Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Marcos Capítulo 6
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC).
- Lente Teológica: Evangélica de rigor acadêmico com ênfase filológica e histórico-crítica. France opera dentro de uma estrutura que valoriza a historicidade do texto, mas seu foco principal é a exegese do texto grego e o contexto do primeiro século.
- Metodologia: Sua abordagem é marcada por uma análise minuciosa da gramática grega e variantes textuais (ex: a discussão sobre tektōn e ho huios tēs Marias). Ele evita impor estruturas teológicas externas, preferindo deixar a narrativa de Marcos guiar a interpretação. Ele frequentemente interage com a geografia histórica (localização de Betsaida) e dados sociológicos (papel dos carpinteiros) para iluminar o sentido literal do texto (France, “Not Everyone Is Impressed by Jesus”).
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Evangélica com forte ênfase em Teologia Bíblica e Análise Literária. Edwards lê Marcos através de uma lente cristológica elevada, conectando constantemente a narrativa aos tipos e sombras do Antigo Testamento (ex: Jesus como o novo Moisés ou a teofania de YHWH).
- Metodologia: Utiliza a crítica narrativa para destacar técnicas literárias de Marcos, especialmente a intercalação (“sanduíche de Marcos”). Ele foca profundamente na Cristologia, argumentando que os milagres (como andar sobre as águas) são revelações da identidade divina de Jesus (“EU SOU”), e não apenas atos de poder. Ele também destaca a incompreensão dos discípulos e o “coração endurecido” como temas centrais (Edwards, “The ‘I AM’ in the Midst of a Storm”).
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Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC).
- Lente Teológica: Evangélica Homilética e Aplicada. A prioridade de Garland é fazer a ponte entre o mundo antigo e o contemporâneo, focando na relevância pastoral e ética do texto.
- Metodologia: Estrutura sua análise em três etapas distintas: Significado Original (exegese concisa), Pontes Contextuais (hermenêutica) e Significância Contemporânea (aplicação). Ele ataca o texto buscando princípios transferíveis, frequentemente contrastando a recepção de Jesus no primeiro século com preconceitos modernos, cultura de celebridade e desafios da igreja atual (Garland, “Mark 6:1-6a”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de France (NIGTC): O capítulo 6 demonstra a natureza humana e rejeitada de Jesus em contraste com a extensão de sua missão através dos discípulos, onde os milagres servem não como provas irrefutáveis, mas como testemunho da exousia (autoridade) única que exige fé, sem recorrer a simbolismos exagerados.
- Argumento expandido: France enfatiza o caráter “humano” do retrato de Marcos, notando a surpresa de Jesus diante da incredulidade em Nazaré. Ele rejeita interpretações excessivamente simbólicas ou militares para a alimentação dos cinco mil, vendo-a como um “piquenique ad hoc” miraculoso que aponta para o banquete messiânico, mas cujo foco principal é a provisão sobrenatural de Deus (France, “Feeding of Five Thousand Men”). Ele também se dedica a resolver problemas geográficos (as duas Betsaidas) e textuais com precisão técnica.
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Tese de Edwards (PNTC): O capítulo revela a identidade de Jesus como o Filho de Deus divino que manifesta a presença de YHWH (“passando por eles” no mar), enquanto simultaneamente estabelece o custo do discipulado através da intercalação da morte de João Batista, prefigurando a paixão de Cristo.
- Argumento expandido: Edwards argumenta que a rejeição em Nazaré e a execução de João Batista servem como um prenúncio do destino de Jesus. Ele destaca a “divina humildade” de Jesus ao suportar a incredulidade. No episódio de andar sobre as águas, Edwards defende vigorosamente uma interpretação teofânica baseada em Jó 9 e Êxodo 33, onde Jesus revela sua glória divina (“EU SOU”) aos discípulos aterrorizados e de coração endurecido (Edwards, “The ‘I AM’ in the Midst of a Storm”).
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Tese de Garland (NIVAC): O escândalo da encarnação (a humilde origem de Jesus) e a realidade do sofrimento na missão (morte de João) desafiam a igreja contemporânea a superar preconceitos sociais e a exercer compaixão ativa, alimentando tanto a fome física quanto a espiritual.
