Análise Comparativa: Efésios [CAPÍTULO 2]

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Bruce, F. F. (1984). The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
  • Lincoln, A. T. (1990). Ephesians. Word Biblical Commentary (WBC). Nashville: Thomas Nelson.
  • Hoehner, H. W. (2002). Ephesians: An Exegetical Commentary. Grand Rapids: Baker Books.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Hoehner, H. W., Ephesians: An Exegetical Commentary.

    • Lente Teológica: Dispensacionalista Progressiva / Evangélica Conservadora. Hoehner mantém uma distinção clara, embora não absoluta, entre Israel e a Igreja, vendo a Igreja como uma “nova humanidade” (um terceiro grupo) e não como uma continuação direta ou substituição de Israel. Ele defende a autoria paulina autêntica.
    • Metodologia: Exegese Gramatical-Histórica rigorosa. O autor foca intensamente na sintaxe grega, morfologia e semântica lexical, frequentemente debatendo variantes textuais e o uso de preposições para estabelecer doutrinas (ex: a defesa de pedra angular como fundamento e não topo).
  • Autor/Obra: Lincoln, A. T., Ephesians.

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica / “Deuteropaulina”. Lincoln opera sob a premissa de que Efésios foi escrita por um discípulo de Paulo, refletindo uma teologia posterior que enfatiza uma escatologia realizada (os crentes já estão ressuscitados e entronizados).
    • Metodologia: Crítica das Formas e das Tradições. Ele analisa o texto buscando hinos litúrgicos pré-existentes (especialmente em 2:14-18) e comparações literárias com Colossenses, argumentando que Efésios é uma reinterpretação teológica expandida de Colossenses.
  • Autor/Obra: Bruce, F. F., The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians.

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Histórica. Bruce combina uma alta visão da Escritura com uma sensibilidade apurada para o contexto histórico do primeiro século (Qumran, Judaísmo do Segundo Templo) e a teologia bíblica da graça.
    • Metodologia: Teológico-Expositiva com ênfase no contexto histórico. Ele foca menos na micro-sintaxe do que Hoehner e mais na síntese teológica e no fluxo do argumento, conectando Efésios 2 à teologia da justificação em Romanos.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Hoehner: A salvação é uma iniciativa inteiramente divina que transforma pecadores mortos individualmente (2:1-10) em uma união corporativa viva (2:11-22), onde a Lei Mosaica foi tornada inoperante para criar uma “nova pessoa” distinta de judeus e gentios, fundamentada em Cristo como a pedra angular (fundação).

    • Argumento: Hoehner enfatiza que a graça é a base objetiva e a o meio subjetivo da salvação, sem obras humanas (Hoehner, s.p.). Ele argumenta gramaticalmente que em 2:20, Cristo é a pedra angular da fundação, rejeitando a interpretação de “pedra de remate” ou topo, pois “o contexto anterior (2:14–18) retrata Cristo como o ponto inicial dessa nova pessoa… não o ponto de acabamento” (Hoehner, s.p.).
  • Tese de Lincoln: Efésios 2 é uma reinterpretação da teologia paulina que destaca a escatologia realizada, onde a Igreja é o lócus da reconciliação cósmica, e os crentes gentios, outrora alienados, são agora co-cidadãos no novo templo de Deus, cuja estrutura é mantida por Cristo como a pedra de remate (topo).

    • Argumento: Lincoln vê 2:14-18 como baseada em um hino tradicional sobre a paz cósmica, re-aplicado à divisão judeu-gentio (Lincoln, s.p.). Ele defende que a salvação em Efésios 2 “envolve não apenas uma restauração… mas a criação de uma nova humanidade” e que, diferentemente de Paulo em Romanos, aqui a descontinuidade com Israel é enfatizada (Lincoln, s.p.). Sobre 2:20, ele argumenta que akrogōniaios refere-se à “pedra de remate” ou chave de abóbada, coerente com a imagem de Cristo como Cabeça (Lincoln, s.p.).
  • Tese de Bruce: A graça de Deus vivifica os espiritualmente mortos e derruba as barreiras religiosas e sociológicas (simbolizadas pela Lei e pelo muro do Templo), criando uma nova sociedade reconciliada onde judeus e gentios têm igual acesso ao Pai pelo Espírito.

