Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Coríntios 7
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
- Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: David E. Garland, Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Exegética com ênfase sócio-histórica.
- Metodologia: Garland emprega uma abordagem de “leitura em espelho” (mirror-reading) para reconstruir a situação social de Corinto. Ele foca intensamente na retórica da carta enviada pelos coríntios a Paulo, tratando o capítulo 7 não como um tratado abstrato sobre casamento, mas como uma resposta corretiva a uma ascese mal orientada e influenciada por fatores culturais e filosóficos locais (Garland, “V. Instructions about Sexual Relations…”).
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Autor/Obra: Gordon D. Fee, The New International Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Pentecostal, com forte ênfase na Pneumatologia e Escatologia Paulina.
- Metodologia: Fee aborda o texto focando na tensão entre a “espiritualidade” distorcida dos coríntios (uma escatologia ultra-realizada) e a escatologia do “já e ainda não” de Paulo. Ele lê o capítulo 7 como uma polêmica contra uma elite “espiritual” (pneumáticos) que depreciava o corpo e o casamento em nome de uma existência angelical presente (Fee, “A. Marriage and Related Matters”).
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Autor/Obra: Anthony C. Thiselton, The New International Greek Testament Commentary.
- Lente Teológica: Histórica/Filosófica (Hermenêutica da Teoria dos Atos de Fala e História da Recepção).
- Metodologia: Thiselton realiza uma exegese gramatical rigorosa combinada com uma análise exaustiva da história da interpretação (Patrística e Reforma) e filosofia da linguagem. Ele busca entender como a linguagem de Paulo funciona pastoralmente em “áreas cinzentas”, enfatizando a mutualidade e a adaptação pastoral sem impor regras rígidas onde o Senhor não o fez (Thiselton, “IV. Response to Inquiries…“).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Garland (Autor A): Paulo não é antimaterrimônio, mas está combatendo uma posição coríntia específica que via a abstinência sexual como uma virtude superior ou “boa” em si mesma.
- Argumento: Garland argumenta que Paulo “cita a posição coríntia apenas para corrigir sua aplicação perigosa” (Garland, “Exegesis and Exposition [7:1]”). Ele sustenta que o princípio “permaneça como está” visa evitar que os crentes busquem mudanças de status social (casamento, circuncisão, escravidão) como meio de elevação espiritual.
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Tese de Fee (Autor B): O problema em Corinto não é a libertinagem (como em 1 Co 6), mas um ascetismo espiritualista impulsionado por “mulheres escatológicas” e pneumáticos que criam que o casamento pertencia a esta era passageira.
- Argumento: Fee defende que a teologia dos coríntios sobre o “Espírito” e “sabedoria” os levou a uma atitude de “por que não podemos?” em relação à dissolução de casamentos (Fee, “III. In Response to the Corinthian Letter”). Paulo responde com uma escatologia correta: o tempo é curto, mas a existência corpórea ainda é válida e o casamento não é pecado.
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Tese de Thiselton (Autor C): O capítulo é um exercício de sensibilidade pastoral aplicada a casos específicos, onde Paulo equilibra a escatologia com a ordem da criação e a mutualidade, rejeitando tanto o ascetismo rigoroso quanto a lassidão.