- Argumento expandido: Garland foca no skandalon (pedra de tropeço) que a familiaridade com Jesus gera, sugerindo que “a familiaridade gera desprezo”. Ele usa a morte de João Batista para alertar que a fidelidade missionária não garante segurança física. Na alimentação dos cinco mil, ele critica a tendência moderna de racionalizar milagres ou apenas lamentar os problemas sociais, insistindo que a igreja deve agir: “Jesus opera o milagre quando seus discípulos compartilham o que têm” (Garland, “Mark 6:31-44”).
Comparação de Tópicos Específicos em Marcos 6
A Rejeição em Nazaré (6:1-6)
- France: Foca no termo tektōn, sugerindo que não é pejorativo, mas denota uma normalidade que choca os habitantes. Destaca que Marcos, diferentemente de Mateus, admite que Jesus “não podia” fazer milagres ali, sublinhando a interação entre a dynamis de Jesus e a pistis (fé) humana (France, “Not Everyone Is Impressed by Jesus”).
- Edwards: Destaca a tensão teológica. A humanidade de Jesus é um obstáculo para a fé deles. Ele discute a frase “filho de Maria” como possivelmente insinuando ilegitimidade ou desrespeito, contrastando com a cultura patronímica judaica (Edwards, “Prophet Without Honor”).
- Garland: Aplica o texto à tendência moderna de julgar pela aparência ou status social. Ele sugere que a incredulidade obstinada de Nazaré privou a comunidade dos benefícios do reino, um aviso para crentes “familiarizados” com o evangelho (Garland, “Mark 6:1-6a”).
A Morte de João Batista (6:14-29)
- France: Analisa a função literária desta digressão como um “flashback” explicativo para o medo de Herodes Antipas. Ele vê a narrativa como um intermezzo habilidoso que contrasta o banquete decadente de Herodes com o banquete simples e miraculoso de Jesus que se segue (France, “Digression: The Death of John”).
- Edwards: Enfatiza a técnica do “sanduíche de Marcos” (intercalação). A morte de João (B) interpreta a missão dos Doze (A). A mensagem é teológica: o discipulado envolve risco de morte. Ele vê João como o precursor não apenas da mensagem de Jesus, mas da sua paixão (Edwards, “The Cost of Discipleship”).
- Garland: Foca na corrupção do poder político e na consciência culpada de Herodes. Ele usa o texto para discutir o custo de confrontar o pecado em esferas de poder e a integridade profética necessária para a missão da igreja hoje (Garland, “Mark 6:6b-30”).
Andar sobre as Águas (6:45-52)
- France: Aborda a questão de “o que realmente aconteceu”, rejeitando explicações naturalistas (bancos de areia). Ele vê a frase “queria passar por eles” (ēthelen parelthein) como a perspectiva dos discípulos (Jesus parecia que ia passar direto), focando na confusão humana e na natureza sobrenatural do evento (France, “Walking on the Water”).
- Edwards: Oferece uma interpretação teológica robusta de parelthein (“passar por”). Conecta linguisticamente com a LXX de Êxodo 33 (Moisés) e Jó 9 (Deus pisando nas ondas), argumentando que é uma epifania divina. Jesus não estava ignorando-os, mas revelando sua glória transcendente como YHWH (Edwards, “The ‘I AM’ in the Midst of a Storm”).
