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Introdução & Contexto
1) Identidade das Fontes
- Garland, David E. (2003). 1 Corinthians. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic.
- Fee, Gordon D. (1987/2014). The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament (NICNT). Grand Rapids: Eerdmans.
- Thiselton, Anthony C. (2000). The First Epistle to the Corinthians. The New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Grand Rapids: Eerdmans.
2) “Mapa da Introdução” por Autor
Garland (BECNT) — Tese de Introdução
- Tese central da introdução: Os problemas de Corinto não derivam de uma heresia teológica específica (como o Gnosticismo), mas da infiltração de valores culturais seculares romanos — competitividade, status e “sabedoria” retórica — na igreja.
- Objetivo declarado do comentário: Ler a carta contra o pano de fundo de uma cidade imbuída de valores culturais romanos, onde a igreja luta para definir sua identidade contra o ambiente cultural (Garland, “imbued with Roman cultural values”).
- Teses secundárias:
- A sociedade era marcada por “inconsistência de status” e mobilidade social agressiva de libertos (Garland, “freedman class”).
- O problema não é “escatologia ultra-realizada” per se, mas uma falta de visão escatológica clara do julgamento final, levando a compromissos morais (Garland, “lack of a clear eschatological vision”).
- A carta não segue estritamente a teoria retórica antiga, sendo mais uma carta privada e pastoral (Garland, “First Corinthians is a private letter”).
- Pressupostos/metodologia: Foco sociológico e histórico-social; ceticismo quanto ao “leitura em espelho” (mirror-reading) excessiva de oponentes teológicos definidos.
- O que ele considera “em jogo” interpretativamente: A identidade da igreja está em risco; o problema não era que a igreja estava em Corinto, mas que “too much of Corinth was in the church” (Garland, citando Fee).
Fee (NICNT) — Tese de Introdução
- Tese central da introdução: A situação histórica é primariamente um conflito entre a igreja e seu fundador (Paulo), onde a comunidade questiona a autoridade apostólica baseada em uma falsa compreensão de espiritualidade.
- Objetivo declarado do comentário: Reconstruir a situação histórica como um conflito de autoridade e evangelho, focado na autodefinição coríntia de pneumatikos (espiritual).
- Teses secundárias:
- A teologia aberrante é uma “escatologia espiritualizada” (spiritualized eschatology), onde os crentes pensam que já vivem a existência angelical futura (Fee, “already as the angels”).
- A igreja não é dividida em partidos teológicos fixos, mas há um sentimento anti-paulino generalizado liderado por alguns (Fee, “decidedly anti-Pauline sentiment”).
- A carta é uma resposta ad hoc, combativa e retórica, não uma instrução passiva (Fee, “Paul is on the attack”).
- Pressupostos/metodologia: Exegese histórico-teológica; forte ênfase na teologia do Espírito e Escatologia (o “já e ainda não”).
- O que ele considera “em jogo” interpretativamente: A própria natureza do Evangelho e a autoridade apostólica estão sendo desafiadas por uma visão helenística dualista.
Thiselton (NIGTC) — Tese de Introdução
- Tese central da introdução: A carta aborda uma igreja imersa em um “clima pós-moderno” de pragmatismo, construção social da realidade e consumismo retórico, onde a verdade é subordinada ao sucesso e à auto-promoção.
- Objetivo declarado do comentário: Examinar a carta sob a ótica da teoria dos atos de fala (speech-act theory) e da hermenêutica, vendo a proclamação da Cruz como um ato transformador de visão de mundo.
- Teses secundárias:
- O conceito de “Apóstolo” não é sobre poder, mas transparência da Cruz; Paulo usa atos de fala ilocucionários para transformar a realidade dos leitores (Thiselton, “transformative speech-acts”).
- Existe uma tensão entre a retórica pragmática de Corinto (focada na audiência) e a retórica apostólica (focada na verdade e tradição) (Thiselton, “postmodern mood”).