- Argumento: Thiselton destaca que Paulo lida com “áreas cinzentas que convidam a extrema sensibilidade pastoral”, contrastando o tom deste capítulo com a condenação clara dos capítulos 5 e 6 (Thiselton, “IV. Response to Inquiries…”). Ele enfatiza que Paulo vê o celibato e o casamento como charismata (dons) distintos, sem hierarquia moral intrínseca.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Garland (Autor A) | Visão de Fee (Autor B) | Visão de Thiselton (Autor C) |
|---|---|---|---|
| 7:1b “Bom seria… não tocar” | Slogan Coríntio. Garland vê como uma citação direta da carta deles, refletindo uma visão de que a abstinência era uma virtude distintiva ou moralmente superior (Garland, “Exegesis and Exposition [7:1]”). | Slogan Coríntio. Fee concorda que é uma citação, provavelmente usada pelos “pneumáticos” para justificar casamentos espirituais ou divórcio (Fee, “a. No Abstinence within Marriage”). | Slogan Coríntio. Confirma o consenso moderno, apoiado pela estrutura retórica e paralelos em 1 Co 8 (Thiselton, “1. Marriage and Marital Intimacy”). |
| 7:21 “Fazer uso” (chresai) | Positivo (Liberdade). Se o escravo pode se tornar livre, deve aproveitar a oportunidade. Paulo não quereria “lançar um laço” (7:35) sobre os escravos mantendo-os na escravidão (Garland, “Exegesis and Exposition [7:21]”). | Positivo (Liberdade). Argumenta vigorosamente contra a visão de que o escravo deve “fazer uso da escravidão”, citando razões léxicas e o contexto de manumissão romana (Fee, “2. The Guiding Principle”). | Complexo/Positivo. Reconhece a ambivalência, mas inclina-se para a liberdade ou, seguindo Dale Martin, uma redefinição de status onde a escravidão social é irrelevante para a salvação (Thiselton, “5. Divine Calling…“). |
| 7:36 Hyperakmos / Parthenos | Noivo e Desejo Sexual. Refere-se a um homem noivo com forte desejo sexual (“over the top”). Rejeita a visão pai/filha. O homem deve casar se não tiver o dom da continência (Garland, “Exegesis and Exposition [7:36–38]”). | Noivo e Desejo Sexual. Parthenos refere-se à noiva. Hyperakmos refere-se às “paixões fortes” do homem. O foco é o casal de noivos pressionado pelos ascetas (Fee, “c. But Marriage Is No Sin”). | Tensão Indevida. Traduz como “undue strain” (tensão indevida). Rejeita “oversexed” (Barrett) para não julgar negativamente o desejo. Aplica-se a casais noivos enfrentando a realidade da atração (Thiselton, ““Parthenos” and “Hyperakmos””). |
| Problema Central | Ascetismo influenciado por filosofia helenística, debates médicos e cultos locais (Garland, “Additional Notes 7:1”). | Espiritualidade elitista (“Pneumáticos”) e uma escatologia ultra-realizada que negava a existência corpórea futura (Fee, “A. Marriage and Related Matters”). | Pastoral em “áreas cinzentas” e a necessidade de equilibrar dons (charismata) com as realidades da vida cotidiana e a escatologia (Thiselton, “IV. Response to Inquiries…”). |
| Tom/Estilo | Sócio-Retórico. Foca na reconstrução da carta dos coríntios e no debate retórico. | Teológico-Polêmico. Foca no combate doutrinário contra a falsa espiritualidade dos coríntios. | Pastoral-Acadêmico. Foca na história da interpretação e na nuance linguística e pastoral. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Thiselton (Autor C) e Garland (Autor A). Garland é excelente para reconstruir o cenário imediato da carta de Corinto e o debate cínico-estóico (via Deming). No entanto, Thiselton fornece o background mais rico em termos de história social romana (leis de casamento, expectativas de viúvas) e história da recepção patrística, oferecendo uma visão mais densa das implicações sociais.
- Melhor para Teologia: Fee (Autor B). Gordon Fee é insuperável na conexão dos problemas éticos de Corinto com a teologia paulina do Espírito e da Escatologia. Ele demonstra brilhantemente como a visão distorcida do “Fim” pelos coríntios gerou o erro ascético, e como a correção de Paulo é fundamentalmente teológica, não apenas pragmática.
- Síntese: Para uma compreensão holística de 1 Coríntios 7, deve-se adotar a estrutura teológica de Fee — reconhecendo que o problema é uma “espiritualidade” mal aplicada que nega a bondade da criação e do corpo. Dentro dessa estrutura, as reconstruções sócio-históricas de Garland (especialmente sobre noivos e escravidão) fornecem a clareza situacional necessária. Finalmente, a exegese de Thiselton deve ser utilizada para refinar as definições léxicas (como hyperakmos e chresai) e aplicar o texto pastoralmente, reconhecendo a distinção crucial que ele faz entre “mandamento do Senhor” e conselho apostólico como um modelo de ética cristã para áreas moralmente complexas.
