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Introdução & Contexto
Introdução & Contexto
1) Identidade das Fontes
- Moo, D. J. (1996). The Epistle to the Romans. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Schreiner, T. R. (2018). Romans (2nd ed.). Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic.
- Gaventa, B. R. (2024). Romans. New Testament Library (NTL). Westminster John Knox.
2) “Mapa da Introdução” por Autor
Autor A: Douglas J. Moo (1996)
- Tese central da introdução: Romanos é um tratado em forma de carta missionária, redigido fundamentalmente para unificar a congregação, delinear o evangelho paulino contra objeções e sedimentar uma base para a Espanha, tendo a própria mensagem do “evangelho” como núcleo temático.
- Objetivo declarado do comentário: Tratar as questões textuais e históricas de forma acadêmica, mas essencialmente “descobrir a mensagem que Deus tem para nós nela”, unindo rigor hermenêutico com aplicação eclesial (Moo, “to discover the message that God has for us in it”).
- Teses secundárias:
- A igreja de Roma, embora de matriz mista, era majoritariamente gentílica no momento da escrita (Moo, “Gentile Christians were in the majority”).
- O propósito é multifacetado (Espanha, Jerusalém, Roma), mas o denominador comum é o “evangelho” como manifesto apostólico.
- A “justificação pela fé” não é o único tema, mas é inseparável e vital, atuando como centro antropológico para descrever a graça (Moo, “The theme of the letter? The gospel”).
- Pressupostos/metodologia: Exegese histórico-gramatical clássica estruturada na teologia bíblica; prioriza os aspectos forenses da justiça de Deus inseridos na rubrica da história da salvação (Moo, “Theological framework… can be called salvation history”).
- O que ele considera “em jogo” interpretativamente: A pureza da graça na obra redentora. Uma leitura correta deve manter a “resoluta resistência de Paulo… à constante tendência humana de tornar o que as pessoas fazem decisivo para a salvação” (Moo, “the resolute resistance of Paul… to make what people do decisive”).
Autor B: Thomas R. Schreiner (2018)
- Tese central da introdução: Paulo escreve Romanos a uma igreja dividida primariamente para unificar judeus e gentios em torno da verdade do seu evangelho, cujo escopo final não é meramente a união ou o avanço missionário, mas a própria glória de Deus.
- Objetivo declarado do comentário: Praticar uma audição humilde do texto (“disposição de ouvir uma palavra alheia”), dialogando com os intérpretes clássicos para extrair sentido exegético e histórico renovado à nossa geração (Schreiner, “willingness to hear an alien word”).
- Teses secundárias:
- O capítulo 16 não era uma carta separada a Éfeso, mas sim uma “parte integral da carta e originalmente enviada a Roma” (Schreiner, “Decisive reasons exist for accepting the theory that Rom. 16 was an integral part”).
- Leituras codificadas “antimperiais” estão na moda, mas não se sustentam rigorosamente através da análise gramatical e conceitual de Paulo no texto.
- A união e as missões são objetivos penúltimos; a glória de Deus dita o ritmo teleológico do livro (Schreiner, “God’s glory is indeed ultimate”).
- Pressupostos/metodologia: Exegese teológica conservadora de orientação pactual. Opera na premissa da total coerência da autoria do Corpus Paulinum (“assumo que todas as treze Cartas Paulinas são autênticas”) para fundamentar “palpites interpretativos” (Schreiner, “assume that all thirteen of the Pauline Letters are authentic”).
- O que ele considera “em jogo” interpretativamente: A redução de Romanos a uma resolução de disputas sociológicas locais em Roma, quando o propósito subjacente (a “glorificação harmoniosa a Deus”) deve pautar toda a exegese teológica.
Autor C: Beverly Roberts Gaventa (2024)
- Tese central da introdução: Romanos narra o “Evangelho como Intrusão”, um evento apocalíptico libertador no qual Deus, unilateralmente, age em Cristo para resgatar não apenas indivíduos, mas um cosmos inteiro cativo aos poderes tiranos do Pecado e da Morte.
- Objetivo declarado do comentário: Fazer teologia através da exegese literária fina, mantendo os horizontes apocalípticos em evidência e guiando-se por uma “hermenêutica da generosidade” para com o texto de Paulo (Gaventa, “read with a hermeneutic of generosity”).
- Teses secundárias:
- A carta não pressupõe congregações monolíticas (a palavra ekklēsia está notavelmente ausente do prescripto), mas sim comunidades ou “assembleias” pulverizadas (redes domésticas).
- A teologia de Paulo exige a desestabilização da divisão ética entre “judeu” e “gentio”, pois ambos são vítimas dos mesmos poderes anti-Deus.
