Análise Comparativa: Marcos 9

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC).

    • Lente Teológica: Evangélica Erudita com ênfase na Crítica Narrativa e Análise Filológica. France aborda o texto dentro da tradição do New International Greek Testament Commentary, priorizando a sintaxe grega e a estrutura literária intencional de Marcos.
    • Metodologia: Sua abordagem é rigorosamente exegética e gramatical. Ele situa Marcos 9 dentro do “Segundo Ato” do drama de Marcos (8:22–10:52), definindo-o como uma seção geograficamente distinta (“No Caminho”) focada na reeducação dos discípulos. France evita impor categorias teológicas sistemáticas externas, preferindo deixar que a narrativa de Marcos dite a teologia, especialmente através da análise de termos gregos como metamorphoō e a cronologia dos eventos. Ele rejeita interpretações que veem erros em Jesus (como na previsão da Parusia em 9:1), buscando coerência narrativa interna (France, “Act Two…”).
  • Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC).

    • Lente Teológica: Evangélica Confessional com forte inclinação para a Teologia Bíblica e Tipologia. Edwards lê Marcos com uma sensibilidade aguçada para os ecos do Antigo Testamento e a cristologia do Filho de Deus como Servo Sofredor.
    • Metodologia: Combina exegese detalhada com teologia narrativa. Edwards foca na revelação progressiva da identidade de Jesus (“Removing the Veil”). Ele utiliza extensivamente paralelos com o Êxodo (Sinai) e Isaías para explicar a Transfiguração e o discipulado. Sua metodologia destaca a ironia marcana: a glória é revelada apenas para ratificar o caminho da cruz. Ele também enfatiza a dimensão experiencial da fé e da oração no episódio do menino possesso (Edwards, “Removing the Veil”).
  • Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC).

    • Lente Teológica: Pastoral e Aplicada (Hermenêutica da Contextualização). Garland escreve para conectar o “Significado Original” com a “Significância Contemporânea”, focando na ética do discipulado e na contra-cultura do Reino.
    • Metodologia: Sua abordagem é tripartida (Sentido Original, Ponte Contextual, Aplicação). No capítulo 9, ele foca no contraste entre a glória divina e a falha humana (dos discípulos). Ele utiliza conceitos sociológicos (honra/vergonha, elitismo religioso) para explicar as disputas dos discípulos e o exorcista estranho. Garland é menos técnico linguisticamente que France, mas mais focado nas implicações práticas do fracasso dos discípulos e na natureza da fé em meio à dúvida (Garland, “Original Meaning”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (NIGTC): O capítulo 9 é parte integral da instrução privada aos discípulos, onde a Transfiguração funciona não como uma previsão falha do fim do mundo, mas como uma garantia antecipada do Reino de Deus vindo com poder através da Ressurreição e do crescimento da igreja.

    • Argumento Expandido: France argumenta contra a visão de que Marcos 9:1 refere-se à Parusia imediata, chamando essa interpretação de “perversa”; ele sugere que a promessa se cumpre progressivamente na transfiguração, ressurreição e crescimento da igreja (France, “failed prediction… is surely perverse”). Ele vê a Transfiguração ligada a 9:1 pela precisão temporal (“seis dias”), entendendo-a como uma confirmação proléptica para o círculo íntimo de que o sofrimento anunciado em 8:31 não é o fim da história (France, “proleptic fulfilment”). No exorcismo (9:14-29), France destaca a falha dos discípulos como uma perda do senso de dependência, sugerindo que eles se tornaram “blasés” em sua autoridade delegada (France, “They have become blasé”).
  • Tese de Edwards (PNTC): O capítulo 9 atua como o “Retirar do Véu”, revelando que a verdadeira identidade de Jesus como Filho de Deus só pode ser compreendida através do paradoxo do sofrimento, e que o discipulado exige uma dependência radical de Deus (oração) em vez de autossuficiência.

