Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Marcos 7
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.
Análise dos Autores
-
Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC).
- Lente Teológica: Crítico-Exegética / Evangélica Acadêmica. France opera dentro de uma estrutura que prioriza a análise filológica rigorosa e a crítica textual, focando na intenção autoral de Marcos e na historicidade do texto grego.
- Metodologia: Sua abordagem é fortemente gramatical e sintática, lidando extensivamente com variantes textuais (ex: a discussão sobre pygmē no v. 3 e baptisōntai no v. 4). Ele foca na estrutura redacional de Marcos, destacando os comentários parentéticos do evangelista como chaves interpretativas para leitores gentios (France, “Textual Notes”).
-
Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Teologia Bíblica / Narrativa. Edwards lê o evangelho com ênfase na intertextualidade (conexões com o AT) e no desenvolvimento do enredo teológico (Cristologia e Eclesiologia).
- Metodologia: Utiliza uma abordagem de crítica narrativa e tipológica. Ele conecta a controvérsia da pureza (7:1-23) diretamente à missão gentílica (7:24ss) como uma necessidade teológica. Destaca o uso de ironia e “duelo de inteligência” (duel of wits) nos diálogos, além de traçar paralelos profundos com Isaías (ex: Isaías 35 na cura do surdo-mudo) (Edwards, “Witness to Gentiles”).
-
Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC).
- Lente Teológica: Pastoral / Aplicada. Garland busca a relevância contemporânea do texto sem sacrificar o contexto histórico, focando na eclesiologia prática e ética cristã.
- Metodologia: Emprega uma estrutura tripartida: Significado Original (contexto histórico-cultural), Contextos de Ponte (hermenêutica) e Significado Contemporâneo (aplicação). Ele utiliza conceitos de sociologia (como definições de pureza de Mary Douglas: “coisa certa no lugar errado”) para explicar a função das leis de pureza como marcadores de identidade e fronteiras sociais (Garland, “Bridging Contexts”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
-
Tese de France (NIGTC): A controvérsia sobre a pureza marca uma mudança ominosa na narrativa para um conflito irrevogável com Jerusalém, onde Jesus radicaliza a lei ao declarar a obsolescência das leis alimentares rituais.
- Argumento Expandido: France enfatiza que a chegada dos escribas de Jerusalém sinaliza uma escalada na tensão (France, “A Foretaste of Confrontation”). Ele argumenta que Marcos, através do comentário editorial “assim declarou puros todos os alimentos” (v. 19c), apresenta Jesus não apenas debatendo a tradição, mas anulando princípios levíticos fundamentais para a identidade judaica. Para France, “a controvérsia sobre a pureza ritual… atua apropriadamente como a dobradiça narrativa entre as fases judaica e gentia” (France, “The narrative hinge”). Ele destaca a distinção entre a tradição dos homens e o mandamento de Deus, notando que a impureza é redefinida exclusivamente em termos morais que emanam do kardia (coração), e não do contato externo.
-
Tese de Edwards (PNTC): A anulação das leis de pureza é o pré-requisito teológico para a missão universal, onde a fé — e não a etnia ou o ritual — define o verdadeiro Israelita, exemplificado pela mulher Siro-fenícia.
- Argumento Expandido: Edwards conecta visceralmente a primeira metade do capítulo (pureza) com a segunda (gentios). Ele argumenta que “se os alimentos não são impuros, então as pessoas também não o são” (Edwards, “Witness to Gentiles”). Edwards foca na interação com a mulher Siro-fenícia, descrevendo-a como uma “verdadeira israelita” por sua fé tenaz, contrastando-a com os escribas. Ele destaca que a cura do surdo-mudo no Decápolis (7:31-37) é um cumprimento escatológico de Isaías 35, sinalizando que a salvação messiânica chegou às nações: “Salvação vem ao mundo gentio em Jesus, que é o redentor escatológico de Deus desde Sião” (Edwards, “They will see the glory”).
