Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Romanos 9
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Lente Teológica: Reformada/Calvinista tradicional. Abordagem fortemente histórico-redentiva, focada na continuidade entre a aliança do Antigo Testamento e a Nova Aliança. Enfatiza a eleição incondicional e a reprovação divina como decretos ativos que afetam não apenas o serviço histórico, mas o destino eterno.
- Metodologia: Exegese gramatical-histórica meticulosa. Moo dialoga constantemente com o texto grego, a sintaxe e o uso do Antigo Testamento por Paulo. O seu foco é resolver a tensão teológica entre o Evangelho e as promessas de Deus ao povo de Israel na história.
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Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Lente Teológica: Reformada/Calvinista, com forte viés na soberania divina e na Teologia da Aliança. Defende abertamente o conceito de dupla predestinação, mas esforça-se para reconciliá-lo em uma visão compatibilista com a responsabilidade humana e o juízo divino sobre o pecado.
- Metodologia: Exegese rigorosamente estrutural e sintática, com forte ênfase na teologia bíblica. Ele ataca o texto mapeando o fluxo lógico das conjunções e cláusulas, focando em provar que as promessas do Antigo Testamento aplicadas em Romanos 9 têm caráter estritamente soteriológico e individual, refutando a tese de que a eleição ali descrita seja puramente corporativa ou nacional.
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Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
- Lente Teológica: Teologia Apocalíptica Paulina (escola associada a J. L. Martyn). Abordagem profundamente cristocêntrica, cósmica e corporativa. Em contraste com a lente individualista reformada, foca no poder invasivo do Evangelho, que subjuga as forças escravizadoras do Pecado e da Morte. Destaca a misteriosa liberdade e a radical misericórdia de Deus.
- Metodologia: Exegese literária e teológica com uma leitura tipológica e radical do Antigo Testamento através da “lente de Cristo”. Evita categorizações sistemáticas rígidas sobre o destino de indivíduos (como quem são os “vasos da ira”). A metodologia rastreia as ações subversivas de Deus, como Ele surpreende a narrativa de Israel transformando pedras de fundação em pedras de tropeço.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Moo, D. J.: A crise da incredulidade de Israel não anula as promessas veterotestamentárias, pois a Palavra de Deus nunca garantiu a salvação baseada na descendência étnica, mas sim na eleição soberana e incondicional de indivíduos para a salvação.
- Moo argumenta que o texto provê uma base sólida para a perspectiva calvinista da graça (Moo, “gives strong exegetical support to a traditional Calvinistic interpretation”). Para ele, quando Paulo aborda a escolha de Isaque em detrimento de Ismael, e Jacó em lugar de Esaú, ele não está lidando com categorias puramente nacionais ou privilégios históricos, mas ensinando que as escolhas de Deus se referem aos “destinos eternos dos indivíduos” (Moo, “not just with historical roles but with eternal destinies”). A justiça de Deus é defendida pelo fato de que o Criador não está sujeito ao escrutínio da criatura ao conceder ou reter Sua misericórdia.
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Tese de Schreiner, T. R.: A justiça e a fidelidade de Deus operam através da Sua absoluta liberdade e soberania na dupla predestinação de indivíduos, escolhendo alguns para a salvação e preparando outros para a perdição como demonstração de Sua ira e poder.
- Schreiner insiste que as categorias paulinas em Romanos 9, como “obras”, “chamado” e “promessa”, possuem peso soteriológico. Ele refuta duramente as leituras de que Israel e Edom representam apenas o destino histórico de nações: “a questão no contexto de Romanos relaciona-se com a salvação do Israel étnico, não meramente com seu destino histórico” (Schreiner, “relates to the salvation of ethnic Israel, not merely to its historical destiny”). Conclui que a eleição é para a vida eterna e o endurecimento divino, visto em Faraó e no Israel incrédulo, indica que a “dupla predestinação não pode ser evitada” (Schreiner, “double predestination cannot be averted”), embora enfatize que os endurecidos já eram pecadores caídos.
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Tese de Gaventa, B. R.: A crise escatológica de Israel é primariamente gerada pelo evento Cristo e fundamenta-se na prerrogativa incontestável do Criador de agir em liberdade absoluta para estender a Sua insondável misericórdia a judeus e gentios, transcendendo a volição humana.
