Análise Comparativa: Romanos 1

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
  • Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

    • Lente Teológica: Tradição Reformada e Evangélica Clássica (Histórico-Redentiva). Foca fortemente na continuidade da história da salvação e na justificação pela fé de caráter forense, mas com nuances relacionais.
    • Metodologia: Exegese gramatical-histórica e teologia bíblica. Ele ataca o texto através de uma análise filológica rigorosa, prestando muita atenção ao uso de termos no Antigo Testamento (LXX) e reconciliando tensões sintáticas para formar uma teologia sistemática coesa sobre a justiça de Deus e a revelação natural.
  • Autor/Obra: Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.

    • Lente Teológica: Tradição Reformada Batista. Fortemente centrado na glória de Deus e na defesa vigorosa da justificação forense contra perspectivas modernas (como a Nova Perspectiva sobre Paulo ou visões de fidelidade pactual estrita).
    • Metodologia: Exegese gramatical e polêmica acadêmica. Sua abordagem envolve o escrutínio profundo de alternativas interpretativas (como o debate sobre o genitivo em dikaiosyne theou ou visões sociológicas da homossexualidade na antiguidade), refutando metodicamente visões transformativas da justiça e argumentando pela consistência lógica do texto no contexto do Judaísmo do Segundo Templo.
  • Autor/Obra: Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.

    • Lente Teológica: Leitura Apocalíptica de Paulo. Enfatiza a agência divina, a guerra cósmica e a libertação da humanidade das potências escravizadoras (usando maiúsculas para o Pecado e a Morte). Rejeita leituras puramente antropocêntricas ou de decisão individual.
    • Metodologia: Exegese teológica com forte sensibilidade literária e retórica. Ela analisa o texto como um drama cósmico, focando em como o vocabulário de Paulo atua para remapear a realidade (ex: traduzindo apokalyptetai ativamente como revelação apocalíptica) e priorizando a invasão de Deus na história acima de categorias puramente jurídicas.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese do Moo, D. J.: O evangelho revela a justiça de Deus, que é simultaneamente uma atividade divina salvífica e um status forense concedido ao crente, enquanto a revelação natural (1:18-32) serve unicamente para deixar a humanidade inescusável sob a ira pessoal de Deus.

    • Argumento expandido: Moo argumenta que a justiça de Deus (1:17) não deve forçar uma escolha estrita entre teologia (ação de Deus) e antropologia (status humano), mas é um conceito relacional: “o ato pelo qual Deus traz as pessoas para um relacionamento correto com ele mesmo” (Moo, “act by which God brings people into right relationship with himself”). Ele sustenta o núcleo protestante de que essa justiça é estritamente forense (absolvição) e não uma transformação moral interna inicial. Quanto a Romanos 1:18-32, Moo defende que a ira de Deus é pessoal e ativa, não um processo impessoal, e que a revelação natural fornece conhecimento genuíno de Deus, mas que, devido ao pecado, tem um propósito inteiramente negativo: “não leva à salvação, mas à demonstração de que a condenação de Deus é justa” (Moo, “leads not to salvation but to the demonstration that God’s condemnation is just”).
  • Tese do Schreiner, T. R.: O evangelho é a manifestação da justiça salvífica e forense de Deus que exige a fé, servindo como a resposta divina ao pecado fundamental da humanidade: a idolatria e a falha em dar glória ao Deus Criador.

    • Argumento expandido: Schreiner é enfático na defesa de que a justiça de Deus é primordialmente um dom de status (status forense) e não uma transformação ética ou meramente a “fidelidade à aliança” (Schreiner, “gift of a righteous status”). Ele rechaça teorias de que o texto em 1:18-32 reflita a voz de um oponente judaico, argumentando que a ira escatológica é presentemente infligida por Deus de maneira pessoal. O pecado fundamental de onde todos os outros derivam (incluindo as relações homossexuais, que Schreiner defende serem descritas como uma violação da ordem da criação intencionada por Deus) é a idolatria: “o pecado fundamental é a falha em glorificar a Deus e dar-lhe graças” (Schreiner, “failure to glorify God and give him thanks”). Toda a salvação é fundamentada não apenas no amor, mas no desejo de Deus de glorificar o Seu próprio nome.
  • Tese da Gaventa, B. R.: O evangelho é uma invasão apocalíptica do poder de Deus que liberta a humanidade do cativeiro imposto pelos poderes cósmicos do Pecado e da Morte, aos quais Deus entregou a humanidade devido à sua recusa em adorá-Lo.