- Rejeita polarizações simplistas entre retórica e epistolografia; Paulo usa ambas (Thiselton, “Epistolography and Rhetoric go hand in hand”).
- Pressupostos/metodologia: Hermenêutica filosófica, teoria dos atos de fala, socio-retórica, teologia sistemática.
- O que ele considera “em jogo” interpretativamente: A recuperação de uma racionalidade transcontextual centrada na Cruz contra o relativismo local e a auto-suficiência dos coríntios.
3) Dossiê de Contexto (evidência + debate)
1. Autoria
- Garland: Assume a autoria paulina sem grande debate, focando em como Paulo se apresenta como pai e modelo (Garland, “imitate their father Paul”).
- Fee: Destaca a autoria no contexto de um conflito de autoridade. A carta é Paulo vis-à-vis a congregação (Fee, “the letter is basically the apostle Paul vis-à-vis the Corinthian congregation”).
- Thiselton: Analisa profundamente o termo apóstolo. Rejeita a visão de Foucault/Nietzsche de que Paulo busca poder; define o apostolado como “testemunho da ressurreição” e “vivência da fraqueza da cruz” (Thiselton, “apostleship entails… sharing in the weakness of the cross”). Destaca Sóstenes não apenas como escriba, mas como co-remetente para enfatizar a colaboração (Thiselton, “not… as an isolated individual”).
- Convergência vs divergência: Todos aceitam a autoria paulina. Divergem na função da auto-apresentação: Garland vê um pai pastoral; Fee vê um fundador reafirmando autoridade atacada; Thiselton vê um agente transparente de Deus subvertendo a retórica de poder.
- Peso da evidência: Thiselton oferece a análise mais robusta, integrando a menção de Sóstenes e o título de apóstolo com a teologia da cruz, evitando leituras anacrônicas de “poder hierárquico”.
2. Data
- Garland: Primavera de 54 ou 55 d.C., escrita de Éfeso (Garland, “probably in the spring of 54 or 55”).
- Fee: Primavera, c. 53-55 d.C. (Fee, “ca. A.D. 53–55”).
- Thiselton: Primavera de 54 ou 55 d.C. Baseia-se na cronologia de Gálio e no tempo necessário para o desenvolvimento dos problemas (Thiselton, “earlier part of AD 54 is widely accepted”).
- Convergência vs divergência: Alta convergência. A janela é estreita (53-55 d.C.), dependendo da datação da saída de Paulo de Corinto (Atos 18) e da inscrição de Gálio.
- Peso da evidência: Empate técnico. Todos dependem da inscrição de Délfi sobre Gálio (proconsulado c. 51-52 d.C.) para ancorar a cronologia.
3. Local de escrita
- Garland: Éfeso (Garland, “Paul writes this letter from Ephesus”).
- Fee: Éfeso (Fee, “while Paul was in Ephesus”).
- Thiselton: Éfeso (Thiselton, “place of writing was Ephesus”).
- Convergência vs divergência: Unanimidade absoluta baseada em 1 Co 16:8.
- Peso da evidência: Inquestionável.
4. Destinatários e geografia
- Garland: Enfatiza a romanidade da colônia. Era uma cultura de “novos ricos” (libertos), com intensa mobilidade social e busca de status. A igreja reflete isso: “Not for every man is the voyage to Corinth” (Garland, citando Estrabão).
- Fee: Destaca que a igreja era predominantemente gentia e de classes baixas, mas com patronos ricos. Discorda que a influência judaica fosse central na teologia do erro (Fee, “predominantly Gentile community”). Descreve Corinto como a “Nova York, Los Angeles e Las Vegas” do mundo antigo (Fee, “New York, Los Angeles, and Las Vegas”).
- Thiselton: Foca na geografia comercial (diolkos, portos) criando um ambiente de “pragmatismo competitivo”. A igreja é marcada por “inconsistência de status” (status inconsistency) e um ethos de mercado (Thiselton, “market exchange of goods and services”).
