Análise Comparativa: Romanos 13

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
  • Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Reformada. Moo constrói sua análise na inseparabilidade entre teologia e ética, operando fortemente dentro do paradigma do indicativo da graça e do imperativo ético.
    • Metodologia: Exegese gramatical-histórica e teologia bíblica. Ele ataca o texto contextualizando-o na grande transição estrutural da carta (capítulos 12-15), demonstrando como a ética cristã flui da transformação evangélica e possui paralelos com os ensinos de Jesus e da igreja primitiva.
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.

    • Lente Teológica: Reformada (Calvinista), com forte ênfase na soberania divina, na história da salvação e na teologia da Nova Aliança.
    • Metodologia: Exegese gramatical rigorosa, análise sintática e estrutural (demonstrando cadeias lógicas), com intensa interação com a literatura do Segundo Templo e tradições do Antigo Testamento. Ele aborda o texto equilibrando comandos exortativos gerais com a realidade histórico-cultural de Roma.
  • Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

    • Lente Teológica: Teologia Apocalíptica. Ela foca no triunfo cósmico de Deus sobre as potências personificadas do Pecado e da Morte (escritos em maiúsculas em sua obra) e na reconfiguração total da realidade promovida pelo Senhorio de Cristo.
    • Metodologia: Exegese teológica combinada com sensibilidade à história da interpretação (recepção do texto) e crítica sócio-histórica (dinâmicas imperiais romanas). Ela ataca o texto desconstruindo o histórico de “uso armamentista” de Romanos 13 para apoiar tiranias, contextualizando-o nas realidades locais de Roma (especialmente tensões sobre impostos).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Moo, D. J.: A submissão ao estado, a lei do amor e a urgência escatológica em Romanos 13 não são apêndices moralistas, mas manifestações práticas e indispensáveis do poder transformador do evangelho.

    • O autor argumenta que as diretrizes sobre o governo, o cumprimento da lei e a vigilância espiritual derivam da transformação das mentes pelo evangelho. A obediência cristã e o amor como cumprimento da lei servem para provar que a libertação da lei mosaica não conduz à libertinagem, mas a uma nova forma de obediência que atende a tudo o que a lei exige (Moo, “by following the dictates of love, they can accomplish all that the law itself demands”). Além disso, o chamado ao despertar espiritual baseia-se na iminência do Dia do Senhor (Moo, “need for spiritual wakefulness in light of the Day of the Lord”).
  • Tese de Schreiner, T. R.: Romanos 13 estabelece que o cristão deve se submeter às autoridades civis porque elas operam sob a égide da soberania de Deus, deve amar ao próximo como cumprimento das normas morais que subsistem na lei de Cristo, e deve viver em santidade impulsionado pelo paradoxo escatológico do já e ainda não.

    • Schreiner argumenta que o texto sobre as autoridades (13:1-7) é uma exortação geral sobre a relação típica do crente com o estado, onde o governo atua como mediador da ira e justiça temporal de Deus contra o mal (Schreiner, “general exhortation that delineates what is usually the case”). Ele enfatiza que as normas morais do Decálogo permanecem válidas na Nova Aliança não como Lei de Moisés, mas inseridas na lei do amor (Schreiner, “the moral norms of the law are part of the law of Christ”). Finalmente, a motivação ética repousa na urgência da salvação escatológica, exigindo que o cristão ativamente dispa o “velho homem” e se revista das “armas da luz” frente à iminência do fim (Schreiner, “moral readiness dominates the rest of the paragraph”).
  • Tese de Gaventa, B. R.: A submissão às autoridades em Romanos 13:1-7 é uma instrução pragmática e protetora que relativiza e rebaixa os poderes imperiais ao status de meros servos de Deus, enquanto a verdadeira e inesgotável dívida do crente é o amor mútuo exigido pelo rompimento do “tempo do agora” (apocalíptico) de Deus.

