Análise Comparativa: Gálatas Capítulo 4

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

Longenecker, R. N. (1990). Galatians. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson. George, T. (1994). Galatians. New American Commentary (NAC). Broadman & Holman. Schreiner, T. R. (2010). Galatians. Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (ZECNT). Zondervan. (Nota: O texto-fonte fornecido para a terceira análise pertence a Thomas R. Schreiner, da série ZECNT, e não a F.F. Bruce. A análise abaixo reflete fielmente o material textual fornecido no caderno).

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Longenecker, R. N. (1990). Galatians. Word Biblical Commentary (WBC).

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica com forte ênfase na Análise Retórica Greco-Romana. Longenecker situa a epístola dentro das convenções literárias e retóricas do primeiro século, identificando estruturas forenses e deliberativas.
    • Metodologia: O autor emprega uma exegese técnica focada na filologia e na estrutura formal do argumento. Ele classifica Gálatas 3:1–4:11 como a probatio (provas/argumentos) da carta e 4:12–6:10 como a exhortatio (seção de pedidos/exortação). Sua abordagem busca paralelos no judaísmo do Segundo Templo e nas práticas legais romanas (ex: leis de herança e tutela) para elucidar metáforas como paidagogos e epitropos (Longenecker, “The arguments… sets out experiential, scriptural, and theological arguments”).
  • Autor/Obra: George, T. (1994). Galatians. New American Commentary (NAC).

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada/Confessional. George lê o texto através da tradição da Reforma (cita frequentemente Lutero e Calvino), enfatizando a teologia da graça e a justificação pela fé.
    • Metodologia: Sua abordagem é teológico-homilética. Ele se preocupa menos com a estrutura retórica técnica e mais com a aplicação doutrinária e pastoral. Ele integra a exegese histórica com a teologia sistemática, focando na experiência do Espírito e na antítese entre Lei e Graça. Ele interpreta a alegoria de Hagar e Sara não apenas como história, mas como tipologia da batalha espiritual contínua (George, “The Radical Change: From Slavery to Sonship”).
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2010). Galatians. Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (ZECNT).

    • Lente Teológica: História da Salvação (Heilsgeschichte) e Teologia Bíblica. Schreiner foca na descontinuidade entre a era da Lei (Antiga Aliança) e a era de Cristo (Nova Aliança).
    • Metodologia: Utiliza análise do discurso e fluxo de pensamento. Sua exegese rastreia o movimento lógico do argumento de Paulo, focando na transição de “menores” para “filhos”. Ele lida extensivamente com o conceito de escravidão versus filiação e defende uma leitura de “Alegoria Tipológica” para o final do capítulo 4, rejeitando alegorias arbitrárias em favor de uma leitura enraizada na narrativa do Antigo Testamento (Schreiner, “Argument from Slavery to Sonship”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Longenecker: A adoção divina transfere o crente da escravidão sob os rudimentos do mundo para a maturidade filial, onde a Lei perde sua função supervisora.

    • Argumento: Longenecker argumenta que Paulo utiliza convenções retóricas forenses para provar que a Lei era temporária. Ele destaca que a metáfora da tutela em Gálatas 4:1-7 ilustra a inferioridade da existência sob a Lei, comparável à escravidão espiritual. Ele define os stoicheia (rudimentos) não apenas como princípios básicos, mas como poderes espirituais demoníacos ou divindades astrais associadas à Lei e ao paganismo. Na alegoria de Hagar e Sara, ele vê Paulo usando um método ad hominem contra os judaizantes, invertendo a exegese judaica tradicional para mostrar que a liberdade pertence aos filhos da promessa, não aos da lei (Longenecker, “The Believer’s Life not ‘under Law’ but ‘in Christ’: Against Nomism”).
  • Tese de George: A vinda de Cristo inaugura uma mudança radical de status, onde a presença do Espírito Santo clamando “Aba, Pai” é a prova suprema da nossa adoção e liberdade.

