Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Romanos 15
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Lente Teológica: Tradição Reformada e Evangélica. A teologia de Moo opera com uma forte distinção entre o indicativo da graça (o que Deus fez através do evangelho) e o imperativo da conduta (a resposta humana exigida).
- Metodologia: Exegese gramatical-histórica. Moo foca em traçar o desenvolvimento lógico do argumento paulino e na estruturação literária da epístola, demonstrando como a seção parenética (ética) e os planos de viagem de Paulo são essenciais para o tecido teológico geral da carta.
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Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Lente Teológica: Tradição Reformada/Batista, com um foco intenso na soberania divina, na história da salvação e no propósito teocêntrico de todas as coisas: a glória de Deus.
- Metodologia: Exegese estrutural e gramatical detalhada. Schreiner elabora a microestrutura do texto (traçando o fluxo de pensamento versículo por versículo) combinada com uma rica teologia bíblica, examinando meticulosamente as alusões, ecos e citações das Escrituras do Antigo Testamento para mostrar o cumprimento escatológico em Cristo.
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Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
- Lente Teológica: Abordagem Apocalíptica de Paulo. Gaventa vê o evangelho primariamente como uma invasão cósmica de Deus para derrotar os Poderes do Pecado e da Morte. A ética não é apenas moralidade, mas a reconfiguração da existência humana capturada pela ação redentora de Cristo no “tempo do agora” (now time).
- Metodologia: Exegese teológica e literária. Ela subverte classificações tradicionais (como a divisão rígida entre teologia e ética) e analisa criticamente a retórica de Paulo, demonstrando como a inclusão mútua entre judeus e gentios reflete uma libertação cósmica e a adoração unida a Deus.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese do Moo, D. J.: O capítulo 15 representa o ápice da transição do indicativo da salvação para o imperativo da obediência, onde a submissão moral mútua e a missão escatológica de Paulo evidenciam a totalidade do evangelho. Moo argumenta que a seção prática iniciada no capítulo 12 e culminando em 15:13 não é um apêndice, e que a transição “não é, portanto, uma transição da ‘teologia’ para a ‘prática’, mas de um foco mais no lado ‘indicativo’ do evangelho para um foco mais no lado ‘imperativo’” (Moo, “not a transition from ‘theology’ to ‘practice’”). Ele destaca que o acolhimento mútuo entre judeus e gentios flui das misericórdias de Deus explicadas nos capítulos anteriores. Além disso, a conclusão da carta foca intensamente nas viagens apostólicas, as quais são o “leitmotif desta seção” e provam que o argumento paulino sempre foi orientado para cimentar a Igreja de Roma na verdade do evangelho, preparando-a para apoiar sua missão aos gentios na Espanha (Moo, “Paul’s travels are the leitmotif of this section”).
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Tese do Schreiner, T. R.: O propósito supremo da obra salvífica de Cristo entre judeus e gentios, a qual rege as exortações de acolhimento mútudo no capítulo 15, é a manifestação da glória de Deus através de um louvor unificado. Para Schreiner, Romanos 15:7-13 é o grande clímax de toda a carta, onde a união de crentes judeus e gentios cumpre as antigas promessas abraâmicas e davídicas. Ele afirma categoricamente que “a glorificação de Deus pelos gentios ocorre no culto, quando o nome de Deus é louvado e exaltado” (Schreiner, “The glorifying of God by the gentiles occurs in worship”). Cristo tornou-se servo da circuncisão para vindicar a fidelidade de Deus e transbordar misericórdia aos gentios. Da mesma forma, os planos de Paulo (15:14-33) ilustram a sua vocação única; a proclamação do evangelho é entendida como um serviço sacerdotal cultual onde “a oferta dos gentios é apresentada a Deus” (Schreiner, “The proclamation of the gospel is a priestly service”).