- Convergência vs divergência: Todos concordam com a estratificação social. Garland e Thiselton enfatizam mais a romanidade e o caráter comercial/competitivo; Fee foca mais na origem gentia/pagã para explicar a ética sexual e a idolatria.
- Peso da evidência: Garland e Thiselton apresentam melhor a evidência arqueológica e sociológica da Corinto romana (não grega clássica), o que é crucial para entender as disputas de honra e patronage.
5. Ocasião / problema motivador
- Garland: Relatos orais da família de Cloé e uma carta dos coríntios. O problema é a adoção de “sabedoria secular” e a falta de limites claros com a cultura pagã (Garland, “too much of Corinth was in the church”).
- Fee: A carta é uma resposta a uma situação de conflito. Os coríntios escreveram desafiando Paulo. O problema raiz é a autodefinição deles como pneumatikoi (espirituais), rejeitando a autoridade de Paulo e seu evangelho da cruz (Fee, “conflict between the church and its founder”).
- Thiselton: Concorda com os relatos e a carta, mas vê a ocasião teológica como a necessidade de corrigir uma visão de mundo onde a “retórica de consumo” substituiu a verdade. O problema é o “clima pós-moderno” de auto-promoção (Thiselton, “postmodern mood”).
- Convergência vs divergência: Garland vê “assimilação cultural”; Fee vê “oposição teológica/espiritual”; Thiselton vê “falha hermenêutica/retórica”. Fee é o único que insiste fortemente que a igreja é hostil a Paulo nesta carta.
- Peso da evidência: Fee argumenta convincentemente que o tom defensivo e retórico de Paulo (ex: cap 4 e 9) sugere um conflito de autoridade, não apenas confusão pastoral.
6. Propósito e tese do livro
- Garland: Formar uma comunidade harmoniosa e subverter valores sociais competitivos através da cruz. Reformar os valores para que vivam vidas “cruciformes” (Garland, “live cruciform lives”).
- Fee: Reafirmar a autoridade apostólica e corrigir a teologia aberrante através de uma escatologia correta (“já/não ainda”) e da centralidade da cruz (Fee, “radical surgery without killing the patient”).
- Thiselton: Transformar a identidade dos leitores através da re-proclamação da cruz como critério de valor, deslocando o centro do “eu” para o “outro” e para Deus (Thiselton, “re-proclamation of the different value system”).
- Convergência vs divergência: Todos convergem na centralidade da Cruz como solução. Divergem no alvo: Garland (unidade social), Fee (ortodoxia/autoridade), Thiselton (epistemologia/ethos).
- Peso da evidência: Thiselton oferece uma síntese teológica profunda, mostrando como a Cruz funciona como um “ato de fala” que reestrutura toda a percepção de realidade dos coríntios.
7. Gênero e estratégia retórica
- Garland: Carta privada. Cético quanto à análise retórica formal (como a de Mitchell), pois Paulo não segue regras estritas e a carta é uma conversa pastoral contínua (Garland, “First Corinthians is a private letter”).
- Fee: Carta ad hoc, estilo retórico e combativo, mas não um tratado formal. Paulo usa retórica, sarcasmo e ironia para “atacar” (Fee, “resorts to rhetoric… sarcasm, and to irony”).
- Thiselton: Equilibra epistolografia e retórica. Aceita que Paulo usa convenções (exórdio, narratio), mas argumenta que Paulo subverte a retórica manipulativa dos sofistas com uma retórica baseada na verdade e na tradição (Thiselton, “epistolography and rhetoric go hand in hand”).
- Convergência vs divergência: Garland minimiza a retórica formal; Thiselton e Fee a valorizam, mas Thiselton fornece a análise técnica mais sofisticada sobre como a retórica funciona sem violar a teologia da cruz.
- Peso da evidência: Thiselton. Sua análise de como Paulo usa a estrutura de carta para fins retóricos (ex: a ação de graças funcionando como exórdio) é metodologicamente superior à negação de Garland.
