Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Romanos 5
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Lente Teológica: Tradição Evangélica Reformada. Foca na justificação forense, na reconciliação e na transição lógica da justificação para a segurança da salvação. Ele interpreta a teologia paulina enfatizando o status legal do crente que resulta em uma transformação real.
- Metodologia: Exegese gramatical-histórica e análise estrutural. Moo presta muita atenção aos marcadores de transição lógica de Paulo. Ele utiliza contagem de palavras (estatísticas de uso de “fé” versus “vida”) e observa mudanças sintáticas (da argumentação polêmica na 2ª pessoa para o tom confessional na 1ª pessoa do plural) para delimitar o fluxo argumentativo do texto.
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Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Lente Teológica: Tradição Evangélica Reformada (Soteriologia Calvinista). Defende fortemente os conceitos de pecado original, morte original e a imputação baseada no federalismo (representação pactual) de Adão e Cristo. Rejeita leituras pelagianas e ataca ativamente o universalismo.
- Metodologia: Teologia bíblica integrada à exegese gramatical rigorosa. Schreiner detalha profundamente o fluxo de pensamento, interage extensivamente com a sintaxe do grego (como o intenso debate sobre a cláusula eph’ hō em 5:12) e compara os conceitos paulinos com a literatura judaica do Segundo Templo para estabelecer o pano de fundo histórico e teológico.
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Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
- Lente Teológica: Perspectiva Apocalíptica. Enfatiza a invasão cósmica da graça de Deus e o conflito contra os poderes do Pecado e da Morte (tratados como entidades suprahumanas). Minimiza ativamente a leitura antropocêntrica e individualista, focando na ação unilateral e libertadora de Deus, que atua antes e independentemente de qualquer cooperação humana.
- Metodologia: Análise literária e retórica focada no horizonte cósmico (teologia apocalíptica). Identifica “metáforas ontológicas” e analisa os recursos retóricos de Paulo, como a argumentação em escada (stairstep ou clímax) e contrastes, para demonstrar o triunfo de Deus. Examina criticamente questões de tradução para evitar viéses antropocêntricos (por exemplo, traduzindo pistis Christou como “fé de Cristo” gerada pela ação divina).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese do (Moo, D. J.): Romanos 5 funciona como uma transição central na carta, movendo o foco da justificação pela fé para a certeza inabalável da glória futura (a esperança da salvação) que pertence àqueles que estão em Cristo.
- Moo argumenta que os capítulos 5 a 8 formam uma unidade temática focada na “Certeza Fornecida pelo Evangelho” (Moo, 1996, “The Assurance Provided by the Gospel”). A justificação do crente não é apenas uma ficção legal, mas cria uma nova realidade que traz paz com Deus e uma esperança escatológica. Essa esperança é fundamentada tanto objetivamente pelo sacrifício expiatório de Cristo quanto subjetivamente pela certeza interna dada pelo Espírito Santo (Moo, 1996, “the inner, subjective certainty that God does love us”). Ele traça um paralelo estrutural (quiasmo) onde a esperança e a glória de Romanos 5:1-11 são ecoadas em 8:18-39, provando que Deus salvará da ira futura aqueles que Ele já justificou.
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Tese do (Schreiner, T. R.): A esperança escatológica do crente é garantida porque o triunfo da graça de Cristo é qualitativamente superior e reverte completamente a ruína universal introduzida no mundo por Adão, o primeiro cabeça pactual.
- Schreiner enfatiza que Adão e Cristo não são meros exemplos morais, mas sim “indivíduos representativos vicários” (Schreiner, 2018, “vicariously representative individuals”). Todos os seres humanos nascem espiritualmente mortos e condenados por causa do único pecado de Adão, seu cabeça pactual (Schreiner, 2018, “Adam functioned as the covenant head of the human race”). Contudo, a obra de Cristo é imensamente maior, pois supera os múltiplos pecados da humanidade, trazendo o reino da graça e a vida eterna. Schreiner também destaca que, paradoxalmente, as aflições presentes não ameaçam a esperança do crente, mas a fortalecem ao produzirem um caráter provado (Schreiner, 2018, “the hard realities of everyday life conspire to make believers more godly”).
