Análise Comparativa: Romanos 11

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
  • Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

    • Lente Teológica: Tradição Evangélica e Reformada. Sustenta a doutrina da soberania divina em tensão com a responsabilidade humana, aderindo a conceitos como a eleição incondicional e a dupla predestinação.
    • Metodologia: Exegese histórico-gramatical com forte ênfase na história da salvação (Heilsgeschichte). Ele lê os capítulos 9-11 não como um excursus, mas como a defesa necessária do evangelho e da integridade da Palavra de Deus em face da incredulidade histórica de Israel.
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.

    • Lente Teológica: Tradição Reformada e Batista (Teologia da Nova Aliança). Possui um viés intensamente teocêntrico, onde a demonstração da glória de Deus e de sua justiça salvífica constituem o ápice do propósito divino.
    • Metodologia: Exegese gramatical e estrutural minuciosa (analisando o fluxo de pensamento, proposições e cláusulas). Enfatiza a exegese do Antigo Testamento usado por Paulo (tipologia e teologia bíblica), sublinhando que as promessas de Deus se cumprem escatologicamente no redentor Jesus Cristo.
  • Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

    • Lente Teológica: Tradição Crítico-Teológica com forte adoção da escola Apocalíptica Paulina. Foca na ação radical e cataclísmica de Deus que rompe com as estruturas humanas para derrotar os poderes cósmicos do Pecado e da Morte (que ela frequentemente escreve em maiúsculas por tratá-los como forças sobre-humanas).
    • Metodologia: Exegese literária e teológica voltada à narrativa cósmica do Evangelho. Rejeita ativamente as leituras que limitam o texto à mecânica de destinos eternos individuais, preferindo uma hermenêutica que destaca a inescrutável agência divina e a radical graça e misericórdia de Deus estendidas coletivamente a “todo Israel” e ao “mundo”.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese do Moo, D. J.: A aparente rejeição de Israel não significa que a Palavra de Deus tenha falhado, visto que a fidelidade de Deus repousa sobre a Sua eleição soberana, que sempre operou através da escolha graciosa de um remanescente espiritual dentro do Israel étnico, mantendo assim a continuidade inquebrável da história da salvação.

    • Moo argumenta que Romanos 9-11 é fundamental para o argumento da carta, pois se a promessa do Antigo Testamento a Israel falhou, a promessa aos cristãos também não seria confiável (Moo, 1996). A tensão resolve-se na distinção de Paulo entre o Israel físico e o Israel espiritual: “nem todos os descendentes de Abraão são sua semente espiritual” (Moo, 1996). Moo defende que a eleição de Deus recai sobre indivíduos para a salvação eterna, não apenas nações para papéis históricos, demonstrando que a graça anula qualquer direito de primogenitura física (Moo, 1996).
  • Tese do Schreiner, T. R.: Deus orquestrou o endurecimento de uma parte do Israel étnico como um veículo para trazer salvação aos gentios, com o propósito escatológico final de salvar “todo o Israel” no retorno de Cristo, maximizando assim a demonstração da sua misericórdia e provocando o louvor à Sua inescrutável sabedoria.

    • Schreiner insiste que o endurecimento de Israel é real e envolve perdição, refletindo a dupla predestinação onde Deus escolhe quem Ele quer (Schreiner, 2018). No entanto, esse endurecimento temporal não é a última palavra. Em Romanos 11, a raiz da oliveira representa os patriarcas e a promessa da aliança; a inserção dos gentios (ramos bravos) serve para desmantelar o orgulho humano e provocar Israel ao ciúme (Schreiner, 2018). O clímax se dá na afirmação de que “todo o Israel” (a grande maioria do Israel étnico no fim dos tempos) será salvo através do libertador que virá de Sião, evidenciando que Deus “encerrou a todos na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (Schreiner, 2018).
  • Tese da Gaventa, B. R.: A divisão atual dentro de Israel e a subseqüente inclusão dos gentios atestam a “lógica do excesso divino”, culminando no mistério apocalíptico da salvação incondicional de todo o povo histórico de Israel pela invasão irrefreável do resgate operado por Deus através de Jesus Cristo.