    • Argumento: George enfatiza a iniciativa divina (“Deus enviou seu Filho… Deus enviou o Espírito”). Ele interpreta a transição histórica e existencial de escravos para filhos como uma libertação da maldição da Lei. Para George, o retorno à Lei (Gálatas 4:8-11) é teologicamente equivalente a um retorno ao paganismo, pois ambos são sistemas de escravidão que negam a suficiência de Cristo. Ele defende fortemente a doutrina da adoção (huiothesia) como o ápice da soteriologia paulina neste capítulo, conectando a filiação diretamente à experiência regeneradora do Espírito Santo (George, “Because you are sons, God sent the Spirit of his Son into our hearts”).
  • Tese de Schreiner: A história da salvação culminou em Cristo, libertando os crentes da era da Lei (escravidão) para a era do Espírito (filiação), tornando insensato qualquer retorno às práticas mosaicas.

    • Argumento: Schreiner foca na cronologia redentora. Ele argumenta que Gálatas 4:1-7 reitera o argumento anterior sob a ótica da escravidão. Ele sustenta que estar “sob a lei” é estar “sob o pecado” e “sob os elementos do mundo”. Schreiner define a passagem de Hagar e Sara (4:21-31) como uma “Alegoria Tipológica”: embora Paulo use o termo alegoria, a interpretação está enraizada na correspondência histórica e teológica entre a tentativa humana (carne/Ismael) e a promessa divina (Espírito/Isaque). Ele vê o apelo de Paulo em 4:12 (“Tornai-vos como eu”) como o eixo central da exortação para viver livre da Lei (Schreiner, “Believers are no longer enslaved under the elements of the world but have been freed by Christ Jesus”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Longenecker, R. N.Visão do George, T.Visão do Schreiner, T. R.
Palavra-Chave/Termo GregoStoicheia tou kosmou (Gl 4:3): Define como “poderes espirituais” ou demônios. Rejeita a visão de apenas “princípios básicos”, argumentando que para Paulo, tanto o paganismo quanto o legalismo judaico estavam sob o domínio de espíritos elementares demoníacos (Longenecker, “The Elements as Spiritual Powers”).Abba (Gl 4:6): Destaca como o clamor de intimidade filial. Define não apenas como uma fórmula litúrgica, mas como a prova experiencial da adoção, ligando o crente ao próprio uso de Jesus e indicando a natureza bilíngue da adoração primitiva (George,).Nēpios (Gl 4:1): Traduz como “menor de idade” (minor) em vez de “infantil”. Enfatiza o status legal de incapacidade de herdar, comparando a condição do herdeiro sob a lei à de um escravo, aguardando a maioridade na história da salvação (Schreiner,).
Problema Central do TextoNomismo vs. Legalismo. Argumenta que os oponentes não negavam Cristo, mas queriam adicionar a Lei como necessária para a perfeição (Nomismo). O erro dos gálatas seria trocar a liberdade pela escravidão de um sistema supervisionado por anjos/demônios (Longenecker, “Against Nomism”).Sincretismo e Apostasia. Vê o retorno à Lei (observância de dias e festas) como teologicamente equivalente a um retorno ao paganismo e idolatria. O problema é misturar a fé em Cristo com rituais que negam a suficiência da cruz (George,,).Anacronismo na História da Salvação. O problema é cronológico e teológico: os gálatas querem voltar a viver no “tempo da menoridade” e da escravidão (sob a Lei) quando a “plenitude do tempo” já chegou com Cristo (Schreiner,,).
Resolução TeológicaAnálise Retórica e Forense. Resolve o texto demonstrando que a Lei era um contrato temporário (430 anos depois) que não anula a promessa anterior. A vinda de Cristo encerra a função pedagógica e condenatória da Lei (Longenecker, “The Purpose of the Law”).Iniciativa Trinitária. A solução é a ação soberana de Deus: “Deus enviou seu Filho” (redenção) e “Deus enviou o Espírito” (regeneração). A adoção é o ápice da soteriologia, garantindo acesso direto ao Pai sem mediadores legais (George,,).Cumprimento Escatológico. A solução é a chegada da “Jerusalém de cima” e a nova criação. Cristo libertou os crentes da tirania do pecado e da Lei, inaugurando a era do Espírito onde a herança é recebida pela fé, não por descendência física (Schreiner,,).
Tom/EstiloTécnico e Histórico-Crítico. Foca na estrutura retórica grega (probatio, exhortatio) e paralelos com o direito romano e judaico.Pastoral e Reformado. Ênfase na aplicação devocional, citando Lutero e Calvino, com foco na experiência espiritual e na “batalha pela alma”.Exegetical e Estrutural. Foca no fluxo lógico do argumento, na estrutura do texto e na teologia bíblica (conexões com Êxodo/Isaías).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Longenecker, R. N. Este autor oferece o background histórico mais robusto, especialmente ao analisar as leis de herança e tutela no mundo greco-romano e judaico para explicar as metáforas de Paulo em Gálatas 4:1-2. Ele também fornece uma análise detalhada das convenções retóricas antigas, ajudando a entender como Paulo estruturou sua persuasão (Longenecker, “The Believer’s Life not ‘under Law’”).
  • Melhor para Teologia: George, T. Destaca-se pela profundidade doutrinária, conectando a exegese de Gálatas 4 com a teologia sistemática (Trindade, Cristologia e Soteriologia). Sua análise da adoção (huiothesia) e do clamor “Abba” oferece uma compreensão rica da dimensão experiencial e afetiva da teologia paulina, enraizada na tradição da Reforma (George,,).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Gálatas 4, deve-se utilizar a estrutura de História da Salvação de Schreiner como esqueleto cronológico (a transição de escravos para filhos na plenitude do tempo), preenchê-la com os dados de background histórico-cultural de Longenecker (sobre os stoicheia e as leis de tutela), e aplicar o conteúdo através da lente teológico-pastoral de George, que enfatiza a obra da Trindade e a liberdade cristã. Essa combinação impede tanto o anacronismo teológico quanto o academicismo árido.

