Análise Comparativa: 1 Coríntios 5

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
  • Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
  • Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: David E. Garland, Baker Exegetical Commentary on the New Testament.

    • Lente Teológica: Evangélica, com forte ênfase Sócio-Retórica. Garland lê o texto através do prisma da cultura greco-romana de honra e vergonha e das dinâmicas sociais de patronagem.
    • Metodologia: Exegese histórico-gramatical atenta ao contexto sociológico. Ele busca explicar o comportamento dos coríntios (sua arrogância e tolerância ao pecado) através de categorias sociais, como o status do ofensor e a relutância da igreja em ofender um patrono rico (Garland, 2003).
  • Autor/Obra: Gordon D. Fee, The New International Commentary on the New Testament.

    • Lente Teológica: Pentecostal/Evangélica, com forte ênfase na Pneumatologia Paulina (teologia do Espírito) e Escatologia (“já e ainda não”).
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Exegese focada na intenção do autor e na espiritualidade da comunidade. Fee ataca o texto identificando uma crise de autoridade e uma compreensão distorcida do Espírito que levava à arrogância moral (Fee, 1987/2014).
  • Autor/Obra: Anthony C. Thiselton, The New International Greek Testament Commentary.

    • Lente Teológica: Acadêmica/Filosófica, com forte ênfase na Hermenêutica e Teoria dos Atos de Fala. Thiselton dialoga extensivamente com a história da interpretação e a filosofia da linguagem.
    • Metodologia: Exegese técnica léxico-gramatical profunda. Ele analisa o texto como atos comunicativos que estabelecem fronteiras comunitárias e identidade corporativa, focando na responsabilidade coletiva da igreja (Thiselton, 2000).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de David E. Garland: O problema central não é apenas o incesto, mas a arrogância (inchaço) da igreja que, motivada possivelmente por deferência social a um patrono rico, falha em sentir a vergonha necessária para purificar a comunidade.

    • Argumento: Garland argumenta que a tolerância da igreja reflete mais questões sociológicas do que teológicas: “É mais provável, então, que a igreja ignorou o pecado deste homem por causa de seu status social elevado e riqueza do que por causa de alguma postura teológica” (Garland, 2003). Ele vê a expulsão como necessária para evitar que a “infecção moral” destrua a comunidade.
  • Tese de Gordon D. Fee: O capítulo revela uma crise de autoridade e de Evangelho, onde a igreja substituiu a ética cristã por uma espiritualidade triunfalista que tolera o pecado.

    • Argumento: Fee sustenta que a preocupação primária de Paulo é a saúde da igreja, não apenas o pecador. A inação da igreja demonstra uma espiritualidade falsa: “É esta falta de senso de pecado… que marca a marca coríntia de ‘espiritualidade’ como radicalmente diferente daquela que flui do evangelho de Cristo crucificado” (Fee, 1987/2014).
  • Tese de Anthony C. Thiselton: O texto trata da definição de fronteiras comunitárias e identidade corporativa, onde a disciplina é um ato de fala performativo necessário para manter a santidade do corpo corporativo.

