Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Coríntios 15
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
- Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: David E. Garland, Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Histórico-Gramatical com forte ênfase no contexto social greco-romano.
- Metodologia: Garland aborda o texto focando na retórica e na lógica sequencial de Paulo. Ele tende a ver os problemas de Corinto menos como uma rebelião dogmática e mais como uma confusão cosmológica baseada em pressupostos helenísticos sobre a dualidade entre o mundo celestial e o terreno (Garland, 15:1–58).
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Autor/Obra: Gordon D. Fee, The New International Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Pentecostal (ênfase Pneumatológica) com rigorosa exegese textual.
- Metodologia: Fee interpreta a epístola inteira, e este capítulo em particular, através da tensão entre a escatologia do “já e ainda não”. Ele identifica o problema central como uma espiritualidade distorcida (“pneumatikos”) que deprecia o corpo físico em favor de uma existência puramente espiritual presente (Fee, 15:1–58).
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Autor/Obra: Anthony C. Thiselton, The New International Greek Testament Commentary.
- Lente Teológica: Filosófica-Hermenêutica (influência da Teoria dos Atos de Fala e História da Recepção).
- Metodologia: Thiselton foca profundamente na semântica grega e na lógica filosófica por trás dos argumentos. Ele vê o capítulo 15 como a chave hermenêutica de toda a carta, centrando a discussão na soberania e na graça criativa de Deus, e não apenas na antropologia (Thiselton, 15:1–58).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Garland: O erro dos coríntios não é uma negação da vida após a morte, mas uma incapacidade cosmológica de conceber como um corpo físico (terrestre) poderia habitar um reino celestial; Paulo responde demonstrando que a ressurreição envolve uma transformação radical necessária pela polaridade entre terra e céu. Garland argumenta que “o erro dos coríntios não está enraizado em alguma rebelião doutrinária deliberada, mas em confusão honesta, dada sua visão de mundo grega” (Garland, 15:12–19).
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Tese de Fee: A negação da ressurreição corporal pelos coríntios deriva de sua visão de serem “pessoas do Espírito” (pneumatikos) que já atingiram a existência angélica/espiritual, tornando o corpo irrelevante; Paulo refuta isso reafirmando que a ressurreição de Cristo torna a ressurreição futura do crente (transformada, mas corporal) uma necessidade escatológica absoluta. Fee afirma que para eles, “a vida no Espírito significava livrar-se finalmente do corpo… a ideia de que o corpo seria ressuscitado teria sido anátema” (Fee, 15:1–58).
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Tese de Thiselton: O capítulo trata fundamentalmente do caráter de Deus e da inteligibilidade lógica da ressurreição; a objeção coríntia é refutada apelando para a infinita desenvoltura criativa do Deus soberano que dá corpos conforme Sua vontade, transformando a existência somática através do Espírito Santo. Thiselton argumenta que “o capítulo 15… fornece a chave para o seu significado, a partir do qual a luz é lançada sobre o todo” e que o “nervo secreto” da epístola é o conceito de Deus (Thiselton, 15:1–58).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Garland (Autor A) | Visão de Fee (Autor B) | Visão de Thiselton (Autor C) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave: Soma Pneumatikon (15:44) | Corpo adequado para a habitação celestial; enfatiza a localização e a adaptação ao ambiente (Garland, 15:42–44). | Corpo animado e adaptado à vida do Espírito na nova era; não imaterial, mas sobrenatural (Fee, 15:35–44). | Modo de existência comunicativa e intersubjetiva no domínio público, dirigido pelo Espírito Santo; mais que físico, não menos (Thiselton, 15:44). |
| Problema Central dos Coríntios | Cosmológico: Dualismo grego. Como pode um corpo material entrar em um reino espiritual? Acreditavam na imortalidade da alma, mas rejeitavam a reanimação de cadáveres (Garland, 15:12–19). | Pneumatológico: Escatologia sobre-realizada. Eles achavam que já viviam a existência espiritual final e viam o corpo como irrelevante e descartável (Fee, 15:12–34). | Teológico/Lógico: Falta de “conhecimento de Deus” (15:34). Duvidavam da concebibilidade lógica e da capacidade criativa de Deus de transformar a matéria (Thiselton, 15:12–34). |
| Batismo pelos Mortos (15:29) | Interpretação Metafórica/Pessoal: “Os mortos” refere-se aos próprios crentes como corpos moribundos (“batizados em relação aos seus corpos que morrerão”) (Garland, 15:29–34). | Vicário/Sacramentalista: Batismo vicário real. Paulo usa um argumento ad hominem baseada numa prática supersticiosa deles, sem aprová-la teologicamente (Fee, 15:29–34). | Pastoral/Reunião: Batismo “por causa dos mortos” — converter-se e batizar-se com a esperança de se reunir com parentes cristãos falecidos na ressurreição (Thiselton, 15:29). |
| Tom/Estilo | Didático: Paulo assume o papel de professor corrigindo alunos “lentos” e confusos (Garland, 15:35–49). | Polêmico e Exegético: Confronta a arrogância espiritual dos coríntios e defende a necessidade histórica da ressurreição (Fee, 15:1–11). | Filosófico e Abrangente: Analisa a gramática lógica da fé e a história da interpretação (Thiselton, 15:1–58). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Fee oferece a reconstrução mais convincente da situação interna de Corinto (a tensão entre Paulo e os “espirituais”), ligando a negação da ressurreição aos problemas comportamentais e carismáticos tratados nos capítulos anteriores (Fee, 15:1–58).
