Análise Comparativa: Romanos 7

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
  • Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

    • Lente Teológica: Tradição Evangélica/Reformada. Aborda o texto com forte foco na escatologia inaugurada (“already-not yet”) e na justificação forense conectada à segurança da salvação final.
    • Metodologia: Exegese gramatical-histórica e teologia bíblica. Ele utiliza extensa análise macroestrutural (como quiasmos) para posicionar o texto dentro da lógica argumentativa de Paulo, lendo Romanos 6 e 7 essencialmente como um bloco parentético dentro da discussão de Romanos 5 a 8 (Moo, “parenthetical to the main point of the section”).
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.

    • Lente Teológica: Tradição Evangélica/Reformada. A lente incide sobre a história da redenção (redemptive history) contrastando as eras de Adão e Cristo. Destaca fortemente a antropologia paulina, argumentando que a fraqueza inerente à carne humana persiste mesmo após a conversão, dentro da tensão do já e ainda não.
    • Metodologia: Exegese gramatical detalhada e teologia bíblica, com forte interação com os contextos do Judaísmo do Segundo Templo. Ele disseca exaustivamente os tempos verbais (passado em 7:7-11 vs. presente em 7:14-25) e as teorias de identidade do “Eu” (egō). Conclui que o texto é um relato autobiográfico retrospectivo, onde a experiência cristã de Paulo avalia o impacto da Lei (Schreiner, “Paul relays his own experience because it is paradigmatic”).
  • Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

    • Lente Teológica: Leitura Apocalíptica. O foco não reside primeiramente na moralidade individual ou na culpa forense, mas no conflito cósmico. O Pecado (Sin) e a Morte (Death) não são meros atos morais, mas poderes alienígenas e colonizadores que escravizam a humanidade e a criação.
    • Metodologia: Análise teológico-literária e retórica, focada na agência verbal. Ela mapeia os sujeitos dos verbos ativos para demonstrar a personificação (ou a realidade ontológica) dos poderes cósmicos. Rejeita a leitura puramente autobiográfica focada na consciência de Paulo, interpretando o “Eu” como uma figura retórica construída para imersão auditiva, assemelhando-se ao falante dos salmos de lamento (Gaventa, “The speaker here resembles the speaker of the lament psalms”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Moo, D. J.: O capítulo 7 é uma digressão explicativa que ilustra a tensão presente na vida do crente ao tratar de sua libertação da tirania da lei, servindo de ponte para a esperança da glória futura.

    • Argumento expandido: Moo entende que Romanos 7 pertence a um bloco central (6:1–7:25) que trata do problema do pecado e da lei. Esse bloco foca na “situação do cristão nesta vida” (Moo, “situation of the Christian in this life”), uma vida caracterizada por tensões no mundo presente. A tese é que a união com Cristo proporcionou a libertação definitiva “da tirania do pecado (cap. 6) e da lei (cap. 7)”, operando como o alicerce negativo que prepara o crente para a total segurança da glória operada pelo Espírito no capítulo 8 (Moo, “In union with Christ, we have been delivered from the tyranny of sin… and the law”).
  • Tese de Schreiner, T. R.: A Lei de Deus é incontestavelmente boa, mas é totalmente impotente para conceder vida ou transformar o ser humano, servindo apenas para exacerbar o pecado devido à fraqueza antropológica da humanidade.

    • Argumento expandido: Schreiner defende que, ao encontrar o mandamento (especificamente o de não cobiçar, que foca no interior), o pecado ganha vida e traz condenação. Para ele, Paulo usa a si mesmo como paradigma da experiência humana sob a lei (Schreiner, “Paul relays his own experience because it is paradigmatic”). Longe de caracterizar apenas o não-crente, o lamento de Romanos 7:14-25 capta a “condição antropológica” contínua e a realidade escatológica do já e ainda não vivida pelo cristão encarnado; os crentes “continuam até o dia de sua morte… a ser profundamente conscientes de sua inabilidade e incapacidade inata” (Schreiner, “believers continue until the day they die… to be deeply conscious of their innate inability”). O alvo de Paulo é destroçar a confiança judaica de que a Torá seria o antídoto contra o pecado.
  • Tese de Gaventa, B. R.: Romanos 7 é o ápice da denúncia contra o império cósmico do Pecado, demonstrando que esta força maligna é tão voraz que consegue “armamento” (weaponize) e captura até mesmo a sagrada e boa Lei de Deus para destruir a humanidade.