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Tese do (Gaventa, B. R.): Romanos 5 descreve o evangelho não nos termos de perdão de infrações individuais, mas como o resgate cósmico e a vitória esmagadora de Deus contra os poderes escravizadores do Pecado e da Morte, uma vitória conquistada de forma totalmente unilateral.
- Gaventa argumenta que a humanidade, fraca, ímpia e caracterizada como “inimiga” de Deus, era incapaz de responder por si mesma e vivia sob a tirania ilegítima do Pecado e da Morte (Gaventa, 2024, “Sin is nothing less than a suprahuman power”). A ação redentora de Deus em Cristo ocorreu de forma totalmente independente de qualquer virtude ou arrependimento humano (Gaventa, 2024, “an event in which God acts through Jesus Christ without human cooperation or initiative”). A ênfase repousa na disparidade entre o ato de Adão, que abriu a porta para o domínio global dessas potências cósmicas, e o ato gracioso de Cristo, que destronou essas forças para estabelecer o reinado da graça, abraçando o cosmos de forma universal.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão do Moo, D. J. | Visão do Schreiner, T. R. | Visão do Gaventa, B. R. |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Esperança / Reconciliação (Elpis / Katallagē). Define como certeza objetiva garantida pela obra de Cristo e paz relacional, traduzindo um status definitivo (Moo, “peace with God or reconciliation, then, ‘frames’ this paragraph”). | Porque (Eph’ hō, em 5:12). Define gramaticalmente como causal, fundamentando a morte universal no pecado, mas insistindo que ocorre no contexto da união federal com Adão (Schreiner, “context supports the translation ‘because’”). | Pecado e Morte (Hamartia / Thanatos). Define grafando com iniciais maiúsculas para denotar não meros atos, mas “poderes suprahumanos” e escravizadores (Gaventa, “Sin is nothing less than a suprahuman power”). |
| Problema Central do Texto | Como ter segurança da salvação futura diante do sofrimento presente e da ira vindoura, justificando a transição lógica da fé para a esperança (Moo, “assurance of glory is, then, the overarching theme”). | A condenação universal, a morte física e espiritual, herdadas do pecado de Adão como nosso representante pactual, aliado ao pecado individual (Schreiner, “people die and are condemned because of Adam’s sin”). | O cativeiro cósmico de toda a humanidade sob as potências tirânicas do Pecado e da Morte, o que nos colocava na posição de “inimigos” de Deus (Gaventa, “humanity existed as a genuine enemy of God”). |
| Resolução Teológica | A morte reconciliadora de Cristo (base objetiva) unida à certeza interna do amor de Deus derramado pelo Espírito Santo (base subjetiva) garantem a glória (Moo, “internal, subjective… sensation”). | A imputação pactual da justiça e da graça do último Adão (Cristo), que é qualitativamente superior e reverte de forma triunfante a ruína do primeiro Adão (Schreiner, “imputing the righteousness of Christ to us”). | A invasão apocalíptica, unilateral e vitoriosa de Deus no cosmos, que destrona o Pecado e a Morte e estabelece definitivamente o reinado da Graça (Gaventa, “grace has dethroned Sin”). |
| Tom/Estilo | Exegético e Pastoral (Focado na certeza, alegria e consolação do crente). | Acadêmico e Polêmico (Engaja fortemente contra visões pelagianas e ataca o universalismo). | Apocalíptico e Retórico (Focado no drama cósmico, na literatura e nas metáforas ontológicas). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Schreiner, T. R. fornece o melhor background histórico. Ele interage exaustivamente com o contexto do Judaísmo do Segundo Templo (citando obras como 2 Esdras, Sabedoria, e Baruque) para contrastar a visão judaica contemporânea sobre Adão, a Lei e a capacidade do livre-arbítrio com a exegese pessimista e radical de Paulo sobre a inabilidade humana (Schreiner, “Jewish literature contemporary with Paul”).