- Melhor para Teologia: Thiselton fornece a profundidade teológica mais robusta, conectando a ressurreição não apenas à antropologia, mas à doutrina de Deus (Teologia Própria), à criação e à graça soberana, utilizando categorias filosóficas que enriquecem a compreensão moderna do texto (Thiselton, 15:1–58).
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se adotar a reconstrução do cenário de Fee (uma escatologia sobre-realizada que despreza o corpo) como o motivo da negação, utilizar a análise de Garland sobre a cosmologia (a necessidade de transformação do corpo terrestre para o celestial) para entender a lógica da resposta de Paulo, e aplicar a profundidade de Thiselton para entender como a ressurreição valida a soberania de Deus e a continuidade da identidade pessoal através da descontinuidade radical da forma.
Soma Pneumatikon, Escatologia Inaugurada, Batismo pelos Mortos e Dualismo Antropológico são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 1-11 (A Tradição Kerygmática)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Γνωρίζω (Gnorizo - v.1): Garland argumenta que não é apenas “lembrar”, mas um anúncio solene, como um arauto, indicando a intenção de ensinar e persuadir sobre um dogma central (Garland, 15:1–2). Fee vê aqui uma ironia paulina, ligando ao “se alguém ignora” de 14:38; Paul “faz saber” o que eles já deveriam saber (Fee, p. 186). Thiselton conecta com a “ignorância de Deus” em 15:34, sugerindo uma restauração do pleno conhecimento (Thiselton, 632).
- Εκτρωμα (Ektroma - v.8): Termo cru para “aborto” ou “nascido prematuramente”.
- Παραλαμβάνω / Paradidomi (Receber/Entregar - v.3): Todos concordam que são termos técnicos rabínicos para transmissão de tradição sagrada (Fee, p. 189).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Destaca que a frase “segundo as Escrituras” (v.3-4) não se refere necessariamente a um texto específico (como Isaías 53), mas afirma que a morte de Cristo estava em conformidade com o plano divino abrangente revelado na narrativa bíblica, incluindo os Salmos do justo sofredor (Garland, 15:3–5).
- [Fee]: Observa que a inclusão de “Tiago” e “todos os apóstolos” (v.7) sugere que “os Doze” e “os apóstolos” eram grupos distintos na igreja primitiva; os apóstolos eram um grupo maior funcional, enquanto os Doze eram um grupo institucional (Fee, p. 208).
- [Thiselton]: Enfatiza a dimensão da graça soberana na auto-descrição de Paulo como ektroma. Ele rejeita explicações psicológicas de culpa, alinhando-se com Munck: Paulo era como um “feto morto nascido prematuramente”, incapaz de vida até que a graça divina interveio (Thiselton, 686).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O significado de Ektroma (v.8):
- Garland: Interpreta como a própria descrição de Paulo sobre sua condição pré-cristã de miséria e “morte” espiritual; ele era um “natimorto” até Cristo aparecer (Garland, 15:8).
- Fee: Sugere fortemente que este era um insulto/epíteto usado pelos coríntios contra Paulo (“a aberração”, “o anão”), que Paulo adota ironicamente para magnificar a graça (Fee, p. 211).
- Thiselton: Segue a linha de que o termo reflete a inabilidade total de Paulo contribuir para seu chamado, destacando a iniciativa divina ex nihilo (Thiselton, 686).
