Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Gálatas 5
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Longenecker, R. N. (1990). Galatians. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson. George, T. (1994). Galatians. New American Commentary (NAC). Broadman & Holman. Schreiner, T. R. (2010). Galatians. Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (ZECNT). Zondervan. (Nota: A fonte bibliográfica de F.F. Bruce solicitada não consta nos textos fornecidos. A análise foi realizada sobre o texto de T. R. Schreiner, presente nos arquivos carregados [ZECNT], para garantir a integridade da exegese baseada estritamente nas fontes disponíveis).
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Longenecker, R. N. (1990). Galatians. Word Biblical Commentary (WBC).
- Lente Teológica: Crítico-Histórica com forte ênfase em Crítica Retórica e Hermenêutica Judaica. Longenecker analisa a epístola através das convenções epistolares greco-romanas (identificando Gálatas 5 como parte da exhortatio) e utiliza categorias da retórica clássica (forense vs. deliberativa).
- Metodologia: Aborda o texto focando na análise filológica e na estrutura retórica. Ele destaca o uso de topoi (lugares-comuns éticos) e a distinção entre legalismo (ganhar favor divino por mérito) e nomismo (viver sob a regulação da Lei). Sua exegese procura demonstrar que a ética de Paulo não é um adendo desconexo, mas flui da teologia, contrastando a vida no Espírito tanto contra o nomismo judaico quanto contra o libertinismo helenístico (Longenecker, “The works of the flesh…”).
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Autor/Obra: George, T. (1994). Galatians. New American Commentary (NAC).
- Lente Teológica: Reformada/Evangélica (Batista). George lê o texto com uma forte sensibilidade para a Teologia Histórica, frequentemente citando Lutero e Calvino para elucidar o texto. Sua abordagem é teológica e pastoral, focando na Sola Fide e na ética como fruto da justificação.
- Metodologia: Utiliza uma exegese teológica que conecta a doutrina da justificação com a ética prática. Ele rejeita teorias críticas que veem Gálatas 5-6 como interpolações ou parêneses desconexas, argumentando pela unidade orgânica entre teologia (caps. 1-4) e ética (caps. 5-6). Ele enfatiza a antítese Carne vs. Espírito como uma realidade de combate espiritual contínuo (George, “Ethics: Life in the Spirit”).
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Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2010). Galatians. Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (ZECNT).
- Lente Teológica: Evangélica/Reformada (com nuances da Teologia da Nova Aliança). Schreiner foca na Soteriologia e na Perseverança dos Santos. Ele aborda as advertências de Paulo (ex: cair da graça) como meios reais que Deus utiliza para preservar os eleitos, contrapondo-se a interpretações que esvaziam as advertências ou que sugerem perda de salvação.
- Metodologia: Emprega Análise do Discurso e exegese gramatical rigorosa. Ele estrutura o texto em torno do fluxo do argumento lógico, focando na tensão escatológica (já e ainda não) da vida no Espírito. Ele rejeita a ideia de que Paulo esteja combatendo dois grupos distintos (legalistas e libertinos), vendo a congregação como uma unidade suscetível a ambos os erros (Schreiner, “Literary Context”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Longenecker: A vida no Espírito constitui uma terceira via ética, distinta tanto do legalismo/nomismo (submissão à Torá) quanto do libertinismo (submissão à carne), operando através de uma direção pneumatológica que cumpre a intenção da Lei sem estar “sob a Lei”.
- Argumento Expandido: Longenecker argumenta que Gálatas 5:13–6:10 é a exhortatio da carta, onde Paulo utiliza a retórica deliberativa para persuadir os gálatas. Ele destaca que o Espírito não é um auxiliar da Lei, mas uma nova esfera de existência: “A vida pelo Espírito constitui para o apóstolo uma terceira maneira de viver distinta tanto, por um lado, do legalismo quanto, por outro, daquilo que é caracterizado por ceder aos impulsos da carne” (Longenecker, “Life Directed by Love…”). Ele enfatiza que a liberdade cristã é ameaçada por dois extremos e que o Espírito fornece tanto a direção ética quanto o poder para superar a carne, algo que a Lei não podia fazer.