    • Argumento: Thiselton foca na responsabilidade corporativa, sugerindo que a exclusão é vital para a autodefinição da igreja. Ele argumenta que “Paulo parece mais pronto a tolerar ‘uma igreja mista’ que inclui aqueles que têm problemas doutrinários… do que permitir que a imoralidade persistente de um tipo notório comprometa a identidade corporativa da comunidade” (Thiselton, 2000).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Garland (BECNT)Visão de Fee (NICNT)Visão de Thiselton (NIGTC)
Termo: Porneia / IncestoDefine como “whoredom” (prostituição/devassidão). Enfatiza que é ofensivo até para os padrões pagãos de honra/vergonha (Garland, 2003).Define como imoralidade sexual dentro do contexto judaico-cristão, contrastando com a ambivalência grega (Fee, 1987/2014).Define como um relacionamento sexual ilícito, uma subcategoria ultrajante de porneia que viola a identidade do pacto (Thiselton, 2000).
Causa da Arrogância (v. 2)Sociológica: Provavelmente deferência a um patrono poderoso/rico. A igreja ignora o pecado para não perder benefícios ou ofender um líder (Garland, 2003).Teológica: Uma falsa espiritualidade pneumática. Eles são arrogantes apesar do pecado, ou talvez por causa de uma visão distorcida de liberdade (Fee, 1987/2014).Identitária: Uma falha em reconhecer que a pureza é essencial para a identidade do templo de Deus. Auto-satisfação mal colocada (Thiselton, 2000).
Entregar a Satanás (v. 5)Remover para a esfera de Satanás (o mundo). Destruição da Carne refere-se à erradicação da orientação pecaminosa/luxúria, não morte física (Garland, 2003).Expulsão para o domínio de Satanás. Destruição da Carne é a destruição da natureza carnal/pecaminosa para salvação escatológica. Rejeita veementemente a ideia de morte física (Fee, 1987/2014).Um “ato de fala” veridictivo e exercitivo. Destruição da Carne é a destruição da postura carnal de autossuficiência. Critica a visão de “maldição mágica” (Thiselton, 2000).
O “Espírito” (v. 3-4)A presença espiritual de Paulo é real através da sua autoridade apostólica e carta, unida à assembleia (Garland, 2003).A presença de Paulo é mediada pelo Espírito Santo. Não é “como se estivesse”, mas uma realidade profética na assembleia (Fee, 1987/2014).Interpreta pneuma não no dualismo corpo/mente, mas como um modo de presença eficaz empoderada pelo Espírito Santo dentro da estrutura comunitária (Thiselton, 2000).
Tom/EstiloSócio-Histórico: Focado em explicar o comportamento humano e as normas culturais.Pastoral/Urgente: Focado na aplicação espiritual e na correção da teologia da igreja.Filosófico/Técnico: Focado na precisão linguística e na teoria da comunicação.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Garland fornece o melhor background histórico e sociológico. Sua análise sobre as leis romanas de incesto, a estrutura familiar e, crucialmente, o sistema de patronagem (clientes protegendo um patrono rico) oferece a explicação mais plausível para o silêncio da igreja, indo além das explicações puramente teológicas (Garland, 2003).

  • Melhor para Teologia: Fee aprofunda melhor as doutrinas, especificamente a eclesiologia e a pneumatologia. Ele conecta magistralmente a disciplina eclesiástica com a tensão escatológica do “já e ainda não” e a necessidade de a igreja ser uma alternativa santa ao mundo. Sua rejeição da morte física como “destruição da carne” é teologicamente robusta, baseada na natureza redentora da disciplina paulina (Fee, 1987/2014).

  • Síntese: Para uma compreensão holística de 1 Coríntios 5, deve-se utilizar Garland para reconstruir o cenário social (por que a igreja tolerou o pecado), Fee para entender a gravidade espiritual e a autoridade apostólica envolvida (por que Paulo reagiu assim), e Thiselton para compreender a mecânica do julgamento comunitário e a profundidade léxica dos termos. A combinação revela que o capítulo não é apenas sobre um pecado sexual, mas sobre a preservação da identidade corporativa da igreja (Thiselton) contra as pressões sociais de status (Garland) através do poder do Espírito (Fee).