- Veredito: Fee oferece a explicação mais plausível historicamente dada a tensão polêmica da carta, mas Thiselton aprofunda melhor a teologia da graça resultante.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 53: Identificado como base para “pelos nossos pecados” (v.3) por Fee (p. 194) e Thiselton (648).
- Salmo 16:10 / Oséias 6:2: Discutidos como possíveis fontes para “ao terceiro dia”. Garland nota que Oséias 6:2 nunca é citado explicitamente no NT, preferindo uma conexão tipológica com o “terceiro dia” de eventos salvíficos no AT (Garland, 15:4). Fee sugere que a frase “segundo as escrituras” se aplica a todo o evento, não a um texto prova isolado (Fee, p. 199).
5. Consenso Mínimo
- Os versículos 3-5 constituem um credo pré-paulino muito antigo que estabelece a morte e ressurreição física de Jesus como fato histórico e base inegociável da fé.
📖 Perícope: Versículos 12-19 (A Lógica da Negação)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ανάστασις νεκρών (Anastasis nekron): Ressurreição de cadáveres/mortos.
- Κενός (Kenos - v.14) vs. Ματαία (Mataia - v.17): Thiselton distingue: Kenos refere-se a “vazio de conteúdo/substância” (v.14), enquanto Mataia refere-se a “sem efeito/inútil” quanto ao resultado (livrar do pecado) (Thiselton, 712). Garland vê Kenos como “desprovido de valor espiritual” (Garland, 15:14).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Argumenta que os coríntios não negavam a vida após a morte, mas mantinham uma antropologia dualista onde a alma é imortal e o corpo descartável; para eles, a ressurreição de cadáveres era “repulsiva” ou “tola” (Garland, 15:12).
- [Fee]: Constrói uma reconstrução teológica onde os coríntios acreditavam já estar vivendo a existência espiritual final (escatologia realizada), tornando a ressurreição corporal futura redundante e irrelevante (Fee, p. 178).
- [Thiselton]: Aplica a lógica filosófica do modus tollens para explicar a argumentação de Paulo: se a proposição universal (não há ressurreição) é verdadeira, a particular (Cristo ressuscitou) é falsa. Ele vê isso como um apelo à coerência racional da fé (Thiselton, 707).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Miserabilidade dos Cristãos (v.19):
- Fee: Entende o “somente nesta vida” como modificando toda a cláusula. Se Cristo não ressuscitou, a fé é uma ilusão total, perdendo tanto o futuro quanto o significado do presente (Fee, p. 240).
- Garland: Foca no custo do discipulado. Cristãos são “os mais dignos de pena” porque abraçaram sofrimento e privação (como Paulo em Éfeso) baseados numa mentira. Se não há ressurreição, o hedonismo seria a escolha racional (Garland, 15:19).
- Thiselton: Concorda que se trata de uma cadeia acumulativa de desastres: fé ineficaz, pecado não perdoado, mortos perdidos. A “piedade” deve-se à perda total de sentido (Thiselton, 716).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Não há citações diretas do AT dominantes nesta seção, mas a lógica de “perecer” (v.18) ecoa a visão do Sheol sem a intervenção divina.
5. Consenso Mínimo
- A negação da ressurreição dos mortos implica logicamente a negação da ressurreição de Cristo, o que anula a justificação (perdão dos pecados) e torna a fé cristã uma fraude.
📖 Perícope: Versículos 20-28 (Cristo, as Primícias e o Fim)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ἀπαρχή (Aparche - v.20): Fee define como “metáfora de garantia/penhor” da colheita completa, não apenas prioridade temporal (Fee, p. 247). Garland nota o uso cultual (Levítico 23), indicando que a ressurreição de Cristo consagra o restante da colheita (os crentes) (Garland, 15:20).
- Τάγμα (Tagma - v.23): Garland debate se é militar (“regimento”) ou agrícola/sequencial. Prefere a noção de “sequência apropriada” (Garland, 15:23–24). Thiselton vê uma implicação de “ordem submissa” (hypotaxis), refletindo a soberania divina (Thiselton, 724).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Rejeita firmemente a ideia de um “reino interino” milenar entre a Parusia e o Fim (v.24). Para ele, o reino de Cristo é presente e termina na Parusia quando a morte é destruída (Garland, 15:23–24).