- Garland: Combina a visão da epifania com aplicação pastoral. Jesus revela sua divindade não para assustar, mas para assegurar. Ele aplica isso às “tempestades” da vida moderna, onde a presença de Deus é frequentemente não reconhecida ou temida, e a cegueira dos discípulos reflete a nossa própria dureza de coração (Garland, “Mark 6:45-56”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de France (NIGTC) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Garland (NIVAC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave / Termo Grego | ἤθελεν παρελθεῖν (Queria passar por eles - 6:48). France interpreta como a perspectiva ótica dos discípulos: Jesus parecia estar ultrapassando o barco para chegar à margem antes deles, rejeitando uma intenção teológica oculta (France, p. 268). | ἤθελεν παρελθεῖν (Queria passar por eles - 6:48). Edwards define como um termo técnico de Teofania. Conecta linguística e teologicamente a Êxodo 33 (Moisés) e Jó 9, onde Deus “passa por” (parerchomai) para revelar Sua glória transcendente (Edwards, p. 194-195). | Tektōn (Carpinteiro - 6:3). Garland foca no impacto social. Traduz como um trabalhador manual (“blue collar”) cujas credenciais modestas geram o escândalo da encarnação, impedindo a fé daqueles presos a hierarquias sociais (Garland, p. 235). |
| Problema Central do Texto | O problema é a incompreensão humana diante do sobrenatural. Os discípulos falham em conectar a multiplicação dos pães (poder criativo) com a caminhada sobre as águas, vendo Jesus apenas como um mestre humano (France, p. 270). | O problema é a cegueira espiritual (hardened hearts). Os discípulos, presos ao medo, não reconhecem a divindade de Jesus (“EU SOU”) manifesta na tempestade, confundindo o Criador com um fantasma (phantasma) (Edwards, p. 196). | O problema é a familiaridade que gera desprezo. Seja em Nazaré (familiaridade social) ou no barco (familiaridade religiosa), o ser humano tende a domesticar Jesus, perdendo o senso de temor reverente (awe) diante do sagrado (Garland, p. 234). |
| Resolução Teológica | A solução é reconhecer a Exousia (autoridade) única de Jesus sobre a natureza, sem necessariamente recorrer a tipologias excessivas. O milagre é um fato bruto que desafia as leis naturais e exige uma reavaliação de quem Jesus é (France, p. 269). | A solução é a Cristologia do Filho de Deus. Jesus não é apenas um sucessor de Moisés, mas o próprio YHWH visitando seu povo. A tempestade é o palco para a auto-revelação divina (“Sou Eu/I AM”) que exige adoração, não apenas espanto (Edwards, p. 195). | A solução é a Fé Ativa. Em Nazaré, a incredulidade bloqueia o poder; na alimentação, a ação de partilhar gera o milagre. A teologia deve levar à compaixão prática (alimentar multidões) e confiança na provisão divina em “desertos” modernos (Garland, p. 250). |
| Tom/Estilo | Técnico e Filológico. Foca na precisão do texto grego, variantes textuais e plausibilidade histórica/geográfica (ex: localização das duas Betsaidas) (France, p. 263). | Literário e Teológico. Rico em conexões intertextuais com o AT (Elias, Eliseu, Êxodo) e análise da estrutura narrativa (sanduíche de Marcos) (Edwards, p. 182). | Homilético e Aplicado. Conecta o texto antigo a dilemas contemporâneos (ex: preconceito social, burnout ministerial, secularismo) (Garland, p. 236). |
4. Veredito Acadêmico
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Melhor para Contexto Histórico: France (NIGTC). France oferece a análise mais sóbria e detalhada sobre as realidades geográficas e sociológicas da Galileia do primeiro século. Sua discussão sobre o termo tektōn (p. 243) e a rejeição de teorias conspiratórias sobre a alimentação dos cinco mil (como sendo um levante militar zelote) demonstra um rigor histórico que evita especulações excessivas, ancorando o texto na realidade palestina (France, p. 261).
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Melhor para Teologia Bíblica: Edwards (PNTC). Edwards é superior em demonstrar a densidade teológica da narrativa de Marcos. Ele não vê os eventos isoladamente, mas como o cumprimento de padrões do Antigo Testamento. Sua exegese de Marcos 6:48 (parelthein) como uma teofania divina (p. 194) e a análise do “sanduíche de Marcos” na morte de João Batista (p. 182) fornecem a compreensão doutrinária mais profunda sobre a cristologia e o custo do discipulado.
