Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Lucas 7
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).
- Lente Teológica: Evangélica conservadora com forte ênfase na historicidade e na Teologia Bíblica. O autor dialoga intensamente com a crítica das formas (ex: Bultmann) e o Jesus Seminar para defender a autenticidade dos relatos.
- Metodologia: Emprega uma abordagem detalhada de análise das fontes (relação com Q e Mateus) e exegese léxico-gramatical. No capítulo 7, ele foca na estrutura literária como veículo para a cristologia, perguntando “Quem é Jesus?” e como a fé responde à sua autoridade (Bock, “First Movements to Faith…”). Ele categoriza o relato do centurião como uma “história de busca” (quest story) focada no personagem que se aproxima de Jesus (Bock, “First Movements to Faith…”).
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Narrativa e Teológica. Edwards valoriza a tipologia profética, vendo Jesus como o cumprimento das esperanças de Israel através das lentes das narrativas de Elias e Eliseu.
- Metodologia: Adota uma análise literária que destaca a “cor local” e o estilo de “diário de viagem” de Lucas 7–8. Ele observa a frequência de termos teológicos chave, especificamente a conjunção de fé e salvação, que é estatisticamente mais alta nesta seção do que em qualquer outra parte do Evangelho (Edwards, “7. Jesus Ministers…”).
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Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).
- Lente Teológica: Sócio-Científica e Narrativa. Green foca na reversão de status e na crítica aos sistemas sociais do Mediterrâneo antigo, como o sistema de patronagem e as definições de pureza/impureza.
- Metodologia: Analisa como o texto reflete e subverte as expectativas culturais agrárias e sociais da Galileia. Ele utiliza o episódio do centurião (7:1-10) como um “exemplo clássico de patronagem”, onde Jesus desafia o sistema que controla os necessitados através da dívida e obrigação, propondo uma nova economia social baseada na graça divina (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…“).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Bock: O capítulo marca um movimento da doutrina para a prática, focando na autoridade cristológica de Jesus que transcende barreiras raciais e a própria morte, exigindo uma resposta de fé humilde.
- Bock argumenta que o foco narrativo de Lucas 7 não é apenas o milagre, mas a fé do centurião que reconhece a autoridade da palavra de Jesus à distância, algo “não encontrado nem em Israel” (Bock, “First Movements to Faith…”). Ele enfatiza que a cura do filho da viúva de Naim (7:11-17) expande o escopo da autoridade de Jesus para incluir o domínio sobre a morte, levando a multidão a confessar Jesus como um “grande profeta”, comparável a Elias e Eliseu (Bock, “2. Resuscitation of a Widow’s Son…”). Bock também destaca a função apologética de assegurar a Teófilo sobre a identidade de Jesus diante das dúvidas de João Batista (Bock, “3. Questions About Jesus…”).
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Tese de Edwards: Lucas 7 apresenta encontros dramáticos que resultam em transformação, utilizando uma tipologia profética (Elias/Eliseu) para definir Jesus como o cumprimento das esperanças de Israel.
- Edwards observa que os capítulos 7 e 8 contêm um aumento de “cor local” e nomes pessoais, sugerindo um registro histórico vívido. A ênfase recai sobre a intersecção de fé e salvação, termos que aparecem com frequência única nesta seção (Edwards, “7. Jesus Ministers…”). Ele argumenta que a apresentação de Jesus, particularmente em seus milagres nesta seção, é narrada com “alusões conspícuas” aos dois maiores curandeiros de Israel, Elias e Eliseu, expressando o tema lucano de que a história de Israel é o fundamento necessário para entender Jesus (Edwards, “7. Jesus Ministers…”).
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Tese de Green: O ministério de Jesus na Galileia opera uma reversão de status que desmantela sistemas de exclusão social (como a patronagem) e redefine o “povo de Deus” para incluir os marginalizados.
