Análise Comparativa: Romanos 2

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
  • Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

    • Lente Teológica: Tradição Reformada e Evangélica Clássica. Moo opera predominantemente dentro de uma estrutura que enfatiza a justificação pela fé forense e a continuidade/descontinuidade da lei.
    • Metodologia: Exegese gramatical-histórica e teologia bíblica. Ele ataca o texto com profunda análise sintática e lógica argumentativa (examinando partículas como “portanto” e “pois”), visando reconstruir o “diálogo com o Judaísmo” e a estrutura condicional e universal da acusação de Paulo em relação ao pecado.
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.

    • Lente Teológica: Tradição Reformada Batista, com forte inclinação para a Teologia da Nova Aliança e ênfase na história da salvação (salvation-historical).
    • Metodologia: Exegese estrutural e sintática detalhada. Schreiner utiliza análise de discurso (identificando quiasmos e a forma retórica da diatribe) e foca intensamente na relação entre as promessas da Antiga Aliança e o cumprimento escatológico na Nova Aliança por meio do Espírito Santo.
  • Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

    • Lente Teológica: Teologia Apocalíptica Paulina. Ela enxerga o evangelho não primordialmente como uma solução antropológica individual, mas como uma invasão cósmica de Deus que derrota os poderes personificados do Pecado e da Morte.
    • Metodologia: Exegese retórica e teológica. Gaventa foca em como a linguagem de Paulo desestabiliza as categorias e fronteiras estabelecidas de identidade no primeiro século, prestando atenção à personificação de forças cósmicas e à dinâmica relacional entre Deus e a humanidade subjugada.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese do Moo, D. J.: Em Romanos 2, Paulo foca no judeu presunçoso para demonstrar que a posse da lei mosaica não isenta ninguém do julgamento imparcial de Deus, preparando o terreno antropológico necessário para a doutrina da justificação pela fé. Moo argumenta que o principal “alvo” da retórica de Paulo em Romanos 2 é o judeu que se apoia na aliança, mas que comete as mesmas falhas morais que o gentio (Moo, “the Jew is his main target”). Ao lidar com os gentios que supostamente cumprem a lei, Moo defende que os versículos 7 e 10 estabelecem o princípio inatingível da lei, ou seja, as “condições bíblicas para alcançar a vida eterna à parte de Cristo” (Moo, “conditions for attaining eternal life apart from Christ”). Ele conclui que o propósito da seção é mostrar a inabilidade humana universal de cumprir a lei perfeitamente, tornando imperativa a justiça de Deus imputada através do evangelho.

  • Tese do Schreiner, T. R.: O capítulo 2 utiliza a diatribe para desmantelar a segurança pactual judaica, provando que a verdadeira circuncisão é espiritual e que o cumprimento da lei pelos gentios cristãos é a prova escatológica da inauguração da Nova Aliança. Diferente de visões hipotéticas, Schreiner defende veementemente que o cumprimento da lei pelos gentios (2:26-27) refere-se à verdadeira obediência de cristãos gentios, capacitados pelo Espírito Santo. Ele afirma que as obras exigidas no juízo final não formam a base da salvação, mas são evidências essenciais e substanciais da presença transformadora do Espírito (Schreiner, “obedience demonstrating that one has been transformed”). A tese de Paulo, portanto, é desqualificar a letra exterior da lei e a herança étnica em favor da regeneração operada pela invasão da era escatológica.

  • Tese da Gaventa, B. R.: A retórica de Paulo em Romanos 2 visa desestabilizar radicalmente e borrar as fronteiras visíveis entre judeu e gentio, provando que ambas as categorias estão cosmicamente presas sob o domínio do Pecado. Gaventa insiste que Paulo não está conduzindo uma crítica ao Judaísmo per se (nem ao seu suposto legalismo ou etnocentrismo), mas demonstrando a vulnerabilidade universal da categoria anthrōpos diante de poderes hostis (Gaventa, “undermining what his auditors would have regarded as utterly certain”). Para ela, a menção hipotética a gentios cumpridores da lei não identifica convertidos cristãos, mas serve como ferramenta retórica para provocar incômodo e confusão sobre os marcadores de identidade (“circuncisão” vs “prepúcio”), com o objetivo final de conduzir ambos os grupos ao diagnóstico nivelador de que toda a humanidade carece da intervenção e do resgate apocalíptico de Deus (Gaventa, “both are human. Together they are alike subjects of territory occupied by Sin”).