    • Para Gaventa, “todo o Israel” não é a Igreja (uma fusão de judeus e gentios), nem apenas os judeus crentes ao longo da história, mas refere-se expressamente ao povo judaico histórico que será salvo pela ação de Cristo na parousia (Gaventa, 2024). Ela enfatiza o combate à presunção e ao orgulho gentílico, notando que a salvação de Israel demonstra a superabundância da ação de Deus, que não depende da iniciativa ou obediência prévia humana, mas destrói definitivamente a soberania do Pecado e da Morte através do seu amor radical e da sua impenetrável sabedoria (Gaventa, 2024).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Moo, D. J.Visão do Schreiner, T. R.Visão da Gaventa, B. R.
Palavra-Chave/Termo Grego (pas Israēl - “Todo o Israel”)Refere-se à grande massa do Israel étnico salva no fim da história, mas enfatiza que o termo “não estipula cada judeu individual sem exceção” (Moo, “not every single Jew without exception”).Refere-se ao Israel étnico e a uma “futura salvação do Israel étnico perto ou no retorno de Cristo”, rejeitando a visão de que seja apenas o remanescente ao longo da história (Schreiner, 2018).A “totalidade do povo judaico” histórico. Enfatiza que Paulo quer dizer exatamente o que diz e “não estipula exceções”, apontando para um triunfo incondicional (Gaventa, 2024).
Problema Central do TextoA aparente falha da Palavra de Deus; a tensão entre as muitas promessas feitas a Israel no Antigo Testamento e a “situação de incredulidade” de Israel no presente (Moo, 1996).Como reconciliar as promessas de Deus com o fato de que Ele mesmo “endureceu a maioria de Israel” enquanto os gentios entram em grande número na igreja (Schreiner, 2018).Onde Israel se encaixa na “vitória escatológica de Deus”, especialmente diante da ameaça e do perigo da “arrogância gentílica” dentro da comunidade romana (Gaventa, 2024).
Resolução TeológicaDeus é perfeitamente fiel. A promessa nunca garantiu salvação biológica universal. Ele preserva um remanescente agora e salvará a nação no fim dos tempos, provando a inquebrabilidade de Sua palavra (Moo, 1996).O endurecimento é uma estratégia teocêntrica para salvar os gentios e provocar Israel ao ciúme, culminando na salvação judaica para maximizar a misericórdia de Deus sobre todos (Schreiner, 2018).A salvação é um mistério apocalíptico. Os judeus são “inimigos amados”, e Deus age unilateralmente através do Libertador para resgatar Israel, não por condições humanas, mas pela superabundância da graça (Gaventa, 2024).
Tom/EstiloLógico-Exegético e Histórico-Redentivo.Teocêntrico, Acadêmico e focado em tensões paradoxais (soberania vs. responsabilidade).Cósmico-Apocalíptico, Retórico e incisivo contra a presunção gentílica.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Moo, D. J. fornece o melhor pano de fundo da história da salvação (Heilsgeschichte), detalhando de forma magistral como a argumentação de Paulo em Romanos 11 dialoga e resolve as tensões com as promessas pactuais do Antigo Testamento, protegendo a integridade da aliança abraâmica e o contexto da disputa judaico-cristã primitiva.
  • Melhor para Teologia: Schreiner, T. R. aprofunda de forma insuperável as tensões doutrinárias subjacentes ao texto, lidando rigorosamente com a eleição incondicional, a dupla predestinação, o endurecimento divino e a mecânica teológica de como Deus orquestra a desobediência humana para maximizar o espetáculo da sua soberania divina e misericórdia.
  • Síntese: A compreensão holística de Romanos 11 exige ler o capítulo não apenas como um tratado sobre o destino étnico de uma nação, mas como o clímax da fidelidade e da agência divinas. Integrando a vigorosa defesa da integridade da Palavra de Deus na história (Moo), a exaltação da sabedoria insondável que usa o endurecimento como instrumento da suprema misericórdia (Schreiner) e a irrupção escatológica do Libertador que destrói o orgulho gentílico e abraça incondicionalmente Seu povo histórico (Gaventa), percebemos que o texto é um testemunho definitivo do triunfo da graça sobre o pecado humano.

Mistério Apocalíptico, História da Salvação, Soberania Divina e Orgulho Gentílico são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

(Nota Metodológica: O material exegético detalhado de Moo, D. J. fornecido nas fontes encerra-se em Romanos 9:23. Consequentemente, para a análise granular de Romanos 11, recorro às obras de Schreiner e Gaventa, utilizando as contribuições de Moo apenas a partir de seu esboço estrutural macro fornecido nas fontes).