Pneumáticos, Ascetismo, Escatologia Realizada e Mutualidade são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 1-7 (Sexualidade no Casamento)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:1 Haptesthai (ἅπτεσθαι - “tocar”): Existe unanimidade que este verbo funciona como um eufemismo para “relação sexual”. Garland define como “eufemismo para intercurso sexual” (Garland, “Exegesis and Exposition [7:1]”). Fee confirma, notando que ocorre até 25 vezes na antiguidade grega sempre com este sentido, traduzindo como “ter relações sexuais” (Fee, “1”). Thiselton prefere a tradução “intimidade física” para manter a nuance (Thiselton, “1”).
- 7:1 Kalon (καλόν - “bom”): Garland nota que para os Coríntios o termo denotava um “bem moral superior”, mas Paulo o redefine como “benéfico” ou “vantajoso” (Garland, “Exegesis and Exposition [7:1]”). Fee traduz como “é desejável ou vantajoso”, rejeitando a ideia de “moralmente bom” no sentido absoluto (Fee, “1”).
- 7:3 Opheilē (ὀϕειλή - “dever/dívida”): Thiselton traduz como “o que é devido”, observando que alguns manuscritos posteriores suavizaram para “benevolência devida” (eunoian), uma alteração ascética rejeitada pelos três autores (Thiselton, “3-4”). Fee traduz como “dever conjugal” (Fee, “3-4”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Destaca a estrutura quiástica de 7:2-5 (A-B-C-D-D’-C’-B’-A’), demonstrando que o argumento central de Paulo não é o casamento em si, mas o perigo da porneia (imoralidade) resultante da abstinência forçada (Garland, “A. Sexual Relations within Marriage”).
- [Fee]: Argumenta vigorosamente contra a visão tradicional de que Paulo era um asceta. Fee insiste que a frase “é bom não tocar” é uma citação direta da teologia dos “pneumáticos” de Corinto, que Paulo refuta ao impor a obrigação sexual mútua. Para Fee, Paulo afirma o sexo como “celebração da vida juntos” (Fee, “a. No Abstinence within Marriage”).
- [Thiselton]: Enfatiza a reciprocidade radical nos vv. 3-4 (“o marido à mulher… da mesma forma a mulher ao marido”) como algo distinto no mundo antigo. Ele nota que a “concessão” (v. 6) refere-se estritamente à interrupção temporária do sexo para oração, não ao casamento em si (Thiselton, “3-4”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A “Concessão” (v. 6): A que se refere o “isto” (touto) que Paulo diz ser uma concessão e não mandamento?
- Garland: Argumenta que se refere ao que segue (o desejo de Paulo pelo celibato no v. 7), pois referir-se ao sexo no casamento (v. 2-5) tornaria o sexo uma mera concessão, o que contradiz a ordem de “não privar” (Garland, “Exegesis and Exposition [7:6]”).
- Fee: Discorda e afirma que se refere à abstinência temporária mencionada no v. 5. A concessão é a pausa na vida sexual, não a vida sexual em si (Fee, “6”).
- Thiselton: Concorda com Fee, argumentando que a concessão se aplica à cláusula de “interrupção por consentimento mútuo” (Thiselton, “6”). Veredito: Fee e Thiselton apresentam melhor suporte contextual, evitando a ideia de que o casamento é uma concessão.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 2:18: Garland e Fee veem o slogan coríntio “é bom não tocar…” como uma contradição direta à afirmação de Deus “não é bom que o homem esteja só”. Paulo reafirma o princípio da criação através da obrigação conjugal (Garland, “Exegesis and Exposition [7:1]”; Fee, “1”).
- Êxodo 21:10: Garland conecta a “dívida” (opheilē) aos “direitos conjugais” garantidos na Lei, que os rabinos interpretavam como direito ao sexo (Garland, “Exegesis and Exposition [7:3]”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que 7:1b (“bom seria que o homem não tocasse em mulher”) é um slogan dos coríntios, não a teologia de Paulo, e que a abstinência sexual dentro do casamento é proibida exceto para oração breve e mútua.
