Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Lucas 23
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora com forte ênfase na historicidade e na harmonização dos relatos evangélicos. O autor opera dentro de uma tradição que valoriza a confiabilidade histórica do texto lucano.
- Metodologia: Utiliza uma abordagem histórico-gramatical rigorosa. Bock dedica espaço considerável à crítica das fontes (relação com Marcos e fontes especiais L), análise lexical detalhada (ex: o significado de diastrephō ou anaseiō) e discussão sobre a verossimilhança histórica dos procedimentos legais romanos e judaicos. Ele busca resolver discrepâncias cronológicas e processuais entre os Sinóticos.
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Evangélica, com foco na exposição teológica acessível, mas academicamente informada. O autor demonstra interesse particular nas conexões com o contexto hebraico (hipótese do Evangelho Hebraico, embora menos proeminente na análise direta de Lucas 23 do que na introdução geral).
- Metodologia: Adota uma exegese teológico-literária. Edwards foca no fluxo narrativo e no desenvolvimento dos personagens (excursus sobre Pilatos e Herodes), destacando a ironia e os temas teológicos maiores (Reino de Deus, Cristologia) em vez de se deter exaustivamente na micro-sintaxe. Ele equilibra a análise histórica com a aplicação teológica para a igreja.
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Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).
- Lente Teológica: Crítica Literária e Narrativa (Narrative Criticism). Green lê o texto como uma unidade narrativa coesa, focando em como a história persuade e forma a identidade do leitor.
- Metodologia: Emprega a análise narrativa e sócio-retórica. Ao contrário de Bock, Green está menos preocupado com a harmonização histórica ou as fontes por trás do texto e mais focado na “encenação” (staging), nos conflitos de poder, na caracterização social (ex: o papel das multidões versus líderes) e na intertextualidade com o Antigo Testamento (ex: o Servo Sofredor e o Justo Sofredor).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Bock: O julgamento e morte de Jesus em Lucas retratam-no como o Inocente que, embora vítima de uma injustiça judicial impulsionada pela liderança judaica, mantém o controle soberano sobre seu destino em obediência ao plano divino.
- Bock argumenta que o tema dominante é “o Inocente imolado” (Bock, “V. Jerusalem: The Innocent One…”). Ele enfatiza que Jesus não é uma vítima passiva do destino, mas que “Deus permite que as forças do mal operem sua vontade por um tempo” (Bock, “Summary 22:47-53”). Bock detalha meticulosamente as acusações legais em Lucas 23:2, notando que apenas Lucas lista as acusações específicas (perverter a nação, proibir impostos, pretensão real) para demonstrar a natureza política calculada do ataque judaico (Bock, “4. Trial Before Pilate”). Ele defende a historicidade do julgamento diante de Herodes contra críticos que o veem como criação lucana (Bock, “5. Trial Before Herod”).
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Tese de Edwards: O julgamento de Jesus expõe a falência moral dos poderes políticos (Pilatos e Herodes) e religiosos, enquanto ironicamente revela a verdadeira identidade de Jesus como Rei e Messias através da zombaria e da rejeição.
- Edwards foca na caracterização dos governantes. Ele argumenta que Lucas oferece um retrato “moderado” de Pilatos não para inocentar Roma, mas para mostrar um governante “relutante e intolerante” que cede à injustiça por conveniência (Edwards, “Excursus: Pontius Pilate…”). Sobre Herodes Antipas, Edwards destaca que seu desejo de ver um “sinal” revela sua superficialidade; quem busca apenas o espetáculo acaba por zombar de Deus (Edwards, “Excursus… Herod Antipas”). Edwards vê na crucificação a confirmação irônica da realeza de Jesus, onde a inscrição na cruz e os insultos proclamam inadvertidamente a verdade teológica (Edwards, “21. Trial and Crucifixion”).
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Tese de Green: A Paixão é o clímax do conflito cósmico e social, onde “alianças profanas” (Roma, líderes judeus e, temporariamente, o povo) se formam contra o Justo Sofredor, cuja morte é interpretada como o cumprimento necessário do propósito redentor de Deus e o modelo de discipulado.