    • Argumento expandido: Gaventa desloca o eixo interpretativo da decisão moral individual para o campo de batalha cósmico. Ela argumenta que a justiça de Deus “está sendo revelada apocalipticamente” no “tempo de agora”, denotando não um status legal estático, mas a ação soberana de Deus (Gaventa, “apocalyptically revealed”). Ela desafia as noções tradicionais de fé humana como pré-requisito, interpretando pistis Christou como “fé-de-Jesus-Cristo” (“Jesus Christ-faith”), que engloba tanto a ação geradora de Deus quanto a confiança humana que retorna a Ele. Em 1:18-32, a fórmula “Deus os entregou” (paredōken) não é vista apenas como um julgamento moral, mas como a entrega literal da humanidade a uma “terceira parte” inimiga (as potências de Impureza, Pecado e Morte), sublinhando que o humano não pode simplesmente se arrepender por vontade própria sem a intervenção libertadora do evangelho (Gaventa, “Sin is nothing less than a suprahuman power”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do Moo, D. J.Visão do Schreiner, T. R.Visão do Gaventa, B. R.
Palavra-Chave/Termo GregoDefine Dikaiosyne theou de forma relacional e forense, como “o ato pelo qual Deus traz as pessoas para um relacionamento correto com ele mesmo” (Moo, “act by which God brings people into right relationship”).Define Dikaiosyne theou estritamente como um status forense e defende ativamente que é um dom, rejeitando a tradução como “fidelidade à aliança” (Schreiner, “gift of a righteous status”).Define Dikaiosyne theou como poder invasivo e traduz Pistis Christou como “Jesus Christ-faith”, indicando a fé originada e gerada pela ação do próprio Cristo (Gaventa, “Jesus Christ-faith”).
Problema Central do TextoA supressão inescusável da revelação natural por parte da humanidade, que serve apenas para comprovar que a condenação divina é justa (Moo, “leads not to salvation but to the demonstration that God’s condemnation is just”).O pecado fundamental da idolatria, onde o ser humano falha intencionalmente em honrar a glória e a soberania do Criador, desencadeando a ira divina (Schreiner, “failure to glorify God and give him thanks”).A humanidade como uma entidade cativa, entregue à tirania e escravidão de potências cósmicas personificadas como o Pecado e a Morte (Gaventa, “Sin is nothing less than a suprahuman power”).
Resolução TeológicaA justificação pela fé, sendo a resposta inteiramente graciosa que absolve o pecador e estabelece a continuidade da história da salvação (Moo, “entirely a matter of grace”).A manifestação da justiça salvífica, ancorada primariamente no propósito supremo de Deus em vindicar e glorificar o Seu próprio nome entre as nações (Schreiner, “desire to glorify his name”).O triunfo escatológico e a intervenção libertadora de Deus, que resgata e recria uma humanidade que era incapaz de se salvar por vontade própria (Gaventa, “triumph of life over both Sin and Death”).
Tom/EstiloExegético, Histórico-Redentivo, focado em harmonização teológica.Acadêmico, Polêmico, focado na refutação de perspectivas divergentes.Teológico, Literário, focado no drama apocalíptico e na sensibilidade retórica.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Schreiner, T. R. fornece o melhor background histórico ao engajar profundamente as fontes do Judaísmo do Segundo Templo e da literatura greco-romana, delineando com clareza o contexto da homossexualidade e da idolatria na antiguidade (Schreiner, “unanimous Jewish conviction”).
  • Melhor para Teologia: Moo, D. J. aprofunda melhor as doutrinas clássicas, oferecendo uma ponte madura e equilibrada entre a exegese gramatical minuciosa e a teologia sistemática reformada, especialmente na articulação da tensão entre a graça divina e a responsabilidade humana frente à revelação natural (Moo, “intricate theological topic”).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Romanos 1, o exegeta deve absorver a solidez da justificação forense e continuidade redentiva de Moo, utilizar a precisão histórica e o combate aos desvios antropológicos fornecidos por Schreiner no trato da idolatria, e, simultaneamente, adotar a visão macro-teológica de Gaventa, que eleva o texto de um mero debate legal individualista para um épico de batalha cósmica onde o evangelho resgata a criação das amarras do Pecado.