- Melhor para Teologia: Schreiner, T. R. e Gaventa, B. R. aprofundam as doutrinas de forma superior, dependendo do paradigma. Schreiner é insuperável na exegese gramatical-teológica para a formulação da imputação pactual e do pecado original, combatendo teologias universalistas com extremo rigor analítico. Gaventa, contudo, é teologicamente brilhante ao resgatar a leitura apocalíptica, demonstrando como a soteriologia paulina lida com forças ontológicas cósmicas e não apenas com transações legais individuais.
- Síntese: Para uma compreensão holística de Romanos 5, a exegese pastoral de Moo estabelece o alicerce fundamental da segurança do crente por meio do Espírito; a precisão técnica de Schreiner ancora essa segurança na representação federal de Cristo superando a ruína de Adão; e a lente de Gaventa eleva a discussão, mostrando que essa salvação não é apenas uma transação contábil, mas o triunfo esmagador de Deus em uma guerra cósmica contra as potências do Pecado e da Morte.
Justificação Forense, Federalismo (Representação Pactual), Poderes Cósmicos (Pecado e Morte) e Certeza da Esperança Escatológica são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 1-5
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Echomen vs Echōmen (Temos paz vs. Tenhamos paz): Há um intenso debate textual no v. 1. Schreiner defende o indicativo echomen (“nós temos”), argumentando que a gramática e o contexto focam em celebrar as bênçãos objetivas já conquistadas (Schreiner, “The verses as a whole emphasize the hope that believers have in Christ, not their responsibility to enjoy that hope”). Gaventa e Moo seguem o subjuntivo echōmen (“tenhamos/desfrutemos”), baseados no peso dos manuscritos mais antigos, com Gaventa traduzindo como “let us enjoy peace”, interpretando como um convite doxológico para celebrar a obra já consumada (Gaventa, “The manuscript evidence favors the subjunctive reading”).
- Prosagōgē (Acesso/Entrada): Moo e Schreiner traduzem como “acesso” (access), enfatizando a capacidade contínua de desfrutar da presença da graça de Deus (Moo, “the context… favors the translation ‘access’”). Gaventa prefere “entrada” (entrance), ressaltando a transição literal de um estado (sob a ira) para um novo local ou “esfera de influência” no cosmos (Gaventa, “entrance… access to God’s presence”).
- Thlipsis (Tribulação/Aflição): Schreiner vê o termo referindo-se às pressões gerais e sofrimentos da presente era maligna (Schreiner, “pressures and troubles that annoy believers”). Gaventa atribui uma conotação muito mais densa de guerra apocalíptica, onde as aflições provêm do choque escatológico contra as potências anti-Deus (Gaventa, “thlipsis acquires the full connotation of eschatological conflict here”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Nota a brusca transição retórica em 5:1. Paulo abandona o tom polêmico de 1:18–4:25 focado na oposição judaica e adota um estilo “confessional”, utilizando a 1ª pessoa do plural para inserir os leitores na garantia do que foi alcançado (Moo, “the first person plural begins to dominate… ‘confessional’ style”).
- Schreiner, T. R.: Analisa a “cadeia lógica” ou sorites (v. 3-4), observando que tal encadeamento (onde sofrimento gera resistência, que gera caráter e esperança) era comum na exortação judaica. Ele defende fortemente a garantia divina neste processo; Paulo não insere “condições” para a cadeia funcionar porque ele pressupõe a ação infalível de Deus preservando o crente (Schreiner, “He left it out because he assumes that God will overcome believers’ tendency to wilt under pressure”).
- Gaventa, B. R.: Detecta um “truque retórico” de Paulo. Enquanto os romanos esperavam um “motivo de vanglória” atrelado à vitória ou virtude humana, Paulo os exorta a gloriar-se na aflição. Além disso, ela enxerga no v. 5 lampejos primitivos da Trindade teológica (Deus, Cristo e Espírito unidos no derramar do amor) (Gaventa, “touches on the web of relationships Christians will later call the Trinity”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A discordância central reside na sintaxe do verbo “gloriar/exultar” na aflição (v. 3). Schreiner lê como fato indicativo contínuo de uma comunidade que se fortalece na perseguição. Gaventa, mantendo a leitura subjuntiva do v. 1, interpreta como exortação: é algo contraintuitivo que os crentes devem fazer, fundamentados na vitória cósmica que está ocorrendo, desafiando a cultura imperial romana de “gloriar-se em conquistas militares”.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Moo traça o pano de fundo do termo “paz” à concepção profética veterotestamentária do Shalom, que denotava a salvação que Deus traria ao seu povo nos “últimos dias”, agora inaugurada no Messias (Moo, “OT prophets’ use of the term peace to characterize the salvation”).