- Green destaca a estrutura de conflito e reversão. Ele observa a “formação e desformação de alianças profanas”, onde o povo, antes protetor de Jesus, une-se aos líderes para pedir sua morte, apenas para se distanciar novamente na crucificação (Green, “7. The Suffering and Death of Jesus”). A ênfase recai sobre Jesus como o Profeta Régio e o Servo de Yahweh. Green argumenta que a declaração de inocência por Pilatos não serve para exonerar Roma, mas para destacar a insistência implacável da liderança judaica, cujas “vozes prevaleceram” num teste de vontades (Green, “7.5.4. The Sentencing of Jesus”). A morte de Jesus é vista teocentricamente: Deus responde à hostilidade rasgando o véu do templo, invalidando sua autoridade sagrada em favor de uma missão universal (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Bock (1994) | Visão de Edwards (2015) | Visão de Green (1997) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Diastrephō (Lc 23:2). Bock define não apenas como “perverter”, mas funcionalmente como “desencaminhar” ou “enganar” a nação, observando que a liderança reverte a acusação que Jesus fez a eles anteriormente (Bock, “4. Trial Before Pilate”). | Basileus (Rei). Enfatiza a ironia do título em contraste com as pretensões de César e a cegueira de Pilate/Herodes. A verdadeira realeza é revelada na zombaria (Edwards, “21. Trial and Crucifixion”). | Dikaios (Lc 23:47). Traduz preferencialmente como “Justo” em vez de meramente “Inocente”, conectando Jesus teologicamente à tradição do Justo Sofredor e ao Servo de Yahweh de Isaías (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”). |
| Problema Central do Texto | A manipulação jurídica: A liderança judaica transforma uma questão religiosa em uma acusação política de sedição (proibir impostos) para forçar a mão de Roma contra um homem inocente (Bock, “4. Trial Before Pilate”). | A falência moral e a conveniência política: Pilatos e Herodes reconhecem a inocência, mas agem por conveniência (“tornaram-se amigos”). O problema é a superficialidade que busca sinais mas rejeita a verdade (Edwards, “Excursus: Pontius Pilate…”). | A formação de “alianças profanas”: O colapso da distinção entre líderes e o povo, onde a multidão é persuadida a rejeitar o agente de Deus, criando uma solidariedade momentânea de hostilidade (Roma, líderes, povo) (Green, “7. The Suffering…”). |
| Resolução Teológica | Soberania Divina e Inocência: Jesus controla seu destino (“Filho do Homem sentado à direita”). Sua morte não é um acidente jurídico, mas o plano de Deus para o “Inocente Imolado” (Bock, “3. Trial and Denials”). | Ironia da Revelação: A cruz confirma a identidade que os inimigos tentam negar. A inscrição na cruz e o pedido do ladrão proclamam a verdade teológica que os líderes zombam (Edwards, “21. Trial and Crucifixion”). | Reversão Escatológica: A morte de Jesus rasga o véu do templo (julgamento sobre o sistema sagrado excludente) e abre a salvação aos marginalizados (o criminoso, o centurião), cumprindo o padrão do profeta rejeitado (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”). |
| Tom/Estilo | Histórico-Crítico/Técnico. Foca na harmonização com Mateus/Marcos, verossimilhança dos procedimentos legais romanos e análise lexical detalhada. | Expositivo/Literário. Foca no fluxo narrativo, na caracterização psicológica dos governantes e na aplicação teológica da ironia para a igreja. | Narrativo/Sócio-Retórico. Foca na estrutura do enredo, intertextualidade com o AT e na dinâmica de poder e status social dentro da narrativa. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto Histórico: Bock é inigualável na reconstrução dos procedimentos legais. Ele fornece a análise mais robusta sobre a legalidade das acusações (impostos, sedição), a competência jurisdicional de Pilatos versus Herodes, e a defesa da historicidade dos julgamentos contra a crítica moderna (Bock, “Sources and Historicity”).