    • Argumento expandido: Gaventa argumenta que Paulo não está interessado em introspecção psicológica ou no status regenerado/não-regenerado do indivíduo, mas sim em demonstrar as operações do Pecado. O Pecado usa o mandamento de forma militarizada, “estabelecendo sua base de operações através do mandamento” (Gaventa, “staking out its base of operations through the commandment”). O lamento do “Eu” (egō) revela o horror de uma invasão cósmica na qual o Pecado se torna um parasita que “vive em mim”, provocando uma fratura dentro da própria lei. O problema não é a falha em observar regras de fronteira (legalismo), mas o fato de que “a ação do Pecado é tal que ela captura a própria lei” (Gaventa, “Sin’s action is such that it captures the law itself”), alienando completamente o ser humano de sua própria vontade e agência.

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Moo, D. J.Visão do Schreiner, T. R.Visão do Gaventa, B. R.
Palavra-Chave/Termo GregoFoca no conceito de status e na relação com a Lei (Nomos). A lei é vista como parte da velha ordem que tiranizava o crente antes de sua união com Cristo.Foca no Egō (o “Eu”) e na Sarx (Carne). Define o “Eu” autobiograficamente, argumentando que a experiência do próprio Paulo é “paradigmática” da condição humana (Schreiner, “Paul relays his own experience because it is paradigmatic”).Foca em Hamartia (Pecado) e Thanatos (Morte). Trata o Pecado sempre com inicial maiúscula, definindo-o como “nada menos que um poder sobre-humano” (Gaventa, “Sin is nothing less than a suprahuman power”).
Problema Central do TextoO capítulo aborda a “situação do cristão nesta vida”, operando como um parêntese explicativo que descreve a tensão entre a antiga tirania da lei e a nova vida no Espírito (Moo, “situation of the Christian in this life”).A inabilidade inerente e a fraqueza antropológica da humanidade. A carne “não tem a habilidade de cumprir as exigências de Deus” e a Lei é totalmente impotente para transformar o coração (Schreiner, “flesh lacks the ability to carry out God’s demands”).A invasão voraz do império do Pecado. O problema não é apenas moral, mas o fato de que o Pecado “colonizou o ‘Eu’” e transformou a própria Lei sagrada em uma arma de guerra (Gaventa, “Sin has not just used the law but has colonized the ‘I’”).
Resolução TeológicaA garantia de que, “em união com Cristo, fomos libertos da tirania do pecado… e da lei” estabelecendo o alicerce para a esperança e a glória detalhadas no capítulo 8 (Moo, “delivered from the tyranny of sin… and the law”).A libertação virá completamente apenas no último dia, mantendo o crente dependente do poder do Espírito Santo para viver a tensão do já e ainda não (Schreiner, “deliverance from sin will be completed only on the last day”).A libertação requer uma intervenção divina de fora da esfera humana. O resgate da humanidade e do cosmos se dá “através do dom de Deus por meio de Jesus Cristo nosso Senhor” (Gaventa, “Rescue comes through the gift of God through Jesus Christ”).
Tom/EstiloSistemático e Teológico.Exegético, Analítico e Polêmico (em constante debate com paralelos de Qumran e teólogos como Bultmann e Dunn).Teológico-Literário e Apocalíptico (foco na retórica dos salmos de lamento e no conflito cósmico).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Schreiner, T. R. fornece o melhor background histórico e literário. Ele disseca exaustivamente fontes primárias do judaísmo do Segundo Templo, debates de Qumran, a tradição filosófica greco-romana (como o dilema de Medeia em Eurípides e Ovídio), além de lidar de forma rigorosa com detalhes gramaticais sobre os tempos verbais e com o peso da perspectiva histórica de Paulo sobre o “bar mitzvah” e a vida sob a Torá.
  • Melhor para Teologia: Gaventa, B. R. aprofunda de forma mais inovadora e robusta as doutrinas centrais do texto ao reconfigurar a antropologia paulina dentro de uma lente apocalíptica. Ela liberta o texto de uma mera análise moral ou psicológica individualista, demonstrando magistralmente como o conflito em Romanos 7 é, na verdade, a linha de frente de uma guerra cósmica onde os poderes do Pecado e da Morte estão sendo derrotados pela ação triunfal de Deus em Cristo.
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Romanos 7, a abordagem macroestrutural de Moo situa corretamente a passagem dentro da lógica da justificação e da segurança da salvação. A partir daí, Schreiner oferece o bisturi exegético e gramatical para entender o profundo conflito antropológico e a inabilidade da “carne” sob a Lei. Por fim, Gaventa eleva esse drama humano individual a proporções épicas, demonstrando que a agonia do crente é o palco de um conflito cósmico maior, onde a única saída não é o aprimoramento moral, mas a intervenção apocalíptica e libertadora de Cristo.