    • Argumento: Bruce conecta a “parede de separação” (2:14) tanto à barreira literal do Templo de Herodes quanto à barreira sociológica da Lei (Bruce, s.p.). Ele sustenta que a salvação pela graça (2:8) é o tema central, onde “fé” e “salvação” são dons de Deus. Diferente de Lincoln, Bruce vê a ressurreição com Cristo (2:6) como uma “antecipação efetiva” mas equilibrada pela doutrina do Espírito como garantia futura, evitando uma escatologia totalmente realizada (Bruce, s.p.).

Análise Detalhada dos Conceitos Teológicos Chaves

1. A Condição Humana e a Graça (Efésios 2:1-10)

  • Morte Espiritual:

    • Hoehner define a morte espiritual (2:1) como a incapacidade de comunicar-se com Deus, uma separação causada pelo pecado, análoga à morte física (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln interpreta a “morte” através da lente da escatologia realizada: se a ressurreição de Cristo trouxe a vida da nova era, o estado anterior a ela é, comparativamente, morte. Ele nota paralelos com Qumran e o gnosticismo incipiente (Lincoln, s.p.).
    • Bruce concorda que a morte é “alienação de Deus”, mas destaca a conexão com Colossenses 2:13, observando que em Efésios a ênfase não é morrer com Cristo (como em Romanos 6), mas ser vivificado da morte espiritual (Bruce, s.p.).
  • A Dádiva da Fé (2:8-9):

    • Existe um debate gramatical clássico sobre a que se refere o demonstrativo neutro touto (“isto”) em “isto não vem de vós”.
    • Hoehner argumenta que touto não pode referir-se apenas a pistis (fé, feminino) nem a charis (graça, feminino), mas refere-se ao processo inteiro da salvação descrita anteriormente (Hoehner, s.p.).
    • Bruce concorda que se refere à salvação como um todo, mas nota que “não excluindo a fé pela qual ela é recebida”, alinhando-se com Calvino (Bruce, s.p.).
    • Lincoln segue a mesma linha, afirmando que o antecedente é toda a cláusula anterior, enfatizando que a salvação é, em sua totalidade, um dom de Deus (Lincoln, s.p.).

2. A Reconciliação e a Lei (Efésios 2:11-18)

  • A Parede de Separação (2:14):

    • Bruce dá forte peso histórico à barreira física no Templo de Jerusalém que separava o átrio dos gentios, sugerindo que a prisão de Paulo (acusado de levar um gentio além dessa barreira) torna essa alusão vívida para o apóstolo (Bruce, s.p.).
    • Hoehner rejeita a identificação primária com o muro físico do Templo, pois este ainda estava de pé quando a carta foi escrita (assumindo datação anterior a 70 d.C.). Ele prefere uma parede metafórica gerada pelo mau uso da Lei que causava hostilidade (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln, focado na crítica das tradições, sugere que a linguagem pode ter origem em conceitos de uma “muralha cósmica” entre céu e terra (gnosticismo/apocalíptica), que o autor reinterpreta historicamente como a Lei para aplicar à divisão judeu-gentio (Lincoln, s.p.).
  • A Abolição da Lei (2:15):

    • Hoehner é enfático: Cristo tornou a Lei Mosaica inteira (moral e cerimonial) inoperante (katargeō). Ele rejeita a dicotomia teológica comum que preserva a lei moral, afirmando que o crente está agora sob a “lei de Cristo” (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln concorda que a Lei como sistema de mandamentos foi abolida para criar a nova humanidade, destacando a descontinuidade radical com a antiga aliança, uma posição mais “afiada” que a de Paulo em Romanos (Lincoln, s.p.).
    • Bruce matiza a questão: a Lei como revelação do caráter de Deus permanece, mas a Lei como “código escrito” e barreira sociológica/religiosa foi anulada (Bruce, s.p.).