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Tese de George: A ética cristã em Gálatas 5 é a consequência necessária da justificação pela fé, onde a liberdade cristã não é autonomia pessoal, mas a libertação do “jugo da escravidão” para o serviço amoroso ao próximo, impulsionado pelo Espírito Santo.
- Argumento Expandido: George defende a integridade da carta contra críticos que veem a seção ética como secundária. Ele sustenta que “A justificação é o pressuposto da vida cristã” e que “A justificação pela fé não é uma doutrina moralmente estéril” (George, “Ethics: Life in the Spirit”). Para George, a tensão Carne/Espírito (Gl 5:17) não é uma desculpa para o pecado, mas o campo de batalha onde o crente, capacitado pelo Espírito, mortifica a carne. Ele define a liberdade cristã paradoxalmente: “A liberdade cristã é a liberdade para amar e, portanto, a liberdade para servir” (George, “The Service of Love”).
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Tese de Schreiner: Gálatas 5 apresenta uma dicotomia absoluta entre Cristo e a Lei, onde a submissão à circuncisão resulta em separação de Cristo e queda da graça, sendo a vida no Espírito a única evidência de uma fé que aguarda a justiça escatológica.
- Argumento Expandido: Schreiner foca na severidade das advertências de Paulo. Ele argumenta que “Cristo e a lei não são compatíveis para Paulo, mas opostos polares” (Schreiner, “Only One Way”). Sua ênfase recai sobre a função das advertências (como em Gl 5:2-4) como meios de perseverança: “As advertências são os meios que Deus usa para preservar a fé daqueles que ele escolheu” (Schreiner, “Warning against Apostasy”). Ele interpreta o conflito Carne/Espírito como uma guerra escatológica onde o crente, embora não perfeito, obtém uma vitória “substancial, significativa e observável” sobre o pecado (Schreiner, “No Room for Pessimism”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Longenecker (WBC) | Visão de George (NAC) | Visão de Schreiner (ZECNT) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego (Sarx / Carne) | Define como “natureza humana caída, o centro do orgulho humano e da vontade própria”, distinguindo-a da fisicalidade, mas notando que as obras da carne se manifestam no corpo (Longenecker, “The Temptation of License”). | Define como a “arena de indulgência e autoafirmação”, associando-a à natureza caída em “combate mortal” contra o Espírito, citando a luta de Jerônimo contra desejos como ilustração (George, “Conflict and Victory”). | Define em termos de história da redenção: “o que os seres humanos são em Adão” e a “velha era da história da redenção”, contrastando a identidade em Adão com a identidade em Cristo (Schreiner, “Explanation of the Text 5:16”). |
| Problema Central do Texto | Identifica uma dupla ameaça distinta: o Legalismo (Judaizantes) e o Libertinismo (tendências internas de abuso da liberdade), tratando Gálatas 5:13-6:10 como uma “Exhortatio” específica contra o libertinismo (Longenecker, “Exhortations against Libertine Tendencies”). | Vê o problema como a incapacidade dos gálatas de usar sua liberdade, oscilando entre a escravidão da lei e a licença da carne, o que exige uma ética onde a liberdade é paradoxalmente “escravidão por amor” (George, “The Service of Love”). | Rejeita a ideia de dois grupos distintos (legalistas vs. libertinos), argumentando que a congregação como um todo era suscetível a ambos os erros, pois viver sob a Lei leva, ironicamente, ao domínio do pecado e da carne (Schreiner, “Literary Context”). |
| Resolução Teológica | Propõe a vida no Espírito como uma terceira via ética, um “caminho elevado acima” tanto do legalismo quanto do libertinismo, onde o Espírito não é um auxiliar da Lei, mas uma nova esfera de existência (Longenecker, “Life Directed by Love…”). | Enfatiza que a ética é consequência da justificação; a fé não é estéril, mas “ativa no amor que leva à santidade”, onde o Espírito capacita a mortificação da carne e o serviço ao próximo (George, “Ethics: Life in the Spirit”). | Foca na Tensão Escatológica (já e ainda não) e na perseverança. As advertências de apostasia são meios reais que Deus usa para preservar os eleitos, garantindo uma vitória substancial, mas não perfeita, sobre a carne (Schreiner, “Theology in Application”). |
| Tom/Estilo | Técnico e Filológico: Foca na análise gramatical, retórica e paralelos com a literatura grega e judaica (ex: catálogos de virtudes/vícios). | Pastoral e Histórico: Rico em ilustrações, citações de reformadores (Lutero, Calvino) e aplicações práticas para a vida da igreja. | Exegetico e Teológico: Focado na estrutura do argumento, soteriologia reformada e história da redenção (Antigo vs. Novo Adão). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Longenecker. Ele oferece a análise mais detalhada do background histórico e filológico, explicando termos como pharmakeia (feitiçaria/uso de drogas) e eritheia (ambição egoísta) com precisão técnica e referências à literatura greco-romana e judaica, situando o texto firmemente em seu ambiente cultural (Longenecker, “The Works of the Flesh”).