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Síntese Holística: Para uma exegese completa de Marcos 6, deve-se iniciar com France para estabelecer a base gramatical e a historicidade dos eventos, garantindo que a interpretação não se desvie do sentido literal do texto grego. Em seguida, deve-se aplicar a lente de Edwards para iluminar a identidade divina de Jesus, percebendo como Marcos utiliza a narrativa da alimentação e da caminhada sobre as águas para revelar Jesus como o “EU SOU” de Êxodo. Finalmente, a leitura deve culminar com Garland, que traduz essa alta cristologia e rigor histórico em implicações éticas para a igreja, desafiando o leitor a superar a familiaridade desprezível e exercer uma compaixão que alimenta tanto o corpo quanto a alma.
Exousia, Tektōn, Teofania e Intercalação (Sanduíche) são conceitos chaves destacados na análise.
3. Parte 3: Análise Exegética Detalhada (Verso a Verso)
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Rejeição em Nazaré (6:1-6a)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Τέκτων (Tektōn - v. 3): O termo é central para entender a ofensa da multidão.
- France nota que esta é a única descrição no NT de Jesus como tektōn (em Mateus é “filho do carpinteiro”). Ele traduz como artífice em madeira, pedra ou metal, um papel central na economia da vila, e argumenta que o termo não é pejorativo em si, mas a ofensa vem da familiaridade com uma figura de “normalidade” (France, “Not Everyone Is Impressed by Jesus”).
- Garland traduz como um “faz-tudo” (handyman) ou trabalhador manual (“blue collar”). Ele cita Sirach 38:24-34 para contrastar o status do escriba (que tem lazer para sabedoria) com o do artesão (que trabalha dia e noite), explicando o preconceito intelectual (Garland, “Original Meaning”).
- Edwards aponta que, embora não seja degradante no judaísmo, no mundo greco-romano (leitores de Marcos) chamar alguém de artesão poderia ser uma tentativa de descrédito social (Edwards, p. 359).
- Ὁ υἱὸς τῆς Μαρίας (Ho huios tēs Marias - v. 3):
- Edwards destaca que em uma cultura patronímica, chamar um homem pelo nome da mãe quando o pai (mesmo falecido) deveria ser a referência, pode ser um insulto, insinuando ilegitimidade ou falta de status (Edwards, p. 360).
- Garland discorda da visão de ilegitimidade, sugerindo que a frase simplesmente enfatiza que ele é “apenas um garoto local”, conhecido pela mãe que ainda reside lá (Garland, “Original Meaning”).
- France concorda com a visão mais simples: José provavelmente já havia morrido e não fazia parte da tradição conhecida por Marcos, sem necessidade de ler isso como um insulto velado à concepção virginal (France, “Not Everyone Is Impressed by Jesus”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Observa a ironia de que Marcos, diferentemente de Mateus, admite explicitamente que Jesus “não podia” (ouk edynato) fazer milagres ali, destacando a interação entre o poder divino e a fé humana sem tentar suavizar a limitação cristológica (France, “Not Everyone Is Impressed by Jesus”).
- Edwards: Enfatiza que a incredulidade de Nazaré é um prenúncio da rejeição de Israel e da paixão. Ele conecta o termo skandalon (escândalo/ofensa) com a ideia de que a encarnação (Deus se tornando o “filho de Maria” comum) é o verdadeiro obstáculo para a fé (Edwards, p. 365).
- Garland: Traz uma aplicação sociológica sobre a mobilidade social. No mundo antigo, tentar subir acima de sua classe (de carpinteiro para profeta/mestre) era visto como uma violação da ordem social, gerando a pergunta “Quem ele pensa que é?” (Garland, “Bridging Contexts”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Sobre os irmãos de Jesus (v. 3):
- France e Garland tratam os irmãos (Tiago, José, Judas, Simão) naturalmente como filhos de Maria e José.
- Edwards confronta diretamente a tradição católica/ortodoxa posterior da “virgindade perpétua”, afirmando que argumentos de que seriam meio-irmãos ou primos baseiam-se em dogmas tardios (século IV), enquanto o sentido plano do texto indica irmãos naturais (Edwards, p. 361).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Edwards: Embora não cite um verso específico, vê o ditado do “profeta sem honra” como um reflexo da rejeição consistente dos profetas na história de Israel (ex: Jeremias), culminando em Jesus (Edwards, p. 363).
