Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Coríntios 14
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
- Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: David E. Garland, Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica, com forte ênfase na crítica sócio-retórica. Garland foca em como o texto funcionava socialmente dentro da cultura de honra e vergonha de Corinto.
- Metodologia: Exegese centrada na intenção do autor e no contexto cultural grego-romano. Ele tende a defender a integridade do texto canônico (rejeitando teorias de interpolação) e busca soluções práticas e sociológicas para os conflitos descritos.
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Autor/Obra: Gordon D. Fee, The New International Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Pentecostal/Evangélica Clássica. Fee é renomado por sua ênfase na Pneumatologia (teologia do Espírito) e na experiência carismática da igreja primitiva.
- Metodologia: Crítica Textual rigorosa combinada com exegese teológica. Ele analisa o texto com um olhar aguçado para a experiência do Espírito, mas mantém um rigor acadêmico estrito quanto à transmissão do manuscrito (notavelmente em 14:34-35).
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Autor/Obra: Anthony C. Thiselton, The New International Greek Testament Commentary.
- Lente Teológica: Filosófica/Hermenêutica. Thiselton aplica a teoria dos atos de fala (Speech-Act Theory), semiótica e filosofia da linguagem para desvendar a comunicação paulina.
- Metodologia: Exegese gramatical profunda (NIGTC é focado no texto grego) enriquecida pela história da interpretação e filosofia. Ele foca na dinâmica do “Outro” e na inteligibilidade comunicativa.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
- Tese de Garland: O problema central não é o dom de línguas em si, mas o seu uso não interpretado que falha em beneficiar a comunidade; Paulo reorienta o culto do “eu” para a edificação mútua, onde a profecia é preferível por ser inteligível e expor o incrédulo à presença de Deus (Garland, “The Comparison between Tongues and Prophecy”).
- Tese de Fee: A questão crucial é a inteligibilidade na assembleia; Paulo não deprecia as línguas (que são oração/louvor ao Espírito e edificam o indivíduo), mas insiste que, no culto público, o que não é compreendido não pode gerar o “Amém” comunitário ou a edificação da igreja (Fee, “The Need for Intelligibility in the Assembly”).
- Tese de Thiselton: O capítulo deve ser lido sob a ótica do amor pelo Outro e da diferenciação ordenada; a “profecia” é redefinida como pregação pastoral que constrói a comunidade, enquanto línguas não articuladas falham semioticamente em comunicar, criando alienação em vez de comunhão (Thiselton, “Love for the Other and Ordered Differentiation”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Garland (BECNT) | Visão de Fee (NICNT) | Visão de Thiselton (NIGTC) |
|---|---|---|---|
| “Meu espírito” (v.14) | Refere-se às “profundezas mais íntimas” do ser humano (antropológico), distinto da mente racional (Garland, “Exegesis and Exposition”). | Refere-se ao “Meu E/espírito” (o espírito humano movido pelo Espírito Santo); uma atividade pneumatológica (Fee, “Application to the Believing Community”). | Traduzido como “meu ser espiritual mais profundo”, evitando dualismos cartesianos ou platônicos, focado na pré-consciência (Thiselton, “Communicative Intelligibility”). |
| Interpretação (diermēneuō) | Entendido no sentido padrão de traduzir/explicar a língua desconhecida para a assembleia (Garland, “Exegesis and Exposition”). | Significa tornar a língua inteligível; transformar o louvor em espírito em algo que a mente compreenda (Fee, “The Greater Gift”). | Redefine radicalmente como “articular em palavras” ou “colocar em palavras”. Não é tradução de um código, mas a capacidade de vocalizar o inefável (Thiselton, “The Interpretation or Articulation”). |
| Silêncio das Mulheres (vv.34-35) | Texto Autêntico. Aplica-se especificamente a esposas interrompendo/questionando maridos, causando vergonha social (Garland, “Regulations for Worship”). | Interpolação (não paulino). Argumenta com base na crítica textual (manuscritos ocidentais) e contradição com 11:5. É uma glosa marginal inserida posteriormente (Fee, “On Women Remaining Silent”). | Provavelmente Interpolação, mas se lido no texto, refere-se ao controle da fala durante o julgamento/crivo das profecias para evitar desonra (Thiselton, “A Particular Case”). |
| Profecia (Natureza) | Proclamação de revelação divina, inteligível, que leva ao arrependimento e reconhecimento da presença de Deus (Garland, “The Preference for Prophecy”). | Palavra espontânea dada ao povo de Deus para o momento presente; distinta de sermões preparados (Fee, “The Greater Gift”). | Pregação Pastoral. Atos de fala inteligíveis que edificam, encorajam e consolam; envolve reflexão racional e não apenas espontaneidade (Thiselton, “Prophecy: A Second Note”). |
| Tom/Estilo | Equilibrado e Sócio-Histórico. Foca na correção de comportamentos de status. | Pastoral e Pneumatológico. Foca na experiência vital do Espírito e na correção teológica. | Filosófico e Linguístico. Foca na teoria da comunicação e na ética do discurso. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Thiselton. Embora Garland seja excelente no contexto social, Thiselton fornece a profundidade mais rica sobre o background histórico-filosófico (ex: uso de Isaías 28, o conceito de barbaros, e paralelos com Fílon/Josefo) e a teoria da linguagem necessária para entender a “ininteligibilidade” como problema.