📖 Perícope: Versículos 8-9 (Solteiros e Viúvos)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:8 Agamois (ἀγάμοις):
- Fee: Traduz especificamente como “viúvos”, argumentando que o masculino plural agamois pareado com chērais (viúvas) sugere homens que perderam esposas, mantendo a simetria de gênero de Paulo (Fee, “8”).
- Garland: Mantém o sentido geral de “não casados” (solteiros, divorciados, viúvos), rejeitando a especificidade de Fee, pois agamos é usado para mulheres em 7:34 (Garland, “Exegesis and Exposition [7:8]”).
- Thiselton: Inclina-se para a visão majoritária (não casados em geral), mas reconhece a força do argumento de Fee sobre a simetria (Thiselton, “8”).
- 7:9 Pyrousthai (πυροῦσθαι - “abrasar”):
- Todos concordam que significa “queimar de paixão/desejo sexual”. Thiselton e Garland rejeitam explicitamente a interpretação patrística de “queimar no inferno” (Thiselton, “9”; Garland, “Exegesis and Exposition [7:9]”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Nota que a metáfora de “queimar” era comum em romances eróticos gregos e poesia (ex: Xenofonte de Éfeso) para descrever a força irresistível do eros (Garland, “Exegesis and Exposition [7:9]”).
- [Fee]: Enfatiza que “não se conter” (ouk enkrateuontai) não é apenas uma fraqueza, mas refere-se à prática atual de pecado sexual (porneia) por parte desses viúvos; o casamento é o antídoto para o pecado em curso (Fee, “9”).
- [Thiselton]: Traz o contexto social romano onde viúvas eram pressionadas a recasar rapidamente (dentro de um ano) por razões patrimoniais e reprodutivas. O conselho de Paulo para “permanecer como está” era contracultural e libertador (Thiselton, “8”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Quem são os “agamois”?
- A disputa entre Fee (viúvos) e Garland (solteiros em geral) é técnica. Fee argumenta pela estrutura retórica (paralelismo), enquanto Garland apela ao uso léxico mais amplo. Veredito: Garland parece mais seguro linguisticamente, mas a lógica estrutural de Fee é teologicamente atraente.
5. Consenso Mínimo
- O casamento não é pecado, mas uma alternativa legítima e necessária para quem é consumido pelo desejo sexual; o celibato é um dom (charisma), não uma imposição.
📖 Perícope: Versículos 10-16 (Divórcio e Casamentos Mistos)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:10 Chōristhēnai (separar) vs. 7:11 Aphienai (deixar/divorciar):
- Fee nota que Paulo usa verbos diferentes mas intercambiáveis na prática greco-romana, onde a separação física constituía divórcio. Não há distinção técnica rígida (Fee, “10”).
- 7:14 Hagiastai (ἡγίασται - “santificado”):
- Garland: Não é salvação, mas uma “esfera de poder” onde o puro triunfa sobre o impuro, neutralizando a contaminação pagã (Garland, “Exegesis and Exposition [7:14]”).
- Thiselton: Define como “santo” no sentido dinâmico de influência e oportunidade, rejeitando interpretações “quase-físicas” de contágio sagrado (Thiselton, “14”).
- 7:15 Dedoulōtai (δεδούλωται - “escravizado”):
- Fee: Rejeita o “Privilégio Paulino” (liberdade para recasar). Para ele, “não está escravizado” significa apenas que não é obrigado a manter o casamento a todo custo, mas não implica liberdade de novo casamento (Fee, “15”).
- Garland: Aceita a possibilidade de recasamento. Argumenta que na lei judaica o divórcio era comparado à libertação de um escravo; portanto, “não escravizado” implica liberdade total, incluindo recasar (Garland, “Exegesis and Exposition [7:15]”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Aponta a lógica ad absurdum no v. 14: se o cônjuge pagão fosse impuro, os filhos também seriam, o que os coríntios rejeitavam. Ele usa a prática de custódia infantil romana (filhos ficavam com o pai) para mostrar o perigo de a mãe cristã sair do casamento (Garland, “Exegesis and Exposition [7:14]”).