📖 Perícope: Versículos 1-10

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Proegnō (conheceu de antemão): Schreiner argumenta que o termo não denota mera presciência, mas “connotes foreknowledge but also implies foreordination, with the emphasis being on God’s covenant love” (Schreiner, “connotes foreknowledge but also implies foreordination”). Gaventa liga o termo ao uso em 8:29, onde está “connected with calling and rectifying” (Gaventa, “connected with calling and rectifying”).
  • Leimma (remanescente): Schreiner entende o termo como um conceito que aponta diretamente para a esperança futura (“signifies that there is hope for Israel’s future”, Schreiner). Gaventa destaca sua dimensão temporal, afirmando que “The remnant exists in the ‘now time’” (Gaventa, “remnant exists in the ‘now time’”).
  • Eklogē (eleição): Gaventa observa que a palavra como um substantivo abstrato destaca “the divine act” em vez de focar nos indivíduos eleitos (Gaventa, “singles out not the individuals but the divine act”).
  • Epōrōthēsan (foram endurecidos): Para Schreiner, trata-se de um “judicial hardening” (endurecimento judicial) sobre pessoas que já eram pecadoras (Schreiner, “God hardened those who were already sinners”). Gaventa compara essa voz passiva divina ao endurecimento de Faraó, ressaltando o propósito salvífico por trás da ação (Gaventa, “has the purpose of saving gentiles”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Estruturalmente, ele pontua que nestes versos “Paul summarizes the situation of Israel” e prepara o terreno ao “affirming the continuation of Israel’s election” (Moo, “affirming the continuation of Israel’s election”).
  • Schreiner, T. R.: Observa que a menção à tribo de Benjamim não confere qualquer mérito especial a Paulo, mas serve estritamente para sublinhar a sua etnicidade: “merely intended to emphasize that Paul was truly descended from ethnic Israel” (Schreiner, “merely intended to emphasize”).
  • Gaventa, B. R.: Aponta uma alteração teológica sutil, mas profunda, na forma como Paulo relata a história de Elias. Paulo diz que Elias intercedeu contra Israel (kata tou Israēl), o que “distorts the story in 1 Kings” (Gaventa, “This depiction distorts the story in 1 Kings”), onde Elias apenas lamenta, sem interceder contra a nação.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Debate: Qual a função retórica de Paulo ao usar a si mesmo como exemplo (v. 1)?
  • Divergência (Teológica/Retórica): Schreiner vê a conversão de Paulo como a prova principal (“illustrates the principle”, Schreiner) de que Deus preservou um remanescente judeu eleito. Gaventa, por outro lado, vê o uso do “eu” enfático (egō Israēlitēs eimi) como uma forma de Paulo mostrar que ele não é um observador distante do drama judaico, mas alguém que tem “skin in the game” (Gaventa, “Paul is anything but removed from the situation”).
  • Veredito: A visão de Schreiner alinha-se mais rigidamente à progressão lógica da perícope (onde a própria existência de Paulo responde à pergunta se Deus rejeitou Israel), enquanto a leitura de Gaventa capta o pathos retórico de Paulo de forma superior.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 94:14 (LXX 93:14) / 1 Samuel 12:22: A base para a afirmação de que “Deus não rejeitou seu povo”.
  • 1 Reis 19:10-18 (Elias): Ambos os autores notam que Paulo altera ativamente a gramática do AT de “Tu deixarás” para “Eu reservei para mim” (v. 4) para enfatizar que a identificação do remanescente já foi feita por Deus (Gaventa, “it is God who has already identified them”).
  • Deut 29:3, Isa 29:10 e Salmo 69:22-23 (Mistura de Citações): Textos usados para provar o torpor e endurecimento do “restante” de Israel.

5. Consenso Mínimo A existência atual de um remanescente judeu crente, trazido à existência unicamente pela eleição graciosa de Deus, prova irrefutavelmente que a aliança divina com o povo histórico de Israel não foi anulada.