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Tese da Gaventa, B. R.: O capítulo 15 demonstra como judeus e gentios, tendo sido resgatados pela ação de Cristo, são agora “agarrados pelo Senhorio de Cristo”, gerando uma adoração doxológica conjunta e uma profunda mutualidade material e espiritual. Gaventa rejeita categoricamente ler esta seção apenas como regras morais, argumentando que o acolhimento ordenado por Paulo (15:7) “engloba o acolhimento escatológico que todos receberam de Cristo” (Gaventa, “encompasses the eschatological welcome all have received from Christ”). Ao abordar os planos de Paulo para a coleta de Jerusalém (15:25-29), ela sublinha que o dinheiro não é apenas alívio de pobreza, mas serve para estabelecer uma comunhão (koinonia) que constrói e sinaliza uma verdadeira “mutualidade de judeus e gentios no evento de Cristo” (Gaventa, “It does signal the mutuality of Jew and gentile in the Christ event”). Judeus e gentios permanecem distintos, mas agora habitam a nova era inaugurada, onde a oferta mútua de bens físicos e espirituais glorifica a Deus que os libertou.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão do Moo, D. J. | Visão do Schreiner, T. R. | Visão do Gaventa, B. R. |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Leitourgos (λειτουργὸς): Enfatiza o serviço sacerdotal da pregação que apresenta os gentios como uma oferta litúrgica a Deus (Moo, “missionary work in cultic terms”). | Proslambanesthe (προσλαμβάνεσθε): Define a aceitação mútua fundamentada na ação de Cristo, visando o louvor unificado e a glória de Deus (Schreiner, “accept one another for the glory of God”). | Proslambanesthe (προσλαμβάνεσθε): Não é mera tolerância social, mas o acolhimento escatológico radical que todos receberam do próprio Cristo (Gaventa, “encompasses the eschatological welcome”). |
| Problema Central do Texto | A possível desconexão entre a teologia (o indicativo da graça) e a obediência cristã (o imperativo da vida diária) (Moo, “transition from ‘theology’ to ‘practice’”). | A desunião entre gentios (fortes) e judeus (fracos) agravada pelo orgulho gentílico e a falta de mutualidade na igreja (Schreiner, “weak consist primarily of Jewish Christians”). | A recusa fundamental humana em dar glória a Deus; a separação étnica como um sintoma da ruptura que impede a liturgia cósmica (Gaventa, “refusal to glorify or give thanks”). |
| Resolução Teológica | A oferta de nossos corpos flui da misericórdia divina, culminando no engajamento na missão apostólica de Paulo em levar o evangelho a novos territórios (Moo, “Paul’s travels are the leitmotif”). | A imitação de Cristo, que não agradou a si mesmo, mas cumpriu as promessas a Israel para transbordar a misericórdia salvífica também aos gentios (Schreiner, “Christ accepted them for God’s glory”). | O evento apocalíptico de Cristo forja uma verdadeira koinonia, onde judeus e gentios mantêm suas identidades, mas se unem em uma doxologia unida e serviço material (Gaventa, “shared glorification of God”). |
| Tom/Estilo | Exegético, Estrutural e Lógico. | Pastoral, Teológico-Bíblico (foco na História da Salvação). | Teológico-Apocalíptico, Literário e Retórico. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Schreiner, T. R. fornece o melhor pano de fundo histórico e veterotestamentário. Ele detalha com precisão a natureza do conflito entre os “fortes e fracos” na igreja de Roma e conecta de forma magistral os planos de viagem de Paulo e a coleta financeira para Jerusalém à esperança escatológica e às promessas da aliança abraâmica (Schreiner, “solidarity of Jews and gentiles”).
- Melhor para Teologia: Gaventa, B. R. destaca-se por sua profunda lente teológico-apocalíptica. Ela recusa a leitura de Romanos 12-15 como simples moralismo, interpretando a ética, a acolhida e a oferta material como a humanidade sendo “agarrada pelo Senhorio de Cristo” (Gaventa, “Grasped by the Lordship of Christ”). Para ela, a coleta e a harmonia são triunfos diretos sobre os poderes do Pecado e da Morte.
- Síntese: A compreensão holística de Romanos 15 exige integrar as três abordagens. Inicia-se com a precisão estrutural de Moo, que cimenta a transição lógica da misericórdia indicativa para a ação imperativa; perpassa pela exegese de Schreiner, que ancora a unidade da igreja no cumprimento da história da salvação e na superação do orgulho étnico; e culmina na grande visão apocalíptica de Gaventa, que eleva as resoluções práticas — como a tolerância alimentar e a coleta financeira — ao status de uma doxologia cósmica, onde a igreja se torna o local do louvor unificado a Deus.