- O uso paulino do AT não segue um continuísmo brando; as Escrituras são relidas retrospectivamente (“de trás para frente”) a partir da irrupção de Cristo (Gaventa, “The gospel has intruded even into Paul’s reading of Scripture”).
- Pressupostos/metodologia: Teologia apocalíptica (na linhagem de J. Louis Martyn/Käsemann). Foco profundo em análise da retórica antiga, destacando a tática de “finta retórica” (Gaventa, “practice of rhetorical feint”).
- O que ela considera “em jogo” interpretativamente: Substituir visões focadas excessivamente na antropologia (livre arbítrio, status forense pessoal) pela macro-visão da “reclamação de um cosmos escravizado ao Pecado e à Morte” (Gaventa, “reclamation of a cosmos in thrall to Sin and Death”).
3) Dossiê de Contexto (evidência + debate)
1. Autoria
- Moo: Afirma ser incontestável. Argumenta que Tercio funcionou numa escala mais próxima de um “ditado”, dado que o estilo reflete cartas como Gálatas e 1 Coríntios onde não havia amanuenses (Moo, “far toward the ‘dictation’ end”).
- Schreiner: Unânime na academia moderna. Deduz que a ditadura em “taquigrafia” (shorthand) foi a mais provável dinâmica com Tercio (Schreiner, “Romans, then, was dictated by Paul to Tertius”).
- Gaventa: Autoria passífica. Porém, foca de maneira singular no processo pós-escrita: a carta, após ditada, “foi quase certamente corrigida e copiada pelo menos uma vez” antes de ser entregue a Febe (Gaventa, “almost certainly corrected and copied at least once”).
- Convergência vs Divergência: Os três têm certeza granítica da autoria. Divergem apenas na precisão processual: Moo e Schreiner enfatizam o aspecto literal de “ditado” de Paulo; Gaventa amplia a visão incluindo as fases editoriais da “cópia limpa”.
- Peso da Evidência: A teoria taquigráfica e o processo editorial de Gaventa dialogam melhor com a paleografia clássica, mostrando a alta elaboração técnica que permitiu à carta chegar a Roma sem as fraturas de um ditado contínuo e sem emendas.
2. Data
- Moo: Aponta para os 3 meses passados na Grécia (At 20). “A melhor alternativa é provavelmente o ano 57 d.C.” (Moo, “The best alternative is probably A.D. 57”).
- Schreiner: Utiliza o proconsulado de Gálio como ponto de Arquimedes, situando a data com segurança “entre 55 e 58 d.C.” (Schreiner, “safely locate the letter between AD 55 and 58”).
- Gaventa: Concorda com a janela de 55-58. Ela atesta essa janela cruzando dados da coleta (que já estava encerrada na Macedônia/Acaia) e a expulsão prévia de Priscila e Áquila por Cláudio (Gaventa, “period of 55–58 CE”).
- Convergência vs Divergência: Convergência absoluta num frame temporal de 55-58, cruzando 1 e 2 Coríntios com a ida final a Jerusalém.
- Peso da Evidência: Sólido uníssono. Schreiner oferece a melhor síntese cruzando o texto bíblico com a macro-história imperial (proconsulado de Gálio e a morte de Cláudio).
3. Local de escrita
- Moo: Corinto. Justificado pelas conexões: Febe é de Cencreia (porto de Corinto) e a menção ao anfitrião Gaio, batizado ali (Moo, “probably in Corinth that Paul stayed”).
- Schreiner: Corinto, escorado fortemente nas menções do capítulo 16, sublinhando que Erasto pode ser o gestor urbano documentado de Corinto (Schreiner, “city manager Erastus”).
- Gaventa: “Em ou pelo menos perto de Corinto” (Gaventa, “In or at least near Corinth”). Mais cautelosa, pois nota que existem ressalvas na identificação de Erasto com o gestor romano da “Pedra de Erasto”.
- Convergência vs Divergência: Concordância total. Gaventa apenas levanta sobriedade sobre o argumento material extrabíblico (da placa de Erasto).
- Peso da Evidência: Incontestável baseando-se em evidências internas (Rom 16) aliadas ao livro de Atos. Schreiner articula a melhor defesa das pistas de Gaio e Erasto.
4. Destinatários e geografia
- Moo: A comunidade romana originou-se do judaísmo, mas foi alterada. Os “cristãos gentios formavam a maioria” e Paulo destina a carta primariamente a essa configuração gentílica da igreja (Moo, “Gentile Christians were in the majority”).
- Schreiner: Conclui o mesmo a partir de dados intra-bíblicos (Rm 1:13 e 11:13). Ele afirma categoricamente: “os gentios eram a maioria nas igrejas e as dominavam” (Schreiner, “gentiles were a majority in the churches and dominated the churches”).