- Melhor para Teologia Narrativa: Green oferece a profundidade teológica mais rica ao conectar a Paixão com os grandes temas lucanos de inversão de status e o modelo do Justo Sofredor. Sua análise da resposta de Deus à hostilidade (o rasgar do véu e a confissão do centurião) integra a crucificação perfeitamente à teologia do Templo e à missão gentílica de Lucas-Atos (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Lucas 23, deve-se fundar a exegese na análise rigorosa de Bock sobre a natureza política das acusações e a inocência jurídica de Jesus, enriquecê-la com a sensibilidade literária de Edwards sobre a ironia da realeza de Cristo em meio à zombaria, e estruturá-la teologicamente através da lente de Green sobre o conflito cósmico onde Deus vindica o Justo Sofredor em face de alianças humanas malignas.
Inocência Jurídica, Justo Sofredor, Ironia Real e Alianças Profanas são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Jesus perante Pilatos (23:1-5)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Diastrephō (Perverter/Desencaminhar): Bock observa que este termo (Lc 23:2) significa “desencaminhar” ou “seduzir”, e nota a ironia de que Jesus usou este mesmo termo anteriormente (Lc 9:41) para descrever a geração incrédula; agora, a liderança inverte a acusação contra ele (Bock, “4. Trial Before Pilate”). Green conecta o termo à acusação de “falso profeta” encontrada em Deuteronômio 13, onde o profeta que “desvia” o povo deve ser executado (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”).
- Phoros (Tributo/Imposto): Bock destaca que a acusação de proibir o tributo (v. 2) é uma mentira direta, dado o ensino de Jesus em Lucas 20:25 (Bock, “4. Trial Before Pilate”). Green nota que a acusação é formulada para pintar Jesus como alguém que desautoriza a soberania de César em favor do Reino de Deus (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”).
- Christos Basileus (Cristo Rei): Green argumenta que a liderança judaica traduz o título religioso “Messias” para o político “Rei” para garantir a sedição perante Roma (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”). Edwards destaca que a inscrição na cruz mais tarde confirmará ironicamente este título rejeitado aqui (Edwards, “21. Trial and Crucifixion”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Destaca a precisão processual romana relatada por Lucas. Ele observa que apenas Lucas lista as três acusações específicas (perverter a nação, proibir impostos, pretensão real), refletindo um procedimento de cognitio (investigação judicial) romana (Bock, “4. Trial Before Pilate”).
- Green: Foca na intertextualidade com o Antigo Testamento, identificando a acusação de “perverter a nação” como uma tentativa formal de marcar Jesus como um falso profeta digno de morte segundo a lei mosaica, uma nuance teológica que vai além da política (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”).
- Edwards: Fornece um background histórico detalhado sobre Pilatos através de Filo e Josefo, descrevendo-o como “inflexível e cruel”. Ele argumenta que a apresentação “moderada” de Pilatos em Lucas não é uma exoneração histórica, mas serve para destacar, por contraste, a hostilidade implacável da liderança judaica (Edwards, “Excursus: Pontius Pilate…”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Inocência: Bock vê a declaração de Pilatos (“não acho crime”) como uma confirmação jurídica da inocência de Jesus (Bock, “4. Trial Before Pilate”). Green, no entanto, interpreta a absolvição de Pilatos não como uma defesa da justiça, mas como uma arrogância romana: Pilatos dispensa Jesus não porque ele é inocente, mas porque Roma não consegue discernir a verdadeira ameaça que o Reino de Deus representa para o poder imperial. O Sinédrio, ironicamente, entende melhor a ameaça teopolítica de Jesus do que Pilatos (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Deuteronômio 13: Green é o único a enfatizar fortemente este texto como a base legal judaica para a acusação de “desencaminhar” (diastrephō) o povo (Green, “7.5.2. The Hearing before Pilate”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que as acusações trazidas pela liderança judaica são uma mistura calculada de verdades distorcidas e mentiras políticas projetadas para forçar a mão de Roma.
📖 Perícope: Jesus perante Herodes (23:6-12)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Esthēta lampra (Veste Esplêndida/Brilhante): Green sugere que esta veste (v. 11), usada para zombaria, carrega uma ironia profunda: embora Herodes a use para ridicularizar, ela aponta para a verdadeira realeza de Jesus e o status exaltado que ele possui (Green, “7.5.3. The Hearing before Herod”). Bock nota que o termo sugere elegância, possivelmente branca ou prateada, usada pela realeza judaica ou candidatos a cargos (Bock, “5. Trial Before Herod”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Defende vigorosamente a historicidade deste julgamento contra críticos que o veem como uma criação lucana baseada no Salmo 2. Ele argumenta que o envio a Herodes faz sentido político e jurídico (jurisdição galileia) (Bock, “5. Trial Before Herod”).