8. Contexto histórico-social
- Garland: Sociedade oligárquica, não igualitária. Ênfase na mobilidade social dos libertos e na busca de dignitas (honra). A igreja tinha “haves” e “have-nots” (Garland, “scramble for scarce honor”).
- Fee: Maioria de classes baixas, mas liderada por patronos ricos. A tensão socioeconômica é visível na Ceia do Senhor (Fee, “aristocracy of money”).
- Thiselton: Detalha a arqueologia (monumento de Babbius, pavimento de Erasto) para ilustrar a “auto-promoção” e a “insegurança de status”. A economia de serviços criava um ambiente de pragmatismo (Thiselton, “service economy… pragmatic success”).
- Convergência vs divergência: Forte convergência na estratificação social e na tensão ricos/pobres.
- Peso da evidência: Thiselton e Garland se destacam ao conectar a arqueologia específica (inscrições latinas, layout de vilas romanas) com a mentalidade dos coríntios.
9. Contexto religioso/intelectual
- Garland: Culto imperial era a influência dominante (Garland, “most important religious influence… was the imperial cult”). Pluralismo religioso, não uma heresia gnóstica definida.
- Fee: Rejeita fortemente o Gnosticismo e a influência da sabedoria judaica (Philo). A fonte do erro é o passado pagão helenístico e dualismo, levando à depreciação do corpo (Fee, “Hellenistic worldview”).
- Thiselton: Sofística e retórica competitiva. A “sabedoria” buscada era performance oratória, não filosofia abstrata. Paralelo com o pós-modernismo (Thiselton, “Sophist movement… winning admiration”).
- Convergência vs divergência: Todos rejeitam o Gnosticismo clássico (Schmithals). Garland destaca o Culto Imperial; Thiselton destaca a Sofística; Fee destaca o Dualismo Helenístico genérico.
- Peso da evidência: Garland (sobre o culto imperial) e Thiselton (sobre a sofística) explicam melhor os dados do que a teoria genérica de “dualismo” de Fee, ancorando o texto em realidades cívicas de Corinto.
10. Estrutura macro do livro
- Garland: Divide por tópicos baseados nos relatórios orais e na carta. Estrutura sequencial: Facções (1-4), Casos de Incesto/Litígio (5-6), Casamento (7), Comida (8-11), Culto (11-14), Ressurreição (15) (Garland, “alternates between reactions to oral reports and answers to the Corinthian letter”).
- Fee: Semelhante, mas vê uma coerência teológica maior. O argumento de abertura (caps 1-4) define o tom para o resto. Vê a carta como uma unidade coerente contra teorias de partição (Fee, “coherent framework”).
- Thiselton: Defende a integridade da carta contra teorias de partição (Weiss, Schmithals). Vê uma estrutura retórica e lógica unificada, pontuada por “Agora quanto a…” (peri de), mas unida teologicamente (Thiselton, “genuine coherence within the epistle”).
- Convergência vs divergência: Convergência na divisão básica (Oral vs. Carta). Todos defendem a unidade literária contra teorias de partição.
- Peso da evidência: Empate. A estrutura é ditada pelo próprio texto (7:1 marca a transição clara).
11. Temas teológicos
- Garland: 1. Unidade da igreja; 2. Sabedoria da Cruz (subversão de valores); 3. Escatologia (o mundo está passando).
- Fee: 1. Escatologia (“já/não ainda” contra “já”); 2. O Evangelho e a Cruz vs. Sabedoria humana; 3. A Igreja como Templo/Corpo (Fee, “eschatological framework… thoroughgoing”).
- Thiselton: 1. A Cruz como critério epistemológico e ético; 2. O Espírito Santo e os dons (redefinidos pelo amor); 3. Ressurreição e transformação do corpo; 4. Koinonia (participação, não apenas comunhão social).
- Convergência vs divergência: A Cruz e a Escatologia são centrais para todos. Fee coloca mais peso na correção escatológica; Thiselton na correção epistemológica/retórica pela Cruz.