- Gaventa: Também indica uma preponderância de gentios, mas traz uma nuance chave sociológica: esses gentios provinham largamente dos sebomenoi (tementes a Deus) das sinagogas romanas (Gaventa, “gentiles… came from among the sebomenoi”).
- Convergência vs Divergência: A matriz mista, com hegemonia gentílica demográfica, é ponto comum. Gaventa desbanca a ideia de destinatários teologicamente genéricos, introduzindo gentios já imersos nas tradições sinagogais.
- Peso da Evidência: Gaventa ganha aqui. Identificar os gentios de Roma com os sebomenoi resolve o enigma do porquê Paulo argumentar com altíssimo grau de complexidade sobre o Antigo Testamento para uma audiência tecnicamente “não-judia”.
5. Ocasião / problema motivador
- Moo: Paulo escreve no cume de uma “importante transição na sua carreira missionária” (Moo, “important transition point in his missionary career”). O término do trabalho no Oriente o liberta, mas há tensões pendentes de unidade e defesa da sua teologia da lei.
- Schreiner: As diferenças culturais/teológicas inflamadas possivelmente pelo Édito de Cláudio trouxeram tensão sociológica (fracos vs fortes), demandando a atuação para “resolver conflitos entre judeus e gentios” (Schreiner, “resolve conflict between Jews and gentiles”).
- Gaventa: Roma possui um déficit teológico grave, não porque Paulo não fundou a igreja, mas porque o entendimento deles recaia em fronteiras intergrupais. A motivação era “expandir a compreensão dos ouvintes”, reestruturando-a num panorama de intrusão escatológica (Gaventa, “expanding his auditors’ understanding”).
- Convergência vs Divergência: Moo e Schreiner olham muito para “trás” e para o “chão sociológico” (disputa ética Judaico-Gentílica). Gaventa lê a ocasião de forma discursivo-teológica: eles precisam de uma teologia do tamanho de um “ataque de Deus aos poderes”.
- Peso da Evidência: Schreiner pesa favoravelmente as evidências internas concretas de conflitos comunitários (caps. 14-15). Mas a explicação de Gaventa dá tração muito superior à densidade especulativa de Romanos 5 a 8, que pouco tem a ver com regras dietéticas diretas.
6. Propósito e tese do livro
- Moo: Exposição doutrinária multifocal, com tese no Evangelho: justificação de todo aquele que crê (Moo, “The theme of the letter? The gospel”).
- Schreiner: Unificação das bases em Roma sob o evangelho para suporte à Espanha; mas a metanarrativa última é de orientação reformada: a adoração centrada na glória de Deus (“God’s glory is indeed ultimate”).
- Gaventa: Redefinir as lentes romanas mostrando que a salvação consiste na intervenção da retificação divina contra os senhores tiranos cósmicos: “A retomada de um cosmos escravizado ao Pecado e à Morte” (Gaventa, “reclamation of a cosmos in thrall to Sin and Death”).
- Convergência vs Divergência: Moo e Schreiner veem um propósito vertical de “apaziguamento” centrado em perdão e união. Gaventa o vê sob a ótica das forças de opressão/libertação cósmica.
- Peso da Evidência: Para o leitor do século XXI, o arcabouço apocalíptico de Gaventa confere uma explicação bem mais contundente ao tratamento ontológico de Morte e Pecado no grego do que a leitura antropológico-moral tradicional sustentada por Moo.
7. Gênero e estratégia retórica
- Moo: Trata-se de um “Tratado epistolar”. Resiste severamente às novas classificações herméticas da retórica clássica (diatribe, protreptic) porque “a singularidade da carta excede muito” suas paralelos estruturais (Moo, “The distinctiveness of the letter far outweighs…”).
- Schreiner: Também recua. Admite que há elementos diatríbicos, mas adverte que “classificar a carta de modo genérico pode distrair” da exegese teológica em si (Schreiner, “classifying the letter generically may distract”).
- Gaventa: Não apenas adota a análise retórica com vigor, mas inova identificando a “finta retórica” (Gaventa, “practice of rhetorical feint”): a habilidade paulina de encenar falsas conclusões que a audiência tenderia a aprovar (como a condenação da humanidade visando preservar a isenção de Israel) para logo puxar o tapete.
- Convergência vs Divergência: Os dois clássicos (Moo/Schreiner) defendem abordagens tradicionais avessas à retórica estrita. Gaventa é representante vital da análise discursiva interativa.
- Peso da Evidência: A teoria da finta (feint) de Gaventa resolve paradoxos violentos no texto (ex: dizer em 2:25-29 que judeus não diferem de gentios para, no 3:1, perguntar qual a vantagem de ser judeu e responder “muita”).