    • Argumento Expandido: Edwards enfatiza a tipologia do Sinai na Transfiguração, não como uma apoteose helenística, mas como uma ratificação divina do caminho da cruz; a voz divina ordena “Ouvi-o” especificamente para que aceitem o ensino sobre o sofrimento (Edwards, “ratification of Jesus’ way to the cross”). No episódio do menino possesso, Edwards define a oração em 9:29 teologicamente como “fé voltada para Deus”, contrastando a insuficiência humana com a suficiência divina (Edwards, “prayer is faith turned to God”). Ele também destaca a “inadequação dos discípulos” não como uma falha fatal, mas como uma condição que deve levá-los à oração e comunhão contínua (Edwards, “inadequacy… drives the disciples to prayer”).
  • Tese de Garland (NIVAC): Marcos 9 expõe o choque entre o triunfalismo escatológico esperado pelos discípulos e a realidade do Messias crucificado, usando o fracasso dos discípulos e a Transfiguração para redefinir grandeza como serviço sacrificial e dependência de Deus.

    • Argumento Expandido: Garland interpreta a Transfiguração como um “holograma” que serve para “desmascarar falsas esperanças de triunfalismo escatológico” imediato (Garland, “debunk any false hopes”). Ele foca intensamente na aplicação pastoral do exorcismo falho, argumentando que os discípulos falharam porque confiaram na “técnica” e em sua própria “habilidade profissional” em vez de manterem uma relação vital com Deus (Garland, “rely on their own professional skill”). Na seção final (9:33-50), Garland aplica as disputas sobre grandeza e o exorcista estranho como críticas diretas ao “espírito de superioridade” e “elitismo” nas igrejas contemporâneas, onde os discípulos agem como se tivessem “direitos autorais” sobre o nome de Jesus (Garland, “exclusive rights to Jesus’ name”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (NIGTC)Visão de Edwards (PNTC)Visão de Garland (NIVAC)
Palavra-Chave/Termo Gregotouto to genos (9:29): Interpreta não como uma classe especial de demônios (“esta casta”), mas como a categoria geral de demônios, que exige poder divino, não humano.metamorphoō (9:2): Define como uma revelação “de baixo para cima” da natureza divina no Jesus humano, e não uma epifania vinda de fora ou apoteose helenística.proseuchē (9:29): Define oração não como uma invocação mágica ou exercício piedoso, mas como um “senso de completa dependência de Deus”.
Problema Central do TextoA perda do senso de dependência dos discípulos, que se tornaram “blasés” (autossuficientes) e presumiram que sua autoridade delegada funcionaria automaticamente (France, p. 369).O escândalo da cruz: os discípulos buscam glória sem sofrimento (triunfalismo messiânico), colidindo com a necessidade divina do sofrimento do Filho do Homem.A confiança dos discípulos em sua própria “habilidade profissional” e técnica de exorcismo, tratando o poder de Jesus como uma posse autônoma e mágica.
Resolução TeológicaA Transfiguração serve como cumprimento proléptico (antecipado) da promessa de 9:1, garantindo a vitória futura apesar do fracasso presente e da morte iminente.A voz divina (“Ouvi-o”) ratifica o ensino impopular de Jesus sobre o sofrimento; a fé é redefinida como “abertura incondicional a Deus” em meio à insuficiência humana.O fracasso ensina que o poder pertence inteiramente a Deus e deve ser recebido novamente a cada vez através da oração; rejeição do elitismo eclesiástico (caso do exorcista estranho).
Tom/EstiloExegético-Crítico: Foca na precisão gramatical, variantes textuais e coerência narrativa interna de Marcos.Teológico-Tipológico: Rico em conexões com o Antigo Testamento (Sinai, Êxodo) e profundidade doutrinária.Pastoral-Aplicado: Conecta o texto antigo com desafios contemporâneos (ex: consumismo religioso, arrogância clerical).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: France (NIGTC) fornece a análise mais rigorosa do contexto literário e narrativo dentro do grego de Marcos, situando o capítulo 9 precisamente na estrutura geográfica e cronológica do “Segundo Ato” do evangelho e desmontando interpretações anacrônicas sobre a Parusia em 9:1.
  • Melhor para Teologia: Edwards (PNTC) oferece a profundidade teológica mais robusta, especialmente ao conectar a Transfiguração com a tipologia do Sinai e do Servo Sofredor, articulando como a Cristologia (quem Jesus é) dita imperativamente o Discipulado (quem nós devemos ser).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Marcos 9, deve-se utilizar a estrutura exegética de France para garantir a precisão do texto, preenchê-la com a riqueza tipológica e cristológica de Edwards para entender o peso da revelação divina, e aplicar as lições corretivas de Garland sobre a falência da autossuficiência humana e a necessidade de dependência radical.