- Gaventa resiste à aplicação individualista estrita para focar no quadro apocalíptico maior. Ela argumenta que a escolha de Jacó e a rejeição de Esaú são declarações factuais onde a ação divina exclui totalmente o mérito: o chamado de Deus é puramente o Seu próprio chamado (Gaventa, “God’s calling is God’s calling”). Ao abordar a predestinação em Romanos 9:22-23, ela observa que Paulo foca quase exclusivamente na iniciativa divina sobre a criação (como o oleiro sobre o barro) e propositalmente “se abstém de dar nomes ou identidades aos ‘vasos da ira’” (Gaventa, “refrains from putting names or identities to the ‘vessels of wrath’”), exortando os leitores a não presumir entender os caminhos de Deus. A crise e o tropeço de Israel derivam da ação de Deus ao estabelecer o fim e o telos na pessoa do Senhor ressurreto: “A crise de Israel é gerada por Cristo” (Gaventa, “Israel’s crisis is Christ-generated”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Moo, D. J. | Visão de Schreiner, T. R. | Visão de Gaventa, B. R. |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Sperma / Tekna (descendência/filhos): Foca na filiação espiritual individual, onde “filhos de Deus denota pessoas que pertencem a Deus e participam de sua salvação” (Moo, “always denotes people who belong to God”). | Eklogē / Kalein (eleição/chamar): O chamado divino é eficaz e incondicional. Ele pontua que o “chamado de Deus cria o que é desejado” (Schreiner, “God’s call creates what is desired”). | Kaleō / Skeuē (chamar/vasos): Enfatiza o chamado como um ato criativo absoluto de trazer “à existência o que não existia” (Gaventa, “calling into being things that did not exist”). |
| Problema Central do Texto | Como reconciliar a rejeição do evangelho pelos judeus com a validade contínua das promessas do Antigo Testamento? (Moo, “Has God’s word failed?”). | A defesa da fidelidade e justiça de Deus diante da incredulidade judaica e a aparente arbitrariedade de Suas escolhas (Schreiner, “The primary question relates to the faithfulness and righteousness of God”). | Qual o lugar de Israel na vitória escatológica de Deus, considerando que a crise atual de rejeição foi gerada pelo próprio Cristo? (Gaventa, “Israel’s crisis is Christ-generated”). |
| Resolução Teológica | A promessa de Deus nunca garantiu salvação automática aos descendentes físicos. A verdadeira Israel é espiritual, formada por eleição soberana de indivíduos (Moo, “never promised salvation to all the biological descendants”). | Deus é absolutamente soberano para ter misericórdia ou endurecer corações. A dupla predestinação defende o propósito eletivo divino sem anular a responsabilidade humana (Schreiner, “double predestination cannot be averted”). | A narrativa revela a prerrogativa incontestável do Criador. A ênfase repousa naquilo que Deus realiza através do agente humano, subvertendo expectativas através de Sua misericórdia apocalíptica (Gaventa, “what God does through the human agent”). |
| Tom/Estilo | Exegético, Histórico-Redentivo, Cuidadoso. | Polemista, Sistemático, Rigorosamente Lógico. | Literário, Apocalíptico, Teocêntrico. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Moo, D. J. fornece o melhor background histórico e eclesial, conectando brilhantemente a teologia do capítulo com o conflito social entre judeus e gentios na igreja de Roma e defendendo a continuidade inquebrável da História da Salvação (Moo, “against the backdrop of controversy over the relationship between Judaism and the church”).
- Melhor para Teologia: Schreiner, T. R. aprofunda de maneira insuperável as doutrinas reformadas, enfrentando as objeções filosóficas da soberania divina e da predestinação com uma exegese sintática implacável (Schreiner, “defends God’s righteousness by appealing to his freedom and sovereignty”).
- Síntese: Para uma compreensão exegética holística de Romanos 9, o leitor deve integrar a defesa da continuidade das alianças bíblicas proposta por Moo, com a precisão estrutural e doutrinária de Schreiner sobre a liberdade incondicional do decreto divino, temperando ambas as visões sistêmicas com a lente de Gaventa, que preserva o mistério indomável da ação subversiva e escatológica de Deus no evento Cristo.