- [Fee]: Argumenta que a ordem de Jesus (v. 10) é citada para combater as “mulheres escatológicas” que queriam divórcio por motivos ascéticos, invertendo a lógica moderna onde se busca divórcio para casar com outro (Fee, “10”).
- [Thiselton]: Analisa a história da recepção do v. 16 (“salvarás teu marido?”). Discute se é “otimista” (fique, pois você pode salvá-lo - Jeremias) ou “pessimista” (separe-se, pois você não pode garantir a salvação). Thiselton prefere a visão “aberta”: tudo está nas mãos de Deus, não gere ansiedade (Thiselton, “16”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Privilégio Paulino (v. 15): O cristão abandonado pode recasar?
- Fee: Não. O texto não trata de recasamento. A “paz” é a ausência de guerra conjugal, não licença para novo nupcial.
- Garland e Thiselton: Sim (provavelmente). Garland argumenta que a metáfora da escravidão implica liberdade total (como na viuvez). Thiselton cita Colin Brown, vendo paralelos com a morte que liberta (Thiselton, “Controversy…”).
- Vencedor: A posição de Garland/Thiselton alinha-se melhor com os documentos de divórcio judaicos e romanos citados (Instone-Brewer), onde a liberdade incluía o direito de recasar.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Esdras 10: Garland sugere que os coríntios podiam estar influenciados pela exigência de Esdras de divorciar-se de esposas pagãs para não “contaminar” a linhagem santa. Paulo reverte essa lógica: a santidade do crente é mais contagiosa que a impureza do pagão (Garland, “C. Instructions…”).
5. Consenso Mínimo
- O cristão não deve iniciar o divórcio; a união mista é legítima e os filhos dela são santos; se o descrente partir, o cristão não deve lutar para manter o vínculo.
📖 Perícope: Versículos 17-24 (A Regra de Permanecer)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:21 Mallon chrēsai (μᾶλλον χρῆσαι): A grande ambiguidade: “usa [a liberdade]” ou “usa [a escravidão]“?
- Fee: “Usa a liberdade”. Gramaticalmente, mallon é adversativo (“pelo contrário”) e o contexto favorece a liberdade se disponível (Fee, “21”).
- Garland: “Usa a liberdade”. Baseia-se no contexto histórico da manumissão (alforria) como expectativa normal. Encorajar a escravidão seria teologicamente incoerente para Paulo (Garland, “Exegesis and Exposition [7:21]”).
- Thiselton: Concorda com a opção “liberdade”, citando estudos de Bartchy e Harrill. A escravidão não era um estado a ser buscado ou mantido se a porta se abrisse (Thiselton, “Slavery…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Explica o epispasmo (v. 18) - cirurgia para reverter a circuncisão, popular entre judeus helenizados para frequentar ginásios nus. Paulo ataca essa busca por status social (Garland, “Additional Notes 7:18”).
- [Fee]: Destaca que o chamado de Deus (klēsis) não é a profissão secular (vocação), mas o estado em que a graça encontrou a pessoa. A conversão santifica o estado social, tornando a mudança desnecessária para a piedade (Fee, “17”).
- [Thiselton]: Usa a análise sociológica de Dale Martin sobre a “mobilidade ascendente” da escravidão na casa de César para mostrar que a linguagem de “escravo de Cristo” (v. 22) inverte os status sociais: o livre desce, o escravo sobe (Thiselton, “5. Divine Calling…”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Uso da Escravidão (v. 21): Apesar de ser um debate clássico, os três autores concordam que Paulo encoraja a liberdade se possível. O consenso moderno derrubou a interpretação antiga de “aproveite a escravidão”.
5. Consenso Mínimo
- A conversão não exige mudança de status social (étnico ou civil); a posição diante de Deus é o que importa, tornando circuncisão ou escravidão irrelevantes para a salvação.
📖 Perícope: Versículos 25-38 (As Virgens e os Noivos)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:25 Parthenōn (παρθένων):
- Todos concordam que se refere a mulheres noivas/comprometidas e seus noivos, rejeitando a teoria antiga de “pais e filhas” e a teoria de “casamentos espirituais” (celibatários coabitando).