Justiça de Deus, Ira Divina, Justificação Forense e Apocalíptica Paulina são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Versículos 1-7

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Doulos (escravo/servo): Moo nota que a palavra deriva do conceito veterotestamentário de “servo de Yahweh”, enfatizando devoção total, enquanto Gaventa alerta para não suavizar o termo traduzindo como “servo”, lembrando o contexto de submissão involuntária no Império Romano (Gaventa, “involuntary character of this role”).
  • Horisthentos (designado/identificado): Moo e Schreiner recusam a tradução “declarado”, preferindo “apontado” ou “designado” em poder (Moo, “change in status or function”). Gaventa traduz como “identificado publicamente” (Gaventa, “publicly identified”), rejeitando a ideia de adoção escatológica para manter a continuidade ontológica de Jesus.
  • Hypakoē pisteōs (obediência da fé): Schreiner debate se é um genitivo subjetivo ou apositivo, concluindo que toda verdadeira obediência flui da fé (Schreiner, “obedience that flows from faith”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Alerta que o conceito de “carne” (kata sarka) e “espírito” (kata pneuma) nos versículos 3-4 não deve ser lido anacronicamente como as naturezas humana e divina de Cristo, mas como duas “eras” da história da redenção: a era antiga da fraqueza humana e a nova era inaugurada pelo Espírito (Moo, “new era… characterized by righteousness”).
  • Schreiner, T. R.: Engaja-se na polêmica histórica, refutando a teoria de G. Klein de que Paulo omitiu a palavra ekklēsia (igreja) no versículo 7 porque julgava a congregação romana inautêntica por faltar-lhe fundação apostólica. Schreiner mostra que a omissão é irrelevante frente ao elogio mundial feito por Paulo no verso 8 (Schreiner, “undue significance”).
  • Gaventa, B. R.: Destaca a anômala expansão deste prescrito paulino. Aponta que a identificação de Jesus como da linhagem de Davi e as formulações em kata sarka e kata pneuma intensificam as alegações da ação soberana de Deus (Gaventa, “redundancies of expression that intensify its claims”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A maior fricção ocorre na cristologia dos versos 3-4. Moo e Schreiner veem uma transição escatológica na qual o Filho preexistente adquire uma nova função reinante (“Filho de Deus em poder”) após a ressurreição. Gaventa vê isso não como uma mudança de status, papel ou ontologia, mas puramente como uma demonstração visível: a ressurreição não fez de Jesus algo que Ele não era, apenas o “identificou publicamente” e provou a invasão do poder divino na humanidade.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Todos concordam que os versículos 1-4 estão profundamente enraizados nas promessas do AT, especificamente nas alianças davídicas (2 Samuel 7:14; Salmo 2:7), reafirmando Jesus como o cumprimento messiânico corporativo de Israel.

5. Consenso Mínimo

  • O evangelho antecede Paulo, fundamentando-se nas promessas proféticas veterotestamentárias, e atinge o seu ápice na ressurreição, que entroniza a Jesus Cristo como Senhor soberano, exigindo a submissão das nações.