3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Moo, D. J.Visão do Schreiner, T. R.Visão da Gaventa, B. R.
Palavra-Chave/Termo GregoObras (erga). Define como a obediência perfeita à lei, a qual é a exigência hipotética para a vida eterna, porém inatingível na prática (Moo, "conditions for attaining eternal life apart from Christ").Letra/Espírito (gramma/pneuma). Define em contraste histórico-salvífico: a letra é a inadequação da Antiga Aliança, o espírito é a Nova Aliança (Schreiner, "salvation-historical character of the text").Retificar (dikaioō). Argumenta que a linguagem da justiça traduz melhor a intervenção ativa de Deus para “retificar” a criação cativa do que o termo forense justificar (Gaventa, "Rectification and rectify convey the relationship").
Problema Central do TextoA presunção judaica de que o pertencimento à aliança os isenta do julgamento de Deus, falhando em perceber sua inabilidade total (Moo, "insufficient to provide for release from sin's power").A hipocrisia de possuir a vantagem externa da lei e da circuncisão, mas viver em transgressão, desonrando a Deus (Schreiner, "Jewish failure to honor God").A ilusão antropológica de que identidades ou fronteiras (judeu/gentio) oferecem proteção contra a soberania cósmica do Pecado e da Morte (Gaventa, "subjects of territory occupied by Sin and Death").
Resolução TeológicaO capítulo tem o papel preparatório de nivelar todos sob o pecado, tornando evidente a necessidade absoluta de uma justiça imputada pela fé (Moo, "preparation for... the gospel of God's righteousness").A obediência operada nos cristãos gentios e judeus, mediante a regeneração e a capacitação do Espírito Santo, validando a eleição e a Nova Aliança (Schreiner, "work of the Spirit in the new age").A intervenção apocalíptica e invasiva de Deus, que não apenas julga, mas “desfaz e refaz” a realidade, libertando a humanidade das potências escravizadoras (Gaventa, "apocalyptic revelation of God's righteousness").
Tom/EstiloAnalítico, Técnico-Exegético e Teológico-Sistemático Clássico.Exegético-Sintático, Histórico-Gramatical e Histórico-Salvífico.Apocalíptico, Retórico e Teológico-Literário.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Schreiner fornece o background histórico mais nítido ao mobilizar a literatura do Segundo Templo (como a Sabedoria de Salomão e os Salmos de Salomão) para ilustrar a teologia judaica da aliança e do nomismo, além de detalhar com precisão o uso estrutural da convenção retórica da diatribe para desmantelar os argumentos do interlocutor (Schreiner, "literature of intertestamental Judaism").
  • Melhor para Teologia: Gaventa destaca-se por desafiar o paradigma antropocêntrico, aprofundando a doutrina por meio da Teologia Apocalíptica. Ela reposiciona o pecado não como meras falhas morais, mas como uma entidade soberana, de modo que a justiça de Deus se manifesta como uma operação cósmica de resgate (Gaventa, "God acts to Reveal and Redeem"). Para a soteriologia clássica reformada, no entanto, Moo continua sendo a base teológica mais sólida.
  • Síntese: A compreensão holística de Romanos 2 exige a integração destas três lentes interpretativas: a acusação legal e a inabilidade humana demonstradas por Moo preparam o terreno para o abandono da autoconfiança moral; a exegese histórico-salvífica de Schreiner revela que a solução de Deus ultrapassa o pertencimento étnico por meio da atuação do Espírito na Nova Aliança; e, abarcando tudo isso, a abordagem de Gaventa eleva a retórica paulina, lembrando-nos que Paulo está desestabilizando todas as categorias de mérito ou identidade para ressaltar a libertação unilateral do cosmos pela invasão da graça divina.