- 7:36 Aschēmonein (ἀσχημονεῖν - “agir indecentemente”):
- Garland: Conotações sexuais. O noivo sente que está agindo de forma desonrosa (excitado) em relação à noiva (Garland, “Exegesis and Exposition [7:36–38]”).
- 7:36 Hyperakmos (ὑπέρακμος):
- Garland: Refere-se ao homem com forte desejo sexual (“over the top”). Rejeita aplicação à idade da mulher (Garland, “Exegesis and Exposition [7:36–38]”).
- Fee: Provavelmente refere-se ao homem com “paixões fortes”, embora admita a possibilidade de referir-se à mulher (“passou da flor da idade”) (Fee, “36”).
- Thiselton: Traduz como “tensão indevida” (undue strain), referindo-se à pressão psicológica e sexual da situação (Thiselton, “Parthenos and Hyperakmos”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Enfatiza que a “angústia presente” (v. 26) pode ser a fome causada pela escassez de grãos em Corinto (teoria de Winter), tornando o casamento um fardo econômico extra (Garland, “Exegesis and Exposition [7:26]”).
- [Fee]: Insiste que a estrutura “não pecou” (v. 28) e “faz bem” (v. 38) prova que os ascetas estavam pressionando os noivos dizendo que casar era pecado. Paulo defende a legitimidade do casamento contra essa “espiritualidade” (Fee, “28”).
- [Thiselton]: Explora o termo aperispastōs (sem distração) no v. 35, conectando-o ao ideal Cínico-Estoico de foco filosófico, mas reorientado por Paulo para a “devoção ao Senhor” (Thiselton, “35”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Quem é o sujeito de 7:36-38? (Pai ou Noivo?)
- O Debate: A leitura tradicional via um pai decidindo pela filha (gamizō = dar em casamento).
- A Resolução: Garland, Fee e Thiselton rejeitam unanimemente a visão “Pai/Filha”. Argumentam que gamizō no grego koiné pode significar “casar-se”. O contexto de pressão ascética e desejo sexual (hyperakmos) só faz sentido para o casal de noivos.
- Argumento Vencedor: A menção de “fazer o que quer” e “não peca” (v. 36) se aplica à moralidade do casal, não à autoridade do pai (Garland).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Garland: Observa que a ideia de “poupar da tribulação” (v. 28) reflete a visão apocalíptica judaica das dores messiânicas, onde a vida familiar seria fonte de angústia (cf. Lucas 23:29) (Garland, “Exegesis and Exposition [7:28]”).
5. Consenso Mínimo
- Paulo prefere o celibato devido à “angústia presente” e para devoção indivisa (“sem distração”), mas afirma categoricamente que casar não é pecado e que os noivos devem casar se o desejo sexual for intenso.
📖 Perícope: Versículos 39-40 (Viúvas)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- 7:39 Koimēthē (κοιμηθῇ - “adormecer/morrer”): Eufemismo cristão comum para a morte.
- 7:39 Monon en Kyriō (μόνον ἐν κυρίῳ - “somente no Senhor”):
- Fee: Significa casar-se apenas com um cristão. Casar com um pagão seria impensável após a conversão (Fee, “39”).
- Thiselton: Concorda que implica casamento cristão, rejeitando a visão de que seria apenas “lembrar de seus deveres cristãos” (Thiselton, “39”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Fee]: Nota o tom sarcástico final no v. 40 (“penso que também eu tenho o Espírito”). Paulo está dando uma estocada nos pneumáticos que alegavam monopólio do Espírito para impor o celibato (Fee, “40”).
- [Thiselton]: Cita Tertuliano para mostrar como a igreja primitiva usou esses versículos para desencorajar segundos casamentos, embora Paulo aqui defenda a liberdade da viúva (Thiselton, “7. Widows…”).
5. Consenso Mínimo
- A morte dissolve o vínculo matrimonial, permitindo o recasamento, desde que seja com outro crente; contudo, Paulo opina que a viuvez consagrada é mais feliz.