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: O Relatório do Pecado e a Arrogância (Versículos 1-2)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ** Porneia (Imoralidade Sexual):**
    • Fee: Define como um termo abrangente do Judaísmo Helenístico para qualquer aberração sexual extraconjugal, aqui especificamente incesto. Nota que os gregos eram ambivalentes sobre porneia (prostituição simples), mas este caso violava até normas pagãs (Fee, s.).
    • Garland: Traduz como “whoredom” (prostituição/devassidão) para capturar a indignação moral de Paulo, sugerindo que “imoralidade sexual” é um termo muito sanitizado (Garland, s.).
    • Thiselton: Destaca que é uma subcategoria ultrajante. Discute a relação “Ter a mulher de seu pai” (gynaika… echein), concordando com Fee e Garland que o presente contínuo (echein) indica uma relação contínua ou concubinato, não um ato isolado (Thiselton, s.).
  • ** Physioumai (Inchados/Arrogantes):**
    • Garland: Traduz como “puffed up” (inchados). Conecta etimologicamente a pneuma (vento), sugerindo um trocadilho sarcástico: eles se acham “espirituais” (pneumatikoi), mas são apenas cheios de vento (Garland, s.).
    • Thiselton: Prefere “complacência” ou “auto-satisfação”. Argumenta que descreve uma atitude de triunfalismo inflado que ignora a realidade moral (Thiselton, s.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Garland (Sócio-Retórica): Traz uma contribuição única ao sugerir que a arrogância e a falta de ação da igreja podem ser explicadas pelo sistema de patronagem. Se o ofensor fosse um homem rico e patrono da igreja, os membros (seus clientes) estariam socialmente impedidos de confrontá-lo para não perder benefícios ou proteção. Ele cita o jurista romano Gaius para provar a ilegalidade do ato (Garland, s.).
  • Fee (Teológica): Foca na espiritualidade distorcida. Ele argumenta que o problema não é apenas tolerância, mas que os coríntios poderiam estar orgulhosos da sua “liberdade” espiritual, vendo o incesto como uma prova de que, no Espírito, “todas as coisas são lícitas”. Para Fee, isso marca a espiritualidade coríntia como radicalmente diferente do Evangelho da cruz (Fee, s.).
  • Thiselton (Hermenêutica): Utiliza a teoria dos limites comunitários. Ele cita evidências sociológicas (Himmelweit) sobre “reação ao desvio”: a igreja falhou em reconhecer o ato como um desvio das normas do grupo. Ele também destaca a conexão com Cícero e Catulo para mostrar o horror cultural ao incesto, reforçando que Paulo apela a uma lei universal (Thiselton, s.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza da Arrogância (v. 2):
    • O Debate: Eles estão orgulhosos apesar do pecado ou por causa do pecado?
    • Posições: Fee sugere que pode haver um orgulho gnóstico/libertino por causa do pecado (prova de liberdade). Garland rejeita veementemente a ideia de que eles se orgulhavam do incesto em si (“seria irracional”), argumentando que eles estavam arrogantes apesar do pecado, devido a cegueira causada por status social (Garland, s.). Thiselton tende a concordar com Garland que a “liberdade da lei” é um fator, mas não a única explicação, equilibrando com a questão da patronagem (Thiselton, s.).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Todos concordam que a frase “mulher de seu pai” é uma citação direta da Septuaginta (LXX) de Levítico 18:8 e Deuteronômio 22:30, que proíbem tal união.
  • Garland adiciona Amós 2:7 (pai e filho coabitando) como paralelo de profanação do nome de Deus (Garland, s.).

5. Consenso Mínimo

  • O homem não é o pai biológico (é madrasta); a relação é contínua (não um caso isolado); e a igreja falhou miseravelmente não apenas por tolerar o pecado, mas por manter uma postura de arrogância espiritual enquanto o fazia.