Serviço Sacerdotal Apóstolico, Acolhimento Escatológico, Doxologia Cósmica e História da Salvação são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Versículos 15:1-6
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Dynatoi / Adynatoi (Fortes / Sem força): Schreiner identifica que a força aqui refere-se diretamente à “fé” (ou falta dela) a respeito de restrições alimentares
(Schreiner, "relate to strength and weakness in faith"). Gaventa acrescenta que “força” neste contexto transcende comer ou abster-se, tratando-se da disposição de carregar (suportar) a fraqueza do outro(Gaventa, "strength... is not to be identified with either eating or abstaining"). - Oikodomē (Edificação): Ambos os autores ressaltam que o termo não se restringe à espiritualidade privada. Schreiner conecta à utilidade para o outro
(Schreiner, "advanced in goodness, that is, to be built up"), e Gaventa enfatiza que se refere estritamente “à vida da comunidade”(Gaventa, "refers to the community's life, not simply to the development of the individual").
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Observa que o pronome “nós” indica que Paulo se enquadra entre os “fortes” para sinalizar concordância teológica, mas usa isso justamente para convocá-los a “apaziguar os fracos”
(Moo, "agrees with the strong, but nevertheless calls on them to mollify the weak"). - Schreiner, T. R.: Destaca que o comando para “agradar” o vizinho não deve ser confundido com a lisonja que Paulo repudia em Gálatas 1:10. Aqui trata-se de abdicar de direitos para o avanço da piedade alheia
(Schreiner, "Pleasing others to advance their selfish interests is excluded"). - Gaventa, B. R.: Aprofunda o papel de Cristo não apenas como um exemplo ético, mas como o próprio critério epistemológico do julgamento comunitário
(Gaventa, "Christ... as the central criterion of the community's reflection").
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Existe uma discordância sobre como interpretar o “eu” na citação do Salmo 69:9 (v.3).
- A divergência é primariamente teológica e gramatical. Gaventa aponta que a citação na primeira pessoa sugere fortemente que Cristo é o próprio orador do Salmo, tornando-o o objeto dos insultos
(Gaventa, "the 'I' here is spoken by Christ"). Schreiner repudia a ideia de atribuir a citação ao “Cristo preexistente” e argumenta por uma exegese tipológica, onde os sofrimentos do justo Davi servem como tipo para a paixão de Cristo(Schreiner, "David's sufferings function as a type of the sufferings of the Christ"). - A leitura tipológica de Schreiner fornece a base mais sólida ancorada no uso consistente que Paulo faz do AT, preservando o contexto histórico do Salmo.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- A perícope baseia-se no Salmo 69:9. Ambos concordam que o Salmo molda o entendimento cristão primitivo sobre a Paixão. Schreiner nota que Jesus absorveu os insultos dirigidos a Deus
(Schreiner, "reproaches directed against God have fallen on the righteous sufferer"). Gaventa expande a aplicação: os crentes “fortes” que assumem as fraquezas dos outros estão, na verdade, alinhando-se com os insultos que caíram sobre Cristo(Gaventa, "Taking on the weaknesses of others becomes their way of taking on the insults").
5. Consenso Mínimo
- O propósito de suportar as fraquezas mútuas e de extrair esperança das Escrituras não é um moralismo raso, mas a imitação do Cristo sofredor visando a harmonia comunitária.
📖 Perícope: Versículos 15:7-13
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Proslambanesthe (Acolhei): Gaventa argumenta que essa injunção não é um convite à tolerância passiva, mas ecoa a aceitação radical e escatológica operada pelo próprio Cristo
(Gaventa, "encompasses the eschatological welcome all have received"). - Diakonos (Ministro/Servo): Aplicado a Cristo no v.8. Gaventa aponta ser um termo inusitado que Paulo só usa negativamente noutro lugar (Gl 2:17)
(Gaventa, "The nouns 'servant' and 'circumcision' are unusual"). Schreiner destaca que não retrata mera humildade, mas o comissionamento divino para a salvação(Schreiner, "his divine commission to accomplish salvation"). - Doxasai (Glorificar): Schreiner e Gaventa leem as doxologias como litúrgicas. Schreiner enfatiza que a glorificação ocorre na adoração de fato
(Schreiner, "The glorifying of God by the gentiles occurs in worship").
