Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Lucas 22
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora com forte ênfase Histórico-Crítica. Bock opera dentro de uma estrutura que valoriza a confiabilidade histórica dos relatos evangélicos, engajando-se profundamente com questões de harmonização sinótica e historicidade.
- Metodologia: Sua abordagem é marcada por uma exegese gramatical minuciosa e uma análise detalhada das fontes (Markan priority, fonte Q, fonte L). Ele dedica espaço significativo para discutir questões críticas, como a cronologia da Última Ceia e a historicidade dos julgamentos, muitas vezes defendendo a veracidade dos relatos contra o ceticismo acadêmico (como o do Jesus Seminar). Bock foca na intenção autoral de Lucas em apresentar uma “história ordenada” para teófilos modernos e antigos.
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Evangélica, com sensibilidade à Teologia Bíblica e conexões intertextuais com o Antigo Testamento. Edwards busca evitar detalhes técnicos excessivos para focar no significado teológico e na exposição clara do texto.
- Metodologia: Edwards aborda o texto com um olhar atento à “voz própria” de Lucas, evitando tratá-lo apenas como uma edição de Marcos. Ele destaca a influência de fontes hebraicas e a continuidade da história da salvação. No capítulo 22, sua metodologia ressalta os suplementos lucanos à narrativa da Paixão (como os discursos pós-ceia e o julgamento de Herodes) para extrair temas teológicos distintos, como o cumprimento das Escrituras (Salmos e Isaías) na figura do justo sofredor.
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Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).
- Lente Teológica: Crítica Narrativa e Literária. Green se distancia das preocupações estritamente histórico-reconstrutivas para focar em como a narrativa comunica significado teológico como um todo literário coeso.
- Metodologia: Ele analisa o texto focando em motifs literários (como o conflito, a inversão de status e a mesa/comunhão). Green interpreta Lucas 22 através de estruturas literárias greco-romanas e judaicas, identificando a Última Ceia como um “Discurso de Despedida” (farewell discourse) e um Simpósio. Sua exegese prioriza a função dos personagens e eventos dentro da trama narrativa de Lucas-Atos, destacando o conflito cósmico entre o propósito de Deus e as forças de Satanás.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Bock (BECNT): O capítulo retrata Jesus como o Mártir Inocente e Piedoso que, consciente e no controle dos eventos, submete-se voluntariamente ao plano de Deus, inaugurando a Nova Aliança através de seu sofrimento vicário.
- Bock argumenta que o tema dominante é “o sofrimento justo de Jesus como um mártir inocente” e que “todo o sofrimento de Jesus é retratado com referência à linguagem e motivos das Escrituras” (Bock, “C. Betrayal and Farewell”).
- Ele enfatiza o controle de Jesus sobre os eventos, observando que “Jesus fornece o testemunho que leva à sua morte” e que sua morte não foi um fracasso, mas o centro do plano de Deus, “não um obstáculo para a libertação, mas uma escada para o céu” (Bock, “V. Jerusalem”).
- Bock defende rigorosamente a historicidade, argumentando, por exemplo, que a Última Ceia foi de fato uma refeição pascal (Nisan 15), resolvendo aparentes contradições cronológicas com João e defendendo a autenticidade das palavras de Jesus contra o ceticismo crítico (Bock, “Excursus 11”).
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Tese de Edwards (PNTC): A Paixão em Lucas apresenta Jesus como o Servo Justo Sofredor (baseado nos Salmos e Isaías 40–66), cuja obediência filial e inocência contrastam radicalmente com a traição dos discípulos e a inimizade das lideranças judaicas.
- Edwards destaca que o “principal distintivo temático da Narrativa da Paixão de Lucas é a apresentação de Jesus como o homem justo sofredor… que abraça voluntariamente o plano divino” (Edwards, “Last Supper and Arrest”).
- Ele observa que a narrativa é unificada pela palavra-chave “traição” (betrayal), usada repetidamente para marcar o cumprimento do propósito messiânico através da rejeição (Edwards, “Last Supper and Arrest”).
- Diferente de um herói trágico, Jesus é retratado como “totalmente livre de culpa”, morrendo como o “Filho de Deus obediente, que abraça seu ‘êxodo em Jerusalém’ (9:31) em certeza e confiança” (Edwards, “Last Supper and Arrest”).
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Tese de Green (NICNT): Lucas 22 narra o clímax de um Conflito Cósmico onde Jesus, através do modelo literário do “Discurso de Despedida” e da reinterpretação da Páscoa, estabelece uma nova comunidade baseada no serviço, enquanto as forças de Satanás e das lideranças humanas colidem ironicamente para cumprir o propósito divino.
