Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Lucas 20
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT).
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora com forte engajamento na Crítica Histórica. Bock opera dentro de uma estrutura de História da Salvação (Heilsgeschichte), defendendo a historicidade dos eventos contra abordagens céticas (como o Jesus Seminar).
- Metodologia: Adota uma abordagem exegética minuciosa, com ênfase na filologia grega, crítica das fontes (comparação sinótica detalhada com Marcos e Mateus) e o contexto histórico judaico do primeiro século. Bock estrutura sua análise em: (1) Fontes e Historicidade, (2) Forma/Estrutura e (3) Exegese e Exposição detalhada versículo por versículo.
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Evangélica, com ênfase Literária e Teológica. Edwards busca equilibrar a exegese rigorosa com a exposição prática, focando na cristologia (“duas naturezas”) e na continuidade da narrativa bíblica.
- Metodologia: Utiliza uma abordagem narrativa que destaca o fluxo da história e a teologia bíblica. Diferente de Bock, que atomiza o texto em questões críticas, Edwards foca nos grandes temas teológicos, como a função do Templo e a identidade messiânica, muitas vezes recorrendo a tipologias do AT e à conexão com o livro de Atos. Ele vê a narrativa da Paixão como uma unidade coesa de ensino.
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Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT).
- Lente Teológica: Crítica Narrativa e Crítica Sócio-Científica. Green distancia-se da busca pelo “Jesus Histórico” por trás do texto para focar no “mundo do texto” conforme apresentado por Lucas.
- Metodologia: Analisa o texto como uma unidade literária finalizada. Seus comentários focam fortemente em dinâmicas sociais do Mediterrâneo Antigo, como honra e vergonha, parentesco, pureza e sistemas de patronagem. Ele examina como a retórica de Lucas constrói a identidade de Jesus em oposição à liderança do Templo, utilizando conceitos como “espaço sagrado” e “legitimação de autoridade”.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese do Bock (BECNT): Lucas 20 retrata uma “guerra teológica” onde Jesus demonstra sua autoridade divina e controle sobre os eventos, revelando que a rejeição messiânica é o centro do plano de Deus para transferir a promessa (o vinhedo) a outros.
- Argumento expandido: Bock enfatiza que este capítulo contém cinco controvérsias centrais que funcionam como uma armadilha mútua: os líderes tentam apanhar Jesus, mas acabam presos em sua própria hipocrisia. Bock destaca a historicidade dos relatos, argumentando que Jesus “controla os eventos” e “não é surpreendido por nada”, usando a Parábola dos Lavradores Maus para traçar a história da salvação desde a rejeição dos profetas até a morte do “Filho Amado” (Bock, “BECNT - Luke_ 9_51-24_53”). Ele foca na cristologia da Pedra Rejeitada (Sl 118), afirmando que a rejeição de Jesus não é um fracasso, mas o prelúdio para a exaltação e julgamento (Bock, “BECNT - Luke_ 9_51-24_53”).
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Tese do Edwards (PNTC): Jesus chega a Jerusalém não apenas como rei, mas assume o papel de “Mestre no Templo”, purificando-o para ser a “Casa do Pai” e o local legítimo de ensino divino, em contraste com a infraestrutura corrupta do Sinédrio.
- Argumento expandido: Edwards argumenta que, para Lucas, a narrativa da Paixão é focada quase exclusivamente no Templo. Ele propõe uma distinção teológica crucial: Jesus afirma a estrutura (o propósito sagrado do templo), mas condena a infraestrutura (a liderança que o tornou um covil de salteadores). Edwards nota que Jesus não busca meramente derrotar seus oponentes, mas engajá-los com ensino sobre o Reino, mantendo sua postura de “Mestre” (Didaskalos) até o fim (Edwards, “PNTC_037_19_45-21_4_18_Teacher_in_the_Temple”).
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Tese do Green (NICNT): O capítulo narra um conflito decisivo sobre a legitimação da autoridade, onde Jesus desmantela a honra da liderança do Templo (sacerdotes e escribas) e redefine o povo de Deus com base na fidelidade e não na linhagem ou posição social.