- Melhor para Teologia: Schreiner. Destaca-se pela profundidade doutrinária, especialmente ao conectar a ética de Gálatas 5 com a antropologia paulina (Adão vs. Cristo) e a escatologia. Sua discussão sobre a função das advertências de apostasia como meio de perseverança dos santos oferece uma resolução robusta para a tensão entre segurança eterna e a necessidade de obediência (Schreiner, “Warning against Apostasy”).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Gálatas 5, deve-se combinar a precisão exegética de Longenecker, que estabelece a “terceira via” do Espírito como distinta da lei e da licença, com a profundidade soteriológica de Schreiner, que ancora essa ética na nova identidade do crente em Cristo (Livres da Lei, mas servos da Justiça). A isso, deve-se adicionar a sensibilidade pastoral de George, que traduz essa teologia na prática do amor cristão, lembrando que a Liberdade Cristã não é autonomia, mas a liberdade para servir. A Justificação pela Fé cria uma nova realidade onde a Carne vs. Espírito travam uma guerra escatológica, cuja vitória é assegurada não pelo esforço humano, mas pela vida no Espírito.
Liberdade Cristã, Carne vs. Espírito, Justificação pela Fé e Terceira Via são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 5:1-6 (Liberdade, Circuncisão e a Esperança da Justiça)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ** Eleutheria (Liberdade):** Longenecker destaca que o artigo definido e o dativo (τῇ ἐλευθερίᾳ) sugerem um dativo de destino ou propósito: “para a liberdade Cristo nos libertou”, funcionando como um imperativo baseado num indicativo (Longenecker, “Comment 5:1”). Schreiner concorda que denota propósito, contrastando com o jugo da escravidão, e enfatiza que esta liberdade foi ganha pela obra redentora de Cristo (Schreiner, “Explanation of the Text 5:1a”).
- ** Katargeō (Separados/Anulados):** George traduz como “alienados” ou “cortados”, significando ser removido da esfera de operação de Cristo (George, “Falling from Grace”). Schreiner usa “severed” (cortado/separado), indicando que confiar na lei é renunciar a Cristo; não há meio-termo (Schreiner, “Explanation of the Text 5:4”).
- ** Elpis dikaiosynēs (Esperança da justiça):** Schreiner argumenta que o genitivo aqui é aposicional: a esperança que os crentes aguardam é o veredito final de justiça no último dia, não uma justiça que eles já possuem que gera esperança (Schreiner, “Explanation of the Text 5:5”). Longenecker vê como a esperança para a qual a justificação aponta, uma realidade escatológica já inaugurada mas ainda aguardada (Longenecker, “Falling from Grace”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Longenecker: Destaca a estrutura gramatical de Paulo onde o imperativo (“permanecei firmes”) flui do indicativo (“Cristo nos libertou”). Ele argumenta que a liberdade cristã não é política ou psicológica, mas uma libertação dos “elementos do mundo” e do pecado, um dom inestimável que pressupõe o “já e ainda não” escatológico (Longenecker, “Stand Firm in Freedom”).
- George: Traz uma forte ênfase histórica e pastoral, citando Lutero para ilustrar o “cair da graça” como um naufrágio. Ele ataca a interpretação arminiana, argumentando que Paulo não contempla a perda de salvação de um regenerado, mas alerta que buscar justificação pela lei é sair do reino da graça para o reino do julgamento (George, “Falling from Grace”).