Eleição Incondicional, Soberania Divina, História da Salvação e Teologia Apocalíptica são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 1-5
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Anathema (Maldição): Moo e Schreiner definem como o julgamento escatológico final, uma separação literal e eterna da presença de Cristo. Gaventa traduz como “ser cortado” (cut off), alinhando ao peso dramático das aberturas das cartas de Gálatas e 1 Coríntios.
- Huiothesia (Adoção): Gaventa destaca que este termo não aparece na LXX para descrever Israel, enfatizando que a escolha da palavra sublinha a iniciativa absoluta de Deus na formação do povo.
- Nomothesia (Outorga da Lei): Schreiner e Gaventa observam que o uso deste termo (em vez de apenas nomos) foca na “doação” da lei, o que enfraquece qualquer noção de que a lei em si seja inerentemente problemática.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Observa que a mudança de vocabulário de “Judeu” (foco em capítulos anteriores) para “Israelita” não é meramente política, mas carrega um título religioso e honorífico que aponta para a perspectiva da História da Salvação (Moo, “no mere political or nationalistic designation”).
- Schreiner, T. R.: Nota a organização estrutural elegante do versículo 4 em dois dísticos de três itens (adoção, glória, alianças / outorga da lei, culto, promessas), observando que as terminações gregas formam uma assonância deliberada (-ια, -α, -αι) (Schreiner, “two couplets of three”).
- Gaventa, B. R.: Conecta os juramentos de Paulo (vv. 1-2) com o clímax do capítulo 8, observando que o apóstolo fala e tem sua consciência “no Espírito Santo” e “em Cristo”. Não se trata de uma verdade genérica, mas de uma localização teológica primária que antecede sua relação física com Israel (Gaventa, “Locating himself ‘in Christ’ and his conscience ‘in the Holy Spirit’”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Doxologia de 9:5 (A quem se refere “Deus bendito eternamente”?): Moo e Schreiner argumentam fortemente que a frase se refere a Cristo. Moo lista razões estilísticas (doxologias paulinas nunca são independentes, mas ligadas ao termo anterior) e teológicas, rejeitando a tese de que o monoteísmo judaico de Paulo o impediria de chamar Jesus de Deus. Gaventa prefere uma abordagem ambígua, inserindo um travessão (“o qual é sobre todos — Deus seja bendito eternamente”). Ela argumenta que, retoricamente, Paulo não iria antagonizar ou testar seus ouvintes logo no início de um argumento tão delicado com uma afirmação cristológica tão direta, preferindo deixar a interpretação “para o ouvido do público” (Gaventa, “leaving interpretation to the ear of the audience”).
- Argumento mais convincente: Gramaticalmente e sintaticamente, Moo e Schreiner apresentam o argumento mais forte com base no padrão doxológico e no contraste exigido pela frase “segundo a carne” (que pede um contraponto divino).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- A oração de intercessão e o desejo de ser amaldiçoado (v. 3) ecoam a atitude de Moisés em Êxodo 32:30-32 após o incidente do Bezerro de Ouro. Todos concordam que Paulo se coloca no papel de mediador disposto à substituição, sabendo, porém, que tal pedido é impossível de ser atendido, pois a salvação depende da aliança de Deus, não da imolação de seu representante.
5. Consenso Mínimo
- A profunda angústia de Paulo deriva do fato de que os judeus étnicos, possuidores de todos os privilégios histórico-redentivos, encontram-se atualmente separados da salvação escatológica trazida pelo Messias.
📖 Perícope: Versículos 6-13
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Sperma / Tekna (Descendência / Filhos): O debate central é quem constitui a verdadeira semente. A filiação carnal é separada da filiação baseada na promessa.
- Koitē (Leito / Concepção): Gaventa aponta que no v. 10 a palavra figura literalmente o “ato sexual” ou “emissão seminal”, usada para frisar que os gêmeos não apenas tinham a mesma mãe, mas vieram exatamente do mesmo sêmen no mesmo instante, anulando qualquer distinção biológica (Gaventa, “single sex act with one man”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Define “Israel dentro de Israel” (v. 6b). Ele argumenta que “Israel” no segundo uso não se refere à Igreja (gentios e judeus), mas a um corpo espiritual menor dentro do Israel étnico, rejeitando a teoria da substituição ou transferência do título para a Igreja neste contexto específico (Moo, “denotes a smaller, spiritual body within ethnic Israel”).