    • Gaventa desafia leituras que conferem um poder absoluto ao Estado, afirmando que Paulo introduz o papel de Deus exatamente para mostrar que o poder governamental é puramente derivado e condicionado, visando proteger a vulnerável comunidade cristã em Roma de represálias fiscais (Gaventa, “protecting the Roman congregations from danger of some sort”). Chamar os governantes de “servos de Deus” colide com as reivindicações imperiais de divindade, servindo para desinflar a autoridade de Roma (Gaventa, “To be put in place by God is to be God’s own servant after all—nothing more”). Nos versículos 8-14, ela argumenta que o amor não é um vago princípio humanista, mas uma obrigação ontológica inserida na invasão apocalíptica da salvação em Cristo, exigindo que a igreja assuma as “armas da luz” como uma postura defensiva contra a Era das Trevas (Gaventa, “the apocalyptic character of the life he sketches… locating the lives of those who are called solidly in the realm of the future”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Moo, D. J.Visão de Schreiner, T. R.Visão de Gaventa, B. R.
Palavra-Chave/Termo GregoImperativo x Indicativo. Vê o capítulo 13 como parte da transição teológica para o “foco no lado imperativo do evangelho” que não substitui, mas flui da graça (Moo, “focus more on the imperative side”).Exousia (Autoridade). Defende rigorosamente que o termo denota apenas os governantes civis e não poderes angélicos, exigindo subordinação voluntária (Schreiner, “relates to governing authorities”).Hypotassō (Submissão) vs. Hypakouō (Obediência). Faz uma distinção qualitativa aguda: a submissão civil é pragmática, mas a verdadeira obediência pertence a Deus (Gaventa, “submission very often implies obedience… In this context, obedience is qualified”).
Problema Central do TextoComo viver a ética cristã sem a lei mosaica sem cair na libertinagem. A obediência civil e o amor respondem aos críticos que viam o evangelho como um convite à anarquia (Moo, “abandonment of the law as a code of conduct… leads to license”).A necessidade de manter a ordem civil e o pagamento de impostos (phoros e telos), evitando que a igreja romana se envolvesse em rebeliões ou fosse punida pela “espada” estatal (Schreiner, “payment of taxes”).A proteção de uma comunidade vulnerável contra o perigo iminente de represálias fiscais romanas, além de combater leituras históricas que “armamentizam” o texto para apoiar tiranias absolutistas (Gaventa, “weaponized an absolutizing reading”).
Resolução TeológicaO evangelho fornece sua própria bússola moral: a mente renovada e a lei do amor, que realiza tudo o que a antiga lei exigia na vida diária (Moo, “following the dictates of love, they can accomplish all that the law itself demands”).O estado é um servo providencial (diakonos e leitourgos) que aplica a ira temporal contra o mal. O amor cumpre a lei porque as normas morais do Decálogo permanecem ativas na lei de Cristo (Schreiner, “moral norms of the Mosaic law are part of the law of Christ”).Rebaixa as autoridades ao status de meros servos derivados da ordem divina; a submissão é ditada pelo “tempo do agora” (urgência apocalíptica) em que a igreja deve vestir as “armas da luz” (Gaventa, “To be put in place by God is to be God’s own servant after all—nothing more”).
Tom/EstiloSistemático e Pastoral. Foca na aplicação prática do evangelho na vida diária (Moo, “eminently practical significance”).Exegético e Técnico. Abordagem gramatical focada nas cadeias lógicas e na teologia pactual (Schreiner, “general exhortation that delineates what is usually the case”).Sócio-histórico e Desconstrutivo. Lida intensamente com a história da recepção do texto e a dinâmica de poder do Império Romano (Gaventa, “protecting the Roman congregations from danger”).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Gaventa fornece a melhor reconstrução do background sócio-histórico e da história da recepção. Ela ilumina as tensões fiscais locais do reinado de Nero (ecoando Tácito e Suetônio) e enfrenta corajosamente o legado sombrio do uso de Romanos 13 por regimes opressores, argumentando que a intenção de Paulo não era criar um tratado político, mas proteger uma congregação vulnerável.
  • Melhor para Teologia: Schreiner oferece a articulação dogmática mais robusta, especialmente ao traçar as continuidades e descontinuidades da lei mosaica (a lei de Cristo) e ao enquadrar as ações de policiamento do Estado dentro do paradigma da soberania divina e da antecipação da ira escatológica. Ele aprofunda a função do governo humano sem endossar uma obediência incondicional irrestrita.
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Romanos 13, deve-se integrar a percepção de Moo de que o imperativo ético flui inseparavelmente da graça, com a fundamentação de Schreiner sobre o Estado como mediador temporal da justiça de Deus e do amor como cumprimento da Lei Moral, tudo isso temperado pela leitura sócio-crítica de Gaventa, que nos lembra que Paulo está pragmaticamente protegendo uma comunidade minoritária enquanto relativiza o poder do Império frente ao senhorio apocalíptico de Cristo.