- Schreiner: Foca na impossibilidade de cumprir a lei (v. 3). Ele conecta o “devedor de toda a lei” com Gálatas 3:10, argumentando que a submissão à circuncisão exige obediência perfeita, o que é impossível. Para ele, as advertências de apostasia são meios reais que Deus usa para preservar os eleitos, uma nuance teológica distinta sobre a perseverança (Schreiner, “Theology in Application”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Queda (v. 4): Existe uma tensão teológica sobre o significado de “cair da graça”. George (Reformado) insiste que isso não implica que verdadeiros crentes perdem a salvação, mas que a teologia dos gálatas estava se movendo para um terreno onde a graça não opera (George, “Falling from Grace”). Schreiner concorda com a segurança eterna, mas enfatiza a realidade existencial da advertência: se eles aceitarem a circuncisão, eles serão, de fato, condenados; a advertência é o meio de evitar a queda (Schreiner, “Warning against Apostasy”).
- Fé e Amor (v. 6): George polemiza contra a teologia católica medieval da fides caritate formata, insistindo que o amor não forma a fé para justificação, mas que a fé justifica e então produz amor (George, “The Law of Love”). Schreiner concorda, notando que o particípio é médio (“agindo por amor”), indicando que a fé é a raiz e o amor é o fruto (Schreiner, “Explanation of the Text 5:6”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Os autores concordam que o pano de fundo é a aliança de Gênesis 17 (circuncisão). Schreiner observa que Paulo transforma a visão judaica tradicional: no judaísmo, a lei era vista como agente de libertação, mas Paulo, ecoando Pedro em Atos 15:10, a chama de “jugo de escravidão” (Schreiner, “Explanation of the Text 5:1b-c”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a aceitação da circuncisão por parte dos gentios não é um rito neutro, mas uma rejeição total da suficiência de Cristo e um retorno à escravidão.
📖 Perícope: Versículos 5:7-12 (A Ofensa da Cruz e os Falsos Mestres)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ** Peismonē (Persuasão):** Longenecker nota que é um termo muito raro, não encontrado na literatura grega anterior, sugerindo uma “persuasão sedutora” ou lisonjeira usada pelos judaizantes (Longenecker, “Circumcision or the Cross”). Schreiner traduz simplesmente como a visão teológica que os oponentes estavam vendendo, que não vem de Deus (Schreiner, “Explanation of the Text 5:8”).
- ** Skandalon (Escândalo/Ofensa):** “Pedra de tropeço”. Longenecker define como uma “armadilha” que provoca reação negativa, contrastando a cruz com a teologia de sinais e sabedoria (Longenecker, “Circumcision or the Cross”).
- ** Apokoptō (Cortar/Mutilar):** O termo usado no v. 12. Longenecker e George discutem o sentido de castração física.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Longenecker: Fornece o contexto histórico mais rico sobre o versículo 12 (“que se castrem”). Ele conecta isso ao culto de Cibele (Magna Mater) na Ásia Menor, onde sacerdotes se castravam em êxtase religioso. Ele sugere que Paulo está ironicamente dizendo que, se eles querem cortar a carne para serem religiosos, deveriam fazer como os pagãos de Cibele e ir até o fim (Longenecker, “Circumcision or the Cross”).
- George: Destaca a aplicação pastoral da metáfora do “fermento” (v. 9). Ele aplica isso à disciplina eclesiástica, notando que a tolerância ao erro doutrinário (Gálatas) é tão perigosa quanto a tolerância ao erro moral (Coríntios), citando a proibição do fermento na Páscoa (George, “Circumcision or the Cross”).
- Schreiner: Foca na acusação de inconsistência contra Paulo (v. 11). Ele sugere que os oponentes acusavam Paulo de pregar a circuncisão (talvez citando o caso de Timóteo, Atos 16:3) para agradar judeus, mas Paulo refuta isso apontando sua perseguição atual. Se ele pregasse a circuncisão, a “ofensa da cruz” cessaria (Schreiner, “Explanation of the Text 5:11a”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Identidade do Perturbador (v. 10): Paulo usa o singular (“aquele que vos perturba”). Longenecker discute se isso se refere a um líder específico dos judaizantes, ou é uma referência velada ao diabo, mas conclui que provavelmente se refere a um líder humano (Longenecker, “Circumcision or the Cross”). Schreiner argumenta que o singular é genérico, denotando os adversários como um todo, e não um indivíduo específico conhecido por Paulo (Schreiner, “Explanation of the Text 5:10b-c”).