Justificação Forense, História da Salvação, Apocalíptica Paulina e Diatribe são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 1–5

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Διό (dió, “portanto”): Schreiner debate se a partícula atua como uma transição incolor, mas conclui que ela extrai uma inferência lógica do juízo universal de Romanos 1 (Schreiner, "draws an inference from 1:18–32").
  • Κατὰ ἀλήθειαν (kata alētheian, “segundo a verdade”): Schreiner afirma que “verdade” aqui diz respeito à justiça factual de Deus ao julgar (Schreiner, "God's judgment on those who practice evil is just"). Gaventa aprofunda a ontologia, notando que a verdade não é um padrão externo a Deus, mas identifica-se com o próprio Deus (Gaventa, "truth is identified with God").
  • Θησαυρίζεις (thēsaurizeis, “entesouras/acumulas”): Schreiner aponta o uso irônico do termo, pois na tradição judaica (como em Tobias e 2 Baruque), “entesourar” referia-se a acumular boas obras para a bem-aventurança futura, mas aqui o judeu impenitente acumula ira (Schreiner, "the verb possesses an ironical flavor here").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Nota o uso do “processo de descoberta” retórica. Paulo inicia com a designação genérica “Ó homem” para atrair a simpatia do moralista (especialmente o judeu), que aplaude a condenação dos gentios de 1:18-32, para subitamente virar a acusação contra ele (Moo, "Paul enables his readers in Rome to share in the 'discovery' process").
  • Schreiner, T. R.: Destaca a adaptação da diatribe (forma de diálogo com oponente imaginário). Ele observa que, ao focar na “bondade, tolerância e paciência” de Deus, Paulo subverte a falsa segurança judaica no pacto que acreditava na imunidade divina (Schreiner, "God’s patience with sin must not be taken as a sign that he is weak").
  • Gaventa, B. R.: Faz uma observação linguística e teológica aguda sobre o termo arrependimento (metanoia). Ela nota que a virtual ausência dessa linguagem em outras partes das cartas de Paulo se deve ao fato de que, sob o domínio universal do Pecado e da Morte, o mero “arrependimento” humano é impotente para resgatar o ser humano (Gaventa, "Because humanity is ruled by such powers, repentance is ineffective").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Existe uma discordância sobre quem exatamente é o alvo imediato de 2:1-5. Moo diz que a acusação se aplica a qualquer moralista, mas que o alvo final (o “alvo oculto”) é o judeu (Moo, "the Jew is his 'hidden target'"). Gaventa, focando na desestabilização retórica, vê aqui um interlocutor que pode ser qualquer um que presuma imunidade, inclusive gentios afiliados a sinagogas que se autodenominam judeus (Gaventa, "whether Jewish or gentile, self-identifies as a Jew"). A divergência é retórico-histórica. A abordagem de Moo e Schreiner é mais convencional em ver a estrutura voltada especificamente para o etnocentrismo judaico, mas o argumento de Gaventa sobre a subversão da categoria anthrōpos acomoda melhor a ambiguidade inicial pretendida por Paulo.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner e Moo apontam a intertextualidade direta com a Sabedoria de Salomão 15:1-2, que reflete a crença judaica de que, mesmo se pecassem, a misericórdia de Deus garantiria sua proteção (Schreiner, "Wis. 15:1–2... Even if we sin we are thine"). Schreiner também nota a influência estrutural de Amós 1-2, onde o profeta ataca as nações gentílicas para, de surpresa, atacar Israel e Judá (Schreiner, "he imitates Amos (1–2)").

5. Consenso Mínimo

  • Paulo utiliza o estilo retórico da diatribe para encurralar e expor a hipocrisia de qualquer pessoa (principalmente o judeu moralista) que, presumindo imunidade pactual ou superioridade, julga os pecadores, mas pratica os mesmos atos, não podendo escapar do juízo escatológico de Deus.

