Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: 1 Coríntios 12
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
- Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: David E. Garland, Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Histórica com forte ênfase Sócio-Retórica. Garland foca na dinâmica social de status e honra/vergonha dentro da comunidade coríntia.
- Metodologia: Exegese focada no fluxo do argumento retórico e na reconstrução do cenário social. Ele aborda o texto procurando “colocar em perspectiva correta a natureza dos dons espirituais” combatendo o “individualismo radical” (Garland,,).
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Autor/Obra: Gordon D. Fee, The New International Commentary on the New Testament.
- Lente Teológica: Evangélica/Pentecostal (erudita). Fee é renomado por sua ênfase na Pneumatologia Paulina (experiência do Espírito) dentro de uma estrutura escatológica do “já e ainda não”.
- Metodologia: Teologia Bíblica e Exegese rigorosa. Ele busca corrigir a “escatologia super-realizada” dos coríntios, onde a espiritualidade era definida por línguas como sinal de existência angelical.
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Autor/Obra: Anthony C. Thiselton, The New International Greek Testament Commentary.
- Lente Teológica: Filosófica/Hermenêutica. Utiliza a teoria dos atos de fala (speech-act theory) e uma vasta recepção histórica (patrística).
- Metodologia: Exegese gramatical profunda e lexicografia exaustiva. Ele ataca o texto analisando como a linguagem funciona para “construir” o outro, focando na reciprocidade e no serviço (Thiselton,).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Garland: Paulo reinterpreta a terminologia elitista dos Coríntios para democratizar a espiritualidade, argumentando que os dons são distribuídos soberanamente para a unidade do corpo, e não para status social.
- Argumento: Garland sugere que Paulo cita os termos dos coríntios (pneumatika) mas os redefine. O problema central é a “ambição humana competitiva” que ameaça a comunidade (Garland,). Ele enfatiza que “não deve haver elite espiritual na igreja” e que os dons não são indicadores de status espiritual (Garland,).
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Tese de Fee: O conflito central é uma visão distorcida do que significa ser pneumatikos (povo do Espírito), onde os coríntios priorizavam as línguas como evidência de uma existência angelical presente, exigindo que Paulo reorientasse a evidência do Espírito para a confissão de Jesus como Senhor e a edificação mútua.
- Argumento: Fee argumenta que os coríntios tinham uma paixão singular pelas línguas, vendo-as como “línguas dos anjos” (13:1), evidência de uma espiritualidade superior (Fee,). Paulo corrige isso insistindo na diversidade e na inteligibilidade para edificação (Fee,).
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Tese de Thiselton: O capítulo trata da redefinição do “espiritual” não como experiências extáticas ou status, mas como atos de serviço que constroem a comunidade (“vantagem comum”), fundamentados em uma estrutura trinitária e cristológica.
- Argumento: Thiselton destaca que a questão chave é: “Que critérios devemos aplicar… para ser considerado genuinamente ‘do Espírito Santo’?” (Thiselton,). Ele enfatiza que receber um dom está ligado ao serviço ao outro: “Não é tanto uma questão de ter um dom, mas de ser um dom” (Thiselton,).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Garland | Visão de Fee | Visão de Thiselton |
|---|---|---|---|
Palavra-Chave (12:1) tōn pneumatikōn | Masculino (“as pessoas espirituais”). Refere-se a uma elite que se autodenominava assim. Paulo usa o termo deles ironicamente (Garland,,). | Neutro (“dons” ou “questões do Espírito”). Embora reconheça a ambiguidade, foca na manifestação do Espírito e não nas pessoas em si (Fee,,). | Neutro (“coisas que vêm do Espírito”). Foca no critério para discernir o que é genuinamente do Espírito Santo (Thiselton,). |
| A Maldição (12:3) “Jesus é Anátema” | Origem Judaica. Alusão à rejeição judaica de Jesus na sinagoga, que os coríntios conheciam. Não era dito por cristãos no culto (Garland,). | Critério de Conteúdo. Provavelmente hipotético ou contraste com o passado pagão. O ponto é que a fala inspirada deve ter conteúdo cristológico (Fee,,). | Critério Cristológico/Existencial. Entende como uma antítese de postura de vida e coração, não apenas palavras. Rejeição da soberania de Cristo (Thiselton,). |
| Batismo no Espírito (12:13) | Iniciação Cristã. Refere-se à conversão que incorpora todos ao corpo. Lava barreiras sociais (Garland,,). | Conversão (Sine qua non). Ocorre no início da vida cristã. Rejeita a visão pentecostal clássica de “segunda bênção” neste texto (Fee,,). | Status Universal. Enfatiza que “todos” participam. Critica a teologia que divide cristãos em níveis baseados nessa experiência (Thiselton,,). |
| Natureza das Línguas | Linguagem do Espírito. Não é irracional, mas supraracional. Um indicador de status para os coríntios (Garland,,). | Línguas dos Anjos. Os coríntios criam falar dialetos celestiais, sinalizando uma espiritualidade superior e “angelical” (Fee,,). | Linguagem do Inconsciente. Segue Theissen: linguagem que traz à tona profundezas pré-conscientes ou “gemidos inexprimíveis” (Thiselton,,). |
| Tom/Estilo | Pastoral e Sócio-Retórico. Foca na correção de comportamentos sociais divisivos. | Teológico e Polêmico. Foca vigorosamente na correção doutrinária sobre o Espírito. | Enciclopédico e Filosófico. Foca na precisão lexical e história da interpretação. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Thiselton. Embora Garland seja excelente na dinâmica social, Thiselton fornece o background histórico mais exaustivo, analisando desde papiros gregos até a história da recepção patrística e medieval, desconstruindo paralelos superficiais com religiões de mistério (Thiselton,,).