- Schreiner, T. R.: Enfatiza a ausência deliberada da “Fé” no v. 12. Se Paulo quisesse basear a eleição na presciência da fé humana, este seria o lugar óbvio para fazê-lo. A exclusão de “obras” contrasta com “Aquele que chama”, não com a fé humana, estabelecendo a predestinação incondicional (Schreiner, “Paul’s silence on this point is telling”).
- Gaventa, B. R.: Destaca a ruptura de Paulo com os intérpretes judaicos e cristãos antigos (ex: Livro dos Jubileus, Fílon, Ambrósio, Pelágio), que tentaram racionalizar a escolha de Jacó baseando-se na presciência de seus méritos ou maldades de Esaú no ventre. Para Paulo, Deus escolhe puramente porque escolhe (Gaventa, “God chooses because God chooses”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Eleição é Corporativa ou Individual? Muitos estudiosos modernos afirmam que Jacó e Esaú representam nações (Israel e Edom), tratando-se de papéis na história, não de salvação pessoal. Moo e Schreiner discordam veementemente. Schreiner argumenta que “obras” e “chamado” são termos estritamente soteriológicos em Paulo. Além disso, a dor de Paulo no v. 3 é sobre indivíduos indo para o inferno, o que torna a “função histórica das nações” irrelevante para resolver o problema. Gaventa concorda que o texto trata do “nascimento” ou “criação” do povo por Deus, mas foca mais no agenciamento divino absoluto do que nas categorias de destino eterno individual.
- Argumento mais convincente: Schreiner e Moo demonstram que a exegese corporativa falha em lidar com a crise soteriológica que engatilhou o capítulo.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 21:12 (Isaque), Gênesis 18:10 (Sara), Gênesis 25:23 (Rebeca), e Malaquias 1:2-3 (Jacó e Esaú). Os autores concordam que Paulo lê a história de Gênesis de forma tipológica; Ismael e Esaú representam o Israel incrédulo dos dias de Paulo.
5. Consenso Mínimo
- A descendência física de Abraão nunca foi uma garantia automática de filiação divina; a participação na aliança sempre dependeu exclusivamente do chamado soberano e da promessa de Deus.
📖 Perícope: Versículos 14-18
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Sklērynō (Endurecer): Usado para a ação divina sobre Faraó.
- Exegeira (Levantei / Suscitei): Em vez do “foste preservado” da LXX (Êx 9:16), Schreiner e Gaventa notam que Paulo muda o verbo para enfatizar que Faraó foi trazido à existência ou designado ao palco da história primariamente para o propósito de Deus (Schreiner, “appoint to a significant role in salvation history”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Argumenta que, embora o endurecimento seja um ato soberano, não devemos esquecer que ele atinge pessoas que já estão em estado de rebelião contra o governo justo de Deus. O endurecimento não causa a insensibilidade espiritual em alguém moralmente neutro, mas os mantém no estado de pecado que já os caracteriza (Moo, “maintains people in the state of sin that already characterizes them”).
- Schreiner, T. R.: Aponta outra mudança da LXX por Paulo: o uso de dynamis (poder) em vez de ischys (força). Este “poder” é de via dupla: efetua a salvação para Israel, mas traz julgamento para Faraó, preparando o cenário para a distinção entre vasos de ira e misericórdia nos versos seguintes (Schreiner, “power is two-edged”).
- Gaventa, B. R.: Observa que Paulo silencia totalmente a respeito da resistência humana de Faraó. Enquanto o livro de Êxodo (e toda a tradição posterior) divide a responsabilidade do endurecimento entre Deus e o próprio Faraó, Paulo atribui o endurecimento de forma chocante e exclusiva a Deus (Gaventa, “Paul … has nothing whatever to say about Pharaoh’s resistance to God’s will”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Endurecimento Divino pressupõe Autoendurecimento Prévio? Muitos defendem que Deus só endurece aqueles que se endureceram primeiro. Schreiner argumenta contra isso: a cláusula “tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer” prova que o endurecimento, assim como a misericórdia, é incondicional. Moo concorda com a predestinação dupla, mas tempera afirmando a pecaminosidade prévia. Gaventa argumenta que Paulo nem sequer está interessado na antropologia aqui, mas no direito de Deus de fazer o que quiser com o agente humano.
