Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Evangelho de Lucas Capítulo 14
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. Baker Exegetical Commentary on the New Testament (BECNT). Baker Academic. Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Bock, D. L. (1994). Luke. 2 vols. (BECNT).
- Lente Teológica: Evangélica/Histórico-Gramatical. Bock opera dentro de uma estrutura que valoriza a historicidade do texto e a progressão da história da redenção. Ele vê a narrativa de Lucas como teologicamente estruturada, mas enraizada em eventos históricos e tradições autênticas de Jesus.
- Metodologia: Utiliza uma exegese detalhada com forte ênfase na análise das fontes (Q, L, Marcos) e na estrutura literária. Ele divide o texto em unidades de ensino e debate, frequentemente interagindo com a crítica histórica (como o Jesus Seminar) para defender a autenticidade dos ditos de Jesus. No capítulo 14, ele observa a transição entre o debate com a liderança judaica e a instrução direta sobre o discipulado (Bock, “Discipleship in the Face of Rejection”).
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2015). The Gospel according to Luke. (PNTC).
- Lente Teológica: Teológico-Narrativa/Cristológica. Edwards foca em como a narrativa revela a identidade de Jesus (Cristologia) e a natureza do Reino. Ele destaca a continuidade entre o Israel do AT e a revelação em Jesus, utilizando temas como o “banquete messiânico”.
- Metodologia: Emprega uma análise literária que busca padrões (como o uso de “pares” em Lucas) e conexões intra-textuais (ligando o cap. 14 ao 13). Sua abordagem é menos técnica no grego do que a de Bock, focando mais na exposição teológica e na aplicação do texto, destacando a tensão entre a humanidade e a divindade de Jesus na narrativa (Edwards, “Jesus: Both Guest and Lord”).
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Autor/Obra: Green, J. B. (1997). The Gospel of Luke. (NICNT).
- Lente Teológica: Crítica Narrativa e Sócio-Retórica. Green enfatiza a “teologia narrativa”, onde o significado é derivado da estrutura da história e do mundo social do texto (honra, vergonha, patronagem). Ele vê a “viagem para Jerusalém” não apenas como geografia, mas como um dispositivo teológico para o discipulado e a revelação da missão de Deus.
- Metodologia: Analisa como o texto molda a identidade da comunidade de discípulos. Ele foca na soteriologia da reversão (salvação para os marginalizados) e no conflito com as estruturas sociais estabelecidas. No contexto da viagem (onde se insere o cap. 14), ele destaca a formação de um povo que “ouve e pratica a palavra” em meio à rejeição (Green, “On the Way to Jerusalem”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Bock (Lucas 14): O capítulo marca um ponto de virada onde Jesus expõe a rejeição nacional de Israel e redefine o discipulado como um compromisso absoluto que supera laços familiares e exige o cálculo do custo da cruz.
- Argumento Expandido: Bock situa Lucas 14:1-24 no final de uma seção maior sobre “Conhecer a natureza do tempo”, onde a liderança judaica é repreendida por sua hipocrisia e exclusão do banquete de Deus. A cura no sábado e a parábola da grande ceia ilustram que “muitos na nação recusam a oportunidade de entrar”, mas o plano de Deus continua (Bock, “Israel Turns Away”). A partir de 14:25, Bock identifica uma mudança de público para as multidões, enfatizando que o discipulado não é uma adesão casual, mas requer “odiar” a própria família e vida em favor de Jesus (Bock, “Discipleship in the Face of Rejection”).
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Tese de Edwards (Lucas 14): O capítulo apresenta um motivo de “duas naturezas”, onde Jesus começa como um hóspede humano em um jantar, mas se revela como o Anfitrião Divino (Senhor) que abre o Reino de Deus para os marginalizados que o antigo Israel rejeitou.
- Argumento Expandido: Edwards argumenta que Lucas 14 aborda o tema de “Jesus: Tanto Hóspede quanto Senhor do Banquete”. Ele nota que a narrativa começa com Jesus em um jantar humano, sujeito a críticas, mas evolui para Jesus narrando a parábola da grande ceia não como convidado, mas como o próprio Deus (o anfitrião) (Edwards, “Jesus: Both Guest and Lord”). Ele destaca a ligação literária com o capítulo 13 através de paralelismos (curas no sábado, parábolas), enfatizando que “no convite do anfitrião… as portas do salão de banquetes — o reino de Deus — são abertas para aqueles para quem o velho Israel não tinha lugar” (Edwards, “Jesus: Both Guest and Lord”).