- Green: Interpreta o silêncio de Jesus perante Herodes através da lente do Servo Sofredor de Isaías 53:7 (“como ovelha muda… não abriu a boca”). Ele contrasta o desejo superficial de Herodes de “ver” sinais com a incapacidade espiritual de perceber a verdade (Green, “7.5.3. The Hearing before Herod”).
- Edwards: Destaca a caracterização de Herodes Antipas como alguém que busca o espetáculo. Edwards nota que Antipas queria “ver” Jesus (como um mágico), mas recusou-se a “ouvir” João Batista, selando seu destino como alguém que zomba de Deus (Edwards, “Excursus… Herod Antipas”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A “Amizade” Herodes-Pilatos: Bock vê isso como uma astuta manobra política de Pilatos para se livrar de um problema e deferir a uma autoridade local (Bock, “5. Trial Before Herod”). Green lê teologicamente, citando Atos 4:27: a amizade é uma aliança profana baseada na hostilidade comum contra o Ungido de Deus (Green, “7.5.3. The Hearing before Herod”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 53:7: Identificado por Green no silêncio de Jesus.
- Salmo 2: Discutido por Bock (para refutar a criação literária baseada nele) e Green (para confirmar a conspiração dos governantes em Atos 4).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que Herodes trata Jesus com desprezo e que sua interação resulta na confirmação (ainda que cínica) da inocência política de Jesus, devolvendo-o a Pilatos.
📖 Perícope: A Sentença - Pilatos e a Multidão (23:13-25)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Epikrinō (Dar o veredito): Green nota que este verbo (v. 24) é usado na Bíblia Grega frequentemente em contextos de erro judicial ou injustiça, sugerindo que Lucas escolheu a palavra para sublinhar a ilegalidade moral da decisão (Green, “7.5.4. The Sentencing of Jesus”).
- Paideuō (Castigar/Disciplinar): Bock explica que Pilatos propõe isso (v. 16, 22) como uma tentativa de apaziguamento, oferecendo uma punição menor (açoitamento) para evitar a pena capital, mas falha (Bock, “4. Trial Before Pilate”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Enfatiza a natureza tripla da declaração de inocência por Pilatos (vv. 4, 14, 22), estruturando a narrativa como uma defesa legal robusta da inocência de Jesus (Bock, “4. Trial Before Pilate”).
- Green: Destaca a “história de duas vontades”: a vontade de Pilatos (libertar) versus a vontade do povo (crucificar). Ele nota que o povo “pede” (aiteō) a morte de Jesus, um termo que ironicamente ecoa a oração, sugerindo uma liturgia perversa de rejeição (Green, “7.5.4. The Sentencing of Jesus”).
- Edwards: Foca na capitulação moral de Pilatos. Embora Lucas omita o açoitamento brutal detalhado em Marcos, Edwards nota que a entrega de Jesus à “vontade deles” (v. 25) revela a falha total da justiça romana diante da pressão política (Edwards, “21. Trial and Crucifixion”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Responsabilidade da Multidão: Green é enfático ao incluir “o povo” (v. 13) na culpa, notando que aqueles que antes apoiavam Jesus agora se unem aos líderes em um grito uníssono por sangue (Green, “7.5.4. The Sentencing of Jesus”). Bock concorda, mas foca mais na manipulação dos líderes sobre a multidão, argumentando que Lucas preserva uma distinção sutil onde os líderes são os instigadores primários (Bock, “4. Trial Before Pilate”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 53:8: Green ouve ecos do Servo Sofredor no grito “Fora com este!” (aire, v. 18), lembrando aquele que foi “tirado” da terra dos viventes (Green, “7.5.4. The Sentencing of Jesus”).
5. Consenso Mínimo
- A troca de Jesus por Barrabás é central: o inocente é condenado para que o culpado (um verdadeiro insurrecionista e assassino) seja libertado, uma ironia judicial e teológica suprema.