- Argumento mais convincente: Schreiner domina a lógica sintática; a analogia entre “misericórdia” e “endurecimento” quebra se o endurecimento é reativo e a misericórdia é proativa.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Êxodo 33:19 (Misericórdia a Moisés) e Êxodo 9:16 (Faraó). Os três concordam que Paulo extrai desses textos o princípio do caráter de Deus: a liberdade soberana do Criador de distribuir misericórdia e juízo para propagar o Seu nome em toda a terra.
5. Consenso Mínimo
- A justiça de Deus não deve ser medida por padrões humanos de equidade democrática, mas pela Sua prerrogativa inalienável como Criador de mostrar misericórdia de forma absolutamente livre.
📖 Perícope: Versículos 19-23
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Katērtismena (Preparados): O particípio referente aos “vasos da ira”.
- Skeuē (Vasos): Gaventa aponta que o termo não se refere apenas ao objeto em si, mas ao seu uso instrumental (“instrumentos de ira”, cf. Jer 27:25 LXX).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Analisa a sintaxe quebrada (anacoluto) do versículo 22. A apódose (cláusula principal) está ausente e deve ser suprida mentalmente: “Deus tem o direito de fazer isso” (Moo, “God has the right to do this”). Ele argumenta que o particípio katērtismena é passivo (preparados por Deus), contrastando assimetricamente com o ativo “preparou de antemão” para os vasos de misericórdia.
- Schreiner, T. R.: Refuta a ideia de que o objetor no v. 19 é um inquiridor humilde tentando entender o mistério da soberania; trata-se de um protesto arrogante e rebelde. A imagem do oleiro não responde filosoficamente à relação soberania vs. responsabilidade, mas repreende a audácia da criatura (Schreiner, “manifests a rebellious spirit”).
- Gaventa, B. R.: Destaca a conexão direta com Romanos 1:18-32. O vocabulário de “ira”, “poder”, e “glória” repete os mesmos motivos. Além disso, ela ressalta que Paulo nomeia os “vasos de misericórdia” (como sendo “nós”), mas abstém-se deliberadamente de identificar quem são os “vasos da ira”. Tentar preencher essa lacuna (dizendo que são os judeus) viola o argumento de Paulo sobre a prerrogativa oculta de Deus (Gaventa, “refrains from putting names or identities to the ‘vessels of wrath’”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Os “Vasos da Ira” foram preparados por Deus ou por si mesmos? A voz de katērtismena pode ser média (“prepararam-se a si mesmos”) ou passiva divina (“foram preparados por Deus”). Moo e Schreiner defendem ferozmente o passivo divino, rejeitando o viés apologético moderno e afirmando a doutrina da reprovação divina. Gaventa foca menos no status ontológico dos vasos e mais na ação persistente (“com muita paciência”) de Deus em extraí-los para uso.
- Argumento mais convincente: O contexto de soberania absoluta nos versos 19-21, onde a argila não tem arbítrio, favorece amplamente a visão de Moo e Schreiner de um passivo divino.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 29:16, 45:9 e Jeremias 18:1-6. O uso da metáfora do oleiro e do barro era comum no judaísmo do Segundo Templo, mas Paulo a adapta rigorosamente para lidar com os destinos salvíficos.
5. Consenso Mínimo
- Deus tem a autoridade inquestionável do Criador para utilizar Sua criação a fim de revelar a magnitude da Sua ira e o esplendor da Sua glória.
📖 Perícope: Versículos 24-29
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hypoleimma / Sperma (Remanescente / Semente): Termos tirados de Isaías que significam a pequena porção de Israel que sobrevive ao juízo.
- Kalesō (Chamarei): Substituição deliberada de Paulo no texto de Oseias.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Observa que a citação de Oseias por Paulo reordena as cláusulas originais. Colocar “chamarei povo meu” antes de “amada” enfatiza a tremenda novidade da inclusão dos gentios no povo de Deus (Moo, “highlighted”).
- Schreiner, T. R.: Aponta a sutil mudança do “Eu direi” da LXX (Os 2:25) para “Eu chamarei” (kalesō) no v. 25. Paulo usa isso para ligar a salvação dos gentios ao tema do “chamado eficaz” do v. 11 e v. 24, demonstrando que Deus chama coisas à existência através do Seu verbo criativo (Schreiner, “links the citation with verse 24”).