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Tese de Green (Contexto de Lucas 14): A narrativa da viagem, que engloba o capítulo 14, funciona para desmantelar as fronteiras sociais estabelecidas (pureza/status) e redefinir a salvação como abrangente aos “pobres, aleijados, coxos e cegos” (14:13), exigindo uma reorientação radical das lealdades sociais.
- Argumento Expandido: Embora o foco principal de Green na seção fornecida seja a estrutura da “Viagem a Jerusalém” (9:51–19:48), ele utiliza explicitamente temas de Lucas 14 para sustentar sua tese de que esta seção desenvolve a “vinda da salvação em toda a sua plenitude a todas as pessoas” (Green, “On the Way to Jerusalem”). Ele cita o ensinamento de Jesus sobre convidar os marginalizados (14:13) como prova da demolição de barreiras sociais. Além disso, ele conecta as demandas rigorosas do discipulado no caminho (como o “odiar pai e mãe” de 14:26) com a necessidade de uma “reconstrução do eu dentro de uma nova teia de relacionamentos” centrada na Palavra de Deus (Green, “Departure for Jerusalem”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Bock | Visão de Edwards | Visão de Green |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Miseō (odiar, 14:26): Define como semitismo retórico para “amar menos”, exigindo prioridade absoluta sobre a família, não emoção literal (Bock, p. 142). Apotassō (renunciar, 14:33): Traduz como “dizer adeus” a apegos materiais (Bock, p. 154). | Kyrios (Senhor): Enfatiza a justaposição de Jesus como convidado humano e Senhor divino do banquete (Edwards, p. 482). Destaca Pares: Cura do homem hidrópico (14:1-6) pareada estruturalmente com a mulher encurvada (13:10-17) (Edwards, p. 485). | Sōtēria (salvação): Entendida como abrangente, incluindo “pobres, aleijados” (14:13) e a demolição de barreiras sociais (Green, p. 225). Foca na Hospitalidade como leitmotiv da viagem (Green, p. 236). |
| Problema Central do Texto | A Rejeição Nacional. O capítulo expõe a hipocrisia da liderança que recusa o convite divino, exigindo em contrapartida um discipulado de compromisso total (Bock, p. 14, 131). | A tensão Cristológica. O problema é a cegueira de Israel quanto à identidade de Jesus, que transita de convidado sujeito a críticas para o Anfitrião Divino que dita as regras do Reino (Edwards, p. 482). | A Exclusão Social. O foco é o sistema de pureza e status que marginaliza certos grupos; o texto visa desmantelar essas fronteiras sociais estabelecidas (Green, p. 225-226). |
| Resolução Teológica | Custo do Discipulado. A solução é “calcular o custo” e a utilidade (sal), onde a fidelidade a Jesus supera laços familiares e bens (Bock, p. 131, 159). | Abertura do Banquete. Jesus, como Senhor, abre as portas do Reino para os “de fora” (gentios/pobres) para quem o velho Israel não tinha lugar (Edwards, p. 482). | Reconfiguração da Comunidade. A salvação é manifesta na inclusão dos marginalizados e na formação de um povo que “ouve e pratica” a palavra (Green, p. 225, 233). |
| Tom/Estilo | Exegético/Técnico. Detalhado, foca na historicidade, análise de fontes e interação com a crítica (ex: Jesus Seminar) (Bock, p. 136). | Teológico/Narrativo. Foca na estrutura literária, padrões (quiasmos/pares) e na revelação da identidade divina de Jesus (Edwards, p. 482). | Sócio-Retórico. Foca na narrativa da viagem como dispositivo para formação de identidade e visão de mundo dentro do propósito divino (Green, p. 224). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Bock fornece o melhor background histórico e exegético. Ele detalha as nuances dos termos gregos (ex: miseō, apotassō) e situa rigorosamente os ditos de Jesus no contexto do judaísmo do primeiro século, defendendo a autenticidade histórica contra leituras críticas (Bock, p. 143).