3. Eclesiologia e Metáforas do Templo (Efésios 2:19-22)

  • A Pedra Angular (2:20 - akrogōniaios):

    • Este é o ponto de maior divergência técnica.
    • Hoehner (Exegese Gramatical): Defende vigorosamente o significado de pedra fundamental (no canto da base). Ele argumenta que, no contexto de uma construção em andamento (crescimento), uma “pedra de remate” (topo) seria prematura. Cristo é a pedra que alinha todas as outras na fundação (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln (Crítica da Tradição): Defende o significado de pedra de remate (keystone/capstone). Ele argumenta que a exaltação de Cristo em Efésios (cabeça sobre tudo) favorece a imagem dele no topo, coroando o edifício, em vez de na base (Lincoln, s.p.).
    • Bruce (Síntese): Reconhece que o termo na LXX (Isaías 28:16) e em versões posteriores (Símaco) pode significar pedra de topo, mas conclui que a distinção não deve ser forçada a ponto de criar confusão; Cristo é a pedra que “une a estrutura”, seja na base ou no topo (Bruce, s.p.).
  • O Fundamento dos Apóstolos e Profetas (2:20):

    • Hoehner argumenta que se refere aos apóstolos e profetas do Novo Testamento (não do AT), citando a ordem das palavras e o contexto de Efésios 3:5 e 4:11. Eles são a fundação no sentido de serem as pessoas históricas que iniciaram a igreja (genitivo de aposição) (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln concorda que são profetas cristãos, mas vê isso como uma visão retrospectiva de um autor posterior olhando para a “era fundacional” da igreja, algo que o Paulo histórico talvez não dissesse de si mesmo (Lincoln, s.p.).
    • Bruce aceita a referência a profetas cristãos e vê isso como consistente com 1 Coríntios 12:28, sem necessidade de positar autoria não-paulina (Bruce, s.p.).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de HoehnerVisão de LincolnVisão de Bruce
Palavra-Chave: Akrogōniaios (2:20)Pedra Angular (Fundamental). Argumenta que, num edifício em crescimento, uma pedra de remate (topo) seria prematura. Cristo é a pedra primária do alicerce que alinha os apóstolos e profetas (Hoehner,).Pedra de Remate (Capstone). Defende que a cristologia exaltada de Efésios favorece a imagem de Cristo coroando o edifício. Associa a tradição de Sl 118:22 e a “cabeça” do corpo (Lincoln,).Pedra de Esquina (Cornerstone). Reconhece a possibilidade de “pedra de topo” em versões posteriores (Símaco), mas mantém a visão tradicional de uma pedra que “une a estrutura” na base, ligando a fundação (Bruce,).
Termo: Mesotoichon (Parede de Separação - 2:14)Barreira Metafórica. Rejeita a referência ao muro físico do Templo (ainda de pé na época da escrita). Interpreta como a barreira gerada pelo mau uso da Lei que causava hostilidade social e religiosa (Hoehner,).Barreira Cósmica Reinterpretada. Sugere origem em hinos sobre uma muralha entre céu e terra (gnosticismo/apocalíptica), que o autor reinterpreta historicamente como a Lei para aplicar à divisão judeu-gentio (Lincoln,).Barreira Histórica/Literal. Conecta vividamente à balaustrada do Templo de Herodes que excluía gentios sob pena de morte, aludindo à prisão de Paulo (Atos 21) como contexto imediato (Bruce,).
Problema Central do TextoMorte Espiritual e Legalismo. O problema é a incapacidade humana (morte) e a inimizade gerada pelos “dogmas” da Lei Mosaica, que precisa ser tornada inoperante (katargeō) (Hoehner,).Alienamento Espacial e Social. O problema é a distância (“longe”) dos gentios em relação à comunidade da promessa e a necessidade de reconciliação cósmica e humana num novo corpo (Lincoln,).Exclusão dos Privilégios da Aliança. O foco está na privação histórica dos gentios (sem Cristo, sem cidadania, sem esperança) e na barreira sociorreligiosa criada pela circuncisão (Bruce,).
Resolução TeológicaCriação de uma Terceira Raça. A Igreja não é a continuidade de Israel, mas uma “nova humanidade” (um terceiro grupo), onde a Lei foi abolida para criar paz (Hoehner,).Escatologia Realizada. A resolução é a ressurreição e entronização atual dos crentes com Cristo (2:6), superando categorias étnicas numa nova criação descontinuada de Israel (Lincoln,).Incorporação na Família de Deus. Os gentios são feitos “concidadãos” e membros da família. O Espírito Santo substitui a Shekinah, habitando no novo templo formado por crentes (Bruce,).
Tom/EstiloExegético-Gramatical. Rigoroso na sintaxe grega, focado em variantes textuais e precisão lexical. Conservador na autoria.Crítico-Redacional. Foca na adaptação de hinos litúrgicos pré-existentes e na relação de dependência literária com Colossenses.Teológico-Histórico. Estilo fluido, com forte sensibilidade ao cenário histórico do primeiro século e teologia bíblica.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: F. F. Bruce. Sua análise da “parede de separação” (2:14) é superior ao conectar o texto com a arqueologia do Templo de Herodes e a biografia de Paulo (prisão em Jerusalém), fornecendo uma base tangível para a metáfora teológica (Bruce,). Ele ancora a exegese na realidade histórica do primeiro século de forma mais vivida que os outros.
  • Melhor para Teologia: A. T. Lincoln. Embora sua pressuposição de autoria não-paulina seja debatida, ele oferece a análise mais profunda sobre a escatologia realizada de Efésios 2. Ele demonstra com excelência como o autor de Efésios expande a teologia de Colossenses, transformando a “morte e ressurreição” em “entronização celestial presente” (2:6), o que é crucial para entender a eclesiologia cósmica da carta (Lincoln,).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Efésios 2, deve-se utilizar a estrutura gramatical rigorosa de Hoehner para definir a mecânica da salvação (“pela graça sois salvos”) e a definição precisa da “nova humanidade”. Deve-se, então, aplicar a lente histórica de Bruce para visualizar a dramaticidade da reconciliação entre judeus e gentios (a queda do muro do Templo). Finalmente, a exegese de Lincoln é essencial para elevar essa união sociológica a um nível cósmico, onde a Igreja não é apenas uma nova sociedade na terra, mas o templo escatológico onde Deus habita pelo Espírito, já assentada nas regiões celestiais.