- Green utiliza Lucas 7:1-10 para ilustrar a crítica de Lucas ao sistema de patronagem: os anciãos (clientes) argumentam que o centurião (patrono) é “digno” devido à sua generosidade em construir a sinagoga. Jesus, no entanto, subverte essa lógica de troca equilibrada (reciprocidade) ao responder à fé e não apenas à obrigação social (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…”). Ele destaca que Jesus atravessa fronteiras sociais para trazer “boas novas”, onde a cura e o perdão restauram o status comunitário daqueles anteriormente excluídos (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…“).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Bock | Visão de Edwards | Visão de Green |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Kyrios (Senhor). Bock destaca o uso lucano deste título em narrativas (7:13) como uma projeção da autoridade pós-ressurreição para o ministério terreno, enfatizando o domínio de Jesus sobre a vida e a morte (Bock, “2. Resuscitation of a Widow’s Son…”). | Fé e Salvação. Edwards observa que a conjunção destes dois termos (faith e salvation) é estatisticamente única nos capítulos 7–8, definindo a natureza transformadora dos encontros com Jesus nesta seção (Edwards, “7. Jesus Ministers…”). | Patronagem (Sistema de Clientes-Patronos). Green utiliza termos sociológicos para definir as relações em 7:1-10, onde a “dignidade” do centurião é medida pelos anciãos em termos de reciprocidade econômica e dívida social (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…”). |
| Problema Central do Texto | A identidade cristológica (“Quem é este?”). O foco está em validar Jesus como “Aquele que havia de vir” diante das dúvidas de João Batista e da percepção popular limitada de que ele seria apenas um “grande profeta” (Bock, “3. Questions About Jesus…”). | A desconexão entre a história de Israel e a identidade de Jesus. O problema é entender Jesus sem o fundamento da Tipologia Profética de Elias e Eliseu, figuras que moldam a narrativa dos milagres em Lucas 7 (Edwards, “7. Jesus Ministers…”). | A exclusão social baseada em pureza e dívida. O texto aborda como sistemas como a patronagem e as leis de pureza criam fronteiras que marginalizam gentios, viúvas e pecadores, impedindo o acesso à graça divina (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…”). |
| Resolução Teológica | Autoridade Messiânica. Jesus transcende a categoria de profeta; ele é o agente escatológico de Deus cujas obras (milagres) autenticam sua messianidade e exigem uma resposta de fé confiante, exemplificada pelo centurião (Bock, “3. Questions About Jesus…”). | Cumprimento Histórico-Salvífico. Jesus é apresentado como o cumprimento das esperanças de Israel, superando os maiores curadores do AT (Elias/Eliseu) e trazendo a salvação prometida através de encontros pessoais dramáticos (Edwards, “7. Jesus Ministers…”). | Reversão de Status. Jesus subverte a economia de troca (dar para receber) e estabelece uma nova comunidade baseada na graça (reciprocidade generalizada), onde a fé, e não o status social, é o critério de inclusão (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…”). |
| Tom/Estilo | Exegético-Crítico. Focado na historicidade, análise de fontes (Q, Mateus) e defesa apologética contra o Jesus Seminar (Bock, “1. Faith of a Centurion…”). | Teológico-Literário. Focado em ecos intertextuais do Antigo Testamento e na narrativa dramática como veículo de teologia (Edwards, “7. Jesus Ministers…”). | Sócio-Científico. Focado na antropologia cultural do Mediterrâneo antigo, estruturas de poder e dinâmicas de honra/vergonha (Green, “§10 Luke 4:14–9:50…“). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Green (1997) oferece o melhor background histórico-cultural, especialmente para compreender as dinâmicas sociais da Galileia, como o sistema de patronagem e a estrutura agrária que iluminam as motivações dos anciãos judeus e a posição vulnerável da viúva de Naim.