📖 Perícope: Versículos 6–11

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἔργα (erga, “obras”): Debatido intensamente. Refere-se a obras como condição para salvação eterna.
  • Ἐριθεία (eritheia, “ambição egoísta”): Schreiner a define como “ambição egoísta”, conectando-a ao pecado fundamental de exaltar as aspirações humanas acima do Criador (Schreiner, "selfish ambition... fundamental sin that exalts human beings").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Oferece a visão estrutural do quiasmo que ancora os versículos 6 a 11 (A-B-C-C’-B’-A’). A sua grande contribuição é postular que a promessa de vida eterna para quem faz boas obras é a exposição da “lei” (condição teórica). Paul descreve o princípio retributivo da lei que ninguém fora de Cristo consegue cumprir (Moo, "Paul sets forth the biblical conditions for attaining eternal life apart from Christ... which, in fact, can never be realized").
  • Schreiner, T. R.: Rejeita a visão hipotética de Moo. Ele traz uma profundidade teológica sobre a Agência do Espírito: as boas obras aqui descritas que resultam em vida eterna são genuínas, produzidas pelo Espírito Santo na vida dos cristãos, servindo como evidência transformadora no juízo final (Schreiner, "the works of the Christian that are valid in the judgment are the 'fruit' of union with Christ").
  • Gaventa, B. R.: Foca na semântica de “glória, honra e imortalidade” no contexto greco-romano (citando Dio Crisóstomo e Apiano). Ela destaca que, para Paulo, diferentemente da virtude helenística alcançável, essas são dádivas estritamente escatológicas dadas por Deus (Gaventa, "these are gifts to be granted by God rather than human achievements").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Este é um dos debates mais ferozes de Romanos 2. A discórdia é teológica e soteriológica: Como Paulo pode afirmar justificação pela fé (Rm 3) e vida eterna por boas obras (Rm 2)?
    • Visão de Moo: É um cenário hipotético (a Lei condena todos porque ninguém atinge esse padrão).
    • Visão de Schreiner: É uma obediência cristã real (as obras são provas do poder do Espírito).
    • Visão de Gaventa: O foco não é criar um manual soteriológico aqui, mas desestabilizar categorias: Paulo introduz a ideia de que “fazedores do bem” e “fazedores do mal” existem em ambos os grupos étnicos, minando o orgulho judaico de que judeus fazem o bem e gentios fazem o mal (Gaventa, "He also subverts the principle by undermining any notion the interlocutor entertains that Jews are predictably among those who do what is right").
    • A evidência textual nos versos 26-29 tende a favorecer Schreiner no argumento teológico amplo da carta, mas a leitura retórica de Gaventa explica melhor a força do argumento no contexto imediato.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Os autores concordam unanimemente que o versículo 6 (“retribuirá a cada um segundo as suas obras”) é uma citação combinada de Provérbios 24:12 e Salmo 62:12 (61:13 LXX). Gaventa também vê traços disso no Eclesiástico 35:14-16 (Gaventa, "Sir 35:14–16").

5. Consenso Mínimo

  • O juízo final de Deus será estritamente imparcial, focado nas ações de cada indivíduo (“primeiro o judeu, depois o grego”), removendo qualquer base de segurança fundamentada puramente em linhagem étnica ou eleição pactual.