- Argumento expandido: Green utiliza a lente sociológica para interpretar o conflito como uma batalha de status. Ele argumenta que o Templo é o ponto axial da vida social e religiosa, e Jesus desafia a autoridade dos líderes expondo a “infecundidade” deles diante de Deus. Na análise da Parábola dos Lavradores, Green destaca que a destruição recai sobre os “inquilinos” (líderes), não sobre o “vinhedo” (Israel), sugerindo uma transferência de liderança e não a aniquilação do povo. Ele vê o conflito como um jogo de “pergunta e resposta” (challenge-riposte) onde Jesus envergonha publicamente seus oponentes (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Bock (BECNT) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Green (NICNT) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Kephalēn gōnias (Cabeça da esquina): Define filologicamente como “pedra de fundação” que une duas paredes e suporta o peso, rejeitando a interpretação de Jeremias de “pedra de fecho” (capstone), enfatizando a estabilidade estrutural da autoridade de Jesus (Bock, excerto). | Oikos (Casa) vs. Infraestrutura: Introduz uma distinção técnica entre a “estrutura” sagrada do Templo (Casa do Pai) e a “infraestrutura” corrupta (liderança/Sinédrio), argumentando que Jesus purifica a instituição para preservar seu propósito divino (Edwards, excerto). | Laos (O Povo): Define o termo sociologicamente como um “amortecedor” (buffer) entre Jesus e a elite; eles são os recipientes da instrução divina e representam o verdadeiro Israel em contraste com a liderança do Templo (Green, excerto). |
| Problema Central do Texto | A Armadilha Dialética: O foco está na “guerra teológica” onde os líderes tentam encurralar Jesus com dilemas lógicos (imposto, ressurreição), mas Jesus reverte as armadilhas, demonstrando controle superior sobre os eventos históricos e o debate rabínico (Bock, excerto). | A Perversão Institucional: O problema é a apropriação indébita do “espaço sagrado” pela liderança sacerdotal. O Templo tornou-se um covil de salteadores não pela estrutura em si, mas pela gestão corrupta que Jesus precisa confrontar como “Mestre” (Edwards, excerto). | Legitimação de Autoridade: O conflito gira em torno de quem detém o direito divino de definir a realidade social e religiosa. A elite usa o Templo para manter status e poder, enquanto Jesus desafia essa base de poder expondo a “falta de fecundidade” deles (Green, excerto,). |
| Resolução Teológica | História da Salvação (Heilsgeschichte): A rejeição de Jesus é o prelúdio necessário para a exaltação (Salmo 118). A “vinha” (promessa) é transferida para “outros” (incluindo gentios), marcando a continuidade do plano de Deus apesar da ruptura nacional (Bock, excerto,). | Jesus como Mestre Divino: Jesus reclama o Templo como o local de ensino do Reino. A resolução se dá na persistência de Jesus em ensinar a verdade (didaskalos) dentro do espaço hostil, preparando a igreja (Atos) para usar o Templo como base inicial (Edwards, excerto). | Redefinição do Povo de Deus: Jesus desmantela a autoridade da liderança baseada em linhagem e posição, transferindo a liderança para os apóstolos. A resolução é a formação de uma nova comunidade baseada na fidelidade e justiça, não no sistema de pureza ou status (Green, excerto,). |
| Tom/Estilo | Crítico-Histórico e Exegético: Analítico, foca na historicidade dos eventos, interação com fontes rabínicas e debate detalhado com a crítica moderna (ex: Jesus Seminar) (Bock, excerto). | Teológico e Literário: Narrativo, foca na ironia dramática, no fluxo da história da Paixão e em temas literários como a alegria e a justaposição de “estrutura vs. infraestrutura” (Edwards, excerto). | Sócio-Retórico: Foca nas dinâmicas de poder, honra/vergonha, patronagem e na crítica social das estruturas de opressão (ex: viúvas vs. escribas) (Green, excerto,). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Bock (BECNT). É insuperável para quem busca o background histórico preciso, discussões sobre a historicidade das controvérsias (como o debate do tributo e a purificação do templo) e a análise detalhada do grego e das fontes sinóticas. Ele fornece a defesa mais robusta contra o ceticismo histórico, situando firmemente o texto no judaísmo do primeiro século (Bock, excerto,).
- Melhor para Teologia: Green (NICNT). Destaca-se por articular a teologia de Lucas de forma integrada com a sociologia do texto. Ele aprofunda melhor as doutrinas de eclesiologia (quem é o povo de Deus) e soteriologia social (o evangelho para os pobres/viúvas), mostrando como a autoridade de Jesus descontrói sistemas de opressão religiosa (Green, excerto,).