- Melhor para Teologia: Bock (1994) aprofunda melhor as doutrinas cristológicas, fornecendo uma defesa robusta da autoridade messiânica de Jesus e uma análise detalhada de como Lucas utiliza os milagres para responder à pergunta “Quem é Jesus?” diante das dúvidas escatológicas de João Batista.
- Síntese: Para uma compreensão holística de Lucas 7, deve-se integrar a análise sócio-científica de Green para entender o cenário de exclusão social e patronagem que Jesus desafia, a leitura literária de Edwards para captar a rica tipologia de Elias/Eliseu que estrutura a narrativa, e a exegese detalhada de Bock para fundamentar a autoridade cristológica e a historicidade dos relatos. Juntos, eles revelam um Jesus que, operando dentro das expectativas proféticas de Israel (Edwards), subverte as hierarquias sociais de seu tempo (Green) com uma autoridade divina única que demanda fé (Bock).
Cristologia Profética, Patronagem, Autoridade Messiânica e Reversão de Status são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Fé do Centurião (Versículos 7:1-10)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ayios (Digno): Termo central no debate. Os anciãos descrevem o centurião como axios (digno) em 7:4. Bock nota que esta é a única vez no NT que o termo é usado positivamente para um indivíduo específico, descrevendo mérito social (Bock, “ii. The Centurion is Worthy”). Green interpreta este termo dentro do sistema de reciprocidade: ele é “digno” porque construiu a sinagoga; é uma troca de favores (Green, “§10 Luke 4:14–9:50”).
- Entimos (Precioso/Honrado): Em 7:2, o escravo é descrito como entimos. Bock debate se significa “valioso” como um ativo financeiro ou “querido” afetivamente. Ele conclui que, dado o caráter moral do centurião, “querido” ou “estimado” é preferível, indicando uma relação humana sensível (Bock, “a. Setting…”).
- Pais vs. Doulos: Lucas usa doulos (escravo) e pais (menino/servo). Bock observa que pais em 7:7 implica claramente “servo” neste contexto, alinhando-se com Mateus 8, e destaca a humildade do centurião que se preocupa com um subordinado (Bock, “ii. Authority…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Bock]: Destaca a estrutura literária como uma “história de busca” (quest story), onde o foco narrativo não é o milagre em si, mas a persona que busca Jesus. Ele nota um detalhe retórico exclusivo de Lucas: a inclusão de duas delegações (anciãos judeus e amigos), argumentando que isso não é uma invenção literária, mas reflete uma tradição que enfatiza a cooperação judaico-gentílica e a humildade do centurião em não se julgar digno de encontrar Jesus pessoalmente (Bock, “Sources and Historicity”, “i. I Am Not Worthy”).
- [Green]: Aplica uma análise sócio-científica rigorosa sobre o sistema de Patronagem. Ele observa que os anciãos judeus (clientes) intercedem pelo centurião (patrono) baseados na ética de reciprocidade (“ele ama nossa nação e construiu a sinagoga”). A contribuição única de Green é mostrar como Jesus subverte esse sistema: a cura não vem como pagamento de uma dívida social (o mérito do centurião), mas pela fé que transcende a lógica de troca (Green, “§10 Luke 4:14–9:50”).
- [Edwards]: Foca na teologia da distância. Ele nota que os capítulos 7–8 funcionam como um “diário de viagem” com forte cor local. Sua ênfase recai sobre como a fé do centurião é elogiada precisamente porque não exige a presença física (“cor local”) de Jesus, contrastando com a necessidade de sinais visíveis frequentemente exigida por Israel (Edwards, “7. Jesus Ministers…”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da “Dignidade”: Existe uma tensão entre a visão dos anciãos e a de Jesus.
- Bock interpreta a intercessão dos judeus apologeticamente: Lucas quer mostrar que judeus e gentios podem cooperar e que o centurião era um “temente a Deus” ou simpatizante (Bock, “ii. The Centurion is Worthy”).