Cristologia do Filho de Deus, Discipulado da Cruz, Transfiguração Proléptica e Dependência na Oração são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Transfiguração e a Vinda de Elias (Versículos 9:2-13)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • metamorphoō (9:2): France observa que o termo não implica necessariamente uma mudança de essência, citando o uso paulino em Romanos 12:2 (“transformai-vos”), sugerindo uma mudança visível na forma (France, “Act Two…”). Edwards concorda, especificando que não significa uma mudança na natureza de Jesus, mas uma transformação externa visível que se adequa à sua natureza divina interna (Edwards, “Removing the Veil”).
  • stilbō (9:3): France nota que este verbo é usado especificamente para o brilho de metais polidos ou estrelas, e que a referência à “lavanderia” terrestre é uma tentativa de Marcos de enfatizar que nenhuma explicação natural daria conta do fenômeno (France, “Act Two…”).
  • skēnai (9:5): France traduz como “abrigos” (shelters), ligando possivelmente à Festa dos Tabernáculos, mas nota a incongruência de Pedro propor tendas para seres celestiais. Edwards prefere a conexão teológica com a “habitação” de Deus (Tabernáculo) no Êxodo, sugerindo que Pedro, ironicamente, queria perpetuar o momento, sem saber que o próprio Jesus é o novo Tabernáculo (Edwards, “Removing the Veil”).
  • exapina (9:8): France destaca o uso desta palavra rara para “de repente” (em vez do usual euthys de Marcos), enfatizando a mudança dramática e imediata de volta à normalidade (France, “Act Two…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Aponta a precisão cronológica incomum de “seis dias” (9:2) como um elo deliberado com a promessa de 9:1. Ele sugere o Monte Meron (1208m) como uma alternativa geográfica mais plausível que o tradicional Tabor, devido à altitude e localização em relação a Cesareia de Filipe (France, “Act Two…”).
  • Edwards: Destaca vigorosamente o papel da nuvem (episkiazein) não apenas como cobertura, mas como presença fecundante de Deus, traçando um paralelo com Lucas 1:35 (a concepção virginal). Ele argumenta contra a teoria de que este relato seria uma “aparição de ressurreição retrojetada”, listando diferenças cruciais (ex: Jesus não está sozinho, há uma voz divina, ele não fala) (Edwards, “Removing the Veil”).
  • Garland: Oferece uma leitura sintática alternativa para a resposta de Jesus em 9:12, pontuando-a como uma pergunta: “É verdade que Elias vem primeiro para restaurar tudo? Como então está escrito…?”, sugerindo que a restauração esperada foi frustrada pela dureza humana, levando ao sofrimento necessário (Garland, “Original Meaning”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Elias e a Restauração (9:12): Existe uma tensão sobre como Elias “restaura todas as coisas” se João Batista foi morto.
    • France vê Jesus afirmando a doutrina escribal, mas redefinindo a “restauração” para incluir o sofrimento preparatório.
    • Garland propõe a leitura interrogativa (citada acima) para resolver a tensão: a restauração plena não aconteceu como esperado triunfalmente.
    • Veredito: A leitura de Garland resolve melhor a tensão lógica do texto, mas France se atém mais à gramática padrão grega.
  • Significado de 9:1 (Reino com Poder):
    • France: Vê cumprimento proléptico na Transfiguração, Ressurreição e crescimento da Igreja. Rejeita veementemente a ideia de “falha na previsão da Parusia”.
    • Edwards: Foca quase exclusivamente na Ressurreição como o cumprimento do “Reino vindo com poder”.
    • Garland: Concorda que se refere a eventos dentro da história (morte/ressurreição), mas mantém a ambiguidade do “ver”.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Êxodo 24: Todos concordam que a estrutura (seis dias, montanha, três companheiros, nuvem) é uma tipologia deliberada do Sinai.
  • Deuteronômio 18:15: Edwards e France identificam o comando “Ouvi-o” como uma citação direta da promessa do Profeta como Moisés.
  • Isaías 42:1 / Salmo 2:7: Identificados como base para a declaração “Este é o meu Filho amado”.
  • Malaquias 4:5-6: Base indisputável para a discussão sobre Elias.

5. Consenso Mínimo

  • A Transfiguração é uma confirmação divina da identidade de Jesus como Filho de Deus, destinada a fortalecer os discípulos diante do escândalo do sofrimento anunciado.