- Síntese: Para uma exegese holística de Lucas 20, deve-se utilizar Bock para estabelecer a base histórica e a estrutura do debate rabínico (Bock, excerto); Green para entender as dinâmicas de poder e a crítica social da liderança do Templo (Green, excerto); e Edwards para captar a teologia do Templo e a ironia literária da narrativa da Paixão (Edwards, excerto). Juntos, eles revelam Jesus não apenas como um Messias rejeitado, mas como o Mestre Divino que, através de sua autoridade superior, expõe a falência da liderança religiosa e inaugura uma nova era de salvação.
História da Salvação, Infraestrutura do Templo, Legitimação de Autoridade e Pedra Angular são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Questão da Autoridade (20:1-8)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Euangelizomai (Anunciar as boas novas): Green observa que, embora os detalhes do cenário sejam redundantes em relação a 19:47, Luke introduz um novo componente: “evangelizando”. Jesus reclama o templo não apenas ensinando, mas proclamando a redenção escatológica aos marginalizados, o que contrasta com a elite sacerdotal (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Exousia (Autoridade): O termo central do debate. Bock nota que a pergunta dos líderes busca a “qualidade” ou “esfera” desta autoridade (en poia), desafiando suas credenciais rabínicas ou proféticas (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Destaca a natureza da armadilha. Se os líderes aceitassem João, admitiriam sua própria falha em se arrepender; se rejeitassem, enfrentariam a ira popular. Bock vê isso como um “jogo de inteligência” perigoso onde Jesus encurrala os líderes em sua própria hipocrisia, descrevendo a resposta deles (“não sabemos”) como uma “evasão burocrática” indigna de líderes religiosos (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem”).
- Green: Analisa a cena sob a ótica de status e honra. O objetivo dos líderes é envergonhar Jesus publicamente (shame him). Green nota que o “povo” (laos) funciona como um “amortecedor” (buffer) físico e ideológico entre Jesus e os líderes. A recusa dos líderes em responder não é apenas evasão, é “pandering” (adulação manipuladora) para manter o status social diante da multidão (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Edwards: Embora não comente verso a verso, sua tese geral ilumina esta seção: Jesus atua como o “Mestre no Templo”, ocupando o espaço sagrado que a “infraestrutura” (liderança) corrompeu. A autoridade de Jesus purifica o propósito do Templo (Edwards, “PNTC_037_19_45-21_4_18_Teacher_in_the_Temple”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Motivação dos Líderes: Bock interpreta o confronto como uma questão jurídica/teológica sobre credenciais (“Quem te deu o direito?”). Green aprofunda-se na sociologia, vendo o conflito como uma disputa por legitimação divina. Para Green, a questão não é apenas burocrática, mas uma batalha entre visões de mundo: a visão excludente do Templo vs. a “boa nova” inclusiva de Jesus.
- A Resposta de Jesus: Bock vê a contrapergunta sobre João Batista como uma forma de “aumentar as apostas” e silenciar os críticos com lógica irrefutável. Green vê como uma exposição da ilegitimidade dos líderes: eles não podem discernir um profeta (João), logo não têm autoridade para julgar Jesus.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Não há citações diretas do AT nesta seção específica, mas Green aponta para a tradição profética de chamar Israel ao arrependimento, situando Jesus (e João) na linha de profetas rejeitados pela elite, um tema que será central na parábola seguinte.
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a pergunta sobre João Batista não foi uma evasiva de Jesus, mas uma demonstração de que a autoridade dele e de João provém da mesma fonte divina, a qual os líderes se recusam a reconhecer.
📖 Perícope: A Parábola dos Lavradores Maus (20:9-19)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Geōrgous (Lavradores/Inquilinos): Bock e Green concordam que representam a liderança de Israel, não o povo todo.
- Kephalēn gōnias (Cabeça da Esquina): Bock rejeita vigorosamente a interpretação de Jeremias de “pedra de fecho” (capstone), argumentando filologicamente que se refere a uma “pedra de fundação” (foundation stone) que une duas paredes, suportando o peso e garantindo estabilidade (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Defende a autenticidade da parábola contra o Jesus Seminar, argumentando que a complexidade alegórica não a desqualifica. Ele nota o detalhe do “Filho Amado” (agapēton) como uma conexão com o Batismo e Transfiguração, enfatizando a consciência messiânica de Jesus (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem”).