Nova Humanidade, Escatologia Realizada, Pedra Angular e Parede de Separação são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 1-3 (A Condição de Morte e a Influência Maligna)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • “Mortos” (nekrous): Todos os autores concordam que se refere à morte espiritual ou alienação de Deus, não à morte física. Lincoln destaca que é uma “concepção escatológica realizada da morte”, onde a existência pré-cristã é vista como morte em comparação com a vida da nova era (Lincoln, s.p.).
  • “Príncipe da potestade do ar” (archonta tēs exousias tou aeros):
    • Hoehner analisa aēr (ar) contrastando com aithēr (éter/céu puro), sugerindo que o “ar” era visto como a morada de espíritos malignos, citando Fílon. Ele define exousia aqui como “domínio” ou “reino” (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln concorda que aēr indica as regiões inferiores do reino celestial, enfatizando a proximidade desta influência maligna sobre o mundo (Lincoln, s.p.).
    • Bruce conecta o termo à demonologia judaica e a Fílon, identificando o ar como a região sublunar habitada por seres incorpóreos (Bruce, s.p.).
  • “Por natureza” (physei):
    • Hoehner interpreta como “descendência” ou origem, ligando ao Pecado Original e Adão (Rom 5:12-21), argumentando que é uma condição herdada (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln vê como “condição natural” por nascimento, concordando com a implicação do pecado original, contrastando a condição caída com a graça (Lincoln, s.p.).
    • Bruce traduz simplesmente como “por nascimento”, contrastando com a adoção pela graça (Bruce, s.p.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Destaca uma distinção gramatical detalhada em 2:2, argumentando que tou pneumatos (“do espírito”) não está em aposição a “ar” nem a “príncipe”, mas é um genitivo de subordinação paralelo a tēs exousias (“da potestade”). Assim, o Diabo governa tanto a esfera (ar) quanto a disposição espiritual (espírito) que opera nos desobedientes (Hoehner, s.p.).
  • Lincoln: Oferece uma perspectiva da história das religiões, notando paralelos com Qumran (1QS 3:13-4:26) sobre os “dois espíritos” e a terminologia “filhos da desobediência” como um hebraísmo semita. Ele enfatiza que a linguagem espacial (“ar”) é misturada com a temporal (“este século”) para descrever a totalidade da existência caída (Lincoln, s.p.).
  • Bruce: Traz um paralelo cultural específico ao observar que, para Paulo, as tentações da “carne” incluíam orgulho e autoafirmação religiosa (como em sua própria vida pré-conversão), não apenas vícios pagãos sensuais, ampliando o significado de “carne” para além da sensualidade física (Bruce, s.p.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza de Aiōn (Século/Era):
    • Bruce discute se Aiōn em 2:2 é personificado como uma divindade (o deus Aiōn do mitraísmo/sincretismo), mas conclui que é improvável que Paulo use o termo nesse sentido técnico aqui, preferindo “espírito da época” (Bruce, s.p.).
    • Hoehner rejeita veementemente a personificação gnóstica, insistindo no sentido temporal de “era” ou “período de tempo”, consistente com o uso judaico (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln admite que alguns estudiosos veem uma referência ao deus Aiōn, mas prefere ver como uma expressão temporal que abrange “aspectos espaciais e temporais da existência humana caída” (Lincoln, s.p.).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Os autores (especialmente Lincoln e Bruce) identificam o termo “filhos da ira” e “filhos da desobediência” como hebraísmos típicos do AT (ex: Deuteronômio 25:2 “filho de açoites”, 2 Samuel 12:5 “filho da morte”).
  • Hoehner conecta “príncipe” (archon) ao uso em Daniel 10:13 (LXX) para seres angelicais/demoníacos que governam nações.