📖 Perícope: O Menino Possesso e a Falha dos Discípulos (Versículos 9:14-29)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • alalon / kōphon (9:17, 25): France observa que Marcos, ao contrário de Mateus/Lucas, enfatiza especificamente a incapacidade de fala e audição causada pelo espírito, detalhando a “surdez” espiritual (France, “Success and Failure…”).
  • rēssei (9:18): France nota que este verbo, geralmente traduzido como “rasgar”, é usado aqui em um sentido poético/arcaico de “arremessar ao chão” ou “derrubar” (France, “Success and Failure…”).
  • pisteuō (9:23-24): Edwards define a fé aqui não como uma posse segura, mas como um risco desesperado (“tethering to Christ”). Garland distingue três tipos de fé (lutadora, agarrada, descansada), classificando a do pai como “fé lutadora” (Garland, “Original Meaning”).
  • proseuchē (9:29): France discute a variante textual “e jejum” (kai nēsteia), sugerindo que a evidência externa é forte o suficiente para considerá-la, apesar da rejeição moderna (UBS). Garland rejeita a adição de “jejum” teologicamente, argumentando que contradiz o ensino de Jesus em 2:18-20.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Argumenta contra a classificação de demônios em categorias de dificuldade. Ele interpreta touto to genos (esta casta) como “demônios em geral”, sugerindo que os discípulos falharam por se tornarem blasés, tratando o exorcismo como uma habilidade adquirida e não dependente de Deus (France, “Success and Failure…”).
  • Edwards: Traz uma nuance teológica profunda sobre o estado de “morte” do menino após o exorcismo (v. 26). Ele vê o uso dos verbos “levantou” e “ergueu-se” como uma lição objetiva de ressurreição para os discípulos que acabaram de questionar o termo em 9:10 (Edwards, “Removing the Veil”).
  • Garland: Utiliza fontes históricas (Josefo, Ant. 8.47) para contrastar o exorcismo de Jesus com os métodos “técnicos” da época (anel de Salomão, raízes de cheiro), enfatizando que a falha dos discípulos foi confiar na técnica (“nós”) em vez da oração (Garland, “Original Meaning”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Variante “E Jejum” (9:29):
    • France: Defende a possibilidade textual da inclusão, sugerindo que o jejum era uma prática aceitável de preparação espiritual.
    • Garland: Rejeita vigorosamente com base na teologia interna de Marcos (o noivo está presente, logo não jejuam).
    • Veredito: Garland apresenta o argumento teológico mais coerente com o contexto imediato do evangelho, embora France seja mais rigoroso na crítica textual pura.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Deuteronômio 32:5, 20: Garland e France identificam o lamento de Jesus “Ó geração incrédula” como um eco direto da frustração de Moisés (e de Deus) com Israel no deserto.

5. Consenso Mínimo

  • A falha dos discípulos não se deveu à dificuldade do demônio, mas à falta de dependência contínua de Deus (oração/fé), tratando o poder delegado como uma propriedade autônoma.

📖 Perícope: Segundo Anúncio da Paixão e Disputa de Grandeza (Versículos 9:30-37)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • paradidotai (9:31): France e Edwards concordam que este verbo (“entregue”) funciona como um “passivo divino” (passivum divinum), indicando que é Deus quem entrega o Filho, ecoando Isaías 53. France nota o jogo de palavras: o Filho do Homem entregue nas mãos dos homens (France, “More Lessons…”).
  • diakonos (9:35): Edwards define como “esperar mesas”, enfatizando a devoção pessoal em oposição ao serviço escravo ou oficial. France destaca que não se refere a um “cargo” eclesiástico posterior, mas à função de um doméstico (France, “More Lessons…”; Edwards, “Mere Discipleship”).
  • enagkalisamenos (9:36): France destaca este particípio (“tomando nos braços”) como um detalhe vívido e exclusivo de Marcos, transformando o ensino em uma lição visual e tátil (France, “More Lessons…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Observa a “incongruência cômica” dos discípulos agindo como “escolares culpados” quando Jesus pergunta sobre a discussão no caminho. Ele também nota que Jesus assume a posição formal de ensino (“sentou-se”) dentro da casa (France, “More Lessons…”).
  • Edwards: Destaca a ironia de “a desumanidade do homem contra o homem” em 9:31. Sobre a criança, ele corrige a interpretação comum: a criança não é modelo de humildade (crianças não eram vistas assim na época), mas modelo de insignificância. Receber a criança é receber o “nada” social (Edwards, “Mere Discipleship”).
  • Garland: Conecta a disputa de grandeza com as regras da comunidade de Qumran (1QS), onde a hierarquia e a ordem de assento eram rigidamente teológicas e eternas, sugerindo que os discípulos operavam sob uma teologia similar de “status sagrado” (Garland, “Original Meaning”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não há divergência significativa nesta seção; os autores concordam plenamente sobre a cegueira contínua dos discípulos e a inversão de valores do Reino.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 53: Edwards e France veem o uso de paradidotai (entregue) como uma alusão direta ao Servo Sofredor.
  • Jeremias 23:5: Edwards menciona a esperança messiânica davídica como contraste ao ensino de Jesus aqui.