📖 Perícope: O Julgamento Apostólico (Versículos 3-5)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ** En tō onomati (Em nome de…):**
    • Fee: Debate se a frase modifica “eu julguei”, “reunidos vós” ou “entregar”. Ele prefere que modifique o julgamento de Paulo (“Eu já julguei em nome do Senhor”), pois Paulo age com autoridade profética (Fee, s.).
    • Thiselton: Argumenta sintaticamente que a frase modifica a ação inteira (o veredito e a execução pela assembleia), funcionando como um “backing” (apoio institucional) para o ato de fala performativo (Thiselton, s.).
  • ** Olethros tēs sarkos (Destruição da carne):**
    • Todos rejeitam a interpretação de morte física.
    • Fee: Destruição da natureza pecaminosa/carnal.
    • Thiselton: Destruição da “postura de auto-suficiência” (Thiselton, s.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Fee (Pneumatologia): Oferece a análise mais profunda sobre “presente em espírito”. Ele rejeita a ideia de que seja uma mera “presença mental” ou “carta”. Para Fee, como a igreja é o Templo do Espírito, e Paulo tem o Espírito, ele está mística e profeticamente presente na assembleia através do Espírito Santo quando a carta é lida (Fee, s.).
  • Thiselton (Teoria dos Atos de Fala): Analisa o julgamento como um ato de fala (speech-act) que é tanto veredictivo (pronuncia culpa) quanto exercitivo (promulga a sentença). Ele argumenta contra a visão de Käsemann de “Lei Sagrada”, preferindo ver isso como um ato comunitário de autodefinição (Thiselton, s.).
  • Garland (Sócio-Jurídico): Destaca que o termo “entregar” (paradidōmi) pode ter ecos de Jó 2:6 (LXX), onde Deus entrega Jó a Satanás, mas impõe limites. Ele vê o ato como colocar o homem de volta na esfera de Satanás (o mundo) para que a severidade da vida fora da comunidade o leve ao arrependimento (Garland, s.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Significado de “Destruição da Carne” (v. 5):
    • O Debate: É morte física ou disciplina moral?
    • Conflito: Embora todos rejeitem a morte física imediata (como Ananias e Safira), há nuances.
    • Garland vê como sofrimento espiritual e talvez físico (como Jó), mas visando arrependimento.
    • Fee é o mais enfático contra qualquer noção de morte, argumentando que Paulo nunca contrasta “carne” (corpo físico) com “espírito” (alma) dessa forma. Para Fee, é puramente a destruição da orientação pecaminosa (Fee, s.).
    • Thiselton aplica sua “definição persuasiva”: “carne” aqui é a postura arrogante e secular do homem e da igreja. A destruição é o fim dessa arrogância através da exclusão social (Thiselton, s.).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Jó 2:6: Citado por Garland e Fee como base para a frase “entregar a Satanás”.
  • Deuteronômio: Rosner (citado por Thiselton e Garland) conecta a expulsão às fórmulas de exclusão de Deuteronômio (“tirarás o mal do meio de ti”).

5. Consenso Mínimo

  • A “entrega a Satanás” é a excomunhão (expulsão da esfera protetora da igreja para o mundo); o objetivo final é a salvação escatológica do indivíduo (remedial, não vinditiva).

📖 Perícope: A Analogia da Páscoa (Versículos 6-8)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ** Zymē (Fermento/Levedura):**
    • Garland: Nota que fermento não é o mesmo que levedura moderna, mas um pedaço de massa azeda/podre da semana anterior. Simboliza a corrupção contagiosa (Garland, s.).
    • Fee: Enfatiza o provérbio judaico. O foco não é apenas “influência”, mas a incompatibilidade teológica: vocês são pães asmos, então sejam pães asmos (Indicativo/Imperativo) (Fee, s.).
  • ** Eilikrineia (Sinceridade):**
    • Thiselton: Relaciona com a raiz de “julgado à luz do sol”. Significa pureza transparente, o oposto da duplicidade que permitia tolerar o pecado (Thiselton, s.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Garland (Histórico): Conecta o fermento à vaidade. Cita Fílon (Spec. Laws), que associa o fermento ao “inchaço” da arrogância. Para Garland, a metáfora ataca tanto o pecado sexual quanto o orgulho da igreja (Garland, s.).
  • Fee (Soteriológico): Destaca a estrutura Indicativo-Imperativo paulina. Paulo não diz “limpem-se para se tornarem novos”, mas “limpem-se porque vocês já são novos em Cristo”. O sacrifício Pascal de Cristo é o evento fundacional que já mudou a identidade ontológica deles (Fee, s.).
  • Thiselton (Escatológico/Dinâmico): Foca na distinção entre neos (novo no tempo) e kainos (novo em qualidade). A “nova massa” é uma realidade escatológica que invade o presente, “expulsando” o velho (Thiselton, s.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Nota: Nesta seção há menos fricção e mais complementaridade. A principal divergência sutil é sobre a aplicação da “Festa”.
    • Fee sugere uma possível alusão secundária à Ceia do Senhor (não comer com o pecador), mas foca na vida ética contínua (Fee, s.).
    • Thiselton e Garland veem “celebrar a festa” primariamente como uma metáfora para toda a vida cristã, não um rito litúrgico específico.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Êxodo 12-13: A busca cerimonial pelo fermento antes da Páscoa.
  • Cristo como Cordeiro Pascal: Fee e Thiselton notam que esta tipologia (Cristo = Pascha) é única em Paulo aqui, assumindo que os gentios conheciam a teologia do Êxodo.