📖 Perícope: Versículos 8-15

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Latreuō (cultuar/servir): Moo foca na dimensão interna deste termo litúrgico, ligando-o à adoração a Deus por meio do trabalho evangelístico (Moo, “vertical aspect as an offering of worship”). Gaventa destaca que é um serviço inerentemente litúrgico e sacerdotal (Gaventa, “liturgical service”).
  • Charisma pneumatikon (dom espiritual): Moo vê como um dom impreciso que será definido ao conhecer as necessidades locais. Schreiner insiste que este “dom” se refere especificamente ao próprio evangelho que Paulo articula detalhadamente ao longo da Carta aos Romanos (Schreiner, “gospel articulated in the Letter to the Romans”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Lê a imediata retificação de Paulo no versículo 12 (de “repartir um dom” para “conforto mútuo”) como uma tática de pura modéstia e diplomacia para não ofender uma comunidade que estava “edificada sobre o fundamento de outro” (Moo, “diplomacy… built on another person’s foundation”).
  • Schreiner, T. R.: Aponta o uso deliberado das antíteses “gregos e bárbaros, sábios e ignorantes” como uma estratégia retórica para invalidar a arrogância greco-romana e provar que nenhum estrato intelectual ou cultural está isento da dívida apostólica (Schreiner, “Any feelings of cultural and intellectual superiority are relativized”).
  • Gaventa, B. R.: Discorda visceralmente de Moo sobre o verso 12 ser uma correção embaraçada de diplomacia. Para ela, como os dons vêm de Deus, o compartilhamento espiritual não poderia jamais ser um “ato unilateral” do Apóstolo; Paulo genuinamente espera ser edificado porque o evangelho age nos dois lados (Gaventa, “scarcely a unilateral act”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Qual o real motivo para Paulo querer visitar Roma? Moo entende o plano através de uma dupla intenção: evangelização dos gentios ainda não convertidos e diplomacia para arrecadar apoio à missão espanhola. Schreiner foca na autoridade apostólica. Gaventa levanta a hipótese de que, ao dizer “desejo anunciar o evangelho a vocês” (v. 15), Paulo insinua crer que o escopo total e apocalíptico do evangelho ainda não fora completamente compreendido pela igreja romana.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • A fórmula “Deus é minha testemunha” evoca padrões de juramento sagrado no contexto da aliança profética do AT.

5. Consenso Mínimo

  • O profundo desejo de Paulo de viajar a Roma não deriva de um anseio turístico ou pessoal, mas de um senso de obrigação pactual outorgado por Deus de proclamar a mensagem a todas as camadas da sociedade gentílica.

📖 Perícope: Versículos 16-17

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Dikaiosynē theou (justiça de Deus): Termo central em debate maciço.
  • Ek pisteōs eis pistin (de fé em fé): Schreiner interpreta como uso retórico indicando ênfase na exclusividade da fé humana. Gaventa defende o conceito de Jesus Christ-faith, onde a fé origina-se na ação de Deus e volta para Ele.
  • Apokalyptetai (revela-se): Moo define como manifestação de um evento escatológico na história, não apenas uma informação cognitiva.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Procura resolver a dicotomia teológica propondo que a justiça de Deus é um conceito profundamente relacional, fundindo tanto a ação divina de salvar quanto o status forense legal outorgado ao humano que crê (Moo, “act by which God brings people into right relationship with himself”).
  • Schreiner, T. R.: Empreende uma polêmica rigorosa contra autores modernos (como Dunn e Wright), rejeitando categoricamente que “justiça de Deus” signifique primariamente “fidelidade à aliança”. Ele apresenta extensas provas lexicais em defesa da justificação estritamente forense (Schreiner, “doesn’t stand up lexically or exegetically”).
  • Gaventa, B. R.: Subverte o foco antropológico individual da fé humana. Traduz a ação ativamente (“está sendo revelada apocalipticamente”), argumentando que a citação de Habacuque 2:4 é a confirmação cósmica do “triunfo da vida sobre o Pecado e a Morte” (Gaventa, “triumph of life over both Sin and Death”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A divergência aqui é vulcânica e dogmática. Schreiner e Moo veem a dikaiosynē theou através da teologia da Reforma (o dom de um status reto imputado ao pecador através da crença). Gaventa abraça uma leitura escatológica apocalíptica influenciada por J.L. Martyn e E. Käsemann, argumentando que ler o termo meramente como apropriação humana pela fé ignora a incapacidade cósmica descrita no restante do capítulo e isola indevidamente os aspectos invasivos da graça de Deus.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Habacuque 2:4 é o núcleo aqui. Moo argumenta que Paulo adapta o texto: enquanto o profeta focava na fidelidade para enfrentar o sofrimento do exílio babilônico, Paulo recontextualiza o texto para descrever como os seres humanos ganham status de “justos” perante Deus para obter a vida escatológica. O Salmo 98:2 e Isaías 51:5 também são referenciados por Schreiner e Moo para justificar o vínculo bíblico entre justiça e salvação ativa.