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a “morte” descrita é um estado espiritual presente de alienação de Deus, afetando tanto judeus quanto gentios, sob a influência de forças demoníacas externas e inclinações carnais internas.

📖 Perícope: Versículos 4-10 (A Intervenção da Graça)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • “Juntamente” (prefixo syn-): Synezōopoiēsen (vivificou juntamente), synēgeiren (ressuscitou juntamente), synekathisen (fez sentar juntamente).
    • Lincoln vê isso como a forma mais desenvolvida da “escatologia realizada” paulina: os crentes já participam da entronização celestial (Lincoln, s.p.).
    • Hoehner enfatiza que o aoristo (tempo verbal) vê a ação como um fato completo no passado histórico da ressurreição de Cristo, aplicada posicionalmente ao crente (Hoehner, s.p.).
  • “Dom de Deus” (theou to dōron) em 2:8:
    • Existe um debate gramatical sobre o antecedente de “isto” (touto - neutro). Fé (pistis) e Graça (charis) são femininos.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Argumenta gramaticalmente que touto (isto) em 2:8 refere-se a todo o processo de salvação descrito anteriormente, e não especificamente à “fé” (que é feminina). Ele rejeita a visão de que “fé” é o dom aqui, defendendo que a salvação inteira é o dom (Hoehner, s.p.).
  • Lincoln: Sugere que a estrutura de 2:4-7 e 2:10 reflete ou cita um hino batismal ou liturgia de iniciação cristã primitiva, embora admita que a evidência não é conclusiva para um hino completo. Ele vê paralelos litúrgicos com Tito 3:3-7 (Lincoln, s.p.).
  • Bruce: Observa que a ideia de crentes já estarem “assentados nas regiões celestiais” (2:6) é “sem paralelo no corpus paulino” se tomada literalmente como experiência atual, interpretando-a como uma declaração do propósito divino tão certo que é falado como fato consumado (Bruce, s.p.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Obras Preparadas (2:10):
    • Lincoln interpreta “preparadas de antemão” (proētoimasen) em conexão com a predestinação de 1:4, sugerindo que a ética cristã não é improvisada, mas parte do decreto eterno de Deus, quase um “determinismo da graça” onde Deus prepara o caminho e o caminhar (Lincoln, s.p.).
    • Hoehner concorda que as obras foram preparadas na eternidade, mas enfatiza a responsabilidade humana no subjuntivo “para que andássemos nelas”, rejeitando uma visão passiva da santificação (Hoehner, s.p.).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Bruce conecta a expressão “somos feitura dele” (poiēma) com a Criação original em Salmos 100:3 e Isaías 29:16, indicando que a redenção é uma Nova Criação (Bruce, s.p.).
  • Hoehner e Lincoln citam paralelos com textos de Qumran (1QH 4:30-32) onde a retidão não pertence ao homem, mas a Deus que prepara o caminho.

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que a salvação é inteiramente iniciada por Deus (Graça), recebida passivamente pelo homem (Fé), e que as “boas obras” são a consequência necessária, nunca a causa, dessa salvação.