- Green vê a intercessão de forma mais crítica: ela representa a velha ordem social de dívida e obrigação, que Jesus ignora ao responder à fé do centurião e não ao lobby dos anciãos (Green, “§10 Luke 4:14–9:50”).
- A Segunda Delegação:
- Muitos críticos (citados por Bock) veem o envio dos “amigos” em 7:6 como uma adição literária de Lucas para evitar que Jesus entre na casa de um gentio.
- Bock refuta isso vigorosamente, argumentando que a hesitação do centurião é puramente por humildade e consciência de autoridade, não por pureza ritual, já que Jesus estava disposto a ir (Bock, “i. I Am Not Worthy”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Bock identifica ecos de Salmo 107:20 (“Enviou a sua palavra e os sarou”) na confiança do centurião de que a mera palavra de Jesus basta (Bock, “ii. Authority…”).
- A figura do centurião é vista por Bock e Green como um eco reverso de Naamã, o Sírio (2 Reis 5), um militar gentio que buscou o profeta de Israel, embora aqui a fé seja maior e imediata.
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que o foco da perícope não é a cura miraculosa em si, mas a natureza exemplar da fé do centurião, que reconhece a autoridade absoluta de Jesus.
📖 Perícope: A Viúva de Naim (Versículos 7:11-17)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Splanchnizomai (Compaixão): Lucas descreve que o Senhor “se moveu de íntima compaixão” (7:13). Bock nota que este termo é atribuído a Jesus nos sinóticos, mas Lucas o usa aqui para enfatizar que a iniciativa do milagre foi inteiramente de Jesus, sem pedido prévio (Bock, “b. Jesus’ Healing…”).
- Kyrios (Senhor): Em 7:13, Lucas refere-se a Jesus como “o Senhor” (ho Kyrios) na narrativa. Bock destaca que este é o primeiro uso narrativo absoluto deste título em Lucas (antes da ressurreição), projetando a autoridade do Cristo exaltado para o ministério terreno (Bock, “b. Jesus’ Healing…”).
- Epeskepsato (Visitou): A multidão clama que Deus “visitou” (epeskepsato) seu povo (7:16). O termo carrega peso teológico de intervenção divina salvífica, ecoando o Benedictus de Zacarias em 1:68 (Bock, “c. Public Confession…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Bock]: Destaca o aspecto jurídico/social da viúva. Ele observa que ela é uma “mãe órfã”, tendo perdido o marido e agora o único filho (monogenes), o que a deixava socialmente indefesa e economicamente destituída. A compaixão de Jesus é tanto emocional quanto uma restauração de sua proteção social (Bock, “a. Setting…”).
- [Edwards]: Enfatiza a Tipologia Elias/Eliseu. Ele argumenta que a narrativa é modelada intencionalmente sobre 1 Reis 17 (Elias e a viúva de Sarepta). Edwards aponta que a aclamação “um grande profeta” (7:16) é uma identificação direta de Jesus com a linha profética de Elias, mas com uma autoridade superior (“Eu te digo, levanta-te”, em contraste com o esforço físico de Elias) (Edwards, “7. Jesus Ministers…”).
- [Green]: Foca na geografia simbólica. Ele nota a importância de “cidade” versus “aldeia” na estrutura social, e como a morte ameaça a continuidade da comunidade. A restauração do filho é uma reintegração da viúva à estrutura da cidade, revertendo sua marginalização (Green, “§10 Luke 4:14–9:50”; cf. Source 188).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Identidade Profética vs. Messiânica:
- A multidão chama Jesus de “grande profeta”. Bock adverte que isso é uma compreensão incompleta. Embora paralela a Elias, a confissão do povo não atinge a plenitude da messianidade que Lucas quer retratar; é uma etapa de percepção (Bock, “c. Public Confession…”).