5. Consenso Mínimo

  • O evangelho atua objetivamente como a invasão da potência redentora de Deus no tempo presente, disponível primeiramente ao povo da aliança (judeus) e em seguida aos gentios, mas sempre e estritamente através da fé.

📖 Perícope: Versículos 18-23

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Orgē theou (ira de Deus): Schreiner defende como emoção pessoal e rejeição ativa de Deus contra a quebra de Sua glória. Gaventa trata o tema não como a cólera de Deus personificada como falha de humor, mas como Sua recusa em deixar o mundo entregue à mentira.
  • Gnōston tou theou (conhecimento de Deus): Moo argumenta que este não é um conhecimento salvífico, mas uma percepção interna (sensus divinitatis) da revelação natural suficiente para condenar, e rejeita as tentativas de Karl Barth de negar que haja qualquer percepção divina aqui (Moo, “man becomes guilty because something essential does reach him”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Demonstra que a finalidade da revelação na natureza e consciência (revelação natural) no livro de Romanos não serve à justificação, mas a um propósito cem por cento punitivo e negativo: destituir o ser humano de qualquer argumento de defesa diante da corte divina.
  • Schreiner, T. R.: Exerce uma crítica feroz à tese de D.A. Campbell, que sugeriu que 1:18-32 seria uma citação de um “professor” falso (oponente judaico) e não a teologia do próprio Paulo. Schreiner prova a continuidade teológica das listas de vícios na literatura paulina (Schreiner, “text doesn’t give any clear indication that we are hearing a voice other than Paul’s”).
  • Gaventa, B. R.: Traz uma perspectiva psicológica de que, no versículo 21, a falha em dar glória e graças a Deus funciona como uma distorção do próprio “DNA” da mente humana: sem adorar o Criador, os seres humanos perdem as faculdades básicas de pensar adequadamente e compreender a realidade (Gaventa, “altered the DNA”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Quem é o alvo principal de 1:18-32? Moo e Schreiner argumentam por uma estrutura de “círculos concêntricos”: embora abranja implicitamente todos, o apóstolo foca discursivamente primeiro na idolatria escancarada dos gentios, preparando uma emboscada literária para o moralista judeu no capítulo 2. Para Gaventa, o uso de anthropos significa que a humanidade caída (independente de etnia) é o foco direto desde o primeiro versículo, e não uma progressão pedagógica direcionada unicamente a gentios num primeiro momento.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Paulo lança mão das denúncias típicas da polêmica judaico-helenística (especialmente do livro de Sabedoria 13-15) sobre a idolatria. Moo e Gaventa observam, de forma contundente, que o versículo 23 (“trocaram a glória do Deus imortal por imagens”) espelha o Salmo 106:20 (105:20 LXX) e Jeremias 2:11 — passagens que descrevem o incidente de idolatria judaica (bezerro de ouro). Paulo descreve os pecados dos gentios usando as palavras que o AT usava para condenar a apostasia de Israel!