-
Tese de Garland (NIVAC): As leis de pureza funcionavam como fronteiras de identidade e exclusão que Jesus desmantela para priorizar a compaixão e a pureza interior, alertando a igreja moderna contra o perigo do tradicionalismo que substitui a obediência ética.
- Argumento Expandido: Garland foca na sociologia da pureza, explicando que para os fariseus, a santidade exigia separação. Ele detalha o conceito de Corban como uma brecha legal para evadir responsabilidade filial (Garland, “Confrontation Over the Tradition”). Sua ênfase recai sobre o perigo da hipocrisia religiosa onde “a tradição é a fé viva dos mortos, o tradicionalismo é a fé morta dos vivos” (Garland, “Bridging Contexts”). Na seção gentílica, Garland argumenta que Jesus supera preconceitos raciais e religiosos, usando a mulher Siro-fenícia como modelo de humildade que aceita “migalhas” da graça, desafiando leitores modernos a examinarem seus próprios preconceitos eclesiásticos e barreiras de “pureza” denominacional (Garland, “Contemporary Significance”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de France (NIGTC) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Garland (NIVAC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Pygmē (v. 3): Traduzido literalmente como “com o punho”, indicando uma purificação ritual rigorosa e enérgica, em contraste com interpretações de “até o cotovelo” (France, “Textual Notes”). | Kynarion (v. 27): Destaca o diminutivo “cãozinho” ou “animal de estimação”, argumentando que o termo remove o opróbrio de “cão de rua”, sugerindo inclusão doméstica (Edwards, “A Gentile who was a ‘True Israelite’”). | Corban (v. 11): Define como uma fórmula dedicatória que funcionava como uma “brecha legal” para evadir a responsabilidade financeira para com os pais sob o pretexto de piedade (Garland, “Confrontation Over the Tradition”). |
| Problema Central do Texto | O conflito de autoridade entre a tradição humana (dos escribas) e o mandamento de Deus, culminando na ab-rogação das leis alimentares levíticas por Jesus (France, “A Foretaste of Confrontation”). | A barreira étnica e religiosa entre judeus e gentios; o texto serve para justificar teologicamente a missão aos gentios como cumprimento da promessa a Israel (Edwards, “Witness to Gentiles”). | O perigo do tradicionalismo e da hipocrisia religiosa que cria fronteiras de exclusão (“nós vs. eles”) e substitui a ética do amor por rituais externos (Garland, “Bridging Contexts”). |
| Resolução Teológica | Redefinição Radical: Jesus declara todos os alimentos puros (v. 19c), localizando a impureza exclusivamente na esfera moral (kardia) e não na ritual, rompendo com o judaísmo ortodoxo. | Fé Inclusiva: A resposta da mulher siro-fenícia demonstra que a fé, e não a etnia, define o verdadeiro israelita; ela entra na parábola e “vence” o argumento teológico. | Santidade Contagiosa: A pureza de Jesus não é ameaçada pelo contato externo; a verdadeira religião deve alinhar o ritual externo com a integridade interior e a compaixão. |
| Tom/Estilo | Crítico-Exegético: Focado em variantes textuais, sintaxe grega e precisão histórica. | Teológico-Narrativo: Foca na intertextualidade (conexões com Isaías 35) e no drama do enredo messiânico. | Pastoral/Aplicado: Foca na relevância sociológica contemporânea e na ética eclesial. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: France (NIGTC). Este comentário oferece o background histórico e filológico mais robusto, explicando detalhadamente as variantes textuais (como a discussão sobre baptisōntai vs. rantisōntai) e as práticas de purificação judaicas com rigor técnico, ideal para quem busca a exegese gramatical precisa.
- Melhor para Teologia: Edwards (PNTC). Destaca-se pela profundidade com que conecta a narrativa de Marcos ao Antigo Testamento, especialmente ao demonstrar como a cura do surdo-mudo (mogilalos) e o episódio da mulher siro-fenícia cumprem as expectativas escatológicas de Isaías 35, fornecendo uma rica teologia bíblica da missão.