- Melhor para Teologia: Fee. Ele oferece a articulação mais robusta da Pneumatologia Paulina, conectando o capítulo 12 com a escatologia e a cristologia de forma magistral. Sua análise sobre o papel do Espírito na conversão (12:13) e a correção da “espiritualidade angelical” é teologicamente penetrante (Fee,,).
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se adotar a estrutura teológica de Fee (o Espírito aponta para o Senhorio de Jesus e diversidade na unidade), matizada pela reconstrução social de Garland (o problema é o elitismo e status, não apenas doutrina), e refinada pelas definições precisas de Thiselton (os dons são atos de fala e serviço para o bem comum, não experiências extáticas auto-centradas).
Pneumatika, Carisma, Corpo de Cristo e Glossolalia são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 12:1-3 — O Critério Cristológico
1. Análise Filológica & Termos-Chave
tōn pneumatikōn(v.1): O grande debate é se o termo é masculino (“as pessoas espirituais”) ou neutro (“os dons espirituais”). Garland argumenta que a ambiguidade é intencional, mas prefere “os espirituais” (pessoas), pois Paulo está citando um termo elitista dos coríntios para depois redefini-lo (Garland, “I have opted to translate it ‘spiritual ones’… to capture the rhetorical setting”). Fee prefere “questões do Espírito” ou “dons”, notando que Paulo usa o termo para focar no Espírito, enquanto charismata foca na graça (Fee, “the emphasis in each case reflects the root word”). Thiselton traduz com cautela como “coisas que vêm do Espírito”, colocando entre aspas para indicar que é uma resposta a um slogan coríntio (Thiselton, “Now about things that ‘come from the Spirit’”).anathema Iēsous(v.3): A frase chocante “Jesus é anátema (amaldiçoado)“. Thiselton explora a conexão com o hebraico herem (destinado à destruição total) e o uso da LXX (Thiselton, “LXX translation for Heb. cherem”).agoein/apagein(v.2): Verbos usados para descrever o passado pagão (“conduzidos”). Garland rejeita a visão de que isso implica êxtase demoníaco, preferindo ver como uma descrição de procissões religiosas (pompē) (Garland, “refers to the pompē, ‘a cultic festival procession’”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Destaca que a referência a “Jesus é Anátema” provavelmente não é hipotética, mas alude à rejeição judaica na sinagoga, onde Jesus era considerado maldito por ter sido crucificado (Deut 21:23). Ele sugere que os coríntios conheciam essa realidade devido ao contato com a sinagoga local (Garland, “evidence reveals that this cursing of Jesus actually occurred in the synagogues”).
- [Fee]: Aprofunda-se na confissão “Jesus é Senhor” (Kyrios Iēsous), argumentando que o uso anartro de Kyrios substitui o Tetragrama (YHWH) da Bíblia grega. Para Fee, isso é uma afirmação de “alta cristologia” que coloca Jesus na categoria de divindade, em contraste direto com os “muitos senhores” dos cultos de mistério (Fee, “the anarthrous kyrios was used almost exclusively as a way of rendering the tetragrammaton YHWH”).