- Green postula que a narrativa é impulsionada pelo motif do conflito: “Satanás e a liderança de Jerusalém estão aliados em sua oposição a Jesus (22:53)” (Green, “The Suffering and Death of Jesus”).
- Ele interpreta a Última Ceia estruturalmente como um “Discurso de Despedida” helenístico/judaico, onde Jesus, diante da morte, consolida seus ensinamentos, interpreta sua morte como sacrifício pactual e transfere liderança (Green, “Teaching at the Passover Table”).
- Green destaca a ironia teológica de que “aqueles que se opõem a Jesus acreditam estar servindo a Deus, mas, sem saber, servem a um objetivo diabólico”, e ainda assim, esses eventos trágicos cumprem o plano redentor de Deus (Green, “The Suffering and Death of Jesus”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Bock (BECNT) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Green (NICNT) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Paradidōmi (Entregar/Trair) e Anamnēsis (Memorial). Enfatiza a autenticidade das palavras de Jesus na instituição da ceia e a traição como parte do plano divino (Bock, “Last Supper”). | Paradidōmi (Trair). Identifica este termo como a “palavra-chave” (catchword) que unifica a narrativa da Paixão, contrastando a fidelidade de Jesus com a traição humana (Edwards, “Last Supper and Arrest”). | Diathēkē (Aliança) e Euergetēs (Benfeitores). Foca na redefinição de liderança e na inauguração de uma nova ordem social e pactual dentro do Reino (Green, “Teaching at the Passover Table”). |
| Problema Central do Texto | A Historicidade e a Harmonização Cronológica. Bock se dedica a resolver a aparente contradição cronológica com João sobre a data da Páscoa e defende a veracidade histórica dos relatos de julgamento (Bock, “Excursus 11”). | O contraste entre a Inocência de Jesus e a depravação humana. O problema é a incompreensão, rivalidade e traição dos discípulos justapostas à submissão voluntária de Jesus (Edwards, “Last Supper and Arrest”). | O Conflito Cósmico e a Disputa por Status. O problema central é a má interpretação dos discípulos sobre a natureza do Reino, buscando honra (status) em vez de serviço, refletindo uma luta espiritual maior (Green, “The Suffering and Death of Jesus”). |
| Resolução Teológica | O Plano Divino Soberano (Dei). Jesus é o Mártir Inocente que controla seu destino, transformando a necessidade divina de sofrimento em história redentora e inauguração da Nova Aliança (Bock, “V. Jerusalem”). | O Servo Justo Sofredor. A resolução está na obediência filial de Jesus, que morre não como herói trágico, mas como o Filho de Deus que cumpre as Escrituras (Salmos e Isaías) através do sofrimento vicário (Edwards, “Last Supper and Arrest”). | O Discurso de Despedida como modelo comunitário. A Ceia estabelece uma nova comunidade baseada na inversão de valores (serviço sobre domínio), onde a morte de Jesus sela a aliança e confere autoridade real aos discípulos (Green, “Teaching at the Passover Table”). |
| Tom/Estilo | Técnico e Histórico-Crítico. Focado em detalhes gramaticais, fontes (Q, L, Marcos) e debates acadêmicos sobre a precisão dos eventos. | Teológico e Expositivo. Focado na aplicação doutrinária e na conexão intertextual com o Antigo Testamento, com um tom mais reverente e menos técnico. | Narrativo e Sócio-Retórico. Focado na estrutura literária (simpósio, despedida) e nas dinâmicas sociais (honra/vergonha) do texto. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Bock (BECNT). Para estudantes que necessitam navegar pelas complexidades da cronologia da Paixão, discussões sobre o Sinédrio e a harmonização com os outros evangelhos, Bock oferece a análise mais exaustiva e defensiva da historicidade dos eventos.
- Melhor para Teologia: Green (NICNT). Green sobressai na articulação da teologia narrativa, explicando como a estrutura literária (como o Simpósio e o Discurso de Despedida) comunica a teologia da inversão de valores e o conflito cósmico, oferecendo uma leitura integrada da missão de Jesus.
- Síntese: Para uma compreensão holística de Lucas 22, deve-se combinar a defesa histórica e exegese detalhada de Bock para fundamentar a veracidade dos eventos, a análise literária e sociológica de Green para entender a dinâmica de poder e a função narrativa da Ceia, e a sensibilidade cristológica de Edwards para captar o peso teológico do Servo Sofredor. Juntos, eles revelam Jesus como o Senhor da História que, em meio à traição humana e guerra espiritual, inaugura soberanamente a Nova Aliança.