Antropologia Paulina (Sarx e Egō), Teologia Apocalíptica e Poderes Cósmicos, Tensão Escatológica (Já e Ainda Não) e A Impotência da Lei (Nomos) são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Romanos 7:1-6

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Κυριεύει (kyrieuei - dominar/ter senhorio): Em 7:1, Gaventa nota que o uso deste verbo coloca a Lei na mesma categoria de poderes maliciosos e colonizadores, como o Pecado e a Morte (Gaventa, “putting the law in the company of ruling figures of a malicious sort”). Schreiner concorda, associando o termo ao senhorio que a morte e o pecado exercem sobre a humanidade (Schreiner, “connection with the lordship of death and sin”).
  • Ὕπανδρος γυνὴ (hypandros gynē - mulher casada/sujeita ao marido): Gaventa aponta que o adjetivo é raro, usado frequentemente em contextos onde o adultério é uma ameaça, mas enfatiza o prefixo hypo, sugerindo que a mulher está “sob” o controle do marido porque está “sob” a lei (Gaventa, “woman is ‘under’ the control of her husband because she is ‘under’ the law”). Schreiner nota sua raiz na tradição judaica da Septuaginta como tradução do hebraico taḥat ʾîšāh (Schreiner, “translation of תַּחַת אִישָׁהּ”).
  • Καρποφορῆσαι (karpophorēsai - dar fruto): Para Gaventa, não se refere a filhos literais na analogia do casamento, mas ao “produto” ético de se viver em um novo regime (Gaventa, “fruit imagined here is general rather than specific”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo: Estruturalmente, observa que esta seção funciona como um parêntese na macroestrutura de Romanos 5 a 8, abordando o “problema da lei” na vida do crente que já foi transferido para o novo reino, mas ainda vive na tensão da presente era (Moo, “parenthetical to the main point of the section”).
  • Schreiner: Traz o background histórico do divórcio no mundo antigo para explicar a ilustração de Paulo. Ele nota que o cenário reflete a lei judaica (Deut 24:1-4), onde as esposas não tinham o direito de iniciar o divórcio, em contraste com a lei romana, onde tanto o marido quanto a esposa possuíam esse direito (Schreiner, “wives had no right in Judaism to divorce their husbands”).
  • Gaventa: Destaca o “deslize” (slippage) intencional na analogia de Paulo no verso 2. Enquanto o verso 1 diz que a lei domina a pessoa enquanto ela vive, no verso 2 a mulher é liberta pela morte de outra pessoa (o marido). A analogia funciona identificando o crente (“você”) simultaneamente com o marido que morre e com a esposa que é liberta para pertencer a Cristo (Gaventa, “identifying ‘you’ with both the husband who dies and the wife”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Encaixe da Analogia do Casamento (vv. 2-4): Existe um debate sobre quão estritamente a analogia deve ser lida. Schreiner argumenta que as várias tentativas de fazer uma correspondência ponto a ponto (ex: o marido é a velha natureza ou a carne) falham e pressionam o simbolismo além do que Paulo pretendia; o ponto principal é simplesmente que a relação com a lei muda com a morte (Schreiner, “purpose was not to construct a point-for-point correspondence”). Gaventa, por outro lado, vê a analogia de forma muito mais radical e gerativa, argumentando que a analogia exige que vejamos o crente assumindo múltiplos papéis na morte e libertação (Gaventa, “multiple relationships in which ‘you’ stand”). A divergência é retórica e estrutural.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner identifica a base legal de Deuteronômio 24:1-4 sobre o divórcio patriarcal judaico. Ambos, Schreiner e Gaventa, identificam o uso de hypandros em Provérbios 6:29 e Números 5:20 (LXX) como pano de fundo para a mulher “sob o marido”.

