Análise Comparativa: Lucas 6

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Dispensacionalismo Progressivo. Bock opera dentro de uma estrutura que valoriza a historicidade dos eventos, defendendo a autenticidade dos ditos de Jesus contra o ceticismo moderno (ex: Jesus Seminar). Sua teologia reflete uma escatologia do “já e ainda não”, vendo o Reino como inaugurado mas não consumado.
    • Metodologia: Crítica Histórico-Gramatical e Crítica das Fontes. Bock dedica espaço significativo para discutir a relação sinótica (Q, Mateus vs. Lucas), a historicidade do Sermão da Planície (se é o mesmo evento do Sermão do Monte) e a análise filológica detalhada de termos gregos. Ele interage extensivamente com a literatura secundária crítica.
  • Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Confessional. A série Pillar busca evitar detalhes técnicos excessivos para focar na exegese rigorosa combinada com teologia bíblica. Edwards enfatiza a autoridade divina de Jesus agindo na história e a continuidade da história da salvação.
    • Metodologia: Exposição Teológica e Narrativa. Edwards foca no fluxo do texto e no seu significado para a fé e o discipulado. Ao contrário de Bock, que disseca as fontes, Edwards está mais interessado na orquestração temática de Lucas (“como uma sinfonia”), observando como a narrativa expande o ministério de Jesus de “um para muitos” no capítulo 6.
  • Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).

    • Lente Teológica: Evangélica (Tradição Wesleyana/Holiness) / Nova Hermenêutica. Green foca na transformação social, na santidade como reorientação comunitária e na inversão de status (reversão escatológica).
    • Metodologia: Crítica Narrativa e Crítica Sócio-Científica. Green se destaca por aplicar modelos antropológicos do Mediterrâneo do século I (honra/vergonha, patronagem, reciprocidade, pureza). Ele deliberadamente deixa de lado questões de fontes (como a Fonte Q) para focar na “comunidade do texto” e como Lucas constrói um novo mundo simbólico para o leitor.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Bock: O capítulo 6 apresenta a ética do discipulado fundamentada na graça e na esperança escatológica, onde o Sermão da Planície é tratado como um resumo histórico autêntico (provavelmente o mesmo evento do Sermão do Monte) que chama o crente a uma justiça superior baseada no amor e na misericórdia.

    • Argumento: Bock argumenta exaustivamente contra a visão de que o sermão é uma “ética interina” ou impossível, definindo-o como “a ética do crente” aplicável hoje (Bock, "Excursus 7"). Ele enfatiza que as bem-aventuranças são “um convite ou uma promessa de aceitação” que fundamentam a ética na graça (Bock, "The Beatitudes form an invitation"). Ele defende a historicidade das palavras de Jesus contra o Jesus Seminar, afirmando que “Lucas tem muito mais a nos oferecer sobre o Jesus histórico” (Bock, "The Jesus Seminar and the Gospel of Luke").
  • Tese de Edwards: O capítulo 6 marca uma expansão estratégica na história da salvação, onde a autoridade soberana de Jesus transborda de um ministério solitário para a formação e instrução dos Doze, orquestrada através da oração como sinal de intervenção divina.

    • Argumento: Edwards vê o capítulo como uma progressão: “Seu ministério se expande de um ministério de um para um ministério de muitos — e para muitos” (Edwards, "6. Jesus Calls and Instructs"). Ele destaca a função teológica da oração de Jesus antes de escolher os doze: “Em Lucas, a oração tipicamente sinaliza um novo estágio na história da salvação” (Edwards, "6. Jesus Calls and Instructs"). Para Edwards, o foco é a autoridade de Jesus em redefinir o judaísmo e o Sábado, agindo “não apenas em nome de Deus, mas como Deus” (Edwards, "6. Jesus Calls and Instructs").
  • Tese de Green: O capítulo 6 narra o desmantelamento da visão de mundo convencional (baseada em exclusão e reciprocidade equilibrada) e a constituição de uma nova comunidade definida pela “reciprocidade generalizada” (dar sem esperar retorno), imitando a misericórdia de Deus Pai.