Nova Aliança, Servo Sofredor, Conflito Cósmico e Mártir Inocente são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Conspiração e Judas (Versículos 1-6)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Satanás (Satanas): O texto destaca a entrada de Satanás em Judas. Bock nota que Lucas não mencionava Satanás como agente ativo desde as tentações no deserto (4:1-13), marcando o retorno do conflito cósmico (Bock, “1. Judas’s Plan”). Green aprofunda-se, ligando linguisticamente 4:13 e 22:6 para mostrar que o “tempo oportuno” de Satanás chegou, coincidindo com a busca de Judas por uma oportunidade (Green, “7.1.1. Conspiracy”).
- Echarēsan (Alegraram-se): Green aponta uma ironia perversa no uso deste verbo no v.5. Em Lucas, “alegrar-se” geralmente responde à atividade salvífica divina; aqui, a liderança se alegra com a traição, mostrando que seus compromissos são “perversos” (Green, “7.1.1. Conspiracy”).
- Stratēgoi (Oficiais): Bock identifica-os especificamente como líderes da guarda do templo, necessários para efetuar a prisão, enfatizando o caráter oficial e religioso da conspiração (Bock, “1. Judas’s Plan”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Destaca a historicidade e a cronologia, notando que a referência à “Festa dos Pães Asmos” e “Páscoa” reflete o costume de tratar as duas festas como uma só (Nisan 14-21), e menciona o texto judaico b. Sanh. 43a que alude à execução na véspera da Páscoa (Bock, “1. Judas’s Plan”).
- Green: Foca na ruptura social e alianças profanas. Ele observa que “o povo” funcionava como uma barreira de proteção para Jesus (19:47-48), e esta seção narra como essa barreira é penetrada através de uma aliança entre Satanás, um discípulo (Judas) e a liderança do templo (Green, “7. The Suffering and Death of Jesus”).
- Edwards: Enfatiza a palavra-chave “traição” (paradidōmi) como um termo técnico unificador da narrativa da Paixão em Lucas, usado repetidamente (vv. 4, 6, 21, 22, 48) para mostrar o cumprimento do propósito messiânico através da rejeição (Edwards, “20. Last Supper and Arrest”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Motivação de Judas: Bock menciona especulações sobre a ganância ou desilusão política, mas conclui que o texto enfatiza a influência satânica (“Judas revela seu verdadeiro caráter”), vendo-o como um “desertor da fé” (Bock, “1. Judas’s Plan”). Green, por sua vez, insiste na dupla causalidade: Judas é influenciado por Satanás (dimensão cósmica), mas também cai vítima do “domínio de Mamon” (dinheiro), mantendo a volição humana (Green, “7.1.1. Conspiracy”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Green vê ecos do “Justo Sofredor” (Salmos), onde forças malignas se reúnem contra o justo, tanto inimigos quanto amigos falsos (Green, “7.1.1. Conspiracy”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a traição não é apenas um ato político humano, mas envolve uma dimensão espiritual maligna (Satanás) e resolve o problema logístico das autoridades de como prender Jesus longe da multidão.
📖 Perícope: A Última Ceia (Versículos 14-20)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Touto estin (Isto é): Bock argumenta que o verbo estin indica representação, não identificação literal, dado o contexto judaico (Bock, “3. Last Supper”).
- Hyper hymōn (Por vós): Bock vê aqui uma força teológica de substituição e sacrifício vicário, embora note que Lucas não cita Isaías 53 explicitamente neste versículo (Bock, “3. Last Supper”).
- Anamnēsis (Memória/Memorial): Green redefine o termo não como simples recordação cognitiva, mas como “o efeito da recordação do passado para benefício presente ou futuro”, atualizando a libertação do Êxodo na nova comunidade (Green, “7.1.3.1. Celebration”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Dedica-se extensivamente ao problema textual dos versículos 19b-20 (“o texto longo”). Ele defende a inclusão destes versículos contra a hipótese de interpolação, argumentando que o vocabulário e a teologia (nova aliança) são consistentes com Lucas e Paulo (Bock, “3. Last Supper”).
- Green: Analisa a estrutura como um Simpósio e Discurso de Despedida. Ele destaca que Jesus age como o “chefe de família” de um grupo de parentesco fictício (os discípulos), interpretando os elementos da refeição (Green, “7.1.3. Teaching at the Passover Table”).