- Garland: Cita Eclesiástico (Sirach) 38:24-34 para iluminar o preconceito contra a classe trabalhadora, contextualizando a “sabedoria” que a multidão questiona (Garland, “Original Meaning”).
5. Consenso Mínimo
- Todos concordam que a rejeição não se baseou na falha do ensino de Jesus, mas no preconceito gerado por sua origem humilde e familiaridade doméstica.
📖 Perícope: A Missão dos Doze (6:6b-13)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ῥάβδος (Rabdos - Bordão/Machado - v. 8):
- France realiza uma análise detalhada da contradição sinótica: Marcos permite o bordão, Mateus e Lucas proíbem. France sugere que Mateus usa o verbo ktaomai (adquirir), talvez proibindo comprar um novo, mas admite que a harmonização é difícil e que Marcos reflete uma provisão de viagem básica (France, “Jesus’ Mission Extended through the Disciples”).
- Edwards argumenta que a permissão do bordão e sandálias em Marcos serve para alinhar a missão com o Êxodo 12:11, onde os israelitas comeram a páscoa prontos para partir (com cajado e sandálias) (Edwards, p. 375).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Destaca o uso de óleo (v. 13) como exclusivo de Marcos (e Tiago 5). Ele discute se o uso era medicinal ou simbólico, concluindo que, embora o óleo tivesse uso médico, no contexto apostólico provavelmente simbolizava a bênção e restauração de Deus (France, “Jesus’ Mission Extended through the Disciples”).
- Edwards: Rejeita vigorosamente a hipótese moderna de que Jesus e os discípulos seguiam o modelo dos filósofos Cínicos (que viajavam com alforje e cajado). Ele nota que Jesus proíbe o alforje (saco de mendigo), diferenciando-os dos Cínicos. A missão não é contra a civilização, mas uma dependência profética de Deus (Edwards, p. 374-376).
- Garland: Interpreta o ato de sacudir o pó (v. 11) como um gesto de “desacralização”. Ao fazer isso, os discípulos declaram que aquela vila judaica se tornou pagã/gentia devido à incredulidade, tratando o solo de Israel como impuro (Garland, “Original Meaning”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Pobreza na Missão:
- Garland vê a falta de provisões como uma demonstração de pobreza extrema para se identificar com os pobres e demonstrar urgência apocalíptica (Garland, “Original Meaning”).
- Edwards foca menos na pobreza em si e mais na tipologia do Êxodo: eles devem viajar leves não por ascetismo, mas porque estão participando de um novo ato de libertação divina, exigindo pressa e confiança total (Edwards, p. 375).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Edwards: Conecta explicitamente a lista de itens (sandálias, cinto, cajado) a Êxodo 12:11 (a preparação para a Páscoa).
- Garland: Associa o envio de dois em dois à exigência de testemunhas legais em Deuteronômio 17:6 e 19:15 (Garland, “Original Meaning”).
5. Consenso Mínimo
- Os autores concordam que as instruções de Jesus visam tornar os discípulos totalmente dependentes da hospitalidade e da providência divina, removendo a autossuficiência material.
📖 Perícope: A Morte de João Batista (6:14-29)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Βασιλεύς (Basileus - Rei - v. 14):
- France aponta o erro técnico (Antipas era tetrarca, não rei), mas nota que “Rei” era o título popular e também usado ironicamente, já que a busca por esse título levou à queda de Antipas (France, “The Reaction of Antipas”).
- Garland sugere que Marcos usa o título com escárnio e ironia: o “Rei” Herodes é impotente diante de uma dançarina e sua esposa, contrastando com Jesus, o verdadeiro Rei que dá vida (Garland, “Original Meaning”).