- Schreiner identifica o tema da “esperança que não desaponta/não traz vergonha” (v. 5) nos Salmos e profetas (Sl 22:5; 25:3; Is 28:16), confirmando a tradição de que aqueles que confiam no Senhor serão vindicados escatologicamente no juízo (Schreiner, “rooted in the OT… those who trust in God are assured”).
5. Consenso Mínimo
- A “esperança” apresentada por Paulo não é um otimismo vago, mas uma certeza escatológica absoluta, garantida não pelas virtudes humanas, mas pela experiência objetiva e subjetiva do amor de Deus derramado no coração.
📖 Perícope: Versículos 6-11
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hyper (Por / A favor de / No lugar de): No v. 6 (“morreu pelos ímpios”), Schreiner argumenta categoricamente que a preposição envolve substituição penal e representação (Schreiner, “Christ died both as our representative and as our substitute”). Gaventa, entretanto, argumenta que no contexto da união com Cristo no capítulo 6, não se trata de substituição (“no lugar de”), mas de um ato realizado “para o bem de” (for the sake of) a fim de resgatar o ser humano, rejeitando mecanismos retributivos estritos (Gaventa, “‘for the sake of’ is the better understanding”).
- Katallagē / Katallassō (Reconciliação / Reconciliar): Moo identifica a transição da linguagem forense/jurídica (justificação) para a esfera relacional, convertendo inimigos em amigos (Moo, “language of reconciliation, on the other hand, comes from the world of personal relationships”). Gaventa usa o imaginário político, comparando a situação ao “fracasso da diplomacia”, ressaltando a rebelião ativa dos humanos (Gaventa, “diplomacy or, more accurately, the failure of diplomacy”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Demonstra o uso de Paulo da estrutura retórica judaica do qal wayyōmer (do menor para o maior). Moo afirma que, paradoxalmente, aqui Paulo raciocina do “maior para o menor”: se Deus fez o que era infinitamente mais difícil — justificar inimigos pelo sangue de Cristo —, é óbvio que fará o mais “fácil”, que é salvá-los da ira futura (Moo, “if God has already done the most difficult thing… how much more can he be depended on to accomplish the ‘easier’ thing”).
- Schreiner, T. R.: Analisa o v. 7 engajando literatura secular antiga (Eurípedes sobre Alceste morrendo por seu marido Admeto). Ele demonstra como atos de sacrifício por amigos ou benfeitores eram compreensíveis no mundo greco-romano, provando retoricamente que o sacrifício de Cristo é único porque Ele morreu voluntariamente por Seus inimigos, algo alheio ao imaginário antigo (Schreiner, “Gathercole… argues that the death of some in the place of and in the stead of others would have been well known”).
- Gaventa, B. R.: Destaca a agressividade do choque lexical de Paulo ao tratar toda a audiência como “ímpios” (asebeis). Ela lembra que o Salmo 1 e os textos sectários pressupõem um muro intransponível separando “justos” de “ímpios”. Paulo dinamita a fronteira, dizendo que Cristo morreu por aqueles que a tradição considerava proscritos absolutos (Gaventa, “sharp line between the ‘ungodly’ and the ‘righteous’”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O debate teológico fulcral recai na natureza da Expiação. Schreiner e Moo veem a obra na cruz como essencialmente substitutiva-penal, ligada ao culto levítico e à necessidade de aplacar a ira de Deus (“justificados pelo seu sangue”). Gaventa foca no viés de libertação apocalíptica: a morte de Cristo é a ação unilateral de invasão de Deus para libertar inimigos cativos de poderes tirânicos, preferindo abrandar esquemas jurídicos punitivos em prol do foco de união (morrer e ressuscitar com Ele).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Moo e Schreiner identificam as cláusulas “entregue/morreu por nossos pecados” como paralelos exatos da cristologia do Servo Sofredor de Isaías 53 na Septuaginta (LXX), fundamentando a natureza sacrificial da justificação (Schreiner, “allude to Isa. 53, where the servant of the Lord suffers”).