Adoção (Huiothesia), Rudimentos do Mundo (Stoicheia), História da Salvação e Alegoria de Hagar e Sara são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 4:1-7 (Herdeiros e a Maioridade Espiritual)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Nēpios (v. 1): Schreiner traduz como “menor de idade” (minor), argumentando que o termo não se refere a um bebê, mas a alguém legalmente incapaz de herdar, equiparado funcionalmente a um escravo (Schreiner, “Explanation of the Text 4:1”). Longenecker concorda, situando o termo no contexto da lei de tutela, onde o herdeiro é o “jovem mestre” mas vive sob regras restritivas (Longenecker, “Our Past Condition”).
  • Epitropos e Oikonomos (v. 2): Longenecker realiza uma análise técnica, associando epitropos (guardiões) à supervisão pessoal e oikonomos (administradores) à gestão de propriedades, buscando paralelos no direito romano e na prática judaica de apotropos (Longenecker, “Our Past Condition”). Schreiner observa que Paulo pode estar mesclando costumes greco-romanos com tradições do Êxodo, sem tentar retratar uma prática legal específica com precisão técnica (Schreiner, “Explanation of the Text 4:2”).
  • Stoicheia tou kosmou (v. 3): Longenecker define fortemente como “espíritos elementares do universo”, rejeitando a visão de apenas “princípios básicos” (ABCs), alinhando-se à visão de poderes demoníacos que escravizam (Longenecker, “The Elements as Spiritual Powers”). Schreiner reconhece o debate feroz e sugere que a definição mais comum em grego são os “elementos físicos” (terra, ar, fogo, água), mas admite que, no contexto paulino, metaforicamente denota a “velha ordem da criação” governada por forças demoníacas (Schreiner, “Explanation of the Text 4:3”). George nota que pode significar os ABCs da religião ou espíritos astrais, concluindo que para Paulo, tanto o legalismo judaico quanto o paganismo são formas de escravidão a estes elementos (George, “The Radical Change”).
  • Abba (v. 6): George destaca o bilinguismo da adoração cristã primitiva e a intimidade filial (George, “The Spirit Within”). Longenecker vê como uma fórmula litúrgica da igreja primitiva, derivada de Jesus (Longenecker, “The Spirit Within”). Schreiner enfatiza que é o termo do próprio Jesus, significando que Deus é o Pai querido (dear Father) (Schreiner, “Explanation of the Text 4:6”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Longenecker: Oferece a análise mais detalhada sobre o contexto jurídico da “tutela”, discutindo as leis romanas onde o menor ficava sob um tutor até os 14 anos e um curator até os 25, embora note que a analogia de Paulo onde o pai define o tempo (prothesmia) difere da lei romana fixa, apontando para a soberania divina na “plenitude do tempo” (Longenecker, “Our Past Condition”).
  • George: Traz uma profundidade teológica sobre a Trindade e a Adoção. Ele conecta a huiothesia (adoção) não apenas ao status legal, mas à experiência regeneradora do Espírito, citando Calvino e Lutero para enfatizar que o Espírito é enviado aos corações para ratificar uma filiação que já existe legalmente (George, “The Spirit Within”).
  • Schreiner: Destaca a conexão com a tradição do Êxodo. Ele sugere que a “nomeação do tempo pelo pai” (v. 2) se encaixa melhor nas tradições do Êxodo (onde Israel é adotado) do que no direito romano estrito. Ele vê a “plenitude do tempo” como a realização das promessas salvíficas na história da redenção (Schreiner, “Explanation of the Text 4:2-4”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A natureza dos Stoicheia: Existe uma tensão na definição precisa. Longenecker é enfático na interpretação demonológica/espiritual (“spirits of the universe”). Schreiner é mais cauteloso, preferindo “elementos constitutivos do mundo” usados metaforicamente para a velha ordem, embora admita a regência demoníaca. A divergência é histórica e lexical.
  • A Cronologia da Adoção e do Espírito (v. 6): O texto diz “Porque sois filhos, Deus enviou o Espírito”. George e Schreiner concordam que não se deve buscar uma ordem cronológica rígida (primeiro filho, depois Espírito), mas lógica: o Espírito confirma e autentica a filiação. Schreiner argumenta contra a ideia de que o envio do Espírito é subsequente à filiação no tempo; é a prova dela (Schreiner, “Explanation of the Text 4:6”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner identifica ecos de Isaías 48:16-17 (o envio do Messias e do Espírito) e temas do “segundo Êxodo” na linguagem de redenção e envio (Schreiner, “Explanation of the Text 4:6”).
  • George conecta a adoção à eleição de Israel (Oséias 11:1, “chamei meu filho”) (George, “The Radical Change”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a “plenitude do tempo” (v. 4) marca uma intervenção soberana e escatológica de Deus na história, encerrando a era da Lei e inaugurando a era da filiação através de Cristo.

