensível, e essa santidade é consumada no amor (comitativo) (Bruce, p. 230).
    • Lincoln: Concorda com Bruce, argumentando que a estrutura estrófica da berakah favorece que as frases com ἐν (em) fechem as seções. Além disso, em textos paralelos (1 Ts 3:12), santidade e amor aparecem juntos como qualidades humanas (Lincoln, p. 322).
    • Hoehner: Discute as opções mas tende a ver o amor como a atmosfera da santidade diante de Deus, corroborando a visão de que qualifica a condição dos santos, não a ação de predestinar (Hoehner, p. nota de rodapé não explícita no excerto, mas inferida pela concordância geral).
  • Προηλπικότας (Os que primeiro esperaram - 1:12):

    • O Debate: Refere-se a judeus cristãos (cronologicamente antes) ou a todos os cristãos (escatologicamente antes)?
    • Bruce: Identifica explicitamente como “crentes judeus”, os membros fundadores da nova comunidade, contrastando com o “vós também” (gentios) do v. 13 (Bruce, p. 248).
    • Lincoln: Rejeita a distinção Judeu/Gentio aqui. Argumenta que o “nós” e “vós” são estilísticos ou litúrgicos, e que proelpizein significa apenas “ter esperança”, com o prefixo pro- intensificando a ideia de esperança futura, não cronologia histórica judaica (Lincoln, p. 367).
    • Hoehner: Tende a ver a distinção étnica como válida no contexto mais amplo da carta (judeus e gentios sendo unidos), apoiando a leitura de Bruce (Hoehner, p. 114 - nota sobre a transição em 1:15).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Bruce conecta a ideia de Deus “adquirir posse” (περιποίησις em 1:14) diretamente a Malaquias 3:17 e Salmo 74:2, onde Israel é a propriedade peculiar de Deus, agora aplicada à Igreja (Bruce, p. 254).
  • Lincoln vê a estrutura de 1:10 (todas as coisas nos céus e na terra) como reflexo da cosmologia judaica básica de Gênesis 1:1 e Zacarias 3:1, rejeitando a necessidade de recorrer a mitos gnósticos (Lincoln, p. 361).
  • Hoehner liga a bênção “espiritual” de 1:3 ao contraste com as bênçãos materiais de Deuteronômio 28, argumentando que na Nova Aliança a ênfase muda do material para o espiritual/celestial (Hoehner, p. 98).

5. Consenso Mínimo

  • Os três concordam que a passagem é uma unidade litúrgica (eulogia/berakah) que traça a iniciativa soberana de Deus desde a eleição eterna até a consumação escatológica, centrada exclusivamente na mediação de Cristo.

📖 Perícope: Versículos 1:15-23 (Ação de Graças e Oração)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἐπιγνώσει (Pleno Conhecimento - 1:17): Hoehner distingue de gnosis (conhecimento abstrato), definindo epignosis como conhecimento direcionado, relacional e íntimo de Deus, similar ao uso em Colossenses 1:9 (Hoehner, p. 133).
  • Ὀφθαλμοὺς τῆς καρδίας (Olhos do coração - 1:18): Lincoln nota que esta frase exata não ocorre no AT (que usa coração como sede do intelecto), mas aparece no Corpus Hermeticum, sugerindo uma apropriação de linguagem helenística/gnóstica incipiente para fins cristãos (Lincoln, p. 418).
  • Ὑπεράνω (Muito acima - 1:21): Hoehner argumenta contra a tradução intensiva “muito acima”, preferindo apenas “acima”, baseando-se no uso da LXX (ex: a planta sobre a cabeça de Jonas em 4:6) onde denota posição, não distância infinita (Hoehner, p. 166). Bruce traduz como “muito acima”, vendo como linguagem espacial para simbolizar transcendência absoluta (Bruce, p. 268).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Oferece uma distinção técnica detalhada dos quatro termos de poder em 1:19: dynamis (capacidade inerente/potencial), energeia (poder em operação/cinético), kratos (poder de domínio/resistência visível) e ischys (força inerente possuída). Ele usa a ilustração de uma escavadeira para explicar a interação entre capacidade, motor roncando e a ação de derrubar árvores (Hoehner, p. 158).
  • Bruce: Destaca que a frase “Pai da Glória” (1:17) é única em Paulo, e sugere que o genitivo é adjetival, significando “o Pai todo-glorioso”, fonte de toda a verdadeira glória (Bruce, p. 259).
  • Lincoln: Argumenta que a combinação das imagens de “Cabeça” e “Corpo” (1:22-23) não deriva da fisiologia médica da época (Hipócrates), mas de concepções helenísticas sobre o cosmos como um corpo (ex: Fílon, Estoicismo), onde a Cabeça é o princípio governante. O autor transfere essa cosmologia para a eclesiologia (Lincoln, p. 440).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O significado de Πλήρωμα (Plenitude - 1:23):