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Observa que a expressão “para a glória de Deus” no v.7 modifica ambos os verbos da frase: tanto o imperativo humano de “acolher” quanto a ação indicativa de Cristo ao nos “acolher”
(Moo, "for the glory of God... could be attached to the main exhortation... or to the subordinate clause"). - Schreiner, T. R.: Analisa a catena do AT notando que Paulo utiliza passagens em que as vitórias bélicas do rei Davi tipificam o governo salvífico do Messias sobre os gentios
(Schreiner, "triumphs were victories for David... shared by his descendants"). - Gaventa, B. R.: Realça o impacto retórico das curtas introduções às citações bíblicas (“e outra vez”, “e também”), gerando um efeito de martelada auditiva no público romano
(Gaventa, "have had a kind of staccato effect").
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O debate encontra-se na sintaxe do versículo 9a: “e para que os gentios glorifiquem a Deus”. Cristo é o sujeito que glorifica, ou os gentios são o sujeito?
- A divergência é puramente gramatical. Alguns eruditos (como J. Wagner e Cranfield) argumentam que Cristo é o sujeito de ambos os infinitivos. Schreiner, Gaventa e Moo unem-se contra essa visão. Eles defendem que o texto traz dois infinitivos paralelos governados pelo serviço de Cristo, sendo os gentios o sujeito explícito do segundo verbo
(Schreiner, "the gentiles are the subject of the second clause")e(Gaventa, "with gentiles as subject"). - O argumento de Moo/Schreiner/Gaventa é mais convincente, pois não minimiza o papel direto dos gentios na adoração, exigido pela catena do AT que se segue.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Uma verdadeira catena (corrente) de textos: Salmo 18:49; Deuteronômio 32:43; Salmo 117:1; Isaías 11:10. Abrange a Lei, os Profetas e os Salmos. Gaventa observa que no Cântico de Moisés os inimigos eram destruídos, mas na leitura de Paulo os gentios festejam junto a Israel
(Gaventa, "Rejoice, gentiles, together with God’s people"). Paulo também altera o “naquele dia” de Isaías 11:10, pois para ele o rebento de Jessé já assumiu o reinado eschatológico(Gaventa, "for Paul, the 'shoot of Jesse' has already come").
5. Consenso Mínimo
- A adoração doxológica conjunta de judeus e gentios representa o clímax teológico e a consumação escatológica do evangelho em Romanos.
📖 Perícope: Versículos 15:14-21
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hierourgounta / Prosphora (Servindo como sacerdote / Oferta): Schreiner enfatiza a atmosfera estritamente cultual/litúrgica
(Schreiner, "The proclamation of the gospel is a priestly service"). Gaventa nota que o verbo é raríssimo (hapax legomenon no NT) reforçando o ofício único de Paulo(Gaventa, "a hapax legomenon in both the NT and the LXX"). - Peplērōkenai (Completado o evangelho): Schreiner lê como um dado logístico estratégico: Paulo terminou o plantio “fundacional” nas cidades-chave
(Schreiner, "finished planting churches where Christ has not been named"). Gaventa o toma como uma afirmação do alcance geográfico(Gaventa, "represented the gospel in this wide geographical sphere").
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Mapeia este bloco como o fechamento da “moldura epistolar” da carta
(Moo, "epistolary frame"), apontando que os temas de 1:1-15 retornam espelhados em 15:14-33. - Schreiner, T. R.: Combate a ideia de que o elogio no v.14 (“cheios de bondade”) seja mera lisonja; para Schreiner, Paulo não opera na lisonja helenística, mas numa “cortesia” fundamentada no poder real do evangelho em transformar corações
(Schreiner, "distinguish between flattery and courtesy"). - Gaventa, B. R.: Vai na direção contrária de Schreiner, identificando o forte elogio inicial do v.14 como um captatio benevolentiae retórico. Ela nota a ironia de chamá-los de sábios após uma longa e corretiva epístola
(Gaventa, "may well be a captatio benevolentiae, intended to keep Roman auditors at Paul's side").
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Como traduzir a “oferta dos gentios” (v.16b)? É a oferta feita pelos gentios ou a oferta que são os próprios gentios?