Submissão Civil vs. Obediência a Deus, Soberania Divina sobre o Estado, Cumprimento da Lei pelo Amor e Urgência Escatológica Apocalíptica são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 1-7

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Exousia / Archōn (Autoridade / Governante): Schreiner defende rigorosamente que o termo se refere de forma exclusiva a magistrados civis humanos, rechaçando a ideia de que denote “poderes angélicos” que estariam por trás do governo. Gaventa concorda que são governantes humanos, possivelmente oficiais locais responsáveis por impostos, e enfatiza que a indefinição do termo evita reificar ou glorificar o império-.
  • Hypotassō (Submissão): Gaventa distingue “submissão” de “obediência irrestrita” (hypakouō). Submeter-se significa reconhecer a ordem estabelecida por Deus de forma pragmática, enquanto a verdadeira obediência pertence apenas a Deus-. Schreiner associa o termo de forma mais direta à obediência, definindo-o como uma subordinação voluntária.
  • Machaira (Espada): Schreiner a interpreta como o direito judicial mais amplo do Estado, incluindo a pena de morte (ius gladii) para punir malfeitores,. Gaventa a vê como a representação vívida do “uso oficial da força” romana e uma real ameaça de dano físico.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Nota o detalhe histórico e retórico de que esta submissão ao governo tem raízes e paralelos importantes no ensino do próprio Jesus (Mc 12:13-17) e na instrução da igreja primitiva (1 Pe 2:13-14), argumentando que o evangelho provê orientação ética concreta sem descambar para a anarquia (Moo, “abandonment of the law as a code of conduct… leads to license”).
  • Schreiner, T. R.: Traz a profundidade teológica de conceber as ações estatais (como o uso da força) dentro do paradigma da soberania de Deus. O governante é o diakonos (servo) providencial que medeia a ira temporal (orgē) de Deus contra o mal na história, o que antecipa o juízo escatológico-.
  • Gaventa, B. R.: Destaca a nuança histórica e de recepção: o texto frequentemente foi transformado em uma arma para apoiar a tirania absoluta. Contudo, na ótica paulina, afirmar que a autoridade deriva de Deus serve para “rebaixar” e subordinar Roma (Gaventa, “To be put in place by God is to be God’s own servant after all—nothing more”). Ela ilumina as queixas em Roma por volta de 57-58 d.C. sob o governo de Nero devido a práticas abusivas de coletores de impostos (conforme Tácito, Ann. 13.50-51),,.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Existe uma clara tensão sobre o propósito do texto e sua aplicabilidade universal. A divergência é essencialmente teológica e histórica. Schreiner entende as exortações como o padrão geral da relação do crente com o Estado (o Estado como promotor da ordem e repressor do mal civil) e afirma que Paulo endossa a ação punitiva estatal-. Por outro lado, Gaventa vê o texto através de uma lente sociocrítica e pragmática, focado em proteger uma comunidade vulnerável e desmantelar a propaganda imperial que endeusava o Estado,. A perspectiva de Gaventa é mais convincente ao contextualizar o trecho dentro da tensão fiscal da época (impostos de Nero) e harmonizar a instrução com as frequentes críticas de Paulo à opressão terrena, não criando assim uma doutrina política engessada, mas sim uma diretriz pastoral de sobrevivência e modéstia civil.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • A escolha de Faraó (Êxodo 9:16). Gaventa e Schreiner observam que Deus ordenou e levantou reis ímpios ao longo da história bíblica para Seus próprios fins (Romanos 9:17). Gaventa argumenta que, assim como Faraó serviu aos propósitos de Deus sem a intenção de fazê-lo e sem virtude inerente, os governantes romanos operam-. Schreiner nota que este conceito de Deus designando impérios temporais reflete tradições veterotestamentárias estabelecidas (Dan 2, Prov 8).

5. Consenso Mínimo

  • As autoridades governamentais derivam seu poder de Deus para manter a ordem e refrear o mal, e os crentes devem sujeitar-se pagando os impostos e honras devidos, reconhecendo que a verdadeira soberania pertence a Deus.

📖 Perícope: Versículos 8-10

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Plērōma nomou (Cumprimento da lei): Schreiner argumenta que significa colocar a lei em prática, denotando que o amor põe em ação o que a lei exige. Gaventa observa que a frase traz uma ambiguidade, significando que o amor alcança o que a lei busca, mas isso não equivale a dizer que cumprir a lei por si mesma seja a fonte de instrução de Paulo,.
  • Agapē (Amor): O termo ganha escopo efervescente. Gaventa foca em como esse amor se diferencia das relações comuns; é o derramamento do amor divino (Rom 5:5) no agir humano. Schreiner frisa que é a alma do mandamento moral, sem a qual as obrigações resvalam para o legalismo.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Nota o forte elo intertextual com Gálatas 5:13-15 e aponta que, em sua retórica moral, Paulo “elevates [love] as the virtue that provides for the true and complete fulfillment of all the commands of the law”,.
  • Schreiner, T. R.: Traz uma importante profundidade teológica sobre a relação das alianças. Ele insiste que Paulo lista os mandamentos do Decálogo especificamente para mostrar que “the moral norms of the Mosaic law are part of the law of Christ”. O amor não cancela os ditames normativos, antes os integra.
  • Gaventa, B. R.: Ressalta o jogo linguístico de Paulo: é a primeira vez que a palavra nomos (lei) aparece desde a sua afirmação bombástica em 10:4 de que Cristo é o fim da lei. Ela nota que introduzir a lei e o dever do amor ao “próximo” neste momento é uma preparação tática (Gaventa, “avoidance of doing evil to the neighbor”) para o difícil debate do capítulo 14, onde o crente terá que subordinar seus direitos e liberdades ao bem do próximo,-.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A principal fricção é teológica a respeito da centralidade e permanência da Lei. Schreiner defende que as normas morais da lei mosaica continuam vigentes para o cristão e são cumpridas através do amor, unindo o papel dinâmico do Espírito ao cumprimento da Lei de Cristo-. Gaventa, entretanto, argumenta que a lei não é mais o fundamento formador da instrução (“the law does not shape Paul’s instruction”); Cristo é o molde da conduta,. Schreiner apresenta um argumento textualmente mais robusto aqui, ao salientar a inclusão proposital da frase “se há algum outro mandamento” (13:9), provando que o amor não anula as delimitações morais específicas, mas as consubstancia.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Citações diretas do Decálogo (Ex 20:13-17 / Deut 5:17-21) e de Levítico 19:18 (“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”). Todos concordam que Paulo abraça o resumo judaico-cristão do mandamento (presente no ensino de Jesus) de que o amor ao próximo abarca toda a legislação moral do AT referente às relações humanas.