5. Consenso Mínimo

  • A ira de Deus já atua presente e inevitavelmente como resposta justa à recusa cósmica da humanidade em honrar a revelação do Criador, preferindo entregar sua reverência a elementos limitados da própria criação.

📖 Perícope: Versículos 24-32

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Paredōken (entregou): Oração repetida três vezes (vv. 24, 26, 28). Schreiner contende que a ira e a entrega ocorrem num framework pessoal e punitivo divino. Gaventa avalia o vocábulo à luz do uso da LXX (ceder território a um inimigo), ilustrando que Deus cede a humanidade tirânica e voluntariamente a uma potência de Terceira Parte: o “Pecado” (Gaventa, “handing over takes place in a situation of conflict”).
  • Para physin (contra a natureza): Embate crucial. Moo e Schreiner definem como violação do intento divino na ordem da criação original (Gênesis). Gaventa reconhece a criação, mas expande que, na visão greco-romana, homossexualidade também desafiava o paradigma social de dominação de gênero (penetrador vs. penetrado).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Moo, D. J.: Sustenta que o homossexualismo (feminino e masculino) foi selecionado por Paulo porque é o exemplo de transgressão que atua como imagem perfeitamente espelhada (mirror image) do pecado original de idolatria. Assim como trocar o Criador pela criatura é o pináculo de uma farsa não-natural no culto, o homossexualismo é a subversão física máxima do desígnio sexual criado (Moo, “turning from the ‘natural use’”).
  • Schreiner, T. R.: Refuta violentamente as teses acadêmicas revisionistas contemporâneas (como Boswell ou Brownson), que dizem que Paulo criticava apenas os atos sexuais imorais de exploração em pessoas inatamente heterossexuais. Schreiner reitera o background na condenação da prática homossexual no Judaísmo do Segundo Templo para provar que a proibição abrangia qualquer manifestação da prática, sem conhecimento prévio de uma moderna “orientação sexual inata” do indivíduo (Schreiner, “unanimous rejection of homosexuality in Jewish sources”).
  • Gaventa, B. R.: Lê o final macabro da lista de vícios (v. 32) como hiperbólico. O veredito de que merecem a morte atua dentro do mesmo paradigma cósmico apocalíptico da invasão de poderes. Argumenta que as práticas homossexuais são evocadas porque violam não apenas a criação de Deus, mas ofendem as premissas hierárquicas da sociedade clássica sobre quem “age” e quem é “agido”, servindo perfeitamente de caso ilustrativo para o caos generalizado (Gaventa, “Roman world’s understanding of gender hierarchy”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A dimensão da punição paredōken (O Entregar de Deus). Para a linha de pensamento de Moo, trata-se de um abandono ativamente punitivo; como um barco no rio, Deus empurra a humanidade corredeira abaixo em direção aos seus próprios desejos sujos em retribuição penal. Gaventa, por sua vez, foca na perda total do livre-arbítrio (cativeiro) e não apenas na questão moral-individual; para ela, não há moralismo humano de arrependimento que possa arrancar a humanidade da mão das potências antagônicas, sendo necessária a salvação invasiva do Evangelho descrita no Cap. 3.
  • Há discordância acadêmica com visões sociológicas quanto ao foco exclusivo de Paulo sobre a homossexualidade versus a idolatria.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Há pesada dependência da ordem da Criação de Gênesis 1 (separação dos sexos, dominação humana sobre animais), bem como o livro de Levítico (18:22; 20:13) quanto à condenação moral estrita e unânime das práticas homossexuais no contexto do Judaísmo helenístico e palestino antigo.

5. Consenso Mínimo

  • A profunda depravação ética e a desintegração social da humanidade (incluindo desvios sexuais e corrupção relacional/espiritual) não figuram como o primeiro degrau do pecado, mas constituem a punição divina concreta resultante da alienação básica do homem que rejeita glorificar a Deus.