- Natureza do v. 12 (Castração): George defende a linguagem “crua” de Paulo como zelo pelo evangelho, citando Lutero sobre o direito de amaldiçoar quando a Palavra está em jogo (George, “Circumcision or the Cross”). Schreiner vê isso como uma exclusão sarcástica: ao se mutilarem, eles se tornariam como pagãos excluídos da assembleia de Deus (Dt 23:1), ironicamente cortando-se do povo de Deus ao tentar garantir sua entrada nele (Schreiner, “Explanation of the Text 5:12”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Deuteronômio 23:1: Longenecker e Schreiner identificam este texto como o pano de fundo para a ironia do v. 12. A lei exclui da assembleia quem tem os órgãos genitais mutilados; Paulo sugere que a circuncisão extremada (castração) os colocaria sob a maldição da própria lei que defendem.
5. Consenso Mínimo
- A mensagem da circuncisão não vem de Deus (“aquele que vos chama”), e a cruz de Cristo é inerentemente ofensiva porque nega qualquer capacidade humana de auto-salvação.
📖 Perícope: Versículos 5:13-15 (Liberdade como Serviço)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ** Aphormē (Ocasião/Base de operações):** Longenecker explica que era um termo militar (“cabeça de ponte” ou base de operações) usado para um ataque. A carne usa a liberdade como base para lançar um ataque pecaminoso (Longenecker, “The Temptation of License”).
- ** Douleuete (Servi):** George nota o paradoxo: fomos libertados da escravidão (da lei) para nos tornarmos escravos (uns dos outros por amor). A liberdade cristã não é autonomia (George, “The Service of Love”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Longenecker: Oferece uma distinção precisa entre liberdade política/psicológica e a liberdade paulina. Ele argumenta que a liberdade em Gálatas é especificamente “liberdade para”, não apenas “liberdade de”. Ele vê o v. 13 como a transição crucial da teologia para a ética (Longenecker, “The Call to Liberty”).
- George: Traz uma rica aplicação sobre a identidade do “próximo” (v. 14), usando a parábola do Bom Samaritano e citando H. Greeven: “Não se define o vizinho; a pessoa apenas é um vizinho” (George, “The Law of Love”).
- Schreiner: Resolve a aparente contradição entre Paulo rejeitar a lei (v. 4) e pedir o cumprimento da lei (v. 14). Ele distingue entre “fazer” (poiein - v. 3) a lei, que é um esforço de justificação, e “cumprir” (plēroun - v. 14) a lei, que é o fruto espontâneo do Espírito. Cristãos não “fazem” a lei, eles a “cumprem” através do amor (Schreiner, “Explanation of the Text 5:14”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Papel da Lei (v. 14):
- George (Reformado Clássico): Enfatiza a continuidade da Lei Moral. A lei cerimonial acabou, mas o Decálogo resumido no amor permanece como padrão ético (George, “The Law of Love”).
- Schreiner (Nova Aliança): Enfatiza a descontinuidade. A lei mosaica como aliança acabou inteiramente. O “cumprimento” não é obediência à Torá como tal, mas viver a “lei de Cristo”, onde o amor (fruto do Espírito) atinge o alvo para o qual a lei apontava, sem estar “sob” ela (Schreiner, “Theology in Application: The True Purpose of OT Law”).
- Longenecker: Vê o cumprimento como o crente, capacitado pelo Espírito, cumprindo a intenção da lei, citando Romanos 8:4 (Longenecker, “The Law of Love”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Levítico 19:18: Todos citam este texto como a base do v. 14. Longenecker nota que Paulo omite a primeira parte do Shema (amor a Deus) não para diminuí-la, mas porque o amor ao próximo é a prova visível do amor a Deus (Longenecker, “The Law of Love”).