- Edwards: (Informação inferida do contexto geral da obra, foca no cumprimento profético e na figura do Servo).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Refeição: Bock defende vigorosamente (via Excursus 11) que foi uma refeição pascal (Páscoa) real, harmonizando a cronologia com João. Green concorda que Lucas “explicitamente e enfaticamente refere-se a esta refeição como uma Páscoa”, usando-a para reinterpretar a libertação do Êxodo em termos de Reino (Green, “7.1.3.1. Celebration”).
- Referência do Cálice (v.17 vs v.20): Bock sugere que o primeiro cálice (v.17) é o primeiro da liturgia pascal, e o segundo (v.20) é o terceiro cálice (após a ceia), resolvendo a aparente duplicação (Bock, “3. Last Supper”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Jeremias 31:31-34 (Nova Aliança): Citado explicitamente. Bock e Green concordam que Jesus inaugura a era prometida por Jeremias.
- Êxodo 24:8: Green vê uma alusão tipológica ao sangue da aliança no Sinai, indicando que a morte de Jesus expia pecados e cria o novo povo (Green, “7.1.3.1. Celebration”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que Jesus reinterpreta os elementos da Páscoa judaica para apontar para sua morte iminente como um sacrifício fundacional de uma nova aliança/comunidade.
📖 Perícope: Discurso de Despedida e Liderança (Versículos 24-30)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Euergetēs (Benfeitores): Um título honorífico helenístico. Green explica que no sistema romano, a elite rica legitimava seu poder através de “beneficência” pública, criando uma rede de dívida e honra. Jesus inverte isso (Green, “7.1.3.3. Service”).
- Diatithemai (Conferir/Designar): Usado no v.29 para o Reino. Bock vê como uma delegação de autoridade presente e futura aos apóstolos (Bock, “4. Last Discourse”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Green: Destaca a ironia social. Enquanto Jesus fala de sacrifício (vv. 15-20), os discípulos brigam por status (v.24), imitando os líderes judeus que Jesus condenou. Jesus redefine liderança não como status, mas como função de serviço à mesa (Green, “7.1.3.3. Service”).
- Bock: Foca na escatologia e eclesiologia. Ele interpreta os “tronos julgando as doze tribos” (v.30) como uma autoridade que começa já na pregação apostólica (Atos) e se consuma no eschaton, mostrando que o plano para Israel continua sob “nova direção” (Bock, “4. Last Discourse”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Reino é Presente ou Futuro? Bock enfatiza que a autoridade é dada agora (presente), mas a consumação é futura (banquete). Green concorda, notando a tensão entre o serviço presente e a regra futura, mas destaca que a “realeza” dos discípulos é derivada e limitada pela de Jesus (Green, “7.1.3.3. Service”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Daniel 7 e Salmo 122: Bock vê ecos da imagem de tronos e julgamento (Bock, “4. Last Discourse”).
5. Consenso Mínimo
- Jesus inverte os valores mundanos de poder: a verdadeira grandeza no Reino é o serviço, exemplificado pelo próprio Jesus servindo à mesa (ou lavando pés, implícito).
📖 Perícope: A Bolsa e a Espada (Versículos 35-38)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hikanon estin (Basta): Bock sugere que pode ser uma expressão semita para encerrar uma conversa (“Chega desse assunto!”), indicando que os discípulos entenderam mal a metáfora (Bock, “4. Last Discourse”). Green concorda, vendo isso como uma expressão de exasperação de Jesus com a obtusidade dos discípulos (Green, “7.1.3.4. Pending Trials”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Vê a ordem de comprar espadas como metafórica para preparação e autossuficiência diante de uma nova era de hostilidade, não um chamado à violência, citando a repreensão de Jesus no v.51 (Bock, “4. Last Discourse”).
- Green: Interpreta o “agora” (v.36) como uma mudança de época: da hospitalidade (missões anteriores) para a hostilidade. A espada simboliza a prontidão para enfrentar animosidade violenta (Green, “7.1.3.4. Pending Trials”).
- Edwards: (Não há dados específicos nos excertos, mas alinha-se ao tema do Servo Sofredor que rejeita a violência).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Literal vs. Figurado: Ambos Bock e Green concordam que a interpretação literal dos discípulos (“aqui estão duas espadas”) é um mal-entendido trágico. Não há debate real entre eles, mas sim contra leituras que veriam Jesus como um revolucionário zelota.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 53:12 (“contado com os transgressores/criminosos”): Citado explicitamente no v.37. Green nota que “anomos” (transgressor) refere-se à identificação de Jesus com pecadores e marginais, o que causa sua rejeição pela elite (Green, “7.1.3.4. Pending Trials”). Bock vê nisso o cumprimento do plano divino de rejeição vergonhosa (Bock, “4. Last Discourse”).