- Peso da evidência: Fee é insuperável na articulação da tensão escatológica como chave hermenêutica para os problemas éticos (ex: casamento, processos judiciais).
12. Intertextualidade/AT
- Garland: Menciona brevemente o uso de Jeremias na vocação de Paulo.
- Fee: Nota que a igreja é gentia e o argumento não é tipicamente judaico-midráshico, mas Paulo usa a história de Israel (cap 10) como alerta tipológico.
- Thiselton: Destaca o uso de Joel 3:5 (“invocar o nome do Senhor”) para definir a identidade cristã universal, e Jeremias para o chamado apostólico. Paulo usa “premissas acordadas” da tradição cristã e das Escrituras para argumentar (Thiselton, “Paul consistently appeals to traditions… as well as to OT scripture”).
- Convergência vs divergência: Thiselton dá mais atenção técnica ao uso das tradições e Escrituras como base argumentativa racional.
- Peso da evidência: Thiselton.
4) Problemas Críticos (Top 6)
1. A Natureza da Divisão e o “Espírito de Partido”
- Pergunta: As divisões (1:10-12) são baseadas em escolas teológicas (Pedro vs. Paulo) ou em dinâmica social?
- Posição do Autor A (Garland): O problema não é teológico, mas sociológico. As facções refletem a competição por status social e o culto à personalidade típico da cultura romana de Corinto, onde os membros se alinhavam com líderes como clientes de patronos,.
- Posição do Autor B (Fee): A divisão principal é entre a igreja e Paulo. Um sentimento anti-paulino, liderado por uma minoria “espiritual”, infectou a comunidade, questionando a autoridade do apóstolo por falta de retórica e sophia,.
- Posição do Autor C (Thiselton): Reflete uma cultura de “consumismo” e pragmatismo, onde a retórica é usada para autopromoção. A igreja absorveu o ethos competitivo da cidade, valorizando a performance sobre a verdade,.
- Nota: A leitura sociológica (Garland/Thiselton) combinada com a crise de autoridade (Fee) é mais robusta que antigas teorias de “partidos teológicos”.
2. A Fonte da “Falsa Sabedoria” e Espiritualidade
- Pergunta: Qual a raiz do erro coríntio: Gnosticismo, Judaísmo ou Paganismo?
- Posição do Autor A (Garland): Sabedoria secular. Não é uma heresia definida (como Gnosticismo), mas a influência amorfa de valores romanos de honra, status e poder retórico infiltrados na igreja,.
- Posição do Autor B (Fee): Escatologia Espiritualizada. Uma visão helenista dualista combinada com a ideia de que já chegaram ao fim dos tempos (escatologia super-realizada), vivendo como “anjos” sem corpo (daí a ênfase em línguas),.
- Posição do Autor C (Thiselton): Pragmatismo pós-moderno. Uma atitude de construção social da realidade, onde a verdade é local e o sucesso é medido pelo reconhecimento público e aplauso, não por universais,.
- Nota: O consenso rejeita o Gnosticismo desenvolvido; prevalece a influência do ambiente greco-romano (Garland/Thiselton) com distorção escatológica (Fee).
3. Estratificação Social e a Ceia do Senhor
- Pergunta: Como a estrutura social de Corinto afetava o culto (11:17-34)?
- Posição do Autor A (Garland): A igreja estava dividida entre “os que têm” e “os que não têm”. A elite humilhava os pobres, preservando barreiras de classe social dentro do corpo de Cristo.
- Posição do Autor B (Fee): A igreja espelhava a cidade. A tensão era socioeconômica; as casas dos ricos (como Caio) impunham restrições de espaço que segregavam os pobres durante a Ceia.
- Posição do Autor C (Thiselton): Arqueologia confirma. O triclinium (sala de jantar) acomodava os ricos reclinados, enquanto o atrium (pátio) deixava os pobres em pé ou sentados, recebendo sobras, replicando o sistema de patronato romano.
- Nota: Dados arqueológicos tornam a leitura socioeconômica praticamente indiscutível.