- [Fee]: Destaca que a submissão do Filho ao Pai (v.28) é funcional (referente à obra da redenção), não ontológica (referente ao ser de Cristo), evitando subordinacionismo ariano (Fee, p. 271).
- [Thiselton]: Interpreta “Deus seja tudo em todos” (v.28) não como panteísmo estoico, mas soteriologicamente: a vontade de Deus será suprema e sem oposição em toda a ordem criada (Thiselton, 754).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Duração do Reino (v.24-25):
- Garland & Fee: Concordam que Cristo reina agora (desde a ressurreição) e que o “fim” é a entrega desse reino ao Pai após a destruição da morte na Parusia.
- O Debate Textual: Existe uma discussão sobre se o “Fim” (Telos) refere-se ao restante da humanidade (incrédulos) ou ao fim da história. Todos os três (Garland, Fee, Thiselton) rejeitam que Telos signifique “o resto das pessoas”, afirmando que Paulo trata apenas da ressurreição de crentes e do clímax cósmico (Garland, 15:23–24; Fee, p. 255; Thiselton, 736).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 110:1: Citado em v.25 (“inimigos debaixo dos pés”). Fee nota que Paulo atribui a ação de sujeitar a Cristo, embora no Salmo seja YHWH (Fee, p. 258).
- Salmo 8:6: Citado em v.27 (“todas as coisas sujeitou”). Thiselton observa que Paulo combina estes dois salmos (como em Efésios e Hebreus) para mostrar que Cristo, o Último Adão, recupera o domínio que a humanidade perdeu (Thiselton, 745).
5. Consenso Mínimo
- A ressurreição de Cristo inaugura inevitavelmente a ressurreição dos crentes e a derrota final da morte, culminando na soberania absoluta de Deus.
📖 Perícope: Versículos 29-34 (Argumentos Ad Hominem)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ὑπὲρ τῶν νεκρῶν (Hyper ton nekron - v.29): Preposição “em favor de” ou “por causa de”. O centro da controvérsia exegética.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Propõe uma visão minoritária mas engenhosa: “os mortos” são os corpos dos próprios crentes (que morrerão). O batismo é “por causa dos corpos moribundos”, ou seja, batiza-se o corpo com vista à ressurreição. Ele rejeita o batismo vicário como teologicamente repugnante para Paulo (Garland, 15:29).
- [Fee]: Aceita o “batismo vicário” como a leitura mais natural do grego, argumentando que Paulo usa um argumento ad hominem (“o que farão eles?”, não “nós”). Paulo aponta a incoerência da prática mágica/sacramental dos coríntios com sua teologia anti-ressurreição (Fee, p. 278).
- [Thiselton]: Cataloga 13 interpretações e escolhe a de Maria Raeder: Batismo “por causa dos mortos” no sentido de converter-se para se reunir com parentes cristãos falecidos. É uma motivação pastoral e escatológica (reunião), não vicária (Thiselton, 774).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Batismo pelos Mortos (v.29):
- A divergência é total. Fee vê uma prática real de batismo por procuração (vicário). Garland vê uma metáfora para o batismo cristão normal focado no corpo mortal. Thiselton vê uma motivação de reunião familiar na escatologia.
- Argumento mais convincente: Fee admite a dificuldade teológica mas respeita a gramática e o contexto histórico de “sacramentalismo mágico” em Corinto.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 22:13: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (v.32). Garland e Fee notam que isso reflete o fatalismo de quem não tem esperança futura, e Fee adiciona que pode ser uma polêmica anti-epicurista contemporânea (Fee, p. 294; Garland, 15:32).
- Menandro (Thais): “Más companhias corrompem…” (v.33). Thiselton nota que se tornou um provérbio popular, não exigindo que Paulo tenha lido a peça (Thiselton, 788).
5. Consenso Mínimo
- Paulo está expondo a inconsistência prática dos coríntios: seus rituais (batismo) e o sofrimento apostólico (lutar com feras) são absurdos se a morte é o fim absoluto.
📖 Perícope: Versículos 35-49 (O Corpo da Ressurreição)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ψυχικός (Psychikos) vs. Πνευματικός (Pneumatikos):
- Garland: Traduz como “corpo animado pela alma” vs “corpo animado pelo Espírito”. Enfatiza a adaptação ao ambiente (terrestre vs. celestial) (Garland, 15:44).