- Green: Destaca a mudança crucial em relação a Isaías 5. Em Isaías, Deus destrói a vinha (Israel); em Lucas, o dono destrói os inquilinos (Líderes), mas preserva a vinha para dá-la a “outros” (Apóstolos). Isso refuta a ideia de que Deus rejeitou Israel como povo; Ele apenas transferiu a liderança (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Edwards: Foca na distinção entre a Estrutura (a vinha/propósito de Deus) e a Infraestrutura (os inquilinos corruptos). A parábola confirma sua tese de que Jesus não é contra o Templo (vinha), mas contra a administração atual (Edwards, “PNTC_037_19_45-21_4_18_Teacher_in_the_Temple”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Identidade dos “Outros”: Bock interpreta “dar a vinha a outros” como a inclusão dos Gentios e a liderança apostólica. Green é mais cauteloso, focando primariamente na transferência de liderança para os apóstolos (Jesus e os Doze) e na redefinição de liderança dentro de Israel, evitando uma teologia de substituição simplista.
- A Pedra que Esmaga (v.18): Bock debate a fonte da imagem da pedra que esmaga, sugerindo uma alusão conceitual a Daniel 2:34,44 (o reino que esmiúça), mas admite a falta de conexão verbal direta. Green vê a imagem da pedra servindo para justificar a destruição dos inquilinos obstinados e alertar o povo para se distanciar de seus líderes.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 5:1-7: Identificado unanimemente como o subtexto primário. Green enfatiza como Jesus altera o final de Isaías (julgamento dos líderes vs. destruição da nação).
- Salmo 118:22 (A Pedra Rejeitada): Bock nota que este salmo, originalmente sobre a rejeição nacional e restauração do rei, é aplicado tipologicamente a Jesus.
- Daniel 2: Bock sugere a alusão à pedra que esmaga os impérios.
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que a parábola é uma alegoria da História da Salvação, onde os servos são os profetas, o filho é Jesus, e o assassinato do filho prefigura a Paixão iminente instigada pela liderança do Templo.
📖 Perícope: A Questão do Tributo a César (20:20-26)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hypokrinesthai (Fingimento/Hipocrisia): Green traduz a descrição dos espias (“fingindo serem justos”) não apenas como hipocrisia moderna, mas como uma tentativa condenada de auto-justificação baseada em status público, contrastando com a verdadeira justiça que eles fingem buscar (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Eikon (Imagem): Bock e Green destacam o termo na moeda. Green conecta teologicamente com Gênesis 1:26 (humanidade como imagem de Deus).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Enfatiza a ironia da posse da moeda. Ao pedir para verem o denário, Jesus força os líderes a admitirem que já operam sob a soberania de Roma (eles têm a moeda no bolso dentro do espaço sagrado). Bock vê a resposta de Jesus como uma recusa em adotar a teologia política Zelote sem se submeter incondicionalmente a Roma (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem”).
- Green: Refuta a interpretação moderna de “separação Igreja-Estado”. Ele argumenta que Jesus não divide o mundo em duas esferas autônomas. Ao evocar a imagem na moeda, Jesus implica que, se a moeda pertence a César por ter sua imagem, o ser humano pertence a Deus por ter a imagem de Deus. A obrigação para com César é real, mas subordinada e relativizada pela obrigação total para com Deus (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Trap (A Armadilha): Bock foca no dilema político: dizer “sim” aliena os nacionalistas; dizer “não” incita Roma (sedição). Green adiciona a dimensão da vergonha pública: a armadilha foi desenhada para funcionar “diante do povo” (v. 26). O objetivo era desacreditar Jesus como um falso messias (se pagasse) ou como um revolucionário perigoso (se negasse).
- Resolução: Bock vê a resposta como um reconhecimento da validade do Estado para manutenção da ordem. Green vê como uma declaração de fidelidade exclusiva a Deus que “despotencializa” a pretensão de César.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 1:26: Green faz uma conexão teológica crucial (embora implícita no texto de Lucas) entre a imagem de César na moeda e a imagem de Deus no homem. “Dai a Deus o que é de Deus” significa dar a si mesmo inteiramente.
5. Consenso Mínimo
- Ambos concordam que a resposta de Jesus não é uma evasiva, mas uma afirmação de hierarquia: as obrigações civis existem, mas a lealdade a Deus é suprema e abrangente.