- Melhor para Teologia: Edwards aprofunda melhor as doutrinas cristológicas e literárias. Sua análise do motivo “Hóspede e Senhor” e a identificação de estruturas paralelas (pares) oferecem uma leitura teológica rica que conecta a narrativa à identidade divina de Cristo (Edwards, p. 482).
- Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se combinar a precisão exegética de Bock sobre o Discipulado Radical, a sensibilidade sócio-retórica de Green quanto à Inclusão Social no Reino, e a visão teológica de Edwards sobre o Banquete Messiânico presidido por Jesus.
Discipulado Radical, Banquete Messiânico, Inclusão Social e Reversão de Status são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: O Banquete e a Cura no Sábado (Versículos 14:1-24)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Kyrios (Senhor): Edwards destaca que no capítulo 14, Jesus transita de um hóspede humano para o Senhor divino. Embora o termo Kyrios seja comum, Edwards nota que a narrativa de Lucas utiliza a posição de Jesus no banquete para redefinir sua autoridade não apenas como mestre, mas como o próprio Deus anfitrião que dita as regras do banquete messiânico (Edwards, p. 482).
- Apoluō (Soltar/Curar): Embora o texto grego específico do versículo 4 não seja detalhado nas fontes fornecidas, Bock observa a conexão temática com a cura da mulher encurvada em 13:12 (apolelysai), chamando este episódio de “milagre espelho” (Bock, p. 67). A cura representa a libertação do poder de Satanás.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Observa que esta seção (14:1-24) conclui uma unidade maior iniciada em 12:49 sobre “Conhecer a natureza do tempo”. Para Bock, a cura no sábado e as parábolas do banquete servem para ilustrar que, embora a nação de Israel esteja rejeitando o convite (como os convidados que dão desculpas), o plano de Deus continua com a inclusão dos marginalizados (Bock, p. 14). Ele classifica o milagre de 14:1-6 como um “milagre espelho” do episódio de 13:10-17, reforçando a obstinação da liderança religiosa (Bock, p. 67).
- Edwards: Traz uma profundidade cristológica única ao identificar um motivo de “duas naturezas” em Lucas 14. Jesus começa como um convidado sujeito à crítica humana (“Tão humano”), mas termina narrando a parábola da grande ceia como o Anfitrião Divino (“Nada humano”). Edwards argumenta que as portas do salão de banquetes são abertas por Jesus para aqueles que o “velho Israel” não tinha lugar (Edwards, p. 482). Ele também nota o paralelismo estrutural de gênero: a cura do homem hidrópico (14:1-6) pareada com a cura da mulher encurvada (13:10-17) (Edwards, p. 485).
- Green: Destaca a aplicação soteriológica e social. Ele conecta o ensinamento de Jesus sobre convidar “pobres, aleijados, coxos e cegos” (14:13) com o tema maior da “vinda da salvação em toda a sua plenitude a todas as pessoas”, enfatizando a destruição de barreiras sociais como leprosos, mulheres e cobradores de impostos (Green, p. 225).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Narrativa: Enquanto Bock foca na rejeição nacional e na advertência profética aos líderes judeus que recusam o convite (Bock, p. 14), Edwards foca na revelação cristológica da identidade de Jesus como o Senhor do Banquete que substitui as normas antigas (Edwards, p. 482). A divergência é de ênfase: Bock é mais histórico-redentivo (foco em Israel), Edwards é mais teológico-literário (foco na pessoa de Cristo).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Bock e Green aludem implicitamente às promessas proféticas de inclusão (como Isaías), mas Edwards conecta especificamente a estrutura de pares (homem/mulher curados) como uma característica de Lucas para assegurar aos leitores que a redenção de Jesus satisfaz os cânones judaicos de testemunho válido (Deut 19:15), onde duas testemunhas são necessárias (Edwards, p. 486).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que esta seção marca uma ruptura com as expectativas sociais da liderança judaica e redefine os participantes do Reino de Deus para incluir os marginalizados.