- Gaventa, B. R.: Disseca a mudança no vocabulário de Oseias de “misericórdia” para “amor” (o não amado se torna amado). Ela conecta isso a Malaquias 1:2 no v. 13 (“Amei Jacó”). Paulo está dizendo que até mesmo os de fora — comparados ao rejeitado Esaú — agora se tornaram amados pela liberdade indomável de Deus (Gaventa, “God is free to love whomever God wills”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Apropriação de Oseias: Originalmente, Oseias falava da restauração das tribos do norte de Israel. Como Paulo aplica isso aos gentios? Schreiner vê isso como a Igreja tornando-se o novo e verdadeiro Israel, cumprindo e expandindo a promessa. Gaventa concorda, mas ressalta que Paulo está deliberadamente mesclando os destinos, pois a inclusão dos judeus (o remanescente) e dos gentios demonstra uma “reviravolta” impossível de se prever a partir da carne.
- Argumento mais convincente: A aplicação tipológica (Schreiner) é robusta, mas o link conceitual de Gaventa entre o “ódio/amor” de Esaú com o “não-amado/amado” de Oseias dá uma coesão retórica espetacular à exegese.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Oseias 2:23, 1:10 (sobre o “não-povo” e “não-amado”) aplicados aos gentios e judeus cristãos; Isaías 10:22-23 e 1:9 (o remanescente como a areia do mar salvo da aniquilação como Sodoma). Concordam que Paulo relê os profetas pelas lentes do advento cristão.
5. Consenso Mínimo
- Tanto a inesperada inclusão de uma multidão de gentios quanto a redução do Israel étnico a um pequeno remanescente são o cumprimento exato da palavra profética do Antigo Testamento.
📖 Perícope: Versículos 30-33
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Diōkein / Katalambanein / Phthanein (Correr, buscar / Obter / Alcançar): Terminologia atlética de corrida.
- Nomos dikaiosynēs (Lei da justiça): Termo denso; Israel buscava uma lei que ditasse a justiça, mas não a alcançou.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Esclarece que os gentios “não buscarem a justiça” não significa que eles não se importavam com excelência moral, mas sim que não estavam perseguindo o status de aliança com o único Deus verdadeiro. Eles obtiveram essa justiça passivamente por meio do evento Cristo (Moo, “they were not striving for a right relationship with the one true God”).
- Schreiner, T. R.: Exegeticamente defende a estrutura em que Israel buscou a lei “como se fosse por obras”. A falha não é na Lei em si (que é boa), mas na postura subjetiva e equivocada (o “ὡς” / hōs grego) de tentar usá-la como ferramenta de mérito humano (Schreiner, “subjective attitude of Israel toward the law”).
- Gaventa, B. R.: Descreve o texto como uma paródia da arena atlética (“a parody of the athletic contest”). Ela nota a subversão espetacular de Paulo no v. 33, onde ele mescla a pedra de “firmeza e segurança” (Isaías 28:16) com a pedra de tropeço (Isaías 8:14), transformando o que deveria ser a rocha fundamental no exato instrumento com o qual Deus deliberadamente faz Israel tropeçar (Gaventa, “transformed into a trick God is playing on Israel”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Identidade da Pedra de Tropeço: Enquanto Moo e Schreiner imediatamente identificam a pedra como Cristo (antecipando Romanos 10:11, 1 Pe 2:6), Gaventa adverte que, dentro da restrição de 9:33, Paulo intencionalmente deixa a identidade da pedra ambígua. Ela argumenta que a ambiguidade imita literalmente a experiência de tropeçar (“a verisimilitude … tripping over any rock begins as a not-knowing”), reforçando a falha de percepção de Israel antes de focar na cristologia no capítulo 10.
- Argumento mais convincente: Teologicamente Moo e Schreiner estão corretos no escopo do livro, mas literariamente a leitura de Gaventa capta o efeito imediato da retórica paulina no ouvinte.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 8:14 (pedra de tropeço) misturado com Isaías 28:16 (pedra angular de Sião). Concordam que a profecia escatológica de Isaías sobre confiança versus tropeço encontra seu clímax final em Cristo.
5. Consenso Mínimo
- Israel falhou em obter a justiça de Deus não por falta de zelo, mas porque abordou a lei por meio do mérito humano (“obras”) e tropeçou, recusando-se a confiar na provisão de Deus através da fé.