- A divergência é gramatical (genitivo subjetivo vs. apositivo/objetivo). Gaventa, baseada em Downs, argumenta pelo genitivo subjetivo: a oferta é aquela que os gentios produziram (coleta financeira), conectando-se aos versos posteriores
(Gaventa, "subjective genitive referring to 'the offering the gentiles have made'"). Schreiner defende firmemente o genitivo apositivo: os gentios são a oferta apresentada por Paulo a Deus(Schreiner, "The gentiles do not bring their own offering... Paul brings the gentiles as an offering"). - A visão de Schreiner alinha-se melhor com o fluxo de Is 66:20, enquanto a de Gaventa força prematuramente o tema logístico da coleta no clímax do trabalho apostólico espiritual.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 52:15 sustenta a lógica de missões a não-alcançados. Paulo encontra na profecia do Servo o aval para seu trabalho de fronteira. Ele não se vê como o “Servo”, mas como o veículo de proclamação que cumpre a promessa de que as nações verão
(Schreiner, "Paul discerns his call to proclaim the gospel where Christ has not yet been heralded").
5. Consenso Mínimo
- O ministério de Paulo aos gentios não é uma iniciativa autônoma, mas a execução de um ofício sacerdotal escatológico previsto nas Escrituras.
📖 Perícope: Versículos 15:22-33
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Koinōnia (Comunhão/Contribuição): Em 15:26. Gaventa reclama que traduções comuns reduzem o termo a “dinheiro” ou “contribuição”, esvaziando o sentido de associação e pertencimento mútuo
(Gaventa, "to 'establish a certain fellowship' is to do something more. It is to construct or offer a connection"). Schreiner concorda que vai além das finanças(Schreiner, "indicates solidarity and partnership"). - Sphragisamenos (Selando/entregando este fruto): Schreiner evoca a imagem agrícola de lacrar sacos de grãos para atestar sua procedência genuína até o destinatário final
(Schreiner, "farmers sealing sacks of grain to affirm the genuineness"). Gaventa acena similarmente para uma “transferência segura”(Gaventa, "secured transfer of goods").
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Moo, D. J.: Conecta o uso da dívida em 15:27 com o de 1:14. A obrigação financeira não é uma taxação legal, mas um débito estritamente moral e espiritual dos gentios para com os judeus
(Moo, "moral debt because of the salvific blessings received from the Jews"). - Schreiner, T. R.: Rejeita vigorosamente a ideia de que a coleta fosse uma adaptação do imposto do templo judaico, argumentando por sua natureza estritamente voluntária e unificadora
(Schreiner, "no basis for postulating... a tax"). - Gaventa, B. R.: Pinta vividamente a tensão e o medo desta jornada. A ida a Jerusalém é um “desvio escandaloso” (outrageous detour). Ela destaca o risco de a coleta ofender os líderes em Jerusalém, pois apagar as linhas étnicas judaico-gentílicas era um fardo teológico pesado
(Gaventa, "outrageous detour... severed them from their own local networks").
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Qual era a real expectativa sobre a aceitação da coleta e como a oração do v.31 foi respondida?
- A divergência é histórica. Gaventa aponta que o temor de Paulo era de que a coleta pudesse ser de fato “abominável” para alguns em Jerusalém, inferindo pelo silêncio de Atos sobre a coleta que ela provavelmente foi rejeitada
(Gaventa, "unlikely that he has created the story out of whole cloth... scarcely have hesitated to draw attention to the collection had he known it was willingly received"). Schreiner refuta acadêmicos como Dunn (e, por extensão, Gaventa), insistindo que a oração de Paulo pela entrega foi, sim, ouvida e a coleta aceita, valendo-se do testemunho de Atos 24:17(Schreiner, "prayer that the gifts... would be deemed acceptable was likely also answered affirmatively"). - Schreiner apresenta uma conciliação mais ancorada nos poucos dados de Atos 24, enquanto Gaventa trabalha com um forte argumento de silêncio de Lucas.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- A peregrinação escatológica dos gentios (Isaías 2, Miqueias 4, Isaías 60). Schreiner nota a conexão óbvia: a doação financeira simboliza os gentios trazendo suas riquezas a Jerusalém conforme prometido no AT
(Schreiner, "gentiles would bring their wealth to Jerusalem"). Gaventa adiciona uma nuance vital: as Escrituras focavam os presentes sendo levados ao templo; Paulo desloca o epicentro geográfico para uma realidade cristocêntrica, entregando os dons aos pobres santos na cidade(Gaventa, "neither here nor elsewhere does Paul attach the significance to Jerusalem itself... What Paul finds important are fellow Jewish believers").
5. Consenso Mínimo
- A coleta não é uma mera assistência social, mas um imperativo escatológico e simbólico vital para selar a interdependência material e espiritual entre judeus e gentios.