    • Argumento: Green utiliza análise sociológica para mostrar que Jesus rejeita a ética patronal do Império Romano e das aldeias camponesas. Ele argumenta que Jesus “sabota a política do Império” ao identificar Deus, e não o imperador ou a elite, como o Grande Benfeitor (Green, "4.3.2.3 On Giving and Receiving"). Sobre o Sábado (6:1-11), Green enfatiza que Jesus “recusa representar a observância do Sábado como um teste decisivo para a fidelidade a Deus”, focando na restauração humana (Green, "4.2.5 Concerning the Sabbath"). A ênfase está na “reversão de status” onde os pobres e excluídos são os destinatários primários do Reino.

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Bock (1994)Visão de Edwards (2015)Visão de Green (1997)
Palavra-Chave/Termo GregoMakarios (Bem-aventurado): Define não apenas como felicidade emocional, mas como um reconhecimento objetivo de um estado de graça e aceitação por Deus, muitas vezes em contraste com as circunstâncias atuais (Bock, p. 572; 6:20).Apostolos (Apóstolo): Enfatiza o termo como “representante autorizado”, destacando que Jesus transfere sua autoridade divina para os Doze, criando uma nova liderança para Israel (Edwards, p. 182; 6:13).Charis (Graça/Crédito): Reinterpreta o termo em 6:32-34 não como “mérito”, mas como “crédito” ou “benefício” dentro do sistema de troca social, contrastando a troca calculada com a generosidade divina (Green, p. 273; 6:32).
Problema Central do TextoA relação literária e histórica entre o Sermão da Planície (Lucas) e o Sermão do Monte (Mateus). Questiona se são o mesmo evento e como harmonizar as diferenças de conteúdo e extensão (Bock, "Excursus 7").A expansão da autoridade de Jesus. O problema é como o ministério transita de uma atuação solitária e miraculosa para a formação de uma comunidade que reflete o caráter de Deus (Edwards, "6. Jesus Calls...").A manutenção de fronteiras sociais excludentes. O problema é a visão de mundo convencional baseada em honra, vergonha e reciprocidade equilibrada que marginaliza os pobres e pecadores (Green, "4.3.2 The Status...").
Resolução TeológicaÉtica do Crente: O sermão é um chamado ético para discípulos que já responderam à graça (indicativo precede imperativo). As bem-aventuranças são convites de graça, não requisitos legalistas para salvação (Bock, "Theological Function").Orquestração Divina: A oração de Jesus (6:12) sinaliza uma intervenção direta de Deus na história, escolhendo os Doze para estender o ministério de “um para muitos”, agindo com a autoridade do próprio Deus (Edwards, "6. Jesus Calls...").Reciprocidade Generalizada: Jesus substitui a ética de patronagem (dar para receber) pela ética da família de Deus (dar sem esperar nada), baseada na imitação da misericórdia do Pai, criando uma comunidade de fronteiras porosas (Green, "4.3.2.3 On Giving...").
Tom/EstiloCrítico-Exegético: Focado na precisão gramatical, variantes textuais e debate com a alta crítica (ex: criticando o Jesus Seminar).Teológico-Narrativo: Focado no fluxo da história da salvação e na cristologia devocional, com menos tecnicismo filológico.Sócio-Retórico: Focado na antropologia cultural do Mediterrâneo antigo (dinâmicas de poder, economia e status social).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Green oferece a reconstrução mais vívida do cenário do século I. Enquanto Bock foca no contexto literário (relação Sinótica), Green ilumina o contexto cultural (significado de “pobre”, “pecador” e “reciprocidade” na sociedade agrária da Palestina), permitindo que o leitor moderno entenda o impacto social radical dos ensinamentos de Jesus (Green, "4. Ministry in Galilee").
  • Melhor para Teologia: Edwards se destaca por conectar a narrativa a uma teologia bíblica robusta da autoridade divina. Ele articula melhor como o capítulo 6 serve de pivô na identidade de Jesus, movendo-se da demonstração de poder (Cap. 5) para a delegação de autoridade e formação eclesiológica (Edwards, "6. Jesus Calls...").
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Lucas 6, deve-se utilizar Bock para estabelecer a base exegética e defender a autenticidade dos ditos de Jesus contra o ceticismo crítico; Green para “colorir” o texto com as realidades sociais da patronagem e da inversão de status, entendendo o custo social do discipulado; e Edwards para integrar esses elementos em uma visão coerente da história da salvação, onde Jesus, através da oração e do ensino, constitui o novo povo de Deus. Juntos, eles revelam um capítulo que é simultaneamente um documento histórico confiável, um manifesto social revolucionário e uma revelação divina autoritativa.