📖 Perícope: Versículos 11-24

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Paraptōma (transgressão/tropeço): Schreiner insiste que o termo retém o peso moral do pecado e recusa uma tradução neutra como “desviar-se” (Schreiner, “Israel’s rejection of the gospel is sinful”). Gaventa prefere ler através da imagética física de alguém cuja visão foi obscurecida (v. 10), tornando-os propensos a tropeçar (Gaventa, “more prone to misstep”).
  • Plērōma (plenitude): Schreiner entende numericamente como “full number” de Israel (Schreiner, “meaning ‘full number’ is intended”). Gaventa conecta isso a uma “logic of excess” (lógica de excesso) onde a futura abundância de Israel supera o presente (Gaventa, “their ‘fullness’ will be even greater”).
  • Rhiza (raiz): O sustento da oliveira.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Sintetiza este bloco argumentando que o “current hardened state is neither an end in itself nor is it permanent”, mas parte de um processo salvífico contínuo (Moo, “neither an end in itself nor is it permanent”).
  • Schreiner, T. R.: Nota que a analogia agrícola de enxertar um ramo bravo em uma árvore cultivada era cientificamente incomum na época, provando que “Paul isn’t interested in arboriculture but in using an illustration” para demonstrar a ação divina contra a natureza (Schreiner, “Paul isn’t interested in arboriculture”).
  • Gaventa, B. R.: Destaca a retórica estrutural baseada em qal wahomer (do menor para o maior). O raciocínio é análogo ao de Romanos 5, operando na premissa de que a intervenção final de Deus excede radicalmente o problema presente (Gaventa, “logic of excess”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Debate: Quem (ou o que) é a “raiz” (v. 16, 18) que sustenta os ramos?
  • Divergência (Teológica): Schreiner adota a visão tradicional de que a raiz refere-se aos patriarcas (Abraão, Isaque, Jacó) e “includes the idea of God’s gracious election” ligada a eles (Schreiner, “refers to the patriarchs and includes the idea”). Gaventa argumenta que identificar a raiz como os patriarcas destrói toda a tese de Paulo no capítulo 9, onde Israel existe pela ação autônoma de Deus e não pela obediência patriarcal; logo, a raiz é a própria promessa ou a eleição divina (Gaventa, “better suggestion is that the root is the promise to Israel or the election”).
  • Veredito: A posição de Gaventa apresenta coerência intra-textual superior, protegendo o forte teocentrismo e a contínua ênfase paulina na agência divina unilateral estabelecida nos capítulos anteriores.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Jeremias 11:16 e Oseias 14:6: O uso da oliveira verde como uma metáfora padrão para o povo pactual, usada simultaneamente em contextos de juízo e promessa de restauração.

5. Consenso Mínimo A queda de parte de Israel orquestrou a salvação dos gentios para provocar os judeus ao ciúme, alertando os gentios de que a sua inclusão deve gerar temor reverente, e não arrogância sectária, visto que dependem da graça da raiz pactual.


📖 Perícope: Versículos 25-32

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Mystērion (mistério): Ambos concordam com o pano de fundo judaico-apocalíptico do termo. É uma informação antes oculta e agora revelada escatologicamente (Schreiner, “secret element of God’s plan that has been hidden… but has now been revealed”; Gaventa, “technical terminology for information that is divinely revealed”).
  • Pas Israēl (Todo o Israel): O termo mais contencioso do capítulo.
  • Achri hou (até que): Schreiner sublinha a força temporal desta partícula, provando que o endurecimento de Israel “will be lifted after the full number of gentiles are saved” (Schreiner, “hardening of the majority of Israel will be lifted”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Entende o arco narrativo argumentando que a exclusão dos judeus opera como instrumento “in a salvific process that reaches out to Gentiles and will include Israel once again” (Moo, “will include Israel once again”).
  • Schreiner, T. R.: Enfatiza que “o Libertador” vindo de Sião (v. 26) aponta inequivocamente para a Segunda Vinda de Cristo (Parousia). Cristo removerá a incredulidade de Jacó de forma decisiva e futura (Schreiner, “reference is to his second coming”).
  • Gaventa, B. R.: Analisa a gramática brilhante do v. 28, onde Israel é “inimigo” (pelo evangelho) e “amado” (pela eleição). Tais designações são equivalentes gramaticais, mas não “eschatologically identical” (Gaventa, “not eschatologically identical”). “Inimigos amados” não é um fim trágico, mas afirma que os dons de Deus são inabaláveis.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Debate: Qual é a extensão da frase “Todo o Israel” (v. 26)?
  • Divergência (Teológica e Filológica): Schreiner argumenta que a expressão, embora aponte para a salvação futura de Israel étnico, “should not be pressed to include every single Jew without exception” (Schreiner, “should not be pressed to include every single Jew without exception”). A salvação se aplica à nação ou à grande maioria na Parousia. Gaventa rejeita agressivamente tais limitações como imposições dogmáticas modernas; ela insiste que Paulo quer dizer a totalidade da nação, pois “Paul does not stipulate exceptions” e o uso paralelo do duplo “todos” no v. 32 reforça uma salvação sem exclusões (Gaventa, “Paul does not stipulate exceptions”).
  • Veredito: Schreiner está melhor alinhado com o uso do idioma hebraico/LXX (onde “todo o Israel” raramente indica 100% dos indivíduos demograficamente); contudo, a lógica cósmica apocalíptica de Gaventa leva o ímpeto retórico do v. 32 mais a sério.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 59:20-21 e 27:9: O Libertador vindo de Sião. Paulo altera de forma crucial o texto de Isaías de “por causa de Sião” (LXX) para “de Sião” (ek Siōn), indicando, como observam os comentaristas, a origem da salvação emergindo do próprio povo judaico.