5. Consenso Mínimo

  • Os crentes foram definitivamente libertos do poder aprisionador da Lei Mosaica através da sua participação na morte de Cristo, o que lhes permite pertencer a um novo mestre e servir na novidade do Espírito.

📖 Perícope: Romanos 7:7-12

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἀφορμὴν (aphormēn - base de operações/oportunidade): Gaventa destaca o uso deste substantivo na literatura antiga (como Tucídides e Políbio) para descrever pretextos, recursos ou locais de preparação para uma batalha militar, revelando a intenção hostil do Pecado (Gaventa, “staking out its base of operations”). Schreiner traduz o conceito de forma semelhante, como uma “cabeça de ponte” ou base para o ataque do pecado (Schreiner, “bridgehead, the base of operations”).
  • Ἐπιθυμία (epithymia - cobiça/desejo): Schreiner foca no aspecto do mandamento proibindo a cobiça (décimo mandamento) porque este ataca as inclinações internas do coração em vez de ações externas (Schreiner, “addresses the desire of the heart”). Gaventa concorda, adicionando que tal desejo desenfreado reflete a desconfiança nas provisões de Deus para a vida humana (Gaventa, “mistrust of God’s provisions”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo: Posiciona teologicamente os versos mostrando que, na defesa de Paulo sobre a segurança da salvação, a Lei é eximida de ser a raiz do problema, provando que o evangelho não a viola, mas responde à sua incapacidade de justificar (Moo, “The problem of the law”).
  • Schreiner: Argumenta que Paulo reflete primariamente sua própria experiência autobiográfica pré-cristã vista de forma retrospectiva. Ele sugere que a cobiça ganhou vida possivelmente no período do seu bar mitzvah, quando ele se tornou “filho do mandamento” e a lei atingiu sua consciência moral (Schreiner, “primary reference is to Paul himself”).
  • Gaventa: Destaca o aspecto retórico e performático do “Eu” (Egō). Ela rejeita leituras puramente autobiográficas, argumentando que o “Eu” se assemelha ao orador dos Salmos de Lamento, agora transplantado para o cenário de um conflito cósmico onde o Pecado (como sujeito ativo e violento) invade e “arma” a própria lei de Deus (Gaventa, “The speaker here resembles the speaker of the lament psalms”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Identidade do “Eu” (Egō): O choque interpretativo aqui é central. Schreiner rejeita a ideia de que o texto seja mero artifício retórico (“speech in character” / prosopopeia) ou universalidade sem individualidade, argumentando que o tom intensamente confessional e de agonia exige uma leitura autobiográfica primária, mesmo que paradigmática para a humanidade (Schreiner, “confessional nature of the text suggests that Paul refers to his own experience”). Gaventa argumenta que uma leitura autobiográfica estrita distorce o argumento cósmico de Paulo e não condiz com as afirmações do apóstolo em outros lugares (como Filipenses 3) sobre sua robusta consciência judaica; o “Eu” é parte da retórica do texto para atrair os ouvintes para o conflito, e não o foco em si (Gaventa, “undermines a narrowly autobiographical reading”). A divergência é profundamente literária e histórico-teológica.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • O uso claro do Décimo Mandamento do Decálogo (Êxodo 20:17 / Deuteronômio 5:21) – “Não cobiçarás”. Há também ecos implícitos da narrativa de Adão e Eva em Gênesis 3 na forma como o mandamento trouxe morte e o engano (deception - v.11) operou.

5. Consenso Mínimo

  • A Lei de Deus é incontestavelmente santa, justa e boa, mas o Pecado usou esse bom mandamento como uma arma para despertar desejos proibidos, enganar e produzir morte no ser humano.