- Melhor para Teologia: Fee. Sua análise captura melhor a tensão pneumatológica de Paulo: valorizar as línguas como dom legítimo de oração privada (evitando o cessacionismo reacionário), enquanto impõe restrições severas ao uso público baseadas na teologia da edificação corporativa.
- Síntese: Para uma compreensão holística de 1 Coríntios 14, deve-se adotar a definição de Inteligibilidade Comunicativa de Thiselton (que previne o misticismo irracional), temperada pela Pneumatologia Experiencial de Fee (que valida a oração no Espírito), situando ambas as práticas dentro da Estrutura Sócio-Retórica de Garland, que vê o objetivo final não como a exibição de poder espiritual, mas a construção comunitária baseada no amor.
Edificação, Inteligibilidade, Profecia vs. Línguas e Ordem no Culto são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos [14:1-5] - A Superioridade da Profecia
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Zēloute (Zelai/Buscai com zelo): Debate-se se é um imperativo (“busquem”) ou indicativo (“vocês buscam”).
- Garland argumenta que é imperativo, ligando-o à metáfora de “perseguir” (diōkete) como um caçador atrás da presa, mas qualificado pelo amor (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee vê uma estrutura quiástica conectando este imperativo diretamente ao final do cap. 12, redefinindo “maiores dons” como aqueles que edificam (Fee, “The Greater Gift”).
- Mysterion (Mistérios, v.2):
- Fee define como “aquilo que está fora do entendimento”, tanto para o falante quanto para o ouvinte, e não necessariamente segredos escatológicos (Fee, “The Greater Gift”).
- Thiselton rejeita a visão de que isso seria um conteúdo positivo “falado a Deus”, alertando que a ininteligibilidade cria barreiras (Thiselton, “Self-affirmation…”).
- Diermēneuō (Interpretar, v.5):
- Thiselton propõe uma redefinição radical: não é “traduzir” um código, mas “articular em palavras” (put into words). Para ele, o falar em línguas é uma experiência pré-consciente que precisa ser trazida para a fala articulada (Thiselton, “The Interpretation or Articulation”).
- Fee mantém o sentido tradicional de tornar a língua inteligível para que a mente compreenda (Fee, “The Greater Gift”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Destaca que Paulo não quer suprimir as línguas, mas “democratizar” o dom de profecia, citando Números 11:29 (o desejo de Moisés que todos fossem profetas) como paralelo para o desejo de Paulo no v.5 (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Enfatiza que as línguas são, primariamente, oração e louvor direcionados a Deus, e não uma mensagem aos homens (“holy soliloquy”). Ele combate a visão de que Paulo está “elogiando as línguas com desprezo” (damning with faint praise); para Fee, Paulo valoriza genuinamente as línguas para a devoção privada (Fee, “The Greater Gift”).
- Thiselton: Aplica a distinção de Vielhauer sobre Oikodomē (Edificação): ela tem um sentido negativo quando aplicada a si mesmo (v.4, auto-afirmação/inflar o ego) e positivo apenas quando constrói a comunidade. Ele vê o “edifica a si mesmo” quase como irônico ou pejorativo (Thiselton, “Self-affirmation…”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Auto-Edificação (v.4):
- O Debate: A “edificação de si mesmo” é boa ou ruim?
- Garland: Vê como neutro/positivo (benefício espiritual privado), mas perigoso se levar ao status (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Fortemente Positivo. Ele defende que a edificação pessoal é vital, apenas não é o propósito do culto público. Rejeita a visão de que é egoísmo (Fee, “The Greater Gift”).
- Thiselton: Tendência Negativa. Sugere que, no contexto de Corinto, isso denota auto-indulgência e individualismo religioso que desintegra a comunidade (Thiselton, “Self-affirmation…”).
4. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a profecia é superior no culto público estritamente devido à sua inteligibilidade, que permite a edificação corporativa.
📖 Perícope: Versículos [14:6-12] - Analogias da Ininteligibilidade
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Barbaros (Bárbaro, v.11):
- Garland nota o caráter onomatopaico (“bar, bar”) de como o grego ouvia a fala estrangeira, implicando não apenas incompreensão, mas alienação social (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Thiselton aprofunda o conceito de “o Outro” e a alienação. Não entender a língua faz com que crentes se sintam estrangeiros em sua própria casa (Thiselton, “The Uselessness of Unintelligible Noise”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Traz uma ilustração da literatura clássica, citando Apuleio (O Asno de Ouro), onde o personagem transformado em asno tenta falar, mas apenas zurra, para ilustrar a comédia trágica da fala ininteligível (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Faz uma observação gramatical única sobre “zelosos de espíritos” (zēlōtai pneumatōn, v.12). Ele argumenta que isso não se refere a “dons espirituais” gerais, mas que os coríntios queriam ser “espíritos”, ou seja, usar seus próprios espíritos como porta-vozes do divino, evidenciando uma visão distorcida de pneumatikos (Fee, “Analogies That Argue”).
- Thiselton: Utiliza a semiótica de Saussure para explicar os versículos 7-8 (instrumentos). Argumenta que sem “diferença” (diastolē - distinção de notas), não há significado. O problema não é apenas o som confuso, mas a falta de estrutura semiótica necessária para a comunicação (Thiselton, “The Uselessness of Unintelligible Noise”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza das Línguas (Xenolalia vs. Êxtase):
- Garland: Argumenta que as analogias (instrumentos sem tom) sugerem que as línguas de Corinto não eram idiomas estrangeiros (xenolalia), mas “barulhos e sílabas inarticulados” (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Concorda que não são idiomas humanos, comparando ao “Aleluia” carismático moderno que não tem tradução conceitual (Fee, “Analogies That Argue”).
- Thiselton: Reforça que a analogia musical prova que o problema é a falta de intervalos/síntaxe, o que torna a “tradução” impossível, favorecendo sua tese de “articulação” e não “tradução” (Thiselton, “Tongues and Communicative Language”).
5. Consenso Mínimo
- A ininteligibilidade, seja musical ou linguística, torna qualquer som “infrutífero” para o ouvinte, bloqueando a participação comunitária.
📖 Perícope: Versículos [14:13-19] - A Mente e o Espírito
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Nous (Mente) vs. Pneuma (Espírito):
- Garland: Vê como termos antropológicos. “Meu espírito” é o “eu interior profundo”, distinto do intelecto racional (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Interpreta “Meu espírito” como “o Espírito Santo orando através do meu espírito”. Ele usa a grafia “S/spirit” para denotar essa fusão. Rejeita a visão antropológica pura (Fee, “Application to the Believing Community”).
- Thiselton: Ataca a visão de Fee como “desastrosa confusão”. Define pneuma aqui como a disposição humana pré-cognitiva ou “ser espiritual mais profundo”, alertando contra dualismos cartesianos (Thiselton, “Communicative Intelligibility”).
- Idiōtēs (Indouto/Não iniciado, v.16):
- Garland: Termo metafórico para qualquer crente que, naquele momento, não entende a língua. Não é uma classe especial de “catecúmenos” (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Concorda que refere-se a qualquer um na posição de “não saber”, mas nota que pode incluir o esposo não-crente que acompanha a adoração (Fee, “Application to the Believing Community”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Observa que a oração em línguas não é “má”, mas o problema é que o “Amém” (uma transliteração hebraica usada na sinagoga) não pode ser dito. O “Amém” é o contrato social de concordância (Garland, “Exegesis and Exposition”).
- Fee: Destaca a piedade pessoal de Paulo no v.18 (“falo em línguas mais que vós”). Fee vê isso como uma “bomba” retórica: Paulo valida a experiência mística intensa, mas a restringe radicalmente no culto. Isso revela a vida devocional privada de Paulo (Fee, “Application to the Believing Community”).
- Thiselton: Relaciona o v.14 com a psicologia moderna e ondas cerebrais (Alfa vs. Beta) para explicar estados alterados de consciência, mas insiste que para Paulo a “inspiração” não anula o controle consciente (controlled speech) (Thiselton, “Communicative Intelligibility”).