📖 Perícope: Versículos 11-13 (A Alienação Histórica dos Gentios)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • “Circuncisão feita por mãos” (cheiropoiētou):
    • Bruce nota que este termo é depreciativo, geralmente usado para ídolos no AT (Is 2:18) ou templos materiais no NT (At 7:48), indicando que Paulo agora vê a circuncisão física como irrelevante religiosamente (Bruce, s.p.).
  • “Cidadania” (politeia):
    • Lincoln interpreta como o Estado teocrático de Israel e seus privilégios (Lincoln, s.p.).
    • Hoehner prefere “cidadania” no sentido de pertencimento, observando que os leitores da Ásia Menor entenderiam bem o conceito de viver em um império (Roma) sem ter a cidadania plena (Hoehner, s.p.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Lincoln: Destaca o uso da terminologia de proselitismo judaico (“longe” e “perto”). Ele cita o Midrash Numeros Rabbah 8.4 para mostrar que os rabinos discutiam se Deus aproximava os distantes (gentios). Paulo inverte isso: em Cristo, os gentios foram feitos “próximos” sem se tornarem judeus (Lincoln, s.p.).
  • Hoehner: Enfatiza que a falta de “Cristo” (Messias) em 2:12 não é apenas soteriológica, mas nacional. Os gentios não tinham a esperança messiânica nacional que sustentava Israel, tornando sua alienação política e teológica (Hoehner, s.p.).
  • Bruce: Aponta que a expressão “sem Deus” (atheoi) no mundo não significa que eles eram ateus intelectuais, mas que, no sentido judaico, seus deuses não eram deuses reais, deixando-os efetivamente sozinhos no universo (Bruce, s.p.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Referência Temporal de “Naquele Tempo”:
    • Há um consenso geral sobre a condição passada, mas Lincoln enfatiza a descontinuidade radical: os privilégios de Israel eram reais “naquele tempo”, mas agora, em Cristo, a distinção é transcendida. Ele vê uma ruptura mais forte com o judaísmo do que Bruce, que vê uma continuidade na oliveira (Rm 11).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Lincoln e Bruce identificam a linguagem de “longe” e “perto” como eco de Isaías 57:19 (“Paz, paz para o que está longe e para o que está perto”), embora lá se referisse a judeus no exílio e na terra. Paulo reinterpreta isso etnicamente.

5. Consenso Mínimo

  • Os gentios estavam historicamente em desvantagem espiritual e pactual em relação aos judeus, privados dos concertos, da promessa e da esperança messiânica, situação revertida apenas pelo “sangue de Cristo”.

📖 Perícope: Versículos 14-18 (Cristo Nossa Paz e o Muro de Separação)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • “Parede de separação” (mesotoichon tou phragmou):
    • Bruce: Interpretação literal/histórica. Refere-se à balaustrada do Templo de Herodes com inscrições de morte para gentios. Bruce argumenta que a prisão de Paulo (acusado de violar essa barreira) torna essa alusão vívida e pessoal (Bruce, s.p.).
    • Hoehner: Interpretação metafórica. Rejeita a parede física (que ainda estava de pé). Vê como a Lei Mosaica mal utilizada que criava uma barreira social e religiosa (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln: Interpretação cósmica/gnóstica reajustada. Vê origem em mitos sobre uma muralha entre céu e terra (1 Enoque 14:9), que o autor “desmitologiza” e aplica à divisão judeu-gentio (Lincoln, s.p.).
  • “Lei dos mandamentos em ordenanças” (dogmasin):
    • Hoehner insiste que dogmasin refere-se a decretos públicos e estatutos, e que Cristo aboliu a Lei Mosaica inteira como código regulatório, não apenas a lei cerimonial (Hoehner, s.p.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Lincoln: Propõe que os versículos 14-16 são baseados em um hino pré-existente sobre a paz cósmica (reconciliação de céu e terra), que o autor de Efésios adaptou (adicionando “na carne”, “na cruz”) para aplicar à reconciliação étnica. Ele reconstrói a estrutura estrófica deste hino hipotético (Lincoln, s.p.).
  • Hoehner: Oferece uma defesa robusta da visão de que a Lei foi totalmente ab-rogada (katargeō = tornar inoperante). Ele argumenta contra a teologia do Pacto que divide a lei em moral/cerimonial, afirmando que o “novo homem” não está sujeito à Lei Mosaica de forma alguma, mas a uma nova economia (Hoehner, s.p.).
  • Bruce: Destaca a ironia histórica: a acusação falsa de que Paulo levou um gentio além do muro do Templo (Atos 21) levou à escrita desta carta onde ele declara que o muro espiritual já foi derrubado por Cristo (Bruce, s.p.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Que Foi Abolido?
    • Hoehner é radical: A Lei Mosaica inteira foi tornada inoperante.
    • Bruce é mais matizado: A Lei como sistema de salvação e barreira de separação (código escrito) foi anulada, mas a revelação do caráter de Deus na Lei permanece (Bruce, s.p.).
  • A “Inimizade” (Echthra):
    • Lincoln vê a inimizade primariamente como cósmica no hino original, agora aplicada socialmente.
    • Hoehner vê a inimizade como o ódio sociológico gerado pelo exclusivismo da Lei.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Citação explícita de Isaías 57:19 (“Paz aos que estão longe e aos que estão perto”) e Isaías 52:7 (o mensageiro que anuncia a paz).
  • Lincoln nota que Paulo (ou o autor) muda o texto de Isaías: Cristo não apenas traz a paz, ele é a paz (v. 14) e prega a paz (v. 17).