5. Consenso Mínimo

  • A verdadeira grandeza no Reino de Deus é definida pelo serviço aos socialmente insignificantes (a criança), e não pela hierarquia ou poder.

📖 Perícope: O Exorcista Estranho e Advertências (Versículos 9:38-50)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • ekōlyomen (9:38): France nota o tempo imperfeito (“tentamos impedir”), sugerindo uma tentativa fracassada ou contínua, não um ato único e decisivo (France, “More Lessons…”).
  • Christou (9:41): France aponta que esta é uma ocorrência rara onde Jesus usa o título “Cristo” para si mesmo (“pertencentes a Cristo”), ligando o ato de bondade à fidelidade messiânica (France, “More Lessons…”).
  • Gehenna (9:43): Edwards explica a etimologia do Vale de Hinom, local de sacrifícios humanos antigos e depósito de lixo, como símbolo de destruição final (Edwards, “Mere Discipleship”).
  • halisthēsetai (9:49): Edwards e Garland conectam “salgado com fogo” aos sacrifícios do Templo (Levítico 2:13), onde o sal era obrigatório. O sofrimento do discípulo é sua oferta sacrificial a Deus (Edwards, “Mere Discipleship”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Sugere que o “nós” de João em 9:38 (“não nos segue”) revela uma doutrina possessiva onde os Doze se viam como mediadores exclusivos de Jesus. Ele vê os versículos finais (49-50) como uma coleção de ditos ligados por palavras-gatilho (“fogo”, “sal”) (France, “More Lessons…”).
  • Edwards: Aplica a advertência de 9:42 (“fazer tropeçar”) especificamente ao caso do exorcista estranho: João estava “escandalizando” um “pequenino” na fé ao tentar impedi-lo. Ele interpreta o “salgado com fogo” como a vida de discipulado sendo um “sacrifício vivo” (Rm 12:1) (Edwards, “Mere Discipleship”).
  • Garland: Discute a aplicação contemporânea do “cortar a mão”, alertando contra interpretações literais (mutilação) e liberais (ignorar a gravidade), insistindo na “cirurgia radical” dos hábitos pecaminosos. Ele vê a tolerância de Jesus ao exorcista estranho como uma crítica direta ao denominacionalismo moderno (Garland, “Original Meaning”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • “Quem não é contra nós é por nós” (9:40):
    • Garland: Adverte contra usar isso como soteriologia universalista (neutralidade = salvação). O contexto é perseguição: quem não ataca é aliado.
    • France: Vê como uma afirmação das “fronteiras abertas” do Reino, onde simpatizantes são aceitos, contrastando com a fórmula exclusiva de Mateus 12:30.
    • Veredito: Ambos concordam no contexto, mas France enfatiza a eclesiologia inclusiva, enquanto Garland protege a exclusividade soteriológica.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Números 11:26-29: France e Garland citam a história de Eldade e Medade como o paralelo exato para a atitude de João (como Josué) e a resposta de Jesus (como Moisés).
  • Isaías 66:24: Citação explícita em 9:48 sobre o verme e o fogo.
  • Levítico 2:13: Edwards conecta o sal ao pacto sacrificial.

5. Consenso Mínimo

  • O discipulado exige uma postura radical contra o pecado pessoal (auto-mutilação metafórica) e uma postura radicalmente inclusiva para com outros que servem a Jesus, rejeitando o partidarismo e o elitismo espiritual.