- Síntese: Para uma compreensão holística de Marcos 7, deve-se iniciar com a análise textual de France para estabelecer a base gramatical e a radicalidade da ruptura de Jesus com a lei levítica. Em seguida, deve-se integrar a visão de Edwards para situar essa ruptura dentro da grande narrativa da salvação e da inclusão dos gentios no Reino. Por fim, a leitura de Garland é essencial para traduzir esses conceitos antigos em desafios éticos contemporâneos, prevenindo que a igreja moderna caia no mesmo erro de substituir a piedade interior por fronteiras rituais excludentes.
Pureza Ritual, Missão aos Gentios, Corban e Tradição Escribal
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Polêmica sobre a Tradição e a Pureza (7:1-23)
(Nota: Para esta seção, a análise concentra-se em France e Garland, pois o texto de Edwards fornecido inicia-se a partir de 7:24).
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Pygmē (πυγμῇ - v. 3): Termo difícil traduzido literalmente como “com o punho”.
- France: Defende a leitura original difícil, rejeitando variantes como pykna (“frequentemente”). Ele argumenta que significa uma purificação rigorosa e enérgica, observando que tradutores que usam “até o cotovelo” estão apenas adivinhando (France, “Textual Notes”).
- Garland: Discute o contexto, mas foca menos na mecânica do termo e mais na extensão da regra a “todos os judeus”, sugerindo uma aspiração de santidade sacerdotal para o povo comum (Garland, “Confrontation Over the Tradition”).
- Baptisōntai vs. Rantisōntai (v. 4):
- France: Argumenta que rantisōntai (aspergir) é uma correção de escribas cristãos desconfortáveis com o uso de baptizomai (imergir) para rituais judaicos. Ele sustenta que o texto refere-se à imersão completa da pessoa após vir do mercado (France, “Textual Notes”).
- Korban (Kορβᾶν - v. 11):
- France: Define como “oferta”, algo dedicado a Deus. Explica que a fórmula tornava a propriedade tecnicamente “propriedade divina” e, portanto, indisponível para os pais, embora o filho pudesse reter o usufruto (France, “10-12”).
- Garland: Descreve como uma “fórmula dedicatória” que funcionava como uma brecha legal (loophole). O filho usava a piedade fingida para proteger seus bens da reivindicação dos pais (Garland, “Confrontation Over the Tradition”).
- Katharizōn (v. 19c):
- France: Identifica como um comentário editorial parentético de Marcos (“Assim declarou puros…”), gramaticalmente desconexo da fala de Jesus, marcando uma dedução lógica inevitável da ab-rogação das leis alimentares (France, “19c”).
- Garland: Concorda com a leitura do particípio masculino, rejeitando a variante neutra. Vê nisso um toque irônico: se a comida vai para a latrina, ela não contamina o coração; a verdadeira contaminação é moral (Garland, “A Public and Private Explanation”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France (NIGTC): Destaca o caráter sinistro da delegação vinda de Jerusalém (v. 1), não sendo apenas escribas locais, mas uma investigação oficial. Ele nota a ironia de Marcos explicar rituais judaicos (v. 3-4) de forma “impressionista” para leitores gentios, sugerindo que a prática rigorosa talvez não fosse universal entre “todos os judeus” como o texto afirma, mas uma generalização retórica (France, “1-5”).
- Garland (NIVAC): Aplica a antropologia social para explicar a pureza. Define impureza como “coisa certa no lugar errado” (ex: fogos de artifício no 4 de Julho são aceitáveis, mas dentro de um culto são “impuros”). Ele ilustra a hipocrisia moderna comparando as disputas farisaicas com brigas denominacionais sobre “detalhes da Fé” que excluem outros cristãos (Garland, “Contemporary Significance”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Lavagem (Higiene vs. Ritual):
- France: É categórico ao afirmar que não se trata de higiene, mas de pureza ritual estrita.
- Garland: Concorda, mas expande o argumento sociologicamente: a lavagem funcionava como uma “cerca” identitária para impedir a assimilação pagã e o “mongrelismo” (mistura) do Judaísmo (Garland, “Bridging Contexts”).