📖 Perícope: Romanos 7:13-25

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Πεπραμένος (pepramenos - vendido): Gaventa aponta que o termo está amplamente associado à venda de seres humanos como escravos, frequentemente no contexto de captura em guerra, reforçando a imagem de cativeiro cósmico (Gaventa, “selling of humans into slavery, frequently in the context of battle”). Schreiner vê a expressão “vendido sob o pecado” como indicador da total falta de capacidade inerente da carne para fazer o bem (Schreiner, “sold under sin”).
  • Οἰκέω (oikeō - habita/vive, vv. 17, 20): Gaventa nota que este verbo não descreve apenas uma presença passiva, mas denota “viver em um espaço particular”, significando que o Pecado essencialmente colonizou o território da pessoa humana (Gaventa, “Sin colonizes the human person”).
  • Νόμος (nomos - lei, vv. 21-25): Para Schreiner, a palavra “lei” (quando fala de “outra lei” ou “lei do pecado”) é usada metaforicamente como um “princípio” ou “regra” operativa (Schreiner, “Paul does use the word ‘law’ (nomos) metaphorically”). Gaventa discorda fortemente dessa tradução mitigadora; para ela, a palavra carrega todo o peso de Lei, indicando uma terrível e literal fratura/fissura na própria lei, onde a Lei é capitulada pelo Pecado (Gaventa, “not to be reduced to a principle or norm”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo: Posiciona os gemidos finais de Romanos 7 dentro da tensão escatológica do “já e ainda não” (already-not yet), onde a libertação final e a esperança de glória glorificação do capítulo 8 ainda são aguardadas no sofrimento presente do crente (Moo, “a situation of some tension and conflict”).
  • Schreiner: Utilizando o trabalho recente de Timmins, ele foca na “condição antropológica” da “carne”. Ele conclui que os versos não descrevem apenas “a experiência cristã” de forma universal, mas “a experiência de um cristão” em sua contínua solidariedade corpórea com a velha ordem adâmica. Enquanto os crentes estiverem no corpo mortal, lutarão com essa debilidade intrínseca (Schreiner, “anthropological condition of human beings”).
  • Gaventa: Relaciona a crise entre o “querer” e o “fazer” na antiguidade pagã (Eurípides com Medeia e Ovídio). No entanto, ela destaca uma profunda distinção: enquanto os filósofos clássicos viam isso como um problema na razão humana ou no controle das paixões, Paulo vê o problema como a ocupação por uma força alienígena externa e predatória (o Pecado), que parasita a agência humana (Gaventa, “occupation by an outside force”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Status do “Eu” (Crente vs. Não-Crente): Este é o grande campo de batalha de Romanos 7. Schreiner examina exaustivamente os argumentos para ambos os lados e conclui que o texto descreve um crente lutando com sua condição antropológica carnal (escatologia do “já/ainda não”). A miséria vem de reconhecer sua incapacidade corporal contínua (Schreiner, “experience of a Christian”). Gaventa foge dessa taxonomia sistemática estrita, argumentando que a intenção não é primariamente distinguir estados soteriológicos, mas fazer um diagnóstico cósmico da feiúra do Pecado, que invadiu o eu de tal forma que o liberto de Cristo ainda solta o “grito” dos Salmos de lamento ansiando pelo resgate corpóreo (Gaventa, “not about their soteriological state”).
  • O Significado de Nomos: Como apontado na filologia, Schreiner atenua o impacto ao traduzir as leis antitéticas como “princípios” operacionais. Gaventa combate essa visão, argumentando que amenizar nomos para “princípio” ofusca o clímax da denúncia de Paulo: o Pecado é tão voraz que aprisionou não apenas a carne, mas armou a própria Lei Mosaica contra o crente.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Ambos destacam os ecos dos Salmos. Gaventa observa o lamento dos Salmos (como no Salmo 17/16 LXX) onde o salmista é feito miserável e clama pela intervenção e resgate de Deus, algo espelhado no grito do verso 24. Schreiner (via Seifrid) vê paralelos literários nas confissões de fraqueza antropologica encontradas na literatura de Qumran (Hodayot).

5. Consenso Mínimo

  • O ser humano, focado apenas em sua própria capacidade carnal, encontra-se totalmente paralisado e incapaz de realizar a boa vontade de Deus devido à profunda colonização e invasão do Pecado, levando ao grito agonizante por um resgate externo que só se encontra em Jesus Cristo.