4. Ecos do Antigo Testamento
- Consenso: O uso do “Amém” (v.16) é unanimemente reconhecido como uma herança litúrgica direta da sinagoga e do AT (Neemias, Crônicas), indicando a continuidade do culto pactual.
5. Consenso Mínimo
- Paulo pratica e valoriza as línguas na esfera privada, mas impõe a inteligibilidade (uso da mente) como regra absoluta para o culto público.
📖 Perícope: Versículos [14:20-25] - O Sinal de Juízo
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Sēmeion (Sinal):
- Garland: Sinal de retribuição/juízo. As línguas endurecem o incrédulo na incredulidade (Garland, “F. The Preference for Prophecy”).
- Fee: Sinal de desaprovação divina. Deus “fala” línguas (ininteligíveis) quando o povo se recusa a ouvir a profecia clara (Fee, “Application for the Sake of Unbelievers”).
- Thiselton: Sinal de alienação. Faz com que os de dentro se sintam “estrangeiros” e confirma o ceticismo dos de fora (Thiselton, “Maturity as Love”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Destaca que a citação de Isaías 28:11-12 por Paulo difere tanto do Texto Massorético (MT) quanto da Septuaginta (LXX), sugerindo que Paulo fez uma paráfrase interpretativa deliberada para aplicar ao contexto de Corinto (Garland, “F. The Preference for Prophecy”).
- Fee: Argumenta que a profecia expõe os segredos do coração (v.25) levando à conversão, e que este é o verdadeiro “sinal” da presença de Deus, contrastando com a “loucura” (mania) associada aos cultos de mistério pagãos (Fee, “Application for the Sake of Unbelievers”).
- Thiselton: Faz uma conexão vital com a maturidade (v.20). A preferência pelo espetacular (línguas) em detrimento do inteligível é “infantilidade”. Ele conecta isso à crítica de Isaías aos líderes bêbados de Jerusalém que zombavam do profeta (Thiselton, “Maturity as Love”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Contradição do v.22 (“Sinal para incrédulos”):
- Problema: Paulo diz que línguas são sinal para incrédulos, mas no v.23 diz que línguas afasta os incrédulos.
- Garland: Resolve dizendo que é um sinal negativo que confirma a incredulidade (endurecimento).
- Fee: Concorda, enfatizando a função irônica: línguas funcionam para “desvantagem” dos incrédulos, selando seu julgamento.
- Thiselton: Rejeita a ideia de que Paulo está citando um slogan coríntio (teoria de Johanson) e insiste que Paulo está aplicando a tipologia do exílio: ininteligibilidade = julgamento de Deus sobre quem rejeita a palavra clara.
4. Ecos do Antigo Testamento
- Isaías 28:11-12: Todos concordam que Paulo usa este texto como base.
- Isaías 45:14 / Zacarias 8:23: Identificados como a fonte da confissão do incrédulo no v.25 (“Deus está convosco”). Fee nota a mudança do singular “convosco” (Israel) para o plural (Igreja).
5. Consenso Mínimo
- Línguas não interpretadas no culto público têm um efeito negativo evangelisticamente, levando o incrédulo a concluir que os cristãos são loucos, enquanto a profecia leva à convicção de pecado e adoração.
📖 Perícope: Versículos [14:26-33] - Ordem no Culto
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Diakrinō (Julgar/Discernir, v.29):
- Garland: “Avaliar cuidadosamente”. A comunidade não deve aceitar passivamente a fala profética (Garland, “Regulations for Worship”).
- Fee: “Pesar”. Não é julgar o profeta (se é verdadeiro ou falso), mas a profecia (se o conteúdo vem do Espírito) (Fee, “The Ordering of Tongues”).
- Thiselton: “Diferenciar”. Distinguir entre o que vem de Deus e o que é retórica humana ou auto-ilusão (Thiselton, “Does the Spirit Create Order?”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Sugere que a limitação de “dois ou três” profetas visa quebrar o monopólio de um grupo de elite que dominava o culto. O “sentado” (v.30) que recebe a revelação mostra que a autoridade não reside na posição, mas na doação momentânea do Espírito (Garland, “Regulations for Worship”).
- Fee: Insiste que “os outros” (hoi alloi) que julgam a profecia não são apenas outros profetas, mas a comunidade inteira. Ele vê isso como prova contra o clericalismo; a profecia é para todos e julgada por todos (Fee, “The Ordering of Tongues”).