- Σπεκουλάτωρ (Spekoulatōr - v. 27):
- France identifica como um latinismo (speculator), termo militar para batedor ou guarda-costas usado para execuções, evidenciando o ambiente romano da narrativa (France, “Digression: The Death of John”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Analisa a variante textual do v. 22 sobre a identidade da dançarina. Alguns manuscritos dizem “sua filha Herodias” (filha do próprio Herodes), mas France defende a leitura tradicional de que era filha de Herodias (Salomé), argumentando que o texto difícil (autou) provavelmente é um erro de copista (France, “Digression: The Death of John”).
- Edwards: Define esta seção como a “primeira narrativa da paixão” em Marcos. A morte de João não é apenas um interlúdio, mas prefigura o destino de Jesus: ambos presos por tiranos fracos, vítimas de intriga e enterrados por discípulos (Edwards, p. 382).
- Garland: Foca na dinâmica de poder familiar. Ele descreve Herodias como uma figura tipo Jezabel e Antipas como um rei covarde que “salvou sua face mas perdeu sua alma” devido a um juramento bêbado (Garland, “Contemporary Significance”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Motivação de Herodes:
- France e Garland seguem Marcos de perto: Herodes respeitava João e foi manipulado.
- Edwards nota a discrepância com Josefo, que atribui a morte puramente ao medo político de sedição. Edwards sugere que Marcos foca na teologia moral, enquanto Josefo na política, mas ambos concordam na paranoia de Herodes (Edwards, p. 386).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Todos os três autores (France, Edwards, Garland) identificam fortemente o paralelo com 1 Reis 19 e 21: Herodes Antipas = Acabe; Herodias = Jezabel; João Batista = Elias.
- Garland adiciona a referência a Ester 5:3 e 7:2 para a frase “até metade do meu reino” (Garland, “Original Meaning”).
5. Consenso Mínimo
- É indisputável que esta narrativa serve como uma intercalação (“sanduíche”) para interpretar o custo do discipulado e prefigurar a morte violenta de Jesus.
📖 Perícope: Alimentação dos Cinco Mil (6:30-44)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ἄνδρες (Andres - Homens - v. 44):
- France nota que todos os evangelistas usam andres (machos adultos) e não anthrōpoi (pessoas). Ele pondera se isso reflete um grupo exclusivamente masculino, possivelmente com intenções insurrecionárias, embora prefira a visão do “piquenique” messiânico (France, “Feeding of Five Thousand Men”).
- Edwards concorda que o termo é gênero-específico e vê isso como uma evidência forte de um acampamento militar ou político potencial (Edwards, p. 404).
- Συμπόσια (Symposia - v. 39) e Πρασιαὶ (Prasiai - v. 40):
- France traduz vividamente prasiai como “canteiros de jardim”, sugerindo a imagem visual colorida das roupas das pessoas na grama verde, organizadas ordenadamente (France, “Feeding of Five Thousand Men”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Defende que os verbos eucarísticos (tomou, abençoou, partiu, deu) no v. 41 são uma prévia deliberada da Última Ceia e do Banquete Messiânico (France, “Feeding of Five Thousand Men”).
- Edwards: Leva a sério a teoria Zelote/Militar. Ele argumenta que a organização em 100 e 50 (v. 40) reflete a organização militar de Qumran e do Êxodo. Para Edwards, Jesus está redirecionando uma multidão nacionalista (“ovelhas sem pastor” = exército sem general) para um banquete pacífico (Edwards, p. 406-407).
- Garland: Conecta a compaixão de Jesus e a “grama verde” com o Salmo 23, apresentando Jesus como o Pastor de Jeová que faz o povo repousar (Garland, “Original Meaning”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Multidão:
- Edwards vê fortes indícios de um levante político abortado (homens apenas, deserto, organização militar), apoiado por João 6:15.
- France reconhece a possibilidade histórica disso, mas argumenta que literariamente Marcos descreve um “piquenique ad hoc”, sem ênfase militar explicita no texto de Marcos (France, “Feeding of Five Thousand Men”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Êxodo 16: O maná no deserto (Consenso).
- 2 Reis 4:42-44: O milagre de Eliseu alimentando 100 homens. France nota o contraste: Jesus alimenta muito mais (5000) com menos sobras iniciais, mostrando ser maior que Eliseu (France, “Feeding of Five Thousand Men”).
- