Análise Comparativa: Evangelho de Lucas Capítulo 9

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora com ênfase na Crítica da Redação. Bock equilibra a historicidade dos eventos com a estruturação teológica intencional de Lucas. Ele vê o texto através de uma hermenêutica que valoriza a progressão do plano divino (história da salvação).
    • Metodologia: Utiliza uma abordagem de exegese histórico-gramatical rigorosa, com forte interação com as fontes sinóticas (Q, L e Marcos). Ele foca na “ordem” dos eventos e como Lucas agrupa materiais (como a “seção central” ou narrativa de viagem) para ensinar sobre discipulado e cristologia. Ele defende a autenticidade histórica contra o ceticismo (ex: Jesus Seminar) (Bock, “The Jesus Seminar and the Gospel of Luke”).
  • Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).

    • Lente Teológica: Teologia Bíblica com foco na Tipologia do Êxodo e no cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Edwards destaca a continuidade entre a história de Israel e a missão de Jesus, vendo Jerusalém não apenas como local geográfico, mas como destino teológico divino.
    • Metodologia: Análise narrativa e literária que valoriza o hebraísmo subjacente ao texto de Lucas. Ele é crítico quanto à classificação tradicional de “narrativa de viagem”, preferindo ver a seção iniciada em 9:51 como uma descrição teológica da missão (“The Mission of Jesus as the Way of Salvation”). Ele enfatiza a cristologia do “Servo Sofredor” e a “necessidade divina” (dei) (Edwards, “Excursus: The Mission of Jesus”).
  • Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).

    • Lente Teológica: Crítica Narrativa e Sócio-Retórica. Green se afasta das discussões tradicionais de crítica das fontes (quem copiou quem) para focar no texto final como uma unidade literária coerente projetada para persuadir o leitor (“Theophilus”).
    • Metodologia: Ele analisa “necessidades narrativas” e como o texto constrói a identidade de Jesus e dos discípulos. Seu foco está em temas sociais como status, honra/vergonha, exclusão/inclusão e a formação de uma comunidade que “ouve e pratica a palavra”. Ele interpreta a viagem a Jerusalém (9:51ss) como um dispositivo para o treinamento intensivo dos discípulos (Green, “5. On the Way to Jerusalem”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Bock: A seção iniciada em Lucas 9:51 não é uma simples crônica de viagem, mas uma estrutura teológica (“Jerusalem Journey”) focada na rejeição judaica e na instrução de um “novo caminho” para os discípulos.

    • Argumento: Bock argumenta que Lucas 9:51 marca o início da seção mais longa e única de Lucas, caracterizada pela predominância de ensinamentos e parábolas sobre milagres. Ele vê o “caminho” como um dispositivo para contrastar a liderança judaica com o novo discipulado: “O material em 9:51–19:44… é unicamente lucano… A mensagem da seção parece ser que Jesus dá um novo caminho para seguir a Deus” (Bock, “IV. Jerusalem Journey”). Ele destaca que a rejeição em Samaria (9:51-56) prefigura a rejeição final, e que o discipulado exige “compromisso total” onde “os discípulos devem colocar Jesus e o reino como prioridade de vida” (Bock, “2. Warnings About Discipleship”).
  • Tese de Edwards: Lucas 9 representa o clímax da auto-revelação de Jesus aos Doze e a transição para a sua “missão como o Caminho da Salvação”, onde Jerusalém é o destino do seu “êxodo” divino.

    • Argumento: Edwards contesta a nomenclatura “narrativa de viagem” como imprópria, pois o texto carece de referências geográficas precisas; em vez disso, 9:51 inaugura uma marcha resoluta para o destino divino. Ele afirma: “A estrutura narrativa da seção central estabelece a missão de Jesus como o caminho da salvação… Em 9:51 a missão de Jesus recebe definição específica” (Edwards, “Excursus: The Mission of Jesus”). Ele enfatiza a cristologia em 9:18-22, onde Jesus é o “Cristo de Deus”, e a Transfiguração (9:28-36) como a revelação de seu “êxodo” (morte/ressurreição/ascensão) que deve ser cumprido em Jerusalém (Edwards, “8. Self-Disclosure of Jesus”).
  • Tese de Green: O capítulo 9, especialmente a partir do verso 51, serve para expor o conflito inevitável causado por Jesus e para formar discípulos cuja identidade é marcada por “ouvir e praticar a palavra de Deus” em meio à rejeição.

    • Argumento: Green foca na soteriologia universal e na reversão de status. Ele vê a viagem (9:51–19:48) servindo a cinco “necessidades narrativas”, incluindo a preparação dos discípulos para a partida de Jesus. Ele argumenta que “O discipulado como Lucas o apresentou requer uma reconstrução do eu dentro de uma nova teia de relacionamentos” (Green, “5. On the Way to Jerusalem”). Para Green, a rejeição em Samaria e as exigências radicais do discipulado (9:57-62) sublinham que seguir Jesus significa alinhar-se com o propósito de Deus, o que inevitavelmente gera divisão e requer uma reorientação total da vida, ou “arrependimento” (Green, “5.1.1. Departure for Jerusalem”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de BockVisão de EdwardsVisão de Green
Palavra-Chave/Termo Gregoἀνάλημψις (Analēmpsis) (9:51): Traduz como “ser recebido acima”, referindo-se ao complexo de eventos morte-ressurreição-ascensão, não apenas à ascensão (Bock,).Ὁδός (Hodos): Enfatiza o conceito de “Caminho” ou missão. Rejeita “Narrativa de Viagem” em favor de “A Missão de Jesus como o Caminho da Salvação” (Edwards,).ἀνάλημψις (Analēmpsis) (9:51): Interpreta como “assunção”, ligando fortemente à tipologia de Elias e à transferência do Espírito para os discípulos (Green,).
Problema Central do TextoA rejeição da liderança judaica e a necessidade de instruir os discípulos sobre a natureza do “novo caminho” em contraste com a religião estabelecida (Bock,,).A inadequação da designação “narrativa de viagem” (Schleiermacher) para uma seção sem progresso geográfico claro; o foco é o destino teológico, não o itinerário (Edwards,).A necessidade narrativa de preparar os discípulos para a partida de Jesus, dada a sua obtusidade e a inevitável divisão que Jesus causa em Israel (Green,,).
Resolução TeológicaO discipulado exige uma reorientação total de prioridades (“compromisso total”), onde seguir Jesus suplanta laços familiares e conforto (Bock,,).A “viagem” é uma estrutura teológica que define a missão de Jesus (e da igreja) como um “êxodo” ou “caminho” de sofrimento rumo à glória em Jerusalém (Edwards,).A formação de uma comunidade marcada por “ouvir e praticar a palavra”, onde a identidade é reconstruída em torno da fidelidade a Deus e não de status social (Green,,).
Tom/EstiloExegético-Crítico: Foco minucioso em crítica das fontes, variantes textuais e historicidade (Bock,).Teológico-Narrativo: Foco em tipologia do AT (Novo Êxodo) e estrutura literária (Edwards,).Sócio-Retórico: Foco na dinâmica social, honra/vergonha e função narrativa (Green,,).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Bock. Sua análise detalhada das variantes textuais (ex: “setenta” vs “setenta e dois” em 10:1) e discussões sobre historicidade (contra o Jesus Seminar) fornecem a base mais sólida para entender as questões críticas por trás do texto (Bock,,).
  • Melhor para Teologia: Edwards. Ele oferece a síntese mais coesa ao conectar a “viagem” de Lucas com a teologia do “Caminho” (hodos) e a tipologia do Êxodo/Elias, resolvendo a falta de movimento geográfico com profundidade teológica (Edwards,).
  • Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se utilizar a base exegética de Bock para ancorar o texto historicamente, aplicar a estrutura teológica de “Caminho” de Edwards para entender o propósito da seção central, e adotar a lente sócio-retórica de Green para aplicar as demandas do discipulado à formação da comunidade contemporânea.

Discipulado Radical, Cristologia do Caminho, Rejeição Judaica e Missão Universal são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Confissão de Pedro e Primeira Predição da Paixão (9:18-22)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Χριστός (Christos): Bock observa que, para Lucas, este termo carrega conotações davídicas e reais (cf. Lc 1:32-33; 2:11), embora Jesus o redefina imediatamente em termos de sofrimento. A resposta de Pedro é simples: “O Cristo de Deus” (Bock, “1. Peter’s Confession”). Edwards destaca que a justaposição “Cristo-Senhor” (em 2:11) e aqui a confissão de Pedro preparam para a compreensão de que Jesus não é apenas o Messias do Senhor, mas o Messias que é Senhor (Edwards, “2. Birth and Boyhood…”).
  • Δεῖ (Dei): Bock enfatiza que o uso de dei (“é necessário”) em 9:22 indica uma “necessidade divina” e um plano soberano por trás do sofrimento, não um acidente histórico. É uma declaração de comissão (Bock, “2. Prediction of Jesus’ Suffering”).
  • Κατὰ μόνας (Kata monas): Bock nota que Lucas é o único a mencionar que Jesus estava orando “sozinho” (embora os discípulos estivessem perto) antes da confissão, enfatizando o contexto de oração em momentos chave (Bock, “a. Prayerful Setting”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Destaca que a proibição de falar (o segredo messiânico) em 9:21 se deve ao fato de que uma confissão pública seria mal interpretada como política. Jesus quer que suas obras e as Escrituras testifiquem por ele até que a natureza do messianismo (sofrimento) seja compreendida. Ele argumenta contra Bultmann, defendendo a historicidade do relato (Bock, “Sources and Historicity”).
  • Green: (Contexto geral de 9:18-22) Foca na função narrativa da identidade. A confissão de Pedro serve para distinguir a percepção dos discípulos (“O Cristo de Deus”) da percepção das multidões (um profeta ressuscitado), criando uma divisão fundamental dentro de Israel (Green, “5. On the Way to Jerusalem”).
  • Edwards: (Embora focado no cap. 9:51 em diante nos trechos, Edwards comenta sobre a estrutura cristológica). Ele observa que a confissão de Pedro marca o ponto onde o foco muda de “quem é Jesus” para a “instrução direta dos discípulos” sobre a partida e o sofrimento de Jesus. A confissão inicia uma nova fase de revelação (Edwards, “F. Christological Confession…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Historicidade do “Segredo Messiânico”: Bock engaja diretamente com Wrede e o Jesus Seminar. Enquanto o Seminar (Funk e Hoover) rejeita o diálogo como criação da igreja, Bock defende que a centralidade da confissão messiânica no NT exige uma raiz no ministério de Jesus. Ele argumenta que Jesus redefiniu o termo, em vez de rejeitá-lo (Bock, “Sources and Historicity”).
  • O “Filho do Homem” Sofredor: Existe um debate se Jesus uniu o “Filho do Homem” (Daniel 7) com o “Servo Sofredor” (Isaías 53). Bock defende essa síntese teológica como originária de Jesus, argumentando que elementos como o Rei rejeitado (Salmo 118) e o Servo Sofredor formam a base para essa reinterpretação (Bock, “Excursus 10”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Bock identifica alusões ao Salmo 118:22 (a pedra rejeitada) na ideia de “ser rejeitado” pelos líderes em 9:22.
  • A figura do “Filho do Homem” remete a Daniel 7:13-14, mas subvertida pelo sofrimento (Bock, “Excursus 10”).

5. Consenso Mínimo

  • Os três autores concordam que este episódio marca um ponto de virada decisivo na narrativa, onde a identidade de Jesus é estabelecida (Messias) e imediatamente redefinida pelo sofrimento necessário (Paixão).

📖 Perícope: As Condições do Discipulado (9:23-27)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Καθʼ ἡμέραν (Kath’ hēmeran): Bock ressalta que apenas Lucas adiciona “dia a dia” ou “diariamente” ao comando de tomar a cruz (9:23). Isso transforma o ato de uma crise única para um discipulado contínuo e processual (Bock, “i. Call to Take Up the Cross”).
  • Ἀπαρνεομαι (Aparneomai) vs Ἀρνεομαι (Arneomai): Bock nota que Mateus e Marcos usam a forma mais intensiva (aparnēsasthō), enquanto Lucas usa o simples arnēsasthō para “negar-se”, termo que Lucas usará depois para a negação de Pedro (Bock, “i. Call to Take Up the Cross”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Interpreta “envergonhar-se” das palavras de Jesus (9:26) como uma rejeição pública de seu ensino. Ele conecta o “Filho do Homem vindo em glória” ao papel de Jesus como juiz escatológico, argumentando contra uma cristologia subordinacionista (Bock, “iii. Call Not to Be Ashamed…”).
  • Green: (Em paralelos contextuais) Enfatiza que o discipulado requer uma “reconstrução do eu” dentro de uma nova teia de relacionamentos, onde a lealdade a Jesus supera laços sociais e familiares. “Perder a vida” é reorientar a identidade (Green, “5. On the Way to Jerusalem”).
  • Edwards: Observa que a instrução sobre o discipulado segue imediatamente a confissão e a predição da paixão, indicando que a cristologia (quem Jesus é) determina o discipulado (como o seguidor age). Se o Messias sofre, o discípulo também deve sofrer (Edwards, “F. Christological Confession…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Ver o Reino de Deus (9:27): O que significa que alguns “não provarão a morte até que vejam o reino”?
    • Visão A (Escatológica Iminente): Jesus errou sobre a parusia. Bock rejeita isso veementemente.
    • Visão B (Ressurreição/Pentecostes): O reino inaugurado. Bock vê mérito aqui.
    • Visão C (Transfiguração): A visão tradicional patrística.
    • Solução de Bock: Propõe uma visão de “Padrão-Pacote” (pattern-package). A Transfiguração é uma “prévia” (sneak preview) da glória futura, garantindo que o programa do reino terminará em glória, embora comece agora (Bock, “b. The Promise that Some Will See…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Bock conecta a ideia de “ganhar o mundo inteiro” (9:25) com a tentação de Jesus no deserto (Lc 4:5-8), onde ele rejeitou os reinos do mundo oferecidos por Satanás (Bock, “ii. Call to Lose One’s Life…”).

5. Consenso Mínimo

  • O discipulado envolve uma imitação do caminho de Jesus; a cruz não é apenas para o mestre, mas o paradigma para o seguidor.

📖 Perícope: A Transfiguração (9:28-36)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἔξοδος (Exodos): Bock destaca que apenas Lucas usa este termo para descrever a morte de Jesus (9:31). Refere-se não apenas à morte, mas a todo o complexo morte-ressurreição-ascensão (“partida”), evocando a tipologia do Êxodo do AT (Bock, “9:31”). Edwards concorda, vendo Jerusalém como o local de cumprimento deste “êxodo” divino (Edwards, “8. Self-Disclosure…”).
  • Ἐκλελεγμένος (Eklelegmenos): Bock nota que Lucas muda “Amado” (Marcos/Mateus) para “O Escolhido” (9:35). Isso reforça o aspecto real e messiânico, aludindo a Isaías 42:1 (o Servo Escolhido) (Bock, “d. Heavenly Endorsement…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Aponta que Lucas omite o verbo metamorphōthē (transfigurado) usado por Marcos/Mateus, possivelmente para evitar confusões com epifanias pagãs politeístas para sua audiência helenista. Lucas prefere descrever que “a aparência do seu rosto mudou” (Bock, “9:29”). Também nota que só Lucas menciona que o evento ocorreu enquanto Jesus orava (Bock, “a. Setting”).
  • Green: (Contextual) Vê a Transfiguração como a legitimação divina do caminho de sofrimento que os discípulos rejeitam. A voz divina “Ouçam-no” (9:35) é um imperativo para aceitar o ensinamento sobre a cruz que Pedro tentou evitar (Green, “5. On the Way to Jerusalem”).
  • Edwards: Destaca que a aparição de Moisés e Elias confirma que Jesus não é apenas um sucessor, mas o cumprimento para o qual a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) apontavam. A Transfiguração revela a glória que está oculta no caminho da cruz (Edwards, “8. Self-Disclosure…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O significado das Tendas (Skenas): Por que Pedro queria construir tendas?
    • Bock: Pedro queria prolongar a experiência e possivelmente celebrar a Festa dos Tabernáculos, que tinha conotações escatológicas. O erro de Pedro foi tentar colocar Jesus no mesmo nível de Moisés e Elias (“uma para cada”), o que a voz divina corrige ao destacar Jesus como “O Filho” (Bock, “c. Peter’s Desire…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Deuteronômio 18:15: A ordem “A ele ouvi” (9:35) é uma alusão direta ao “Profeta como Moisés” prometido em Deuteronômio (Bock, “9:35”).
  • Êxodo 24 e 34: A nuvem, a montanha e a glória no rosto evocam a experiência de Moisés no Sinai, mas Jesus é apresentado como superior a Moisés (Bock, “9:29”).

5. Consenso Mínimo

  • A Transfiguração é a resposta divina à confissão de Pedro, confirmando a identidade de Jesus como Filho de Deus e validando seu caminho em direção a Jerusalém e à cruz (“êxodo”).

📖 Perícope: Rejeição Samaritana e o Caminho para Jerusalém (9:51-56)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἀνάλημψις (Analēmpsis): Bock traduz como “ser recebido acima/ascensão”. O termo é raro e refere-se à ascensão, mas engloba o complexo morte-ressurreição que a precede. Marca o início da grande “Seção de Viagem” (Bock, “a. Turning to Jerusalem”).
  • Πρόσωπον (Prosōpon): A expressão “firmou o rosto” (to prosōpon estērisen) é um semitismo (idioma hebraico) que indica determinação resoluta (Bock, “9:51”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Defende a historicidade do evento contra Bultmann, argumentando que a representação negativa dos discípulos (vingativos) e a hostilidade samaritana (que Lucas geralmente atenua, ex: Bom Samaritano) sugerem autenticidade. Bock vê a rejeição em Samaria como um prenúncio da rejeição em Jerusalém (Bock, “Sources and Historicity”).
  • Edwards: Argumenta fortemente que esta seção não deve ser chamada de “Narrativa de Viagem” (como Schleiermacher), pois falta progresso geográfico. Ele prefere “A Missão de Jesus como o Caminho da Salvação”. O foco é teológico (destino), não itinerário (Edwards, “Excursus: The Mission of Jesus”).
  • Green: Relaciona a rejeição samaritana e a resposta vingativa de Tiago e João com a tipologia de Elias (2 Reis 1). Os discípulos interpretam mal a missão de Jesus como sendo de julgamento imediato (fogo), replicando o erro de João Batista. Jesus rejeita o script de Elias aqui para estender a misericórdia (Green, “5.1.1. Departure for Jerusalem”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Variantes Textuais em 9:54-55: Bock nota que variantes textuais posteriores adicionam “como Elias fez” (v. 54) e “Vós não sabeis de que espírito sois” (v. 55). Ele argumenta que o texto mais curto (sem essas frases) é o original e que as adições foram tentativas de escribas de clarear a conexão com Elias e suavizar a repreensão (Bock, “Additional Notes”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • 2 Reis 1:10-12: O pedido de Tiago e João para “mandar descer fogo do céu” é uma citação direta da ação de Elias contra os soldados de Acazias.
  • Isaías 50:7: A expressão “firmou o rosto” ecoa a determinação do Servo Sofredor (Bock, “9:51”).

5. Consenso Mínimo

  • A viagem para Jerusalém começa sob a sombra da rejeição e da má compreensão dos discípulos sobre a natureza da missão de Jesus (misericórdia vs. julgamento).

📖 Perícope: O Custo do Discipulado (9:57-62)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Διαγγέλλω (Diangellō): Em 9:60 (“vai e anuncia”), Lucas usa este verbo específico (anunciar amplamente) em vez de kēryssō (pregar), enfatizando a difusão da mensagem do reino (Bock, “b. Warning that Proclamation…”).
  • Εὔθετος (Euthetos): Em 9:62 (“apto”), significa “usável” ou “adequado”. Bock nota que não se trata apenas de salvação, mas de utilidade para o serviço do Reino (Bock, “9:62”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Destaca que o terceiro candidato (9:61-62) é exclusivo de Lucas e tem paralelos com o chamado de Eliseu por Elias. Bock vê a resposta de Jesus (“ninguém que põe a mão no arado…”) como uma exigência de “compromisso total” que supera até os deveres familiares sagrados, sendo mais radical que o chamado de Elias (Bock, “c. Warning that Commitment…”).
  • Green: Interpreta a metáfora dos “mortos enterrando seus mortos” possivelmente através dos costumes funerários judaicos de enterro secundário (re-enterro dos ossos após um ano), o que significaria um atraso longo indefinido. Jesus rejeita essa priorização da obrigação familiar sobre o Reino (Green, “5.1.1. Departure for Jerusalem”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Literal vs. Retórico (9:60): “Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos”.
    • Bock: Argumenta que “mortos” espirituais (aqueles sem compromisso com o reino) devem enterrar os mortos físicos. É um trocadilho retórico radical para enfatizar a urgência, não uma proibição literal de funerais (Bock, “9:60”).
    • Green: Vê isso como uma redefinição radical das obrigações de parentesco. O Reino cria uma nova família que substitui as obrigações da família biológica patriarcal (Green, “5.1.1. Departure for Jerusalem”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • 1 Reis 19:19-21: O pedido para “despedir-se da família” (9:61) é um paralelo direto com Eliseu pedindo a Elias para beijar pai e mãe. A resposta de Jesus é mais exigente que a de Elias, indicando a superioridade da urgência do Reino (Bock, “9:61”).

5. Consenso Mínimo

  • Seguir Jesus exige uma reordenação radical de prioridades, onde o Reino de Deus tem precedência sobre conforto, segurança (ninhos/tocas) e até as mais sagradas obrigações familiares.