📖 Perícope: Versículos 12–16

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Φύσει (physei, “por natureza”): No verso 14 (“os gentios, que não têm a lei por natureza”). Schreiner conecta o termo a “não têm”, distinguindo a identidade judaica da gentílica (Schreiner, "distinguish Jewish identity over against gentile identity"). Gaventa concorda, notando que Paulo vê as divisões étnicas como partes da “natureza”, da constituição física (Gaventa, "the distinction between Jew and gentile is to be taken as natural... part of the constitution").
  • Τὰ κρυπτὰ τῶν ἀνθρώπων (ta krypta tōn anthrōpōn, “os segredos/pensamentos íntimos dos homens”): Gaventa destaca que “escondido” aqui não sugere algo deliberadamente ocultado pelo indivíduo, mas pensamentos cujo acesso pertence somente a Deus (Gaventa, "thoughts inaccessible to other human beings").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Schreiner, T. R.: Defende a tese de que esses gentios que cumprem a lei são cristãos vivendo na realidade da Nova Aliança. Para ele, “a obra da lei escrita em seus corações” é uma clara evidência teológica da promessa cumprida do Espírito (Schreiner, "writing of the law on the heart is part and parcel of a saving work of God").
  • Gaventa, B. R.: Apresenta uma leitura retórica radical: não são cristãos (visto que o Espírito Santo não é mencionado aqui). Paulo introduz uma categoria hipotética incômoda para explodir as definições do seu interlocutor, provando que ouvir a lei não garante isenção (Gaventa, "undermining the very categories of Jew and gentile by destabilizing any tendency to equate gentile with sinner").
  • (Nota: A contribuição de Moo nestes versos nas fontes fornecidas se limita a observar estruturalmente que a posse da lei judaica é ineficaz para o julgamento, concordando de forma geral com o propósito de condenar o moralista).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O conflito teológico foca na identidade dos “gentios que cumprem a lei” (2:14). Schreiner recusa a ideia de “lei natural” filosófica estóica e insiste que são gentios cristãos salvos, justificados. Gaventa diz que ver cristãos aqui destrói a coesão de Romanos 1-3, onde o objetivo é prender todos sob o pecado (Gaventa, "identifying law-observing gentiles in this passage as Christians... seriously distorts Paul's argument"). O argumento de Gaventa se mostra formidável ao apontar o silêncio total sobre o Espírito nestes versículos específicos, favorecendo a tese de que Paulo trabalha no campo retórico da subversão das expectativas do interlocutor.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Schreiner argumenta enfaticamente que a linguagem reflete Jeremias 31:33 (a lei no coração na Nova Aliança) e não o conceito grego de nomos agraphos (lei não-escrita) (Schreiner, "alludes to Jer. 31:33... It is less likely that Paul refers to natural law").

5. Consenso Mínimo

  • A simples audição ou posse do código mosaico não justifica ninguém diante de Deus; apenas a obediência factual importa, estabelecendo um padrão equitativo onde Deus sondará, por meio do evangelho, os segredos mais profundos do ser humano.

📖 Perícope: Versículos 17–24

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἱεροσυλεῖς (hierosyleis, “roubas templos”): Schreiner examina se o termo é metafórico ou literal. Ele conclui pela visão literal: judeus que supostamente abominavam ídolos estavam envolvidos em lucrar saqueando templos pagãos, caracterizando hipocrisia crassa (Schreiner, "any kind of illegitimate profit from the wealth of idols is in view").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Schreiner, T. R.: Evidencia o “anacoluto” (quebra sintática) nos versos 17-20 e aponta que os pecados aqui não significam que todos os judeus cometiam esses atos literalmente. É o uso de um topos judaico retórico para expor de forma chocante que a nação violava a lei da qual se orgulhava (Schreiner, "Paul uses particularly blatant and shocking examples... to illustrate the principle that Jews violated the law").
  • Gaventa, B. R.: Ressalta a beleza das prerrogativas nos versículos 17-20: ser guia de cegos, luz na escuridão, tendo a própria personificação (morphōsin) da verdade na Lei. Essas declarações são lidas de forma totalmente positiva por Paulo. A quebra trágica no verso 21 revela que a Lei, apesar de boa, não vacinou o judeu contra o poder do Pecado (Gaventa, "showing that the good gifts of God to Jews have not rendered them immune to the power of Sin").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não existe discordância primária aqui entre os autores em relação à intenção de Paulo. Ambos repudiam a interpretação histórica nociva de que Paulo estava acusando o “Judaísmo” de ser uma religião intrinsecamente hipócrita. O debate focado no texto reflete uma distinção de ênfase: Schreiner vê uma crítica à “transgressão legal”, enquanto Gaventa vê uma ilustração ontológica da capitulação humana universal aos poderes invasores do Pecado.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • A citação direta do v. 24, “O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês”, é tirada de Isaías 52:5 (LXX). Schreiner argumenta que, no contexto original de Isaías, a opressão estrangeira ocorreu por causa do pecado de Israel, justificando o uso paulino para demonstrar que a violação da Torá pelos judeus envergonhava a Deus (Schreiner, "Israel was oppressed by foreign nations precisely because of its sin").