- [Thiselton]: Aplica a teoria dos atos de fala (speech-act theory) de Wolterstorff. Ele argumenta que Paulo está lidando com o conceito de “discurso de agência dupla”, onde a fala humana conta como fala divina se autorizada pelo Espírito. A confissão não é apenas proposicional, mas “ilocucionária”, envolvendo um autocompromisso existencial (Thiselton, “human words can in appropriate situations, count as ‘divine discourse’”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Maldição (12:3): Há um desacordo significativo sobre a origem de “Jesus é Anátema”. Fee acha difícil imaginar que alguém dissesse isso no culto e tende a ver como um exemplo hipotético ou uma referência ao passado pagão demoníaco (Fee, “It is difficult for us to imagine… anyone actually cursed Jesus in the gathered Christian assembly”). Garland contesta veementemente a hipótese de êxtase incontrolável ou influência demoníaca direta na assembleia, preferindo o contexto histórico judaico. Thiselton lista doze explicações possíveis e tende a ver como um critério que combina crença e postura de vida, rejeitando a ideia de que fosse apenas um teste de fala extática.
- Veredito: O argumento de Garland sobre o contexto da sinagoga é historicamente robusto, mas a análise teológica de Fee sobre o senhorio de Jesus como contraparte direta ao politeísmo oferece a melhor explicação teológica para o contraste que Paulo estabelece.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Garland conecta “ídolos mudos” (12:2) com Salmos 115:5 e Habacuque 2:18-19, destacando a polêmica judaica tradicional contra a idolatria.
- Thiselton conecta anathema com Levítico 27:28 e Josué 6:17 (o conceito de cherem).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a mera ocorrência de fala inspirada (“pneumática”) não é garantia da presença do Espírito Santo; o conteúdo inteligível e a confissão do Senhorio de Jesus são os critérios decisivos.
📖 Perícope: Versículos 12:4-11 — A Diversidade na Unidade Trinitária
1. Análise Filológica & Termos-Chave
diaireseis(v.4): Fee e Garland notam que pode significar “variedades” ou “distribuições”. Thiselton insiste em “apportionings” (repartições/alocações), ligando ao verbo diairoun no v.11, para enfatizar a soberania de Deus em dar a cada um uma porção (Thiselton, “One does not question what is freely given as one’s portion”).logos sophias/logos gnōseōs(v.8): Garland vê a “sabedoria” não como especulação, mas como insight sobre o Cristo crucificado (1 Cor 1-2). Thiselton traduz como “articulate utterance relating to wisdom”, enfatizando que é um ato de fala comunicável, não apenas uma intuição interna.energēmata dynameōn(v.10): Traduzido geralmente como “operações de milagres”. Thiselton prefere “actively effective deeds of power”, argumentando que dynameis no plural não se restringe ao milagroso “sobrenatural” (conceito pós-iluminista), mas a atos que demonstram a eficácia de Deus (Thiselton, “does not narrowly specify it as the entire content… of these deeds of power”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Observa que a lista de dons é ad hoc e reflete a situação de Corinto. Nota que “fé” (v.9) aqui não é a fé salvadora, mas uma “onda misteriosa de confiança” para situações específicas. Ele destaca que Paulo mistura dons “sobrenaturais” e “comuns” deliberadamente para borrar essa distinção (Garland, “mixture of what some might label ‘natural’ and ‘supernatural’”).
- [Fee]: É o mais enfático sobre o caráter “inconsciente e sem arte” da estrutura trinitária nos versos 4-6, vendo-a como a base teológica para a diversidade. Ele argumenta fortemente que a lista de dons não é exaustiva e que “discernimento de espíritos” (v.10) refere-se especificamente à avaliação de profecias na assembleia, não a um “teste de espíritos” geral (Fee, “refers… particularly to the phenomenon described as ‘discerning… or properly judging’ prophecies”).
- [Thiselton]: Oferece uma exegese detalhada de “Dons de curas” (charismata iamatōn - plural), sugerindo que o plural implica “various kinds of healing”, o que não exclui o uso de meios médicos ou remédios naturais, citando paralelos patrísticos e rejeitando o dualismo moderno natural/sobrenatural (Thiselton, “does not thereby exclude ‘natural remedies’”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza das Línguas (v.10): Fee e Garland concordam que as línguas são ininteligíveis para a mente humana e dirigidas a Deus. No entanto, Thiselton engaja-se profundamente com a tese de Gerd Theissen de que as línguas são a “linguagem do inconsciente” que se torna capaz de consciência através da interpretação. Thiselton argumenta que hermeneia (interpretação) significa “colocar em discurso articulado”, não necessariamente tradução de um idioma estrangeiro (Thiselton, “power to put something into articulate speech, not to interpret or to translate”). Fee mantém que a questão de ser um idioma real é irrelevante, pois funcionalmente é ininteligível, mas inclina-se para a visão de “dialetos angélicos” (Fee, “The key… lies in the term ‘the language of angels’”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Thiselton e Fee notam a alusão implícita a Isaías 11:2 (o Espírito sobre o Messias) na teologia patrística (Tertuliano) sobre os dons, embora Paulo não cite o texto diretamente aqui.