5. Consenso Mínimo

  • A morte de Cristo na cruz aboliu a base legal (Lei) que causava a separação entre judeus e gentios, criando uma “nova humanidade” (um terceiro grupo) que não é nem judaica nem gentílica, mas cristã.

📖 Perícope: Versículos 19-22 (A Família de Deus e o Templo Santo)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • “Pedra Angular” (akrogōniaios):
    • Hoehner: Traduz como “Pedra Fundamental” (no canto da base). Argumenta que a construção está “crescendo” (v. 21), então a pedra de topo (remate) ainda não teria sido colocada. Cristo é a pedra que orienta o alicerce (Hoehner, s.p.).
    • Lincoln: Traduz como “Pedra de Remate” (capstone/chave de abóbada). Baseia-se em Testamento de Salomão e Salmo 118:22. Argumenta que a exaltação de Cristo em Efésios (cabeça sobre tudo) favorece a posição no topo (Lincoln, s.p.).
    • Bruce: Tende para “Pedra de Esquina” (base), mas reconhece a ambiguidade. Ele foca na função de “unir” as paredes (judeus e gentios) (Bruce, s.p.).
  • “Fundamento dos Apóstolos e Profetas”:
    • Hoehner e Lincoln concordam que são profetas do Novo Testamento, não do Antigo, devido à ordem das palavras (“apóstolos e profetas”, não vice-versa) e ao contexto de Efésios 3:5 (revelado agora aos profetas).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hoehner: Analisa a preposição syn- no verbo synoikodomeisthe (edificados juntamente) em 2:22. Ele argumenta que isso não significa apenas que judeus e gentios são edificados uns com os outros, mas que estão sendo edificados juntos em Cristo para formar uma unidade compacta, como pedras ajustadas sem argamassa (Hoehner, s.p.).
  • Lincoln: Vê a imagem do Templo como uma substituição escatológica. A comunidade de Qumran também se via como um templo espiritual (1QS 8:5-6), mas Efésios democratiza isso radicalmente: os gentios, antes excluídos do Templo físico sob pena de morte, agora são o próprio Templo de Deus (Lincoln, s.p.).
  • Bruce: Destaca a progressão trinitária nos versículos 18-22: Acesso ao Pai, através do Filho (pedra angular), no Espírito (habitação). Ele vê isso como essencial para a eclesiologia de Efésios (Bruce, s.p.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade dos “Santos” (v. 19):
    • Lincoln discute se “santos” aqui refere-se a anjos (comum em Qumran e apocalíptica) ou crentes. Ele conclui que, embora a linguagem de cidadania celestial permita a visão de anjos, o uso consistente em Efésios (1:1, 1:15) aponta para todos os crentes.
    • Hoehner concorda que são os crentes de todas as épocas (não apenas judeus), rejeitando a visão de que os gentios se tornam “prosélitos espirituais” de Israel.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 28:16 (“Eis que assento em Sião uma pedra… pedra angular”) é a base textual primária para v. 20.
  • Salmo 118:22 (“A pedra que os edificadores rejeitaram…”) é trazida à tona no debate sobre a pedra angular.

5. Consenso Mínimo

  • A Igreja é apresentada não como uma organização, mas como um organismo vivo e em crescimento (Templo), fundado na revelação apostólica (Novo Testamento) e habitado pelo Espírito Santo, onde a distinção étnica foi eliminada.