📖 Perícope: A Ressurreição e os Saduceus (20:27-40)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Huios (Filhos): Green destaca o contraste entre “filhos desta era” e “filhos da ressurreição”. A filiação aqui denota caráter e destino, não apenas descendência.
- Gamiskontai (Dada em casamento): Green observa que os verbos estão na voz média (“permitir-se casar”), sugerindo que na nova era, a mulher não participa mais do sistema patriarcal de ser “tomada” ou “dada” para garantir descendência (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Green: Oferece uma análise profunda do Levirato (Deut 25:5). Ele argumenta que os Saduceus usam Moisés para defender a “imortalidade através da posteridade” (linhagem). Jesus desconstrói isso mostrando que a ressurreição elimina a morte e, portanto, a necessidade de procriação e casamento. A mulher deixa de ser um veículo de descendência masculina para ser “igual aos anjos” (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Bock: (Via resumo executivo e contexto geral da obra) Bock foca na historicidade do debate, situando-o nas tensões sectárias do primeiro século. Ele destaca como Jesus usa a própria Torá (Moisés na sarça) para refutar os Saduceus, que aceitavam apenas o Pentateuco como autoritativo, provando a ressurreição sem recorrer aos profetas (Bock, “BECNT_015_19_45-21_4_A_Controversy_in_Jerusalem” - inferido do método geral e resumo, pois o detalhe exato falta no excerto).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Ressurreição: Green enfatiza a descontinuidade radical das estruturas sociais (fim do patriarcado/casamento). A ressurreição não é a continuação da vida atual, mas uma transformação ontológica (“como anjos”).
- O Argumento de Jesus: Jesus argumenta que Deus não é Deus de mortos. Green explica: Deus não se identificaria (“Eu sou o Deus de Abraão”) com quem deixou de existir. A aliança requer parceiros vivos.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Êxodo 3:6 (A Sarça Ardente): Green analisa como Jesus usa este texto (central para a Torá) para provar a vida contínua dos patriarcas, uma exegese que impressiona até os escribas (v. 39).
- Deuteronômio 25:5 (Lei do Levirato): A base da objeção saducéia.
5. Consenso Mínimo
- Jesus derrota os Saduceus em seu próprio terreno (a Torá), demonstrando que a ressurreição é biblicamente necessária dada a natureza do Deus vivo e da Sua aliança eterna.
📖 Perícope: O Filho de Davi e os Escribas (20:41-47)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Kyrios (Senhor): Green foca no uso do Salmo 110 para redefinir o Messias. Ele não é apenas um sucessor político de Davi (filho), mas seu Superior divino (Senhor).
- Proseuchomai (Orar): As “longas orações” dos escribas (v. 47) são vistas por Green como pretexto para piedade enquanto cometem injustiça econômica.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Green: Conecta vitalmente os versos 45-47 (crítica aos escribas) com 21:1-4 (a viúva). Ele nota que os escribas “devoram as casas das viúvas” (20:47) e a viúva pobre entrega “toda a sua vida/sustento” (bios) ao Templo. Green vê isso não como um elogio à oferta da viúva, mas como um lamento de um sistema religioso corrupto que extrai o sustento dos pobres para manter o luxo dos escribas (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
- Edwards: Enfatiza a cegueira teológica dos líderes. Eles sabem que o Messias é filho de Davi, mas não compreendem como ele pode ser Senhor de Davi. Isso reflete a incapacidade da “infraestrutura” do Templo de reconhecer a divindade presente neles (Edwards, “PNTC_037_19_45-21_4_18_Teacher_in_the_Temple”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Oferta da Viúva (Conexão 20:47 - 21:4): Tradicionalmente vista como modelo de discipulado (sacrifício total). Green oferece uma leitura crítica-social: Jesus condena o sistema que exige tal sacrifício, devorando a “casa” da viúva mencionada no verso anterior. A justaposição literária de Lucas serve para ilustrar a voracidade dos escribas denunciada em 20:47.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 110:1: Jesus usa este salmo para quebrar a expectativa de um Messias puramente nacionalista/militar (apenas filho de Davi), apontando para sua exaltação cósmica à direita de Deus (Green, “NICNT_006_20_1-21_38_6_Teaching_in_the_Jerusalem_Temple”).
5. Consenso Mínimo
- A exegese do Salmo 110 demonstra a superioridade de Jesus sobre a linhagem davídica tradicional e serve como prelúdio para sua vindicação divina após a rejeição humana.