Ética do Crente, Reciprocidade Generalizada, História da Salvação e Reversão de Status são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: O Senhor do Sábado (6:1–11)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Sabbaton (Sábado): O termo aparece seis vezes nesta seção. Para Green, o sábado funcionava como um “marcador de identidade” judaica e um mecanismo de fronteira social, mais do que apenas uma regra temporal (Green, "4.2.5 Concerning the Sabbath").
  • Kyrios tou Sabbatou (Senhor do Sábado): A reivindicação de Jesus no verso 5 é central. Bock enfatiza que este título coloca a autoridade cristológica acima da tradição mosaica interpretada (Bock, "4. Rise of Opposition").
  • Exousia (Autoridade): Edwards nota que Jesus age não como um transmissor da tradição, mas com a autoridade soberana do próprio Deus para redefinir o mandamento da criação (Edwards, "5. Jesus — the Authority...").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Green: Destaca que a controvérsia não é sobre “legalismo vs. liberdade”, mas sobre quem interpreta corretamente a vontade de Deus. Ele nota que os fariseus assumem uma interpretação do sábado como “sabedoria convencional” indiscutível para manter a solidariedade do grupo. Jesus, ao curar, “restaura ao mandamento do sábado seu significado profundo: a restauração dos seres humanos na sua integridade” (Green, "4.2.5 Concerning the Sabbath").
  • Edwards: Foca na natureza divina da autoridade. Para ele, Jesus não apenas desafia as autoridades religiosas, mas “reconstitui o próprio Judaísmo”. Edwards argumenta que Jesus age como um “comandante no quartel-general” que emite a tradição com nova autoridade, em contraste com os escribas que são meros transmissores (Edwards, "5. Jesus — the Authority...").
  • Bock: Ressalta a inevitabilidade do conflito. Ele observa que esta seção conclui uma série de cinco controvérsias (começando em 5:17), movendo-se do simples protesto para uma resolução ativa dos fariseus de destruir Jesus. A ênfase recai sobre a cristologia: o Filho do Homem tem autoridade para determinar o que agrada a Deus (Bock, "4. Rise of Opposition").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza da Violação:
    • Green detalha que colher espigas (Dt 23:25) não era roubo, mas foi redefinido pela tradição escriba como “colheita”, “debulha” e “peneiração”, tornando-se trabalho proibido. O conflito é hermenêutico (Green, "4.2.5").
    • Bock e Edwards concordam, mas enfatizam mais a provocação deliberada de Jesus. Em 6:6-11 (o homem da mão ressequida), a cura não era urgente (não havia risco de vida), então Jesus poderia ter esperado. Ao curar no sábado, ele “deliberadamente engaja os escribas numa confrontação” (Green, "4.2.5").
  • A Analogia de Davi (6:3-4):
    • Green sugere que Jesus usa a história para mostrar que ele, como Davi, entende que a necessidade humana (fome) supera o ritual, reivindicando uma “autoridade interpretativa” sobre as Escrituras (Green, "4.2.5").
    • Bock tende a ver aqui uma tipologia messiânica mais forte: se Davi (o ungido) pôde fazer isso, quanto mais o Filho do Homem (Bock, "4. Rise of Opposition").

4. Ecos do Antigo Testamento

  • 1 Samuel 21:1-6: Citado explicitamente por Jesus (v. 3-4) sobre Davi e os pães da proposição.
  • Deuteronômio 23:25: A permissão para colher espigas com a mão na vinha do próximo.
  • Levítico 24:5-9: As regras sobre os pães da proposição.

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que Jesus não anulou o Sábado, mas reivindicou autoridade suprema para definir seu propósito como a restauração e o bem-estar humano, provocando a ruptura com a liderança religiosa.