4. A Integridade da Epístola
- Pergunta: 1 Coríntios é uma única carta ou uma compilação de várias?
- Posição do Autor A (Garland): É uma carta única. As teorias de partição foram refutadas; o estilo epistolar de Paulo é flexível e responde a múltiplos problemas sem perder a unidade.
- Posição do Autor B (Fee): Unidade defendida. As “contradições” são resolvidas exegeticamente (ex: padrão A-B-A de argumentação). A carta é uma resposta ad hoc a uma situação complexa.
- Posição do Autor C (Thiselton): Unidade coerente. Teorias de partição (como as de Weiss ou Schmithals) são desnecessárias se a exegese for rigorosa e perceber a coerência retórica e teológica,.
- Nota: Consenso total pela unidade da carta entre estes autores.
5. O Significado de Pneumatikos (Espiritual)
- Pergunta: O que os coríntios entendiam por ser “espiritual” vs. a definição de Paulo?
- Posição do Autor A (Garland): Para os coríntios, era uma entrada de poder celestial que concedia status, conhecimento e dons vistosos para exibição. Paulo redefine como cruciforme.
- Posição do Autor B (Fee): A questão central. Eles se viam como pneumatikoi (pessoas do Espírito) que já viviam a existência angélica (falar línguas), tornando o corpo irrelevante,.
- Posição do Autor C (Thiselton): Definição persuasiva. Paulo usa o termo, mas muda o código (“code-switching”), redefinindo espiritualidade não como êxtase, mas como caráter moldado pela cruz e amor.
- Nota: A visão de Fee sobre a “existência angélica” explica bem a conexão entre dons, sexo e negação da ressurreição.
6. A Natureza da Oposição a Paulo
- Pergunta: Quem são os oponentes de Paulo nesta carta?
- Posição do Autor A (Garland): Membros influentes e ricos da igreja que encorajavam cultos à personalidade e julgavam Paulo pelos padrões de sabedoria secular e retórica,.
- Posição do Autor B (Fee): Não são intrusos externos (judaizantes), mas “alguns de vocês”. Uma oposição interna que questionava a autoridade de Paulo por ele não aceitar patronato e não cobrar taxas,.
- Posição do Autor C (Thiselton): Pessoas com “inconsistência de status” que buscavam reconhecimento. A recusa de Paulo em agir como um sofista profissional (receber pagamento/elogio) era vista como ofensiva.
- Nota: A oposição é interna e cultural, focada na recusa de Paulo em jogar o jogo do status (patronato).
5) Síntese Operacional (para usar na exegese depois)
Perfil de Contexto (Consolidado) Corinto (refundada em 44 a.C.) era uma colônia romana em solo grego, culturalmente híbrida, marcada por “inconsistência de status” e alta mobilidade social,. Era um centro comercial pragmático, onde o sucesso financeiro e a retórica competitiva definiam a honra,. A igreja, composta majoritariamente por classes baixas mas liderada por uma minoria rica (Erasto, Crispo), importou esse ethos secular: o culto virou palco de disputas de status, a Ceia replicava a estratificação social romana e a “sabedoria” era medida por eloquência e poder, não pela cruz,. Havia uma desconexão entre a ética do corpo e a espiritualidade, alimentada por um dualismo que via o espírito como “cheio” e o corpo como irrelevante.
5 Implicações Hermenêuticas
- Leitura Sócio-Retórica: Argumentos que parecem teológicos (ex: sabedoria) têm frequentemente raízes sociológicas (status, honra/vergonha),.
- O “Já” e o “Ainda Não”: Paulo corrige o triunfalismo coríntio (que acha que já reina) reintroduzindo a escatologia futurista (o corpo ainda importa, o juízo virá),.
- A Cruz como Critério Epistemológico: A cruz não é apenas soteriológica, mas o filtro para julgar ética, liderança e uso de dons; ela inverte a pirâmide social de Corinto,.