8. Contexto histórico-social
- Moo: Apela ao expulsão sob o Imperador Cláudio na década de 40 como catalisador das disputas internas que desabrocharam (“absence for a time of all the Jewish Christians”).
- Schreiner: Moderou sua própria visão em edições prévias; embora acate a data de 49 d.C. e a expulsão, avisa que “devemos finalmente admitir que não temos informação definida” se as tensões nasceram de lá (Schreiner, “We must finally admit, however, that we lack definite information”).
- Gaventa: Destaca o papel da escravidão. A instituição operava intensamente entre a população de base romana (“slavery was ubiquitous in the Roman Empire”). A adoção dos termos de senhorio, libertação e serviço não era etérea, mas ancorada numa crueza diária experimentada pelos ouvintes.
- Convergência vs Divergência: Os três interagem com as fontes do império (Suetônio/Cláudio), mas Gaventa tira as lentes das “altas disputas entre crentes” e joga luz na realidade urbana inferior (escravizados de Roma) e sua decodificação material da carta.
- Peso da Evidência: Gaventa e Schreiner mostram maturidade ao não usar a tese de Cláudio como “bala de prata”. O contexto escravagista de Gaventa aprimora as compreensões conceituais do capítulo 6 significativamente.
9. Contexto religioso/intelectual
- Moo: A herança da teologia pactual judaica (Torá, promessas davídicas).
- Schreiner: Discute e repudia o peso alegado hoje de narrativas cifradas contra Roma. Para ele, “A leitura anti-imperial não pode ser sustentada a partir do próprio texto” (Schreiner, “The anti-imperial reading can’t be sustained”).
- Gaventa: Foca na matriz intelectual mista advinda da audiência: “preponderância dos gentios… dentre os sebomenoi” (Gaventa, “preponderance of the gentiles… from among the sebomenoi”). Suas cosmologias pagãs estavam cruzadas com noções sinagogais de exclusivismo.
- Convergência vs Divergência: Os comentários tradicionais lidam com as grandes blocos (Judaísmo da Segunda Dinastia, Imperialismo). Gaventa lida com a hibridização psicológica daqueles crentes marginais a ambos os eixos.
- Peso da Evidência: Ao ancorar-se no choque psicológico da comunidade marginal que migrou das sinagogas para a ekklēsia, Gaventa amarra organicamente texto a contexto mental. O repúdio de Schreiner à teologia política purista soa metodologicamente são.
10. Estrutura macro do livro
- Moo:
- I. Evangelho e Ira (1-4)
- II. Esperança e Salvação (5-8)
- III. O problema de Israel (9-11)
- IV. Conduta moral (12-15)
- Schreiner: Divisão quase idêntica, regida estritamente pelas fases da justiça (Ira revelada, Justiça Salvífica, Graça sobre Lei, Promessa a Israel, Dia-a-dia).
- Gaventa: Estrutura pela agência cósmica de Deus:
- 1:13–4:25 Deus age para Revelar e Redimir
- 5:1–8:39 Poderes opostos e Triunfo Apocalíptico
- 9:1–11:36 A questão de Israel resolvida na fidelidade
- 12:1–15:13 O Tempo Presente e adoração.
- Convergência vs Divergência: A arquitetura física (onde ocorrem os cortes principais: caps. 5, 9, 12) é totalmente pacífica. A divergência incide nos títulos: teologia estática protestante (Moo/Schreiner) versus escatologia invadindo a história (Gaventa).
- Peso da Evidência: Do ponto de vista gramatical (e das viradas discursivas com nuni de / ara / oun), os limites seculares identificados por todos são irrefutáveis.
11. Temas teológicos
- Moo: A Justificação pela fé é a rubrica essencial (embora submetida à noção guarda-chuva de “evangelho”). Traz uma definição forense clássica (Moo, “act by which God brings people into right relationship”).
- Schreiner: A centralidade da Glória e o lugar instrumental da justificação no programa da lei mosaica e seu fim escatológico.
- Gaventa: O Evangelho como poder intrusivo (“Intrusion”); A Justificação não como ficção forense personalista, mas retificação cósmica; Escravidão sob Pecado/Morte superada pelo senhorio de Cristo.
- Convergência vs Divergência: Moo e Schreiner defendem o protestantismo clássico (o foco é como o pecador pode ficar quite com a lei de Deus no tribunal de Deus). Gaventa abraça a tese apocalíptica: o foco é como a humanidade cativa em trincheiras inimigas é invadida para resgate por parte de Deus.
- Peso da Evidência: Ambos são defensáveis filologicamente. O peso “forense/pessoal” de Moo funciona muito bem no vocabulário dos capítulos 3 e 4. Já a “intrusão/retificação cósmica” de Gaventa dá sentido sem igual às transições de Romanos 5 a 8, onde as dimensões ultrapassam tribunais para cenários de guerra escatológica.
12. Intertextualidade/AT
- Moo: O AT como fonte orgânica de onde Paulo constrói a progressão da sua carta. Sublinha a “harmonia continuada” na qual Cristo é a cereja do Antigo Testamento.
- Schreiner: Foco nas figuras do AT (Abraão/Davi) para provar a consistência do Deus de Israel.
- Gaventa: Romanos detém metade das citações vétero-testamentárias de Paulo; todavia, ela enfatiza metodologicamente que Paulo destrói a continuidade biográfica de Israel. Ele enxerga e julga as Escrituras a partir do final: “Ele lê do presente para o passado” (Gaventa, “He reads from the present backward”). O evangelho dita as escrituras e não o oposto (Gaventa, “The gospel has intruded even into Paul’s reading of Scripture”).
- Convergência vs Divergência: É o abismo hermenêutico principal. Os clássicos propõem o AT predizendo naturalmente Paulo. Gaventa afirma que Paulo lê o AT numa subversão hermenêutica gerada pelo abalo sísmico de Cristo.
- Peso da Evidência: Gaventa lida de maneira formidavelmente sincera com textos que Paulo arranca do contexto massorético e violenta para comprovar seus pontos (Ex: alteração deliberada de Hacacuque e as referências retorcidas em Oséias no cap. 9), desbancando o continuísmo passivo tradicional.
4) Problemas Críticos (Top 6)
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Pergunta: O capítulo 16 foi originalmente enviado a Roma ou seria uma carta separada para Éfeso?
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Posição de Moo: Foi enviado a Roma. Embora a longa lista de conhecidos seja surpreendente numa igreja não fundada por Paulo, o capítulo serve para estabelecer pontes, e as hipóteses contrárias falham por falta de base (Moo, “Paul wrote to Rome contained all sixteen chapters”).
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Posição de Schreiner: Foi enviado a Roma. Aponta razões textuais decisivas contra a separação e afirma que saudar pessoas respeitadas era uma forma de validar indiretamente seu apostolado (Schreiner, “Decisive reasons exist for accepting the theory that Rom. 16 was an integral part”).
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Posição de Gaventa: Foi enviado a Roma, onde serviu pragmaticamente como guia. A leitura das saudações a indivíduos e “redes domésticas” ilustra que Febe teve o papel de viajar fisicamente entre esses diferentes grupos (Gaventa, “Phoebe will take the letter to each one”).
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Nota: A tese de Roma é absolutamente pacífica entre os três, derrubando de vez a velha teoria da “Carta a Éfeso” de T.W. Manson. O dado faltante é como exatamente Febe e outros mediaram as conexões físicas entre grupos tão fragmentados.
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Pergunta: A congregação em Roma era majoritariamente judaica ou gentílica?
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Posição de Moo: Maioria gentílica, embora de matriz mista. A expulsão dos judeus sob o imperador Cláudio teria consolidado o protagonismo demográfico e teológico dos gentios (Moo, “Gentile Christians were in the majority”).
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Posição de Schreiner: Maioria gentílica explícita e dominante. Ele deduz da internalidade do texto (Rm 1:13 e 11:13) que Paulo precisava admoestar gentios fortes que desprezavam a minoria judaica (Schreiner, “gentiles were a majority in the churches and dominated the churches”).
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Posição de Gaventa: Maioria gentílica, mas de uma extração muito específica: gentios simpatizantes ou “tementes a Deus” que frequentavam as sinagogas antes da conversão (Gaventa, “preponderance of the gentiles… from among the sebomenoi”).
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Nota: A especificação sociológica de Gaventa é a mais plausível. Afirmar que eram gentios oriundos dos sebomenoi explica perfeitamente por que Paulo não precisa gastar tempo introduzindo a narrativa hebraica; os leitores já conheciam o Antigo Testamento profundamente.
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Pergunta: Há alguma crítica anti-imperial cifrada no vocabulário de Paulo (“evangelho”, “senhor”, “paz”)?
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Posição de Moo: A sua introdução lê o livro em chaves clássicas da história da salvação (teologia bíblica), ignorando a popularização de leituras políticas contemporâneas (Moo, sem localização precisa).
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Posição de Schreiner: Rejeita abertamente. Argumenta que as leituras codificadas anti-imperiais estão na moda, mas não se sustentam na análise gramatical do texto e colidem com as ordens de submissão do cap. 13 (Schreiner, “The anti-imperial reading can’t be sustained from the text itself”).