5. Consenso Mínimo

  • A igreja deve expulsar o pecador porque o pecado é contagiante (como fermento) e incompatível com a nova identidade da comunidade, comprada pelo sacrifício de Cristo (o Cordeiro Pascal).

📖 Perícope: Clarificação e Fronteiras (Versículos 9-13)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ** Synanamignysthai (Associar-se/Misturar-se):**
    • Fee: Literalmente “misturar-se junto”. Refere-se a comunhão íntima, não mero contato (Fee, s.).
    • Thiselton: Traduz como “misturar-se indiscriminadamente”. É uma questão de limites sociais e identidade corporativa (Thiselton, s.).
  • ** Harpax (Roubador/Extorsionário):**
    • Garland: Traduz como “swindler” (vigarista), alguém que enriquece injustamente. Diferente de bandido violento (Garland, s.).
    • Thiselton: Traduz como “Extortioner”. Conecta ao contexto de Corinto como uma cultura de empreendedorismo agressivo (“get rich quick”) onde pisar nos outros para subir era comum. Não é roubo comum, mas manipulação de poder/status (Thiselton, s.).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Garland (Listas de Vícios): Argumenta que a lista de vícios (avarentos, roubadores, idolatras) não é genérica, mas situacional. Pleonektēs (avarento) e harpax (roubador) antecipam o problema dos processos judiciais no capítulo 6. Idolatria antecipa os capítulos 8-10. Paulo está diagnosticando doenças específicas de Corinto (Garland, s.).
  • Fee (Eclesiológico): Enfatiza a distinção radical entre “Dentro” e “Fora”. A ética cristã é para a comunidade (os de dentro). A igreja não deve policiar o mundo (os de fora), mas deve policiar a si mesma estritamente. Fee nota a ironia: a igreja estava julgando o mundo (sendo ascética ou crítica) mas tolerando o pecado dentro (Fee, s.).
  • Thiselton (Sociológico): Explora o conceito de “sair do mundo”. Parafraseia Paulo: “Se vocês quisessem evitar pecadores, teriam que morrer” (eufemismo para sair do mundo). Ele reforça que o cristianismo paulino não é sectário/isolacionista, mas exige limites internos claros para manter a identidade (Thiselton, s.).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Carta Anterior (v. 9):
    • O Debate: O que era essa carta e por que foi “mal compreendida”?
    • Fee sugere que os oponentes de Paulo deliberadamente distorceram a carta anterior para ridicularizá-lo (“Paulo quer que saiamos do mundo!”), usando a ambiguidade para desacreditar sua autoridade (Fee, s.).
    • Garland é mais brando, sugerindo que eles poderiam estar genuinamente confusos ou “se fazendo de bobos” para evitar o confronto difícil com um patrono poderoso (Garland, s.).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Deuteronômio 17:7 (e outros): “Expulsai o perverso do vosso meio”.
    • Thiselton e Garland concordam que Paulo cita a LXX quase palavra por palavra (exarate), usando a fórmula de exclusão da aliança.
    • Fee nota que esta citação encerra a seção com autoridade bíblica máxima, equiparando a pureza da igreja à pureza de Israel (Fee, s.).

5. Consenso Mínimo

  • A separação exigida aplica-se apenas a “irmãos” (cristãos nominais) que vivem em pecado flagrante, não aos não-cristãos; a igreja tem jurisdição judicial apenas sobre seus próprios membros, deixando o mundo para o julgamento de Deus.