5. Consenso Mínimo
- A ação salvífica de Deus em Jesus Cristo aconteceu independentemente de qualquer cooperação, virtude ou iniciativa humana, operando unicamente pela graça enquanto a humanidade era inteiramente caracterizada pela inimizade contra Ele.
(Nota de delimitação de fontes: Conforme as fontes fornecidas, o arquivo de Moo cobre aprofundadamente apenas até 5:11. Assim, a análise exegética granular de 5:12–21 será baseada primordialmente no embate entre Schreiner e Gaventa).
📖 Perícope: Versículos 12-14
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Eph’ hō (Porque / De modo que): No v. 12d, Schreiner traduz como um causativo “porque” (because): a morte passou a todos porque todos pecaram de fato, argumentando que a condenação federal de Adão gera o pecado pessoal humano. Gaventa o traduz como “de modo que” (so that/consecutivo), defendendo que o ato de Adão “abriu a porta” e as forças da Morte geraram uma sinergia resultando na infecção moral, removendo a culpa fundamental de qualquer outro que não seja o próprio Adão (Gaventa, “so that better fits the context… Nothing else in this passage faults individuals”).
- Hamartia e Thanatos (Pecado e Morte): Enquanto Schreiner mantém uma leitura onde o pecado retém forte caráter de responsabilidade ética individual operando dentro do macro-problema da queda (Schreiner, “Sin and death as evil powers… rule over all”), Gaventa exige que tais termos sejam lidos inteiramente como substantivos próprios Cósmicos; eles agem como monarcas alienígenas e independentes que dominaram a raça humana a partir de Adão (Gaventa, “Sin and Death are mutually reinforcing powers”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Schreiner, T. R.: Em seu debate contra as doutrinas federalistas puras (como a de John Murray), Schreiner atenta para os julgamentos históricos entre Adão e Moisés, especificamente o dilúvio (Gênesis 6-9) e Babel (Gênesis 11). Ele aponta que esses povos foram destruídos explicitamente por seus próprios pecados contra a lei moral não-escrita (em harmonia com Rom 2:12), demonstrando que o v. 13 não exclui a condenação e culpa do indivíduo (Schreiner, “Those without the law clearly perish because they violate moral norms”).
- Gaventa, B. R.: Nota uma assimetria literária gritante: a ausência total da menção de Deus, de Cristo e de virtudes humanas do verso 12 até quase o fim do verso 14. Paulo monta o palco para que Pecado e Morte corram livremente, sublinhando sua total hegemonia cósmica não contestada (Gaventa, “salvific actions of God remain off stage… renders his silence… even more dramatic”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Problema do Pecado Original vs. Invasão Cósmica. Para Schreiner, a humanidade encontra-se condenada pelo conceito da Cabeça Federal (Representação) - todos morreram e se tornaram réus primariamente através da Queda, e, subsequentemente, por seus próprios pecados. Para Gaventa, baseada na escola da Teologia Apocalíptica, trata-se de um rapto ou captura; a humanidade não “imitou” Adão livremente, foi antes parasitada ontologicamente pelos Tiranos (Pecado e Morte), isentando-a de deliberações conscientes frente a um cenário escravizador.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Ambos concordam que a moldura base é o relato da Queda de Gênesis 3, mas Gaventa levanta um ponto instigante sobre o uso de Paulo das Escrituras: na recriação literária de Paulo sobre a introdução da ruína global, Eva é inteiramente apagada, concentrando todo o peso narrativo e estrutural apenas no indivíduo Adão para estabelecer a simetria de “um homem” contra “um homem” (Cristo) (Gaventa, “Eve is altogether omitted”). Schreiner frisa que Paulo atesta firmemente o relato de Gênesis como evento espaço-temporal histórico e Adão como figura histórica tangível (Schreiner, “Paul believed he was historical”).