📖 Perícope: A Escolha dos Doze (6:12–16)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Apostolos (Apóstolo): Green define como “representantes autorizados”. A distinção entre “discípulos” (grupo maior) e “apóstolos” (os doze) sinaliza uma nova liderança para Israel (Green, "4.3.1 The Calling...").
  • Proseuchē (Oração): O termo é enfático no v. 12.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Edwards: Observa a estrutura sinfônica: o ministério expande de “um para muitos”. Ele destaca que a oração prolongada de Jesus (v. 12) em Lucas “tipicamente sinaliza um novo estágio na história da salvação” (Edwards, "6. Jesus Calls...").
  • Green: Enfatiza a topografia teológica. Jesus sobe à “montanha” (v. 12), local associado a teofanias e revelação divina. A escolha não é pragmática, mas “divinamente sancionada”. Green também nota a ironia na lista: Judas é introduzido prolepticamente como “traidor”, criando suspense e aviso ao leitor (Green, "4.3.1 The Calling...").
  • Bock: Observa o padrão estrutural de Lucas: Cenas de chamado alternadas com oposição. A escolha dos Doze solidifica o grupo que será a base da nova comunidade (Bock, "B. Gathering of Disciples").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Simbolismo dos Doze:
    • Há um consenso geral de que representam o Novo Israel (as 12 tribos).
    • Green acrescenta uma nuance de julgamento: a escolha dos Doze sinaliza um julgamento sobre a liderança atual de Israel (fariseus/escribas) por sua falha em entender o plano redentor (Green, "4.3.1 The Calling...").

5. Consenso Mínimo

  • A escolha dos Doze é um ato soberano fundamentado na oração e na vontade de Deus, estabelecendo a liderança da futura comunidade messiânica.

📖 Perícope: Sermão da Planície - Cenário e Bem-Aventuranças (6:17–26)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Topou Pedinou (Lugar Plano/Planície): Em contraste com o “Monte” em Mateus.
  • Ptōchos (Pobre): Termo central do debate.
    • Bock: “Pobres piedosos” (Anawim), aqueles que dependem de Deus, embora o elemento socioeconômico esteja presente (Bock, "6:20").
    • Green: Define “pobre” holisticamente como aqueles de “baixo status”, marginalizados por educação, gênero ou pureza, não apenas economia. É uma categoria de “excluídos” (Green, "4.3.2.2 Blessing and Woe").
  • Ouai (Ai): Green chama isso de “anti-bem-aventuranças” que funcionam como lamentos proféticos (Green, "4.3.2.2").

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Dedica extenso espaço à harmonização com Mateus. Ele argumenta que “lugar plano” pode ser um platô na montanha, sugerindo que é o mesmo evento do Sermão do Monte. Ele defende a historicidade das palavras de Jesus contra o Jesus Seminar, que rejeita os “ais” como inautênticos (Bock, "Excursus 7"; "Sources... 6:20-26").
  • Green: Introduz o conceito de “Topos de Transposição” (Reversão). Ele conecta as bem-aventuranças diretamente ao Magnificat de Maria (1:46-55). Para Green, Jesus está redefinindo a realidade: o Reino de Deus pertence aos pobres agora (presente), desafiando a visão de mundo convencional onde riqueza era sinal de bênção (Green, "4.3.2.2").
  • Edwards: Foca na audiência mista. Jesus fala aos discípulos, mas na presença de multidões de “toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sidom”, indicando o alcance universal (judeus e gentios) do evangelho desde o início (Edwards, "6. Jesus Calls...").

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Mateus vs. Lucas (Espiritual vs. Social):
    • Bock: Vê a versão de Lucas (apenas “pobres”) e Mateus (“pobres de espírito”) como complementares. Lucas preserva a forma original mais curta, mas o sentido espiritual está implícito pelo contexto de perseguição (v. 22) (Bock, "6:20").
    • Green: Rejeita a espiritualização rápida. Insiste que “Rico” e “Pobre” são construtos sociais de poder e privilégio. Jesus está atacando o sistema de status do Mediterrâneo antigo. A riqueza é perigosa porque gera autossuficiência e isolamento (Green, "4.3.2.2").