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Posição de Gaventa: Não foca na oposição política de César, mas sim nos tiranos cósmicos (Pecado e Morte). O império terreno não é o alvo principal, mas mero sintoma do cativeiro humano (Gaventa, “reclamation of a cosmos in thrall to Sin and Death”).
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Nota: O ceticismo de Schreiner quanto a transformar Romanos num manifesto político de resistência é hermeneuticamente são. Faltam, contudo, dados definitivos sobre como a base escravizada da igreja decodificava o léxico romano.
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Pergunta: O que motiva primariamente a redação do livro (a “ocasião”)?
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Posição de Moo: A transição na carreira missionária. Encerrado o trabalho no Oriente, ele vai de Jerusalém à Espanha e usa a carta como testamento e introdução teológica (Moo, “transition point in his missionary career”).
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Posição de Schreiner: O apaziguamento sociológico visando missões. O Édito de Cláudio gerou rusgas (fracos e fortes), e Paulo age para unificá-los para que sirvam de base para o Ocidente (Schreiner, “resolve conflict between Jews and gentiles”).
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Posição de Gaventa: Um déficit teológico. Paulo percebe que a audiência romana carece de uma compreensão da escala apocalíptica da obra de Cristo, reduzindo o evangelho à mera inclusão (Gaventa, “expanding his auditors’ understanding”).
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Nota: A visão de Gaventa traduz melhor o “peso” dos capítulos 5-8, ao passo que a visão de Schreiner traduz perfeitamente a “prática” dos capítulos 14-15. Ambos os vetores motivaram a obra simultaneamente.
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Pergunta: Qual é o grande “tema central” ou “centro de gravidade” teológico da carta?
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Posição de Moo: A mensagem do próprio “evangelho”, na qual a doutrina da “justificação pela fé” atua como engrenagem antropológica essencial, mas subordinada (Moo, “The theme of the letter? The gospel”).
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Posição de Schreiner: O escopo teleológico máximo é a união da igreja para a harmoniosa adoração e “glória a Deus” (Schreiner, “God’s glory is indeed ultimate”).
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Posição de Gaventa: A intrusão divina escatológica; o ato em que Deus liberta unilateralmente a criação inteira das garras dos poderes inimigos (Gaventa, “The Gospel as Intrusion”).
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Nota: Enquanto Moo define o conteúdo (o evangelho) e Schreiner o alvo (a glória), Gaventa define a dinâmica operativa do livro. A matriz apocalíptica de Gaventa é hoje mais responsiva às anomalias gramaticais do grego paulino.
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Pergunta: Romanos pode ser classificado a partir dos gêneros retóricos greco-romanos estritos (epideítico, protreptico, embaixatorial)?
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Posição de Moo: Rejeita classificações rígidas. Considera que, sendo um “tratado epistolar”, as singularidades de Paulo quebram os moldes seculares da retórica da época (Moo, “the distinctiveness of the letter far outweighs…”).
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Posição de Schreiner: Cético quanto ao uso excessivo dos manuais antigos para entender Paulo. Admite diatribes pontuais, mas rejeita que a carta inteira siga formas clássicas (Schreiner, “classifying the letter generically may distract”).
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Posição de Gaventa: Adota a análise retórica com vigor criativo. Embora não prenda a carta num gênero, aponta a “finta retórica” (encenar desfechos falsos) como estratégia de engajamento discursivo (Gaventa, “practice of rhetorical feint”).
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Nota: Gaventa prova que compreender os movimentos da retórica oral antiga explica reviravoltas bruscas da argumentação muito melhor do que a teologia dedutiva passiva tem feito historicamente.
5) Síntese Operacional (para usar na exegese depois)
- Perfil de contexto em 10 linhas: Paulo redige Romanos na Grécia (Corinto), entre 55 e 58 d.C., às vésperas de sua perigosa viagem de retorno a Jerusalém e planejando subsequentemente ir a Roma em direção à Espanha (Schreiner, “safely locate the letter between AD 55 and 58”). Ele escreve a congregações descentralizadas e não fundadas por apóstolos, de demografia mista, porém dominadas por cristãos gentios que outrora frequentavam a sinagoga como “tementes a Deus” (Gaventa, “from among the sebomenoi”). Tensões éticas e teológicas locais infladas pelo hiato gerado pelo Édito de Cláudio ameaçavam a unificação (Schreiner, “resolve conflict between Jews and gentiles”). Para cooptá-los à sua base missionária hispânica e sanar divisões, Paulo lhes entrega sua magnum opus, não focada numa mera apologia contra os judeus, mas reescrevendo a história cósmica para provar que a justificação pela fé provém do ataque gracioso de Deus para retomar uma humanidade sequestrada pelo Pecado e pela Morte.