    • O Debate: A Igreja completa Cristo (ativo) ou é preenchida por Ele (passivo)? E o particípio plēroumenou?
    • Bruce: Considera a visão de que a Igreja é o complemento de Cristo (como o corpo completa a cabeça), mas prefere a visão passiva: a Igreja é aquela que é preenchida por Cristo. Ele sugere que plēroumenou é passivo (“aquele que está sendo preenchido [por Deus]”), vendo uma cadeia onde Deus enche Cristo e Cristo enche a Igreja (Bruce, p. 278).
    • Lincoln: Rejeita firmemente a ideia de que a Igreja completa Cristo (ativo), pois Cristo já possui a plenitude da divindade (Col 2:9). Ele interpreta plērōma como passivo (a Igreja é preenchida), mas toma o particípio plēroumenou como médio com força ativa: Cristo é “aquele que preenche todas as coisas em todos os aspectos” (Lincoln, p. 456, 459).
    • Hoehner: Concorda com a visão passiva de plērōma (a Igreja é preenchida). Contudo, interpreta o particípio plēroumenou também como passivo: Cristo está “sendo preenchido” por Deus. Assim, como Deus enche Cristo com excelência moral e poder, Cristo enche a Igreja. Ele rejeita a influência gnóstica do termo (Hoehner, p. 206, 210).
  • As Potestades (1:21):

    • Lincoln: Vê os poderes (archē, exousia) inequivocamente como forças espirituais hostis/malignas, baseando-se em Efésios 6:12 e na vitória de Cristo sobre elas (Lincoln, p. 428).
    • Hoehner: Concorda que são provavelmente anjelicais e malignas, notando que a lista não segue uma hierarquia fixa, mas visa abrangência total (Hoehner, p. 173).
    • Bruce: Observa que os títulos correspondem a Colossenses 1:16, mas a ordem difere. Ele enfatiza que, sejam hostis ou não, estão sujeitos. A sujeição implica “vitória” sobre os hostis e “governo” sobre os demais (Bruce, p. 271).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 110:1 e Salmo 8:6: Todos os três autores notam a fusão destes dois salmos em 1:20-22.
    • Lincoln destaca que essa combinação (sessão à direita + tudo sob os pés) já era uma tradição exegética pré-paulina (cf. 1 Co 15:27), mas Efésios aplica o Salmo 8 (originalmente sobre Adão/humanidade) para enfatizar a escatologia realizada: a sujeição já ocorreu, diferente de 1 Coríntios onde é futura (Lincoln, p. 432).
    • Hoehner adiciona que a imagem “debaixo dos pés” é a de um vencedor militar (como Josué 10:24) pisando no pescoço dos reis derrotados (Hoehner, p. 181).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que a exaltação de Cristo à direita de Deus (Sessão) e sua supremacia sobre todas as forças cósmicas são fatos consumados que visam o benefício da Igreja, sua Cabeça e Corpo.