4. Ecos do Antigo Testamento

  • Isaías 61:1-2: O programa de “boas novas aos pobres” (citado em Lc 4:18) é a base das Bem-Aventuranças.
  • Jeremias/Miqueias: Os “Ais” (6:24-26) ecoam os lamentos proféticos contra os falsos profetas e os ricos opressores.

5. Consenso Mínimo

  • As bem-aventuranças anunciam uma reversão escatológica onde os valores de Deus contradizem os valores do mundo atual; os dependentes de Deus são abençoados, e os autossuficientes estão em perigo.

📖 Perícope: Amor Radical e Misericórdia (6:27–38)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Agapaō (Amar): Amor aos inimigos (v. 27).
  • Charis (Graça/Crédito): No v. 32 (“que recompensa tereis?”), Green nota que charis aqui significa “crédito” ou “benefício” dentro do sistema de reciprocidade (Green, "4.3.2.3").
  • Oiktirmōn (Misericordioso): O atributo central de Deus a ser imitado (v. 36), paralelo ao “perfeito” de Mateus 5:48.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Green: Oferece uma análise sociológica profunda. Ele contrasta a “reciprocidade equilibrada” (dar para receber, ética de patronagem) com a “reciprocidade generalizada” (dar sem esperar retorno, ética de família/parentesco). Jesus está sabotando a “política do Império” ao substituir o Imperador (o grande Benfeitor) por Deus Pai, que é bondoso até com os ingratos (Green, "4.3.2.3 On Giving...").
  • Bock: Define esta seção como a “Ética do Crente” (similar a 1 Coríntios 13). Ele argumenta contra a visão de que isso é uma “ética interina” impossível. Para Bock, o comando de “não julgar” (v. 37) não proíbe avaliação moral, mas proíbe uma atitude de condenação hipócrita, ligando-o à misericórdia de Deus (Bock, "Theological Function"; "6:37-38").
  • Edwards: (Inferido do contexto geral) O chamado ao amor radical é possível apenas através da nova relação com o Pai revelada por Jesus.

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Regra de Ouro (6:31):
    • Green observa que, na cultura helenista, a Regra de Ouro era contextualizada na reciprocidade (“faça para ser tratado bem”). Jesus radicaliza isso ao remover a expectativa de retorno no contexto imediato (amar inimigos que não retribuirão) (Green, "4.3.2.3").
    • Bock foca no aspecto ético-pessoal de tratar os outros proativamente, vendo paralelos no judaísmo (Hillel), mas notando a forma positiva única de Jesus (Bock, "Sources... 6:27-38").

4. Ecos do Antigo Testamento

  • Levítico 19: O amor ao próximo é expandido para incluir o inimigo.
  • Miqueias 6:8: A ética do crente de “amar a misericórdia”.

5. Consenso Mínimo

  • A ética de Jesus exige um amor que transcende a reciprocidade humana natural, fundamentando-se na imitação da misericórdia de Deus para com os ingratos e maus.

📖 Perícope: Os Dois Alicerces (6:39–49)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Hypokrita (Hipócrita): Aquele que julga o cisco no olho alheio mas ignora a trave no seu (v. 42).
  • Poieō (Fazer/Praticar): A ênfase final recai sobre a obediência ativa, não apenas a audição (v. 46-49).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Bock: Interpreta a parábola da casa como um chamado à sabedoria escatológica. “Ouvir e fazer” é a única estabilidade diante do julgamento (a inundação). Ele conecta a árvore e seus frutos (v. 43-45) à cristologia: a obediência é a evidência da transformação interna (Bock, "6:47-48").
  • Green: Vê a conclusão como um teste de lealdade. Chamar Jesus de “Senhor” (v. 46) sem obediência é uma contradição de honra. A parábola final reforça que a nova comunidade é definida não por limites étnicos ou rituais, mas pela prática das palavras de Jesus (Green, "4.3.2 The Status...").

5. Consenso Mínimo

  • A verdadeira identidade do discípulo é revelada pela obediência prática aos ensinamentos de Jesus; a confissão verbal sem ação resulta em ruína.