5. Consenso Mínimo
- Os dons são distribuídos soberanamente pelo Espírito (v.11) para o “bem comum” (v.7), e nenhuma pessoa possui todos os dons, nem um único dom é possuído por todos.
📖 Perícope: Versículos 12:12-14 — O Batismo no Corpo
1. Análise Filológica & Termos-Chave
baptizein en heni pneumati(v.13): O debate é se é instrumental (“por um Espírito”) ou locativo (“em um Espírito”). Fee argumenta fortemente pelo locativo (“no Espírito”) como o elemento em que são imersos, baseado no uso consistente do NT (Fee, “expresses the ‘element’ in which they have all been immersed”).epotisthēmen(v.13): “Demos de beber”. Garland nota a dificuldade gramatical e sugere uma alusão à irrigação ou saturação (Garland, “‘We were all drenched’ or ‘we were all flooded’”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Enfatiza que o batismo aqui lava as “barricadas sociológicas e étnicas”. Ele nota a ausência de “macho e fêmea” (presente em Gal 3:28) e sugere que isso ocorre porque a divisão primária em Corinto era de status social, não de gênero, neste contexto específico (Garland, “male and female are omitted… because the primary division in the church was sociological”).
- [Fee]: Combate vigorosamente a teologia Pentecostal clássica de uma “segunda bênção” baseada neste verso. Ele insiste que o tempo aoristo aponta para a conversão inicial como o momento do batismo no Espírito, que é o sine qua non da vida cristã (Fee, “Paul is referring to their common experience of conversion”).
- [Thiselton]: Discute a história da recepção Pentecostal (Seymour, Parham) e a refuta exegeticamente, alinhando-se com Dunn. Ele traduz
epotisthēmencomo “saturados” ou “drenched”, evitando o materialismo sacramental e enfatizando a completude da experiência do Espírito para todos (Thiselton, “excludes an un-Pauline reading… conveys his thought”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Sacramento vs. Metáfora: Garland considera possível que “beber do Espírito” seja uma alusão à Ceia do Senhor, dada a linguagem de 10:4 (“bebida espiritual”). Thiselton e Fee rejeitam isso. Fee vê como um paralelismo semítico onde ambas as frases se referem à mesma realidade da conversão/iniciação (Fee, “a piece of Semitic parallelism”). Thiselton concorda, citando Godet: “a expressão beber o Espírito Santo na Ceia é totalmente estranha à linguagem da Escritura”.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Garland liga a imagem de beber/derramar o Espírito a Isaías 29:10, Ezequiel 36:25-27 e Joel 2:28.
5. Consenso Mínimo
- O versículo 13 refere-se à iniciação cristã que incorpora o crente ao corpo de Cristo, e não a uma experiência subsequente reservada a uma elite.
📖 Perícope: Versículos 12:15-26 — A Aplicação da Metáfora do Corpo
1. Análise Filológica & Termos-Chave
asthenestera(v.22): Literalmente “mais fracos”. Thiselton traduz como “less endowed with power or status”, argumentando que no contexto social de Corinto refere-se àqueles sem influência (Thiselton, “insufficiently impressive to count for much”).aschemona(v.23): “Indecorosos” ou “impresentáveis”. Garland identifica explicitamente como a genitália, que cobrimos por modéstia (Garland, “Paul refers euphemistically to the genitalia”).synekerasen(v.24): “Misturou” ou “compôs”. Thiselton nota o uso em Platão (Timeu) para a composição harmoniosa de elementos díspares (Thiselton, “concept of the body as both a sociopolitical and a theological entity”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Traz o paralelo com a fábula de Menenius Agrippa (Lívio), usada na política romana para pacificar a plebe. Garland nota que Paulo inverte a retórica: em vez de dizer aos “inferiores” para se submeterem, ele ordena aos “superiores” que honrem os inferiores (Garland, “Paul uses the body metaphor to turn things upside down”).