- Radicalidade da Ruptura:
- France: Vê em v. 19c uma ruptura massiva. Jesus não apenas debate a tradição, mas mina um princípio fundamental da Torá escrita (Levítico 11), o que explica a demora da igreja primitiva em aceitar essa mudança radical (France, “10”).
- Garland: Foca na mudança de locus: a santidade sai do templo/rituais para a moralidade interna. Ele vê Jesus defendendo a “Lei de Deus” (Honrar pai e mãe) contra a “Tradição” (Corban), posicionando Jesus como o verdadeiro defensor da intenção original da Torá contra os legalistas (Garland, “Confrontation Over the Tradition”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 29:13: France observa que Jesus cita a versão LXX (Septuaginta), que inclui a frase “em vão me adoram” (matēn), ausente no Texto Massorético hebraico. Ele defende que Jesus poderia ter usado o hebraico, mas a ponta afiada do argumento (“adoração vã”) depende da LXX (France, “6-7”).
- Êxodo 20:12 / 21:17: Ambos identificam a citação do Decálogo como a base para expor a invalidade do Corban.
5. Consenso Mínimo
- Jesus prioriza a obrigação moral do Decálogo (cuidar dos pais) sobre a obrigação ritual dos votos (Corban), e localiza a impureza na intenção humana (kardia), não em objetos externos.
📖 Perícope: A Mulher Siro-Fenícia (7:24-30)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Kynarion (κυνάρια - v. 27):
- France: Observa que o diminutivo pode indicar “cães de casa” em vez de cães de rua, mas insiste que o termo continua sendo ofensivo/insultuoso (“shocking”), refletindo o preconceito judaico padrão (France, “27”).
- Edwards: Concorda que é um diminutivo para “animal de estimação” (house pet). Argumenta que a escolha da palavra por Jesus, em contraste com o termo usual para cães vadios (kyōn), “esvazia a palavra de opróbrio”, sinalizando que eles pertencem à casa, mesmo que não sejam os filhos (Edwards, “27-28”).
- Garland: Nota que a mulher aceita o papel de “cão” e que o termo “migalhas” (psichion) também é um diminutivo, combinando com os “cachorrinhos” (Garland, “Original Meaning”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France (NIGTC): Interpreta Jesus como um “advogado do diabo”. Sugere que Jesus pode ter usado um “tom de voz” ou expressão facial (“twinkle in the eye”) para incitar a mulher a vencer o argumento, funcionando como um mestre que se deixa derrotar pelo aluno (France, “61”).
- Edwards (PNTC): Traz uma conexão profunda com a história da salvação. Vê a mulher como uma “Jacó feminina” (female Jacob) que luta com Deus e prevalece. Ele cita Lutero: “Ela pegou Cristo em suas próprias palavras”. Para Edwards, ela se torna uma “verdadeira Israelita” pela fé, entendendo o Messias melhor que os próprios judeus (Edwards, “29-30”).
- Garland (NIVAC): Destaca o contexto socioeconômico de inimizade. Tiro era a cidade rica que consumia os recursos da Galileia rural. A mulher representa uma classe “opressora” pedindo ajuda a um judeu pobre. O insulto “cão” reflete essa tensão histórica entre vizinhos hostis (Garland, “Bridging Contexts”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Rudeza de Jesus:
- France: Tenta suavizar a rudeza sugerindo que foi uma estratégia pedagógica ou retórica irônica, dado que Jesus já estava em território gentio.
- Garland: Rejeita a suavização excessiva (“sugarcoat”). Argumenta que devemos deixar o escândalo permanecer. Jesus foi deliberadamente ofensivo para testar barreiras ou refletir a realidade do privilégio judaico. A humildade da mulher em aceitar o insulto é a chave, não a polidez de Jesus (Garland, “Bridging Contexts”).