📖 Perícope: Crucificação e Morte (23:26-49)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Dikaios (Justo/Inocente): No v. 47, o centurião chama Jesus de dikaios. Bock discute se isso significa meramente “inocente” (juridicamente) ou “justo” (moralmente), preferindo “inocente” no contexto do julgamento (Bock, “D. Trials and Death of Jesus”). Green, contudo, insiste em “Justo”, conectando o termo diretamente à tradição do Justo Sofredor (Sabedoria de Salomão, Salmos) e ao Servo de Isaías 53:11 (“o meu servo, o Justo”) (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
- Paradeisos (Paraíso): Bock e Green concordam que se refere à presença imediata de Deus, com Green adicionando a nuance escatológica de “Jardim de Deus”, nova criação (Green, “7.6.2. Jesus Crucified and Mocked”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Detalha a geografia (“Caveira” / Kranion) e defende a autenticidade do “Pai, perdoa-lhes” (v. 34) contra dúvidas textuais, vendo-o como o clímax da teologia de perdão de Lucas (Bock, “D. Trials and Death of Jesus”).
- Green: Interpreta o rasgar do véu do templo (v. 45) não como o fim do culto, mas como Deus se retirando do templo para realizar seus propósitos através da missão centrífuga (para fora de Jerusalém). É um julgamento sobre o sistema sagrado de exclusão (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
- Edwards: Aponta para a importância da tradição textual antiga (Codex Alexandrinus) que inicia o capítulo da ressurreição no sepultamento (23:50), ligando inseparavelmente a morte física real à ressurreição corpórea (anti-docetismo) (Edwards, “22. Burial and Resurrection”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Arrependimento da Multidão: No v. 48, a multidão volta “batendo no peito”. Bock vê isso possivelmente como remorso ou medo diante dos sinais cósmicos (Bock, “D. Trials and Death of Jesus”). Green vai além, ligando isso ao arrependimento que prepara o terreno para a pregação de Pedro em Atos 2. Para Green, é o início da restauração de Israel (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 22 & 69: Green e Bock identificam múltiplas alusões: a zombaria (Sl 22:7), a divisão das vestes (Sl 22:18), e o vinagre (Sl 69:21).
- Salmo 31:5: Jesus entrega seu espírito citando este Salmo de confiança do Justo Sofredor. Green nota que Jesus adiciona “Pai”, mantendo a intimidade filial até o fim (Green, “7.6.3. The Death of Jesus”).
- Oseias 10:8: Citado por Jesus no caminho da cruz (“Caí sobre nós”), interpretado por Green como um oráculo de julgamento iminente sobre Jerusalém (Green, “7.6.1. On the Way to the Crucifixion”).
5. Consenso Mínimo
- A morte de Jesus é apresentada não como uma derrota trágica, mas como um evento controlado pela soberania de Deus, onde Jesus morre como o Inocente/Justo, confiando no Pai e estendendo salvação (ao ladrão) até o último momento.
📖 Perícope: O Sepultamento (23:50-56)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Bouleutēs (Membro do Conselho): Green faz um jogo de palavras notando que José era um bouleutēs (conselheiro), mas não concordou com a boulē (plano/conselho) deles contra Jesus (v. 51). Isso destaca o remanescente fiel dentro da liderança apóstata (Green, “7.7. The Burial of Jesus”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Observa que Lucas omite o nome de Pilatos na solicitação do corpo (diferente de Marcos), focando inteiramente na piedade de José (Bock, “D. Trials and Death of Jesus”).
- Edwards: Enfatiza que o sepultamento começa o capítulo da ressurreição na tradição antiga, argumentando que a continuidade corpórea (o corpo enterrado é o corpo ressurreto) é teologicamente crucial para Lucas (Edwards, “22. Burial and Resurrection”).
- Green: Destaca o paradoxo de José: um membro do grupo que matou Jesus é chamado de “bom e justo” (os mesmos adjetivos usados para Jesus). Ele representa a esperança de que o judaísmo fiel não foi totalmente obliterado (Green, “7.7. The Burial of Jesus”).
5. Consenso Mínimo
- O sepultamento confirma a realidade da morte de Jesus e prepara a cena para a ressurreição, com a observância do Sábado pelas mulheres demonstrando sua piedade e obediência à Lei até o fim.