📖 Perícope: O Custo do Discipulado (Versículos 14:25-35)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Miseō (Odiar, 14:26): Bock dedica extensa análise a este termo, definindo-o como um semitismo retórico que significa “amar menos” (citando Gen 29:30-31; Deut 21:15-17). Ele argumenta contra uma interpretação literal psicológica, afirmando que se trata de uma questão de lealdade e prioridade: Jesus deve ser o “primeiro amor” acima da família (Bock, p. 142).
- Bastazō (Carregar, 14:27): Bock diferencia o uso de Lucas (bastazei - carregar, presente contínuo) do de Mateus (lambanei - tomar). Para Bock, Lucas enfatiza o processo contínuo de suportar o sofrimento e a rejeição, não apenas a vontade inicial de aceitá-lo (Bock, p. 146).
- Apotassō (Renunciar/Despedir-se, 14:33): Bock traduz como “dizer adeus” ou renunciar. Ele nota que o termo implica uma reorientação total onde Jesus vem antes de todas as posses materiais, funcionando como uma condição para ser um discípulo “útil” (Bock, p. 154).
- Halas (Sal, 14:34): O sal é descrito não apenas como tempero, mas com funções agrícolas (fertilizante/preservativo). O termo moranthē (perder o sabor/tornar-se tolo) indica a inutilidade total do discípulo sem compromisso (Bock, p. 155).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Bock: Fornece detalhes históricos sobre as torres (pyrgos, 14:28), explicando que se referem a torres de vigia em vinhedos ou para proteção de casas, e não necessariamente torres de cidades. Ele enfatiza que a metáfora da construção inacabada traz “vergonha pública” e escárnio (empaizein), algo culturalmente devastador no mundo antigo (Bock, p. 148-150). Sobre a parábola do rei (14:31), Bock sugere uma possível alusão a 2 Samuel 8:9-12 (Bock, p. 151).
- Green: (Contexto Geral) Embora a seção específica de exegese de Green não esteja detalhada nos trechos, sua tese geral sobre a “viagem” ilumina esta seção como uma “reconstrução do eu dentro de uma nova teia de relacionamentos”. O “odiar pai e mãe” é lido por Green como parte da redefinição de parentesco baseada em ouvir e fazer a palavra de Deus, substituindo os laços de sangue pela lealdade ao Reino (Green, p. 231, 254).
- Edwards: (Contexto Geral) Destaca que os ensinamentos de Jesus aqui assumem que as portas do Reino estão abertas, mas a entrada não é casual. Ele conecta o discipulado rigoroso com a identidade de Jesus como Senhor: seguir a Jesus exige reconhecer sua autoridade suprema sobre a vida e a morte (Edwards, p. 482).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Autenticidade e Fontes (Q vs. L): Bock discute se estas passagens vêm da fonte Q (devido a paralelos em Mateus 10). Ele argumenta que, embora o sentido seja similar, a fraseologia é tão distinta (ex: Mateus diz “ama mais do que a mim”, Lucas diz “não odeia”) que é melhor ver como tradições independentes ou variações do mesmo ensinamento de Jesus em ocasiões diferentes, rejeitando a necessidade de uma fonte literária única (Bock, p. 134).
- Natureza da Renúncia: Existe uma tensão sobre se a renúncia (14:33) é absoluta/literal ou disposicional. Bock argumenta que, embora o chamado seja radical, a ênfase está na prioridade e na disposição de perder tudo se necessário, notando que em Atos vemos o cumprimento disso na comunidade primitiva (Bock, p. 154).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gen 29:30-31 / Deut 21:15-17: Bock cita estas passagens para fundamentar a interpretação de “odiar” como “amar menos” ou preferir um em detrimento do outro em contextos legais e familiares (Bock, p. 142).
- Jó 6:6: Citado por Bock em relação à metáfora do sal como tempero, mas ele expande para o uso agrícola (Bock, p. 155).
- Provérbios 24:6: A sabedoria de planejar a guerra (14:31) reflete a tradição de sabedoria do AT, onde o conselho é vital antes do conflito.
5. Consenso Mínimo
- É indisputável entre os autores que o discipulado exigido por Jesus não é uma adesão passiva, mas requer uma reavaliação radical de lealdades, onde a fidelidade a Jesus supera os laços mais fundamentais da sociedade antiga (família) e a própria autopreservação (a cruz).