- Edwards: Vê a resposta de Jesus como uma parábola (First let the children…). A mulher entende a parábola e entra nela, respondendo de dentro da metáfora. O foco não é a rudeza, mas a prioridade teológica (Judeus primeiro) que não exclui os Gentios (Edwards, “27-28”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Romanos 1:16: Edwards conecta explicitamente o “Deixe primeiro (prōton) os filhos” com a teologia paulina do “Primeiro para o judeu, depois para o grego”. A prioridade é temporal/histórica, não exclusiva (Edwards, “27-28”).
5. Consenso Mínimo
- A cura depende da “vitória” retórica da mulher, cuja fé humilde reconhece a prioridade de Israel, mas insiste que a graça do Messias é superabundante o suficiente para incluir os gentios (as “migalhas”).
📖 Perícope: O Surdo-Mudo de Decápolis (7:31-37)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mogilalos (μογιλάλος - v. 32):
- Edwards: Termo extremamente raro (hapax legomenon no NT). Crucial para sua exegese, pois aparece na LXX apenas em Isaías 35:6, provando que Marcos intencionalmente conecta este milagre à profecia messiânica (Edwards, “32”).
- France: (A análise detalhada de France sobre este termo específico não está nos trechos, mas ele discute a geografia incomum).
- Ephphatha (v. 34):
- Edwards: Preservação aramaica que sugere uma testemunha ocular (Pedro). Traduzido como “Sê aberto”.
- Garland: Nota que Marcos traduz a palavra para evitar que soe como um encantamento mágico (“hocus-pocus”) (Garland, “Original Meaning”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France (NIGTC): Foca na geografia “estranha” (v. 31). Ir de Tiro para a Galileia via Sidon (ao norte) é como ir de Londres à Cornualha via Manchester. Ele sugere que essa rota longa e ilógica indica uma extensão deliberada da missão em território gentio, talvez para evitar a Galileia hostil (France, “56”).
- Edwards (PNTC): Enfatiza o aspecto sacramental e a “encarnação” do milagre. O uso da saliva e o toque físico (fingers in ears) são prefigurações da Eucaristia/Sacrifício. O suspiro (stenazō) mostra Jesus travando guerra espiritual. Ele vê o milagre como cumprimento escatológico direto de Isaías 35 no “Líbano” gentio (Edwards, “33-34”).
- Garland (NIVAC): Analisa a metodologia de cura. Explica que a cura no mundo antigo era “hands-on” (prática). O uso de saliva e toque indicava ao surdo o que Jesus faria, já que ele não podia ouvir explicações. Contrasta a privacidade deste milagre com a busca de publicidade dos curandeiros modernos (Garland, “Bridging Contexts”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Segredo Messiânico (v. 36):
- Garland: Vê o fracasso da multidão em obedecer como prova de que o segredo é impossível diante de tal poder.
- Edwards: Nota que esta é a única vez que Jesus pede silêncio a gentios. Isso prova que o “Segredo Messiânico” não é apenas para judeus; o conhecimento de Jesus baseado apenas em milagres é inadequado para qualquer um (judeu ou gentio) até a cruz (Edwards, “35-37”).
- Geografia de Marcos:
- Edwards: Defende Marcos contra críticos que o acusam de ignorância geográfica. Ele argumenta que a rota é “defensável” se o objetivo for uma longa turnê evasiva, comparando-a a viagens bíblicas incomuns em 2 Reis (Edwards, “31”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 35:5-6: Edwards e Garland identificam este texto como a chave mestra. A cura do “mudo” (mogilalos) e a abertura dos ouvidos são sinais da Era Messiânica.
- Gênesis 1:31: Garland e Edwards notam que a aclamação da multidão (“Tudo ele tem feito bem”) ecoa o veredito de Deus na criação (“E viu Deus que era muito bom”) (Garland, “219”; Edwards, “359”).
5. Consenso Mínimo
- Este milagre valida a inclusão dos gentios na restauração escatológica prometida por Isaías, e os métodos físicos de Jesus (toque, saliva) demonstram uma identificação compassiva e pessoal com o sofredor, longe de ser mágica impessoal.