- Edwards parece ver essa identificação profética de forma mais positiva, como o cumprimento necessário da tipologia do AT que prepara o caminho para o entendimento messiânico (Edwards, “7. Jesus Ministers…”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- 1 Reis 17:17-24 (Elias e a Viúva de Sarepta): Bock nota o paralelo verbal exato na frase “e o entregou à sua mãe” (Lc 7:15 / 1 Rs 17:23).
- 2 Reis 4 (Eliseu e a Sunamita): Ambos os autores reconhecem os ecos da ressurreição do filho da Sunamita, reforçando o motivo do “grande profeta”.
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que Lucas modelou esta narrativa para evocar os ministérios de Elias e Eliseu, apresentando Jesus como o portador da visitação escatológica de Deus que tem autoridade sobre a morte.
📖 Perícope: João Batista e a Identidade de Jesus (Versículos 7:18-35)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ho Erchomenos (Aquele que vem): Título usado por João em 7:19. Bock argumenta que este é um título messiânico claro, derivado do Salmo 118:26 e Daniel 7:13, e não apenas uma referência a um precursor ou profeta genérico (Bock, “i. Setting…”).
- Skandalizomai (Escandalizar-se/Tropeçar): Em 7:23, Jesus diz “bem-aventurado quem não se escandalizar em mim”. Bock define isso como ser “apanhado em uma armadilha” metaforicamente, referindo-se à rejeição das reivindicações messiânicas de Jesus por elas não se alinharem às expectativas de julgamento imediato (Bock, “iv. Jesus’ Reply…”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Bock]: Defende a historicidade da dúvida de João. Contra intérpretes que veem a pergunta de João como pedagógica (para ensinar seus discípulos), Bock insiste que a dúvida é real e embaraçosa (“Embarrassing honesty makes its historicity likely”). João esperava o juízo de fogo (o machado na raiz), e Jesus estava trazendo cura e graça; a dissonância cognitiva gerou a dúvida (Bock, “i. Setting…”).
- [Green]: Analisa a acusação de “glutão e bebedor” (7:34) sob a ótica da comensalidade. Ele nota que Jesus é rejeitado pelos líderes religiosos (Fariseus/Advogados) porque sua prática de mesa inclusiva (comer com pecadores) ameaçava as fronteiras sociais de pureza que eles mantinham. A “sabedoria” de Deus é justificada por aqueles (os “filhos”) que aceitam essa nova configuração social (Green, “§10 Luke 4:14–9:50”; cf. Source 293).
- [Edwards]: (Inferido da tese geral) Destaca a tensão escatológica. João representa a “Antiga Aliança” no seu ápice, mas o “menor no Reino” (a nova era inaugurada por Jesus) é maior posicionalmente.
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Resposta de Jesus (7:22):
- Jesus lista seus milagres (cegos veem, coxos andam). Bock debate se a resposta é velada ou explícita. Ele conclui que é uma afirmação messiânica implícita mas clara para quem conhece Isaías: as obras do tempo do fim estão acontecendo, logo, o Messias chegou (Bock, “iv. Jesus’ Reply…”).
- O “Jesus Seminar” (citado e refutado por Bock) classifica 7:22 como criação da igreja primitiva (preto). Bock contra-argumenta que o estilo indireto é típico do Jesus histórico (Bock, “Sources and Historicity”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 35:5-6 e 61:1: Bock identifica estes textos como a base da resposta de Jesus a João (“os cegos veem… os pobres são evangelizados”). A omissão do “dia da vingança” de Isaías 61:2 é crucial para explicar a confusão de João (Bock, “iv. Jesus’ Reply…”).
- Malaquias 3:1: Citado em 7:27 para definir João como o mensageiro precursor (Bock, “ii. John Described…”).
5. Consenso Mínimo
- Os autores concordam que Jesus redefine a expectativa messiânica: ele é o Messias (“Aquele que vem”), mas seu ministério é caracterizado por misericórdia e cura (Isaías 61) em vez do julgamento imediato que João Batista antecipava.