5. Consenso Mínimo A salvação escatológica incondicional do povo étnico/histórico de Israel é um mistério divino garantido pelo fato de que o chamado e os dons de Deus são absolutamente irrevogáveis (v. 29).


📖 Perícope: Versículos 33-36

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ploutos, Sophia, Gnōsis (riquezas, sabedoria, conhecimento): Schreiner interpreta gramaticalmente que sabedoria e conhecimento modificam o termo riquezas (“depth of the riches, both of the wisdom and the knowledge”, Schreiner). Gaventa, baseando-se no ritmo poético, interpreta a fórmula como uma tríade estrófica (“triads (riches and wisdom and knowledge)”, Gaventa).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Vê estes versos conclusivos como uma “Response to the teaching of Rom. 9-11 with extolling of God’s transcendent plan and doxology” (Moo, “extolling of God’s transcendent plan”).
  • Schreiner, T. R.: Pontua que as famosas preposições do v. 36 (“dele, por ele, para ele”) podem soar superficialmente como formulações do Estoicismo, mas são essencialmente judaicas. O Estoicismo é panteísta, uma vasta distância do teísmo pessoal absoluto afirmado por Paulo (Schreiner, “parallels are superficial… Stoicism is pantheistic”).
  • Gaventa, B. R.: Traz uma conexão notável com os textos de Qumran (1QH 15). Ela ressalta que Paulo usa o hino não para afirmar que possui toda a compreensão, mas justamente para mostrar que, afinal, os desígnios escatológicos de Deus permanecem fora do alcance do intelecto humano e exigem louvor e submissão (Gaventa, “does not claim to understand it fully”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Debate: Estes versículos formam um hino pré-existente absorvido por Paulo ou uma composição original ad hoc?
  • Divergência (Histórico-Literária): Schreiner avalia a possibilidade de adoção de confissões pré-existentes, mas decide que “most scholars affirm the Pauline origin of these verses” (Schreiner, “most scholars affirm the Pauline origin of these verses”), desenhado para amarrar os temas teocêntricos de Romanos 9-11. Gaventa tangencia o debate sobre a origem literária, argumentando que a questão principal é “not where Paul found these lines but what they do here” (Gaventa, “not where Paul found these lines but what they do here”), operando primariamente para obliterar a presunção humana.
  • Veredito: Uma divergência metodológica. Schreiner quer fixar a autoria para atestar a continuidade teológica paulina, enquanto Gaventa está interessada puramente na pragmática textual.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 40:13 (“Quem conheceu a mente do Senhor?”) e Jó 41:11 (MT 41:3) (“Quem lhe deu primeiro…?”). Paulo adapta de forma livre o MT e a LXX para provar que a sabedoria salvífica de Deus é independente e inescrutável. Ninguém aconselha Deus e ninguém O faz devedor.

5. Consenso Mínimo A contemplação exegética e teológica do insondável plano salvífico de Deus na história humana deve invariavelmente conduzir a mente cristã ao maravilhamento, à humildade epistêmica e à doxologia teocêntrica.