5. Consenso Mínimo

  • Apesar dos formidáveis privilégios teológicos e pedagógicos concedidos a Israel, os judeus também transgridem a Lei, agindo com hipocrisia ao pregar contra os pecados enquanto os cometem, resultando na desonra do próprio Deus perante os gentios.

📖 Perícope: Versículos 25–29

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Γράμμα - Πνεῦμα (gramma - pneuma, “letra - espírito”): Schreiner argumenta que o contraste não é de hermenêutica bíblica (literal vs alegórica), mas estritamente histórico-salvífico. “Letra” destaca a externalidade inadequada do código mosaico, e “Espírito” aponta diretamente para a ação regeneradora do Espírito Santo (Schreiner, "contrast is a salvation-historical one... 'letter' emphasizes the externality of the law").
  • Ἀκροβυστία (akrobystia, “prepúcio / incircuncisão”): Gaventa enfatiza a escolha brutal e visceral de Paulo dessa palavra. O prepúcio marca o contraste objetivo e anatomicamente visível com a circuncisão, tornando a inversão de papéis promovida por Paulo esteticamente e teologicamente chocante (Gaventa, "objective, physical, and visible... exactly that boundary he now destabilizes").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Schreiner, T. R.: Ancora sua interpretação soteriológica da Nova Aliança aqui. Ele afirma, conectando com Filipenses 3:3, que a verdadeira circuncisão interior é uma obra exclusiva da agência do Espírito Santo. A partir daqui, ele valida retrospectivamente os gentios dos versos 14-15 como os cristãos que agora cumprem a lei por causa do dom escatológico (Schreiner, "allusion to the Holy Spirit... in Paul's mind the eschatological promise has become a reality").
  • Gaventa, B. R.: Argumenta que os versos 28-29 não lidam com um “princípio de interioridade” platônico ou referem-se aos cristãos como “verdadeiros judeus” (que ela nota ser uma invenção teológica posterior da Epístola de Barnabé). A manobra de Paulo é implodir a taxonomia do interlocutor judeu. O limite garantido foi completamente colapsado: ter prepúcio não te faz pecador; faltar-lhe não te garante o favor de Deus (Gaventa, "Instead of elevating one group over against another, Paul is undermining what his auditors would have regarded as utterly certain").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A tensão interpretativa ressurge intensamente: O “verdadeiro judeu” do v. 29 é o cristão gentio regenerado pelo Espírito (Schreiner)? Ou Paulo está simplesmente pulverizando os marcadores de identidade étnica judaica para provar que a condição humana (anthrōpos) independe de ritos físicos perante a invasão do Pecado (Gaventa)? Schreiner baseia-se na teologia sistemática do corpus paulino (Nova Aliança, Espírito). Gaventa lê a passagem apocalipticamente, vendo o desmantelamento das divisas humanas antigas preparatório para a revelação da força invasiva da graça e do império da Morte. A evidência intertextual do uso de pneuma favorece Schreiner teologicamente, mas o fluxo da retórica destrutiva do capítulo suporta firmemente a tese de Gaventa.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Os profetas e a Torá antecipavam a necessidade da circuncisão interior. Autores como Schreiner ligam isso às promessas de Deuteronômio 10:16; 30:6; Jeremias 4:4 e Levítico 26:41 (Schreiner, "OT shows that the circumcision of the heart is an eschatological reality").

5. Consenso Mínimo

  • A marca física da circuncisão judaica é completamente anulada pela desobediência moral, de modo que a identidade do verdadeiro povo de Deus é realocada do campo étnico-externo para a dimensão interior de um coração transformado e aprovado pelo próprio Deus.