- 5 implicações hermenêuticas:
- A “Justiça de Deus” nunca atua num vácuo moral; envolve libertação das potências malignas e garantia da fidelidade pactual.
- O leitor original gentílico conhecia os paradigmas judaicos; não presuma que os debates sobre Abraão ou Torá lhes eram distantes.
- Evitar a armadilha de ler o livro estaticamente como um tratado teológico moderno; a argumentação tem vida, usa fintas e interlocutores imaginários.
- O “Pecado” no singular e a “Morte” com maiúscula devem ser lidos ontologicamente (como governantes tirânicos) nas viradas centrais do livro, não como atos falhos do indivíduo.
- A carta não se resume à salvação pessoal; a teologia (1-11) só atinge seu destino no imperativo de união comunitária e harmonia cúltica (12-15).
- Checklist de leitura:
- Onde há citação do Antigo Testamento, atentar a como Paulo subverte o sentido tradicional massorético/LXX.
- Quando surgir a palavra “Pecado”, diferenciar se o texto aponta à transgressão moral ou ao Poder Cósmico usurpador.
- Quando identificar perguntas retóricas abruptas (“Que diremos pois?”), mapear imediatamente contra qual inferência lógica natural Paulo está lutando.
- Quando tratar do binômio “Judeu/Gentio”, rastrear o esforço paulino em desestabilizar as barreiras e igualá-los no nível base do cativeiro.
- Ao entrar no bloco parenético (12-15), checar as conexões de fundo que derivam da intrusão apocalíptica da justificação (caps 5-8).
- Ao analisar textos sobre a Lei/Torá, diferenciar os momentos em que a Lei é o alvo e os momentos em que ela é mera refém do Pecado.
- Identificar nos imperativos éticos como a submissão das vontades esbarra nas dinâmicas de patronagem e escravidão urbanas no Império Romano.
- Em passagens que trazem “glória a Deus” no final de blocos exegéticos, anotar que a doxologia é a função teleológica do argumento.
6. Matriz de Diferenciação — Introdução & Contexto
| Categoria | Visão de Moo (NICNT) | Visão de Schreiner (BECNT) | Visão de Gaventa (NTL) |
|---|---|---|---|
| Autoria | Paulina incontestável; ditado | Paulina incontestável; taquigrafia | Paulina; cópia e edição |
| Data | Em torno de 57 d.C. | Entre 55 e 58 d.C. | Entre 55 e 58 d.C. |
| Local de Escrita | Corinto | Corinto | Em ou perto de Corinto |
| Oponente Principal | Dependência das obras da lei | Tensões judaico-gentílicas | Pecado e Morte cósmicos |
| Propósito Central | Testamento teológico; missões | Unificar facções; ir à Espanha | Expandir paradigma teológico |
| Metodologia | Exegese histórico-gramatical | Teologia pactual/reformada | Teologia apocalíptica; retórica |
7) Veredito Acadêmico (operacional)
- Melhor para Contexto histórico: Schreiner constrói o panorama mais claro, cruzando cuidadosamente dados imperiais, como Gálio e a morte de Cláudio, com a cronologia em Atos para extrair os impasses demográficos de Roma (Schreiner, “safely locate the letter between AD 55 and 58”).
- Melhor para debate crítico: Gaventa é suprema ao dissecar as armadilhas hermenêuticas e a sociologia do receptor, notadamente ao comprovar a matriz híbrida do público “gentio” e decodificar a dinâmica processual póstuma da carta (Gaventa, “preponderance of the gentiles… from among the sebomenoi”).
- Melhor para estrutura/argumento do livro: Moo se sobressai pela solidez com a qual interliga as seções doutrinárias do livro usando as chaves de “justificação” e “história da salvação”, fornecendo um esqueleto claro para não nos perdermos nas micro-exegeses (Moo, “Theological framework… can be called salvation history”).
- Síntese: Para o pesquisador contemporâneo da epístola, uma exegese bem-sucedida deve usar as macroestruturas temáticas de Moo como andaime lógico, ancorar-se no ambiente histórico das lutas sectárias domésticas brilhantemente organizadas por Schreiner, e plugar em tudo isso o “dínamo” apocalíptico e as ferramentas de persuasão interativa (fintas) diagnosticadas por Gaventa. Essa composição entrega a estrutura protestante clássica, ancorada sociologicamente, mas liberta para o cenário de guerra cósmica no qual Paulo efetivamente concebeu o evangelho.
Auditoria — Afirmações & Evidências
Autoria
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Afirmação: A autoria paulina é incontestável e a carta foi ditada literalmente a Tercio.