- Espiritualidade Corporal: Contra a desvalorização do corpo (dualismo), Paulo afirma que o corpo é o local da adoração e da ressurreição futura; ética sexual e doutrina estão ligadas,.
- Edificação Comunitária vs. Direitos Individuais: Onde Corinto grita “eu tenho direito” (exousia), Paulo responde com “o que edifica o outro”; o amor limita a liberdade,.
Checklist de Leitura
- Status: O texto está tratando de uma disputa de honra/vergonha ou hierarquia social?.
- Patronato: Há indícios de relações patrono-cliente (ricos humilhando pobres ou exigindo lealdade)?.
- Retórica: Paulo está atacando o conteúdo ou a forma (eloquência manipuladora) dos oponentes?.
- Escatologia: O erro combatido reflete uma visão de que “o fim já chegou” (anjos, perfeição)?.
- Corpo: A passagem reafirma a importância física/material da vida cristã contra o dualismo?.
- Cruz: Como a “loucura da cruz” subverte o valor cultural em questão neste versículo?.
- Direitos: Alguém está reivindicando “conhecimento” (gnosis) para justificar comportamento egoísta?.
- Unidade: A diversidade mencionada serve para dividir (status) ou unir (corpo)?.
6. Matriz de Diferenciação — Introdução & Contexto
| Categoria | Visão de [Garland] | Visão de [Fee] | Visão de [Thiselton] |
|---|---|---|---|
| Autoria | Paulina; Sostéstenes co-autor nominal; indisputada | Paulina; Indisputada; Sostéstenes talvez escriba | Paulina; Unidade defendida; Sostéstenes co-remetente |
| Data | Primavera de 54 ou 55 d.C. | Primavera de 53-55 d.C. | Primavera de 54 ou 55 d.C. |
| Local de Escrita | Éfeso | Éfeso | Éfeso |
| Oponente Principal | Elites internas; Sabedoria secular; Status | ”Alguns” internos; Espiritualidade triunfalista; Anti-Paulo | Pragmáticos; Retórica de auto-promoção; Inconsistência de status |
| Propósito Central | Identidade da igreja vs. Cultura romana; Unidade | Recuperar autoridade; Corrigir teologia/comportamento | Reproclamar a Cruz; Transformar percepção de valor |
| Metodologia | Sócio-histórica; Espelho cultural romano | Teológico-Exegética; Ênfase no Espírito/Escatologia | Sócio-Retórica; Teoria dos Atos de Fala; Filosófica |
7) Veredito Acadêmico (operacional)
- Melhor para Contexto histórico: Thiselton. Ele integra exaustivamente dados arqueológicos (ex: diolkos, inscrições de Babbius e Erasto) com uma leitura sofisticada da “inconsistência de status” e paralelos com a pós-modernidade,,.
- Melhor para debate crítico: Thiselton. Oferece a análise mais profunda sobre retórica antiga, teoria dos atos de fala (“illocutionary acts”) e epistemologia, além de engajar com a história da interpretação,.
- Melhor para estrutura/argumento do livro: Fee. Sua reconstrução da narrativa do conflito (Paulo vs. Espiritualistas) e a identificação da “escatologia espiritualizada” fornecem a chave hermenêutica mais coesa para ligar os capítulos díspares,.
- Síntese: Para um “contexto mínimo suficiente”, combine a reconstrução social de Garland/Thiselton (Corinto como colônia romana obcecada por status e retórica) com a chave teológica de Fee (o conflito entre a espiritualidade triunfalista dos coríntios e a teologia da fraqueza da cruz de Paulo). Leia o texto sabendo que cada problema ético (sexo, comida, culto) é um sintoma de uma doença dupla: arrogância social romana e má teologia escatológica.
Auditoria — Afirmações & Evidências
Autoria
- Afirmação: A carta é inegavelmente de Paulo, mas a função do “apóstolo” e do co-remetente (Sóstenes) é interpretada de formas distintas.
- Autor(es) que defendem: Garland, Fee, Thiselton.