- Fee: Insiste que Pneumatikos não significa imaterial, mas “sobrenatural” ou “empoderado pelo Espírito”. O contraste não é físico vs. não-físico, mas natural vs. escatológico (Fee, p. 327).
- Thiselton: Define Soma Pneumatikon como um modo de existência comunicativa no domínio público, totalmente dirigido pelo Espírito Santo. Rejeita teorias de “substância astral” (Thiselton, 843, 848).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Enfatiza que a analogia da semente (v.36-38) prova a descontinuidade radical. O corpo que morre não é o corpo que ressuscita, assim como a semente não é a planta. Deus dá um novo corpo (Garland, 15:37).
- [Fee]: Destaca que a analogia de Adão/Cristo (v.45) é soteriológica, não cosmológica. Paulo corrige a visão coríntia de que eles já eram “espirituais” antes da ressurreição. O “espiritual” vem depois (escatológico), não primeiro (Fee, p. 341).
- [Thiselton]: Refuta a ideia de Dale Martin de que Paulo acreditava numa “fisiologia pneumática” (corpo feito de ar/fogo). Thiselton insiste que a terminologia é funcional e relacional, baseada na direção do Espírito, não na composição material (Thiselton, 842).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O “Homem do Céu” (v.47):
- Fee: Argumenta que se refere à humanidade ressurreta de Cristo, não à sua encarnação ou preexistência. O foco é o que seremos, não a origem divina de Cristo (Fee, p. 345).
- Thiselton: Concorda e alerta contra a leitura de mitos gnósticos do “Homem Primal”. O foco é o modelo escatológico (Thiselton, 867).
- Garland: Vê aqui uma polêmica contra a exegese de Gênesis 2:7 feita por Fílon, onde o “homem celestial” (ideal) vinha antes do terrestre. Paulo inverte: o terrestre (Adão) vem primeiro; o espiritual (Cristo ressurreto), depois (Garland, 15:46).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 2:7: Citado e modificado em v.45. Fee nota que Paulo adiciona “Primeiro” e “Adão” para criar o contraste tipológico com Cristo, o “Espírito vivificante” (Fee, p. 335).
5. Consenso Mínimo
- A ressurreição não é a reanimação de um cadáver (psychikos), mas uma transformação radical em um corpo (soma) totalmente adaptado e energizado pelo Espírito (pneumatikos).
📖 Perícope: Versículos 50-58 (Vitória e Transformação)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Carne e Sangue (v.50): Jeremias (citado por todos) provou que esta é uma expressão idiomática semítica para “humanidade frágil e mortal”, não uma referência anatômica (Garland, 15:50; Fee, p. 358; Thiselton, 874).
- Mysterion (v.51): Revelação divina de que nem todos dormirão (morrerão), mas todos (vivos e mortos) serão transformados.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Observa que a lei é o “poder do pecado” (v.56) porque ela provoca a transgressão e traz condenação, não porque seja má. O aguilhão da morte é removido porque Cristo resolveu o problema do pecado e da lei (Garland, 15:56).
- [Fee]: Interpreta o “Mistério” (v.51) especificamente como a revelação de que haverá cristãos vivos na Parusia que precisarão de transformação sem passar pela morte. Isso foi um choque para os coríntios que achavam que já tinham chegado lá (Fee, p. 363).
- [Thiselton]: Traduz atomos (v.52) literalmente como “o menor momento de tempo indivisível”, enfatizando a instantaneidade da ação divina, contra processos evolutivos ou naturais (Thiselton, 884).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Aguilhão da Morte (v.56):
- Por que introduzir a Lei aqui? Fee vê como um resumo teológico paulino essencial: a Lei dá força ao pecado ao torná-lo rebelião consciente (Fee, p. 375). Garland sugere que Paulo assume que os coríntios conhecem essa teologia (talvez de ensinos prévios), conectando a derrota da morte à derrota do pecado (Garland, 15:56).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 25:8: “Tragada foi a morte na vitória” (v.54). Thiselton nota que Paulo usa a versão de Teodócio/Áquila (“em vitória”) em vez da LXX ou Hebraico (“para sempre”) (Thiselton, 893).
- Oséias 13:14: “Onde está, ó morte…” (v.55). Paulo transforma uma sentença de julgamento no original em um canto de escárnio contra a morte (Fee, p. 370).
5. Consenso Mínimo
- A imortalidade não é natural à alma humana, mas um dom de Deus através de uma transformação escatológica necessária (“revestir-se”) na Parusia.