- Thiselton: Ataca o mito da espontaneidade. Defende que a profecia paulina pode envolver reflexão prévia e preparação (“Pastoral Preaching”). O v.32 (“espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”) prova que a inspiração cristã não é um transe incontrolável, mas envolve a agência racional e ética do falante (Thiselton, “Spontaneous or Also Involving Rational Reflection?”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Profecia:
- Fee: Estritamente espontânea.
- Thiselton: Pode ser preparada/reflexiva.
- Garland: Mantém uma posição intermediária, mas enfatiza o caráter revelatório ocasional.
5. Consenso Mínimo
- O culto deve ser participativo (“cada um tem…”, v.26), mas estritamente ordenado. O Espírito Santo não produz caos (akatastasia), mas paz. A profecia não é infalível e deve ser julgada pela comunidade.
📖 Perícope: Versículos [14:34-36] - O Silêncio das Mulheres
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Sigatōsan (Estejam caladas):
- Garland: Silêncio temporário e específico, não absoluto. Refere-se a não causar vergonha interrompendo (Garland, “Regulations for Worship”).
- Thiselton: “Silence” no contexto de “control speech”.
- Lalein (Falar):
- Thiselton: Neste contexto específico, refere-se ao ato de interrogar/julgar as profecias (v.35 “se querem aprender…”), possivelmente esposas questionando maridos publicamente, o que seria vergonhoso (Thiselton, “What Kind of Interrogation?”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Garland: Defende a autenticidade textual. Interpreta socialmente: mulheres (provavelmente esposas) estavam interrompendo o julgamento das profecias com perguntas que envergonhavam seus maridos. O problema é a “honra/vergonha”, não a fala feminina em si (já permitida em 11:5) (Garland, “Regulations for Worship”).
- Fee: Defende vigorosamente que estes versículos são uma Interpolação Não-Paulina.
- Argumento: Apela à Lei (v.34) de forma absoluta (não paulino); contradiz 11:5; manuscritos ocidentais colocam os versos após o v.40, sugerindo que eram uma nota marginal que foi incorporada ao texto (Fee, “On Women Remaining Silent”).
- Thiselton: Embora reconheça a força da teoria da interpolação, prefere tratar o texto como canônico e resolvê-lo exegeticamente. Ele foca no termo hypotassesthōsan (submissão) como “manter a ordem” e não submissão masculina ontológica. O “falar” proibido é o questionamento disruptivo durante a avaliação das profecias (Thiselton, “A Particular Case”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Maior Divergência do Capítulo:
- Fee: O texto não é de Paulo. Deve ser removido da teologia paulina normativa.
- Garland & Thiselton: O texto é de Paulo, mas tem um escopo limitado (esposas interrompendo/julgando), não uma proibição absoluta do ministério feminino.
5. Consenso Mínimo
- Mesmo discordando sobre a origem do texto, os três concordam que Paulo (ou o texto canônico lido em contexto) não proíbe as mulheres de profetizar ou orar, dado o claro ensino de 1 Coríntios 11:5. A restrição aqui é específica (seja interpolação posterior ou regra para ordem doméstica no culto).
📖 Perícope: Versículos [14:37-40] - Conclusão e Autoridade
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Agnoeitai (É ignorado / Não é reconhecido, v.38):
- Garland: Voz passiva indicando ação divina. “Será ignorado [por Deus]” no dia do juízo (Garland, “Regulations for Worship”).
- Thiselton: Usa a categoria de Käsemann de “Sentenças da Lei Sagrada”. Há uma lógica interna: quem não reconhece o caráter do Espírito na ordem apostólica, prova que não é “do Espírito”, e portanto, não é reconhecido por Deus (Thiselton, “A Particular Warning”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Fee: Vê o v.36 (“Acaso a palavra de Deus se originou entre vós?”) como um ataque sarcástico à arrogância coríntia de agir independentemente de “todas as igrejas” (v.33). Eles pensavam que tinham o monopólio do Espírito (Fee, “Conclusion—Confrontation”).
- Thiselton: Destaca que euschēmonōs (decentemente/com decoro, v.40) tem uma dimensão missionária. O culto deve ser “apresentável” ao mundo, não apenas esteticamente agradável (Thiselton, “A Particular Warning”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Autoridade Apostólica:
- Fee vê aqui um confronto direto de autoridade: Paulo vs. Pneumáticos.
- Thiselton vê mais como um teste lógico: O Espírito não pode se contradizer; logo, a desordem não é do Espírito.
5. Consenso Mínimo
- O capítulo encerra reafirmando a hierarquia de valores: busquem a profecia, não proíbam as línguas, mas submetam tudo à régua da decência e da ordem para a edificação mútua.