5. Consenso Mínimo
- A desobediência do primeiro homem instalou na humanidade um paradigma fatal duplo: o império global do Pecado e o senhorio ininterrupto da Morte, problemas sobre os quais nenhuma vontade humana ou Lei pode triunfar.
📖 Perícope: Versículos 15-21
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Dikaiōma (Ato justo / Resultado da retidão / Justificação): No v. 16, Schreiner opta por “justificação”, considerando-o antônimo exato da condenação (katakrima) de Adão. Porém, no v. 18, adota “ato justo” ou obediência de Cristo (Schreiner, “righteous act or obedience of Christ”). Gaventa busca manter um sentido de “resultado produzido” (retidão imputada/estabelecida) derivado de decreto em oposição à condenação imposta por decreto (Gaventa, “fulfillment of the decree or its result, righteousness”).
- Pareisēlthen (Introduziu-se / Entrou de fininho / “Sneaked in”): O verbo grego no v. 20 denota uma aparição marginal. Gaventa sublinha seu forte uso no contexto de infiltrações militares de espiões (Políbio e Plutarco) (Gaventa, “The verb Paul uses here occasionally occurs in military contexts”). Schreiner nota o uso paralelo de Paulo em Gálatas 2:4 para denotar entrada furtiva de oponentes indesejados.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Schreiner, T. R.: Destrincha de forma técnica as repetidas “comparações a minori ad maius” (do menor para o maior - “muito mais” da graça). Analisa o particípio hoi lambanontes (“aqueles que recebem”, v. 17) para refutar interpretações universalistas da graça. Paulo exige uma resposta humana à dádiva objetiva; a eficácia de Cristo depende da apropriação dos eleitos (Schreiner, “reception of what God has given is necessary for salvation”).
- Gaventa, B. R.: Traz uma visão diametralmente oposta focada na macroestrutura dos verbos de governo (Ruler). Notando os contrastes dos versos 15, 16, 18, 19 e 21, Gaventa aponta que “a Graça” no v. 21 funciona como uma sinédoque profunda para o próprio Deus como o Monarca que depõe os falsos reis. O ato de Cristo destronou as forças escravizadoras num ato não-solicitado e não-cooperativo (Gaventa, “grace has dethroned Sin. This is no friendly resignation”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Tensão do Universalismo Escatológico: A divergência atinge seu ápice em vv. 18-19. Schreiner nega o universalismo (salvação de todos os humanos): a palavra “todos” (Pantes) restringe-se a “todos” que estão em Cristo. A universalidade é qualitativa (abarca judeus e gentios sem distinção). Para Gaventa (ecos de K. Barth), “todos” realmente quer dizer “todos”. Ela argumenta incisivamente: se a eficácia de Adão destruiu literalmente toda a humanidade e a Graça de Cristo alcançasse menos pessoas que a condenação de Adão, então o “Pecado e a Morte seriam mais poderosos que a Graça” (Gaventa, “If grace does not reign over all without exception, then grace is less powerful than Sin and Death”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- O alvo do v. 20 (A Lei multiplicou o pecado) é a tradição judaica apócrifa do Segundo Templo (Sirácida, Jubileus e Baruc). Ambas as exegeses identificam o mesmo fato teológico: enquanto o Judaísmo sustentava que Deus havia dado a Torá como o antídoto medicinal no Sinai para deter a inclinação maligna (yetzer hara) deixada por Adão, Paulo inverte brutalmente o paradigma, declarando que a Torá agravou e multiplicou a tirania do Pecado (Schreiner, “law was allied with sin and death in bringing human beings under bondage”).
5. Consenso Mínimo
- A tipologia de Paulo não estabelece paralelos simétricos de igualdade, mas sim uma vitória qualitativa esmagadora: a graça, manifestada na cruz, superou completamente, de forma inimaginável, os abismos introduzidos pela queda, transferindo a humanidade do domínio da condenação para o triunfo e vida eternal sob Cristo.