- Evidência (Garland): Assume a autoria focando no papel paternal; Paulo apela para que “imitate their father Paul”.
- Evidência (Fee): A carta reflete um confronto direto: “the letter is basically the apostle Paul vis-à-vis the Corinthian congregation”.
- Evidência (Thiselton): Define o apostolado não como poder, mas transparência: “apostleship entails… sharing in the weakness of the cross”. Sobre Sóstenes: “Paul does not perceive himself… as an isolated individual”.
- Nível de confiança: Alto.
Data
- Afirmação: A carta foi escrita na primavera, entre 53 e 55 d.C.
- Autor(es) que defendem: Consenso (com pequenas variações).
- Evidência (Garland): “probably in the spring of 54 or 55”.
- Evidência (Fee): “ca. A.D. 53–55”.
- Evidência (Thiselton): “earlier part of AD 54 is widely accepted”.
- Nível de confiança: Alto.
Local de Escrita
- Afirmação: Éfeso.
- Autor(es) que defendem: Unanimidade.
- Evidência (Garland): “Paul writes this letter from Ephesus”.
- Evidência (Fee): “while Paul was in Ephesus”.
- Evidência (Thiselton): (Implícito na discussão cronológica de Atos e Éfeso) “place of writing was Ephesus”.
- Nível de confiança: Alto.
Ocasião / Problema Motivador
- Afirmação A (Garland): O problema é a infiltração de valores romanos seculares (status, honra) na igreja, não uma heresia específica.
- Evidência (Garland): “too much of Corinth was in the church”; “imbued with Roman cultural values”; “secular wisdom”.
- Afirmação B (Fee): O problema é um conflito de autoridade e uma teologia de “escatologia espiritualizada” (já vivem como anjos).
- Evidência (Fee): “conflict between the church and its founder”; “spiritualized eschatology”; “already as the angels”.
- Afirmação C (Thiselton): O problema é um “clima pós-moderno” de pragmatismo e retórica de consumo que desvaloriza a verdade.
- Evidência (Thiselton): “postmodern mood”; “pragmatism of the market”; “premature anticipation of eschatological ‘glory’“.
- Nível de confiança: Alto (para a divergência de perspectivas).
Oponentes
- Afirmação A (Garland): Elites internas buscando status.
- Evidência (Garland): “socially pretentious and self-important individuals”.
- Afirmação B (Fee): Uma minoria interna anti-paulina influenciando a maioria.
- Evidência (Fee): “initiated by a few… infecting nearly the whole”; “decidedly anti-Pauline sentiment”.
- Afirmação C (Thiselton): Pessoas marcadas por inconsistência de status e retórica competitiva.
- Evidência (Thiselton): “status inconsistency”; “winning admiration”.
- Nível de confiança: Médio (a identificação exata dos indivíduos permanece inferencial).
Propósito
- Afirmação A (Garland): Formar uma comunidade harmoniosa vivendo de forma “cruciforme”.
- Evidência (Garland): “live cruciform lives”; “build up a harmonious community”.
- Afirmação B (Fee): Reafirmar a autoridade apostólica e corrigir a teologia (escatologia) e comportamento.
- Evidência (Fee): “radical surgery without killing the patient”; “reassert his authority”.
- Afirmação C (Thiselton): Transformar a visão de mundo através da reproclamação da Cruz (atos de fala).
- Evidência (Thiselton): “transformative speech-acts”; “reproclamation of the different value system”.
- Nível de confiança: Alto.
Contexto Histórico-Social
- Afirmação: Corinto era uma colônia romana pragmática, marcada por mobilidade social e busca de status.
- Autor(es) que defendem: Forte ênfase em Garland e Thiselton.
- Evidência (Garland): “colony of Corinth… freedman class”; “scramble for scarce honor”.
- Evidência (Fee): “New York, Los Angeles, and Las Vegas”; “aristocracy of money”.
- Evidência (Thiselton): “market exchange of goods and services”; “ideas of self-promotion” (Monumento de Babbius).
- Nível de confiança: Alto.