5. Consenso Mínimo
- A ordem da espada marca uma transição para um período de perseguição e autossustento para a missão, e a resposta literal dos discípulos demonstra sua contínua falta de compreensão da natureza do Reino.
📖 Perícope: Monte das Oliveiras e Prisão (Versículos 39-53)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Agōnia (Agonia): Bock define como um termo atlético de luta intensa ou ansiedade, resultando no suor como sangue (Bock, “1. Preparation Through Prayer”).
- Exousia tou skotous (Poder das Trevas): Jesus usa este termo no v.53. Bock e Green interpretam como uma referência direta ao domínio de Satanás, permitida temporariamente por Deus (Bock, “2. Betrayal and Arrest”; Green, “7.3. Jesus Confronts”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Defende a autencidade textual dos vv. 43-44 (o anjo e o suor de sangue), argumentando contra a visão de que seriam interpolações posteriores. Ele vê o estilo lucano (vocabulário médico, interesse em anjos) como evidência interna forte (Bock, “Excursus: 22:43-44”).
- Green: Rejeita a interpretação “martirológica” (Jesus como herói estoico). Ele vê a cena como uma batalha cósmica: a oração extenuante é necessária devido à energia com que Satanás está atacando (Green, “7.2. Jesus on the Mount of Olives”).
- Edwards: Destaca a inocência de Jesus e sua submissão voluntária como o “Filho obediente”, contrastando com a falha dos discípulos (Edwards, “20. Last Supper and Arrest”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O “Cálice”: Bock discute se o cálice refere-se à morte prematura ou à ira divina. Ele conclui que Jesus pede uma alteração potencial no plano (evitar a ira/morte), mas submete-se à vontade de Deus. Green vê a oração como uma batalha para discernir e abraçar a vontade divina, paralela às tentações no deserto (Green, “7.2. Jesus on the Mount of Olives”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 41:9: Traição por um íntimo (v.48).
- Isaías 53: A figura do Servo que obedece e é contado com os transgressores.
5. Consenso Mínimo
- Jesus enfrenta uma luta espiritual real e intensa, submetendo sua vontade ao Pai, enquanto os discípulos falham em vigiar; a prisão subsequente é o clímax da “hora das trevas”, mas ocorre sob a permissão soberana de Deus.
📖 Perícope: Julgamento Judaico e Negação (Versículos 54-71)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Huios tou Theou (Filho de Deus): No v.70. Bock discute se isso é apenas messiânico ou ontológico. Ele conclui que, no contexto da alegação de “sentar-se à direita”, implica uma exaltação única que profana a unicidade de Deus na visão judaica (Bock, “3. Trial and Denials”).
- Emblepsas (Olhou fixamente): O olhar do Senhor para Pedro (v.61). Green nota que “voltar-se” é frequentemente precursor de repreensão em Lucas, e aqui precipita a memória e o arrependimento (Green, “7.4. Peter and Jesus”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Fornece uma análise detalhada da legalidade do julgamento. Ele propõe que houve inquéritos noturnos (Anás/Caifás) seguidos por uma ratificação matinal oficial (Lucas 22:66) para cumprir a tecnicalidade da lei judaica (Bock, “3. Trial and Denials”).
- Green: Destaca a ironia do julgamento. O Sinédrio pergunta se ele é o Messias para condená-lo, mas ao fazer isso, eles involuntariamente solicitam a verdade que poderia salvá-los. Jesus transforma a acusação deles em uma confissão de sua exaltação (Green, “7.5.1. The Hearing”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Causa da Condenação: Bock argumenta especificamente que a “blasfêmia” foi a reivindicação de Jesus de sentar-se à direita de Deus (v.69), o que para o judaísmo do período seria profanar a Shekinah (glória divina), pois apenas Deus senta no céu (Bock, “3. Trial and Denials”). Green concorda com o peso cristológico, mas foca mais na rejeição da liderança à autoridade profética de Jesus.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 110:1 (“Senta-te à minha direita”): Central para a condenação. Bock e Green concordam que esta é a reivindicação climática de autoridade cósmica.
5. Consenso Mínimo
- Jesus fornece o testemunho necessário para sua própria condenação ao reivindicar autoridade divina e real (Filho do Homem/Filho de Deus), e o julgamento judaico termina com a decisão de levá-lo a Pilatos, cumprindo as predições de Jesus sobre rejeição pelos líderes.