5. Consenso Mínimo
- A liberdade cristã não é uma licença para o pecado, mas é paradoxalmente realizada através do serviço amoroso ao próximo, o que cumpre a essência da lei divina.
📖 Perícope: Versículos 5:16-26 (O Espírito contra a Carne)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ** Sarx (Carne):**
- Longenecker: Natureza humana caída, centro do orgulho e auto-vontade. Não apenas o corpo físico (Longenecker, “The Temptation of License”).
- Schreiner: Define em termos de história da redenção: a “velha era”, a identidade em Adão. Não é a parte material do homem, mas o homem todo orientado contra Deus (Schreiner, “Explanation of the Text 5:16”).
- ** Pharmakeia (Feitiçaria):** Longenecker detalha que o termo original significa uso de drogas e estava ligado a práticas ocultas e abortivas no mundo antigo (Longenecker, “A Catalog of Evil”). Schreiner foca no aspecto de idolatria e manipulação espiritual (Schreiner, “Explanation of the Text 5:20a”).
- ** Eritheia (Ambição egoísta/Facções):** Longenecker traça a origem política da palavra, significando “busca de cargos” ou intriga eleitoral (Longenecker, “A Catalog of Evil”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Longenecker: Faz uma análise estrutural detalhada dos catálogos de virtudes e vícios, notando que as “obras” da carne são plurais e caóticas, enquanto o “fruto” do Espírito é singular e harmonioso. Ele classifica os vícios em quatro categorias: sexuais, religiosos, sociais e intemperança (Longenecker, “Virtues and Vices?”).
- George: Fornece ilustrações históricas vívidas, como a luta de Jerônimo no deserto contra pensamentos luxuriosos, para ilustrar que a batalha Carne/Espírito continua mesmo em isolamento monástico. Ele define prautēs (mansidão) não como fraqueza, mas como “força sob controle”, exemplificada por Cristo limpando o templo (George, “Conflict and Victory” & “The Fruit of the Spirit”).
- Schreiner: Oferece uma interpretação exegética rigorosa da cláusula hina mē (“para que não façais”) no v. 17. Ele rejeita a visão pessimista (o Espírito nos impede de fazer o bem) e a visão de empate. Ele argumenta que a cláusula indica propósito: o Espírito se opõe à carne para que não sejamos dominados por ela. Ele vê uma promessa de vitória substancial (Schreiner, “Explanation of the Text 5:17c-d”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
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O Conflito do v. 17:
- George: Vê um paralelo com Romanos 7. O conflito é intenso e contínuo; o crente não pode fazer o bem que deseja perfeitamente (George, “Conflict and Victory”).
- Schreiner: Distingue de Romanos 7 (que não menciona o Espírito). Ele é mais otimista: o v. 16 (“não satisfareis”) e v. 18 (“não estais sob a lei”) garantem que, embora haja luta, o crente liderado pelo Espírito não vive em derrota perpétua (Schreiner, “Explanation of the Text 5:17c-d”).
- Longenecker: Vê a vida no Espírito como uma “terceira via” acima do legalismo e da libertinagem, enfatizando que a vitória vem de caminhar (processo contínuo) no Espírito (Longenecker, “Conflict and Victory”).
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A “Lei” no v. 23b (“Contra estas coisas não há lei”):
- Longenecker: Vê como uma litotes (subavaliação retórica). Paulo está dizendo ironicamente que a lei não pode condenar essas virtudes, pois elas cumprem a intenção da lei (Longenecker, “Virtues and Vices?”).
- Schreiner: Sugere que significa que a lei não pode produzir essas virtudes; elas estão numa esfera onde a lei é irrelevante porque o Espírito já realizou o que a lei apenas exigia (Schreiner, “Explanation of the Text 5:23b”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 63:11-15: Schreiner sugere que o conceito de ser “guiado” (agesthe) pelo Espírito (v. 18) ecoa a condução de Israel pelo deserto pelo Espírito de Deus em Isaías, marcando um novo Êxodo (Schreiner, “Explanation of the Text 5:18”).
5. Consenso Mínimo
- A ética cristã não é produzida por regras (lei) nem por esforço humano natural (carne), mas é o resultado orgânico e sobrenatural (fruto) da habitação do Espírito Santo na vida do crente.