5. Consenso Mínimo

  • O amor mútuo constitui a dívida contínua do crente e a consumação orgânica de todas as exigências morais que a lei divina impõe nas relações sociais.

📖 Perícope: Versículos 11-14

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Kairos / Hōra / Hēmera (Tempo / Hora / Dia): Schreiner pontua que tais termos têm um forte caráter escatológico e apontam para a antecipação da consumação final (o Dia do Senhor). Gaventa os enxerga definindo a “now time” (hora de agora), uma interrupção apocalíptica da rotina mundana-.
  • Hopla tou phōtos (Armas da luz): Gaventa salienta que, surpreendentemente, Paulo muda as “obras das trevas” não para “obras da luz”, mas para “armas da luz”, revelando uma conotação de batalha defensiva (“defenses against the darkness itself”)-. Schreiner nota que essa retórica militar encontra paralelos em sua teologia do revestimento em outras cartas (Ef 6:11, 1 Tes 5:8).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Observa a correspondência temática e retórica entre esta perícopa e o ensino de Paulo em 1 Tessalonicenses 5:1-11, em que ambos os textos enfatizam a exortação para uma urgência e vigilância espiritual (Moo, “need for spiritual wakefulness in light of the Day of the Lord”).
  • Schreiner, T. R.: Destaca a complexidade teológica do “já e ainda não”. O fim e a salvação escatológica estão próximos, mas os crentes ainda lutam no corpo e na era atual. Daí a ordem dupla e vigorosa de, ativamente e moralmente, rejeitar as cobiças da “carne” (o Velho Adão) enquanto se revestem da luz-.
  • Gaventa, B. R.: Analisa o dualismo luz/trevas comparando com textos judaicos apocalípticos como os Manuscritos do Mar Morto (A Regra da Comunidade, 1QS; Manuscrito da Guerra, 1QM). Ela ressalta que, ao contrário da literatura de Qumran que clamava ao ódio dos “filhos das trevas”, o foco de Paulo está puramente em reorientar a comunidade a viver sob “condições de emergência” (Gaventa, “emergency conditions in which they now live”), revestindo-se ativamente com a própria pessoa de Cristo,-.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A tensão, bastante suave neste trecho, encontra-se no tom geral da aplicação: um viés moral ético versus um viés apocalíptico de crise. Schreiner lê o texto primordialmente como um imperativo de santificação progressiva, em que o crente deve dominar ativamente o pecado e os vícios (“active renunciation” da carne). Gaventa prioriza a lente apocalíptica e teocêntrica: não é um mero apelo moral, mas um alerta de que a vitória escatológica de Deus está irrompendo na História e a comunidade cristã é arrebatada para dentro desta nova era (“time made critical by God’s action”),. Ambas as abordagens são complementares, e a síntese de Schreiner de que a urgência escatológica (a invasão da luz) age precisamente como o alicerce motivacional para o imperativo ético lida melhor com a gramática hortatória de Paulo.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • O conceito do profético “Dia do Senhor” (ex: Isaías 13, Ezequiel 30, Joel 2, Amós 5). Ambos concordam que a linguagem de “O dia vem se aproximando” é tirada dessas tradições em que Deus intervirá com juízo e salvação definitiva para o Seu povo.

5. Consenso Mínimo

  • A iminência da salvação escatológica e a transição cósmica entre a Era das Trevas e o “Dia” do Senhor exigem que os cristãos rompam com a frouxidão pecaminosa e vistam-se da identidade moral e protetora de Jesus Cristo.