📖 Perícope: Versículos 4:8-11 (O Perigo do Retrocesso)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Morfōthē (v. 19 - antecipado no v. 11 pelo contexto de esforço): George destaca o termo médico para o desenvolvimento do feto (George, “His Love for Them”).
  • Stoicheia (v. 9): Repetição do termo. Aqui, qualificados como “fracos e pobres”. Longenecker afirma que são “deuses falsos” (sham gods) que perderam seu poder, mas ainda tentam escravizar (Longenecker, “The Danger of Turning Back”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Longenecker: Analisa profundamente a frase “conhecer a Deus, ou antes, ser conhecido por Deus” (v. 9). Ele conecta isso ao conceito hebraico de yada (conhecimento como intimidade/eleição) e cita a Confissão de Princípios Batista do Sul para ilustrar a iniciativa divina na salvação, prevenindo tanto o moralismo quanto o misticismo (Longenecker, “The Danger of Turning Back”).
  • George: Foca na apostasia. Ele interpreta a observância de “dias, meses, tempos e anos” (v. 10) não como uma proibição de feriados cristãos (como Natal), mas como a rejeição de um sistema onde o calendário ritual é necessário para a salvação. Ele vê isso como um retorno à escravidão pagã (George, “The Danger of Turning Back”).
  • Schreiner: Destaca o choque teológico. Ele nota que Paul equipara a observância da Lei Mosaica (calendário judaico) ao paganismo. Para Paulo, voltar para a Lei é converter-se de volta aos ídolos. Schreiner enfatiza o quão ofensivo isso seria para os judaizantes (Schreiner, “Explanation of the Text 4:9”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza dos “Dias e Meses”: George e Longenecker veem isso claramente como o calendário judaico (sábado, lua nova, festas). Schreiner nota que alguns estudiosos sugerem um calendário pagão, mas rejeita isso, concordando que se trata do calendário do AT, mas a fricção está na equação teológica: Observar o Yom Kippur é igual a adorar Zeus? Schreiner diz “sim” na teologia paulina (rejeição de Cristo), enquanto Longenecker foca na submissão aos stoicheia (poderes demoníacos) que estão por trás de ambas as religiões sem Cristo.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner vê uma possível alusão a Gênesis 1:14 nas palavras “estações, dias e anos” (Schreiner, “Explanation of the Text 4:10”).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que Paulo considera o retorno às práticas legalistas não como um avanço na piedade, mas como uma regressão espiritual equivalente à idolatria anterior dos gálatas.

📖 Perícope: Versículos 4:12-20 (Apelo Pessoal e Pastoral)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Zēloō (v. 17): Longenecker explora o uso da palavra na linguagem de “cortejo” (courtship), onde os judaizantes estão “cortejando” os gálatas para excluí-los de Paulo (Longenecker, “His Love for Them”).
  • Ekptyo (v. 14): Literalmente “cuspir”. Longenecker discute se isso é metafórico (“desprezar”) ou literal (cuspir para afastar o mau-olhado ou demônios de epilepsia) (Longenecker, “His Labors among Them”).
  • Ōdinō (v. 19): “Dores de parto”. Schreiner nota a mistura de metáforas: Paulo é o homem em trabalho de parto, mas depois Cristo é quem está sendo formado (Schreiner, “Explanation of the Text 4:19”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Longenecker: Investiga a doença de Paulo (v. 13). Ele detalha as teorias: Malária (Ramsay), Epilepsia (Klausner/Wrede - ligado ao verbo “cuspir”), e Oftalmia (devido à referência aos olhos no v. 15). Ele conclui que foi algo fisicamente repulsivo, mas que os gálatas o receberam como um anjo (Longenecker, “His Labors among Them”).
  • George: Enfatiza a metáfora maternal. Paulo não age apenas como pai (comum nas cartas), mas como mãe em trabalho de parto novamente. George vê isso como angústia pastoral suprema para que a imagem de Cristo, deformada pela heresia, seja restaurada (George, “His Love for Them”).
  • Schreiner: Foca na estrutura retórica do “Argumento da Amizade”. O imperativo “Tornai-vos como eu” (v. 12) é central: Paulo se tornou como um gentio (livre da lei), então eles devem permanecer como gentios (livres da lei) e não se tornarem judeus (Schreiner, “Explanation of the Text 4:12”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Doença” (v. 13): O debate é histórico-médico. Longenecker apresenta as opções clínicas detalhadas. Schreiner é cético quanto ao diagnóstico preciso, chamando-o de “território de conjectura” (Schreiner, “Explanation of the Text 4:13”). George foca menos na diagnose e mais no fato de que a doença foi uma “provação” que não impediu a evangelização.
  • “Onde está aquela felicidade?” (v. 15): Schreiner interpreta makarismos como uma “bênção” redentiva do Espírito, enquanto Longenecker tende a ver como um estado emocional de alegria e satisfação mútua que foi perdido.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner conecta as “dores de parto” (v. 19) à linguagem escatológica do AT (Is 13:6-8; Jr 6:24) sobre o Dia do Senhor e o nascimento da nova era (Schreiner, “Explanation of the Text 4:19”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que houve uma mudança drástica na relação: de uma recepção amorosa e sacrificial (olhos) para uma suspeita hostil, causada unicamente pela influência dos agitadores externos.

📖 Perícope: Versículos 4:21-31 (A Alegoria de Hagar e Sara)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Allēgoroumena (v. 24): Longenecker nota que é a única ocorrência no NT. Ele debate se Paulo está criando a alegoria ou se está respondendo a uma interpretação alegórica já usada pelos oponentes (ad hominem) (Longenecker, “The Figurative Meaning”). Schreiner prefere o termo híbrido “Alegoria Tipológica”, pois “alegoria” pura ignora a história, e Paulo mantém a raiz histórica (Schreiner, “Explanation of the Text 4:24”).
  • Sustoichei (v. 25): “Corresponde a” ou “está na mesma coluna”. Termo militar ou de listas (Longenecker, “The Figurative Meaning”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Longenecker: Desenvolve a tese do Argumento Ad Hominem. Ele sugere que os judaizantes usavam a história de Abraão para dizer que a Lei (Sinai) era o cumprimento da promessa. Paulo inverte o argumento deles: Hagar não é a mãe dos gentios (como os judeus pensavam), mas a mãe do judaísmo legalista (Sinai/Jerusalém atual). Ele fornece detalhes geográficos sobre a associação de Hagar com o Monte Sinai na Arábia (conexão etimológica Hagar/hadjar = rocha) (Longenecker, “The Figurative Meaning”).
  • George: Foca na Tipologia da Liberdade. Para George, o clímax é o imperativo do v. 30: “Lança fora a escrava”. Ele interpreta isso não como antissemitismo, mas como a impossibilidade de coexistência entre a teologia da graça e a teologia das obras. Ele cita Lutero: “A Lei deve ser lançada fora da consciência” (George, “The Personal Application”).
  • Schreiner: Enfatiza a Escatologia Inaugurada. A “Jerusalém de cima” (v. 26) não é apenas futura, mas invadiu o presente. Os cristãos já são cidadãos dessa cidade livre. Ele vê uma forte conexão com Isaías 54:1 (v. 27), onde a mulher estéril (Sara/Igreja/Gentios) tem mais filhos que a casada (Israel físico sob a lei) (Schreiner, “Explanation of the Text 4:26-27”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Alegoria ou Tipologia? Longenecker admite que é uma “alegoria explícita”, mas “palestina” (não alexandrina/filônica), usada para fins polêmicos. Schreiner insiste que é “Tipologia” com elementos alegóricos, pois a conexão Hagar-Sinai não é histórica, mas a conexão Isaque-Igreja é histórica/redentiva.
  • O Texto de Hagar/Sinai (v. 25): Existe um debate textual sobre a inclusão da palavra “Hagar” no v. 25. Longenecker e Schreiner discutem as variantes, mas ambos aceitam a leitura que inclui Hagar para manter a força do argumento associativo com a Arábia.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 16 e 21: A história base.
  • Isaías 54:1: Citado explicitamente no v. 27. Schreiner explica que a esterilidade de Sara é revertida na frutificação da igreja gentílica, cumprindo a promessa do retorno do exílio (Schreiner, “Explanation of the Text 4:27”).
  • Gênesis 21:10: “Lança fora a escrava”. Longenecker sugere que os judaizantes usavam este versículo para expulsar os gentios incircuncisos, e Paulo o devolve como um bumerangue para expulsar os legalistas (Longenecker, “The Personal Application”).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que Paulo inverte radicalmente a auto-compreensão judaica tradicional: os judeus que confiam na Lei são, ironicamente, os “Ismaelitas” espirituais (escravos), enquanto os cristãos (gentios e judeus) que confiam em Cristo são os verdadeiros descendentes de Isaque (livres).