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Autor(es) que defendem: Moo
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Evidência (quote curto): “Paul’s method in Romans is certainly far toward the ‘dictation’ end of this spectrum.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: A carta foi ditada por Paulo a Tercio, que possivelmente a registrou em taquigrafia.
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Autor(es) que defendem: Schreiner
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Evidência (quote curto): “Romans, then, was dictated by Paul to Tertius… Tertius took it down in shorthand.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: A autoria é de Paulo, mas a redação envolveu o ditado a Tercio seguido de pelo menos uma revisão e cópia editorial.
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Autor(es) que defendem: Gaventa
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Evidência (quote curto): “Paul’s letter, dictated to Tertius (16:22), was almost certainly corrected and copied at least once… before it was handed over to Phoebe”
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Nível de confiança: alto
Data
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Afirmação: A carta foi redigida provavelmente no ano 57 d.C., com margem de um ou dois anos.
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Autor(es) que defendem: Moo
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Evidência (quote curto): “The best alternative is probably A.D. 57, though leeway of a year or two either way must be allowed.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: A redação pode ser localizada com segurança entre 55 e 58 d.C., tendo o proconsulado de Gálio como ponto de fixação.
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Autor(es) que defendem: Schreiner
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Evidência (quote curto): “we can safely locate the letter between AD 55 and 58. […] The Archimedean point for Pauline chronology is the accession of Gallio”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: A composição ocorreu no período de 55 a 58 d.C., após o retorno de Priscila e Áquila.
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Autor(es) que defendem: Gaventa
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Evidência (quote curto): “These minimal details yield a composition date in the period of 55–58 CE”
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Nível de confiança: alto
Ocasião/Problema
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Afirmação: A carta foi motivada por um ponto de transição crucial na carreira missionária, movendo-se do Oriente para a Espanha.
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Autor(es) que defendem: Moo
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Evidência (quote curto): “he writes his letter to the Romans at an important transition point in his missionary career. […] Spain, with its ‘fields ripe for the harvesting,’ beckons.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: O problema motivador foram os conflitos domésticos entre judeus e gentios, intensificados pelo impacto histórico da expulsão sob Cláudio.
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Autor(es) que defendem: Schreiner
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Evidência (quote curto): “One reason Paul wrote was to resolve conflict between Jews and gentiles in Rome”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: O déficit de entendimento da comunidade romana exigia que o evangelho fosse apresentado não apenas como inclusão de gentios, mas como uma intrusão cósmica.
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Autor(es) que defendem: Gaventa
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Evidência (quote curto): “Paul offers this good news at Rome in the hope of expanding his auditors’ understanding of the gospel.”
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Nível de confiança: alto
Propósito
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Afirmação: Estabelecer as bases do seu próprio “evangelho” para sanar divisões, defender sua teologia e obter apoio missionário.
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Autor(es) que defendem: Moo
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Evidência (quote curto): “What, then, is the theme of the letter? The gospel. […] The past battles in Galatia and Corinth; the coming crisis in Jerusalem; the desire to secure a missionary base”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: Promover a unificação da congregação em prol das missões, com o escopo último de gerar glória a Deus.
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Autor(es) que defendem: Schreiner
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Evidência (quote curto): “Paul ultimately wrote Romans as a servant of God to honor his Lord. […] God’s glory is indeed ultimate”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: Expandir o paradigma teológico para que a igreja compreenda a salvação como a retomada divina de um cosmos aprisionado.
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Autor(es) que defendem: Gaventa
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Evidência (quote curto): “It is nothing less than the reclamation of a cosmos in thrall to Sin and Death.”
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Nível de confiança: alto
Oponente Principal
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Afirmação: O principal alvo de oposição é a tendência humana persistente de atrelar a salvação às obras/esforços humanos (e da lei).
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Autor(es) que defendem: Moo
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Evidência (quote curto): “it expresses the resolute resistance of Paul… to the constant human tendency to make what people do decisive for salvation.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: O foco é reverter tensões entre fortes e fracos na igreja; há uma rejeição explícita a teorias contemporâneas que leem o Império Romano como o oponente central.
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Autor(es) que defendem: Schreiner
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Evidência (quote curto): “The anti-imperial reading can’t be sustained from the text itself.”
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Nível de confiança: alto
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Afirmação: O problema não são as tensões judaico-gentílicas isoladas, mas os verdadeiros tiranos que escravizam a humanidade: as potências do Pecado e da Morte.
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Autor(es) que defendem: Gaventa
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Evidência (quote curto): “the reclamation of a cosmos in thrall to Sin and Death.”
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Nível de confiança: alto