- [Fee]: Adverte contra a alegorização excessiva (tentar identificar quem é o “olho” ou a “mão” na igreja). Ele foca na necessidade teológica da diversidade: se todos fossem um só membro, o corpo seria uma “monstruosidade” (Fee, “a monstrosity”).
- [Thiselton]: Aprofunda-se na análise sócio-retórica de Mitchell e Martin. Ele vê o corpo não apenas como biológico, mas como um topos político de hierarquia. Paulo usa essa retórica conservadora para subvertê-la, investindo honra nos membros que não têm status social (Thiselton, “Paul has used a rhetoric of political hierarchy only in order to turn it upside down”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Identificação dos Membros: Quem são os “fracos”? Fee tende a ver uma aplicação interna à metáfora (órgãos internos vitais mas ocultos). Garland e Thiselton aplicam mais diretamente à situação social de Corinto: os “fracos” são os socialmente desfavorecidos ou aqueles sem os dons de fala “espetaculares”. Thiselton é o mais explícito em conectar isso com a “teologia da cruz” que inverte status (Thiselton, “application of the critique of Christ and the cross to the church”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Não há citações diretas do AT nesta seção, pois a metáfora é primariamente estoica/política, mas Thiselton nota a ressonância com a inversão de valores encontrada em textos sapienciais e proféticos (ex: o desprezado sendo escolhido).
5. Consenso Mínimo
- A diversidade é divinamente ordenada (“Deus dispôs os membros”, v.18) e a interdependência é obrigatória; a autossuficiência (“não preciso de ti”) é incompatível com a vida no corpo.
📖 Perícope: Versículos 12:27-31 — A Hierarquia de Dons e a Aplicação Eclesial
1. Análise Filológica & Termos-Chave
antilēmpseis(v.28): Thiselton faz uma análise exaustiva dos papiros para traduzir como “kinds of administrative support” (apoio administrativo/gestão), rejeitando a visão de apenas “atos de ajuda” vagos (Thiselton, “support in the sense… of support staff”). Garland mantém “helpful deeds” mas nota a conexão com ajudar os fracos em Atos 20:35.kybernēseis(v.28): Fee traduz como “guidance”, notando a metáfora náutica de pilotar o navio. Thiselton traduz como “ability to formulate strategies” (habilidade de formular estratégias), vendo-o como um dom de estadista para guiar a igreja em águas difíceis (Thiselton, “strategic statesmanship”).zēloute(v.31): Imperativo (“procurai com zelo”) ou Indicativo (“vós procurais”)? Garland discute a visão de que seria indicativo (uma crítica de Paulo à ambição deles), mas conclui que é imperativo, exortando-os a buscar os dons que edificam (Garland, “Most interpreters take the verb as an imperative”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Garland]: Observa que a ordem “primeiro, segundo, terceiro” implica uma avaliação hierárquica de importância baseada na utilidade para a edificação, o que contraria a cultura de status de Corinto que valorizava as línguas (Garland, “He clearly ranks prophecy above speaking in tongues”).
- [Fee]: Argumenta que os apóstolos são “primeiros” não por autoridade administrativa, mas por precedência na fundação da igreja. Ele insiste que a lista mistura pessoas (apóstolos) e dons (curas) sem distinção rígida de “ofício” (Fee, “the emphasis is not on the people… but simply on the presence of the gifts”).
- [Thiselton]: Destaca a distinção funcional entre Profetas e Mestres. Profetas realizam atos de fala de proclamação e julgamento; Mestres realizam atos de fala de transmissão e explicação de tradições. Ele vê “mestres” como essenciais para a estabilidade doutrinária (Thiselton, “teachers perform speech-acts of transmission… explanation”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O “Caminho Sobremodo Excelente” (12:31b): Fee vê isso não como um contraste (“amor em vez de dons”), mas como o contexto necessário (“amor como a via para os dons”). Garland concorda, rejeitando a ideia de que o amor seja um “dom” que substitui os outros. Thiselton adiciona que o “caminho” é uma orientação de vida que redefine o que é “maior”: não o mais espetacular, mas o que mais serve ao outro.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Thiselton menciona Isaías 11 (os dons do Messias) como pano de fundo patrístico para a lista de dons, embora Paulo não cite explicitamente.
5. Consenso Mínimo
- Nem todos têm o mesmo dom (perguntas retóricas exigem “não” como resposta), e a busca por dons deve ser reorientada para aqueles que edificam o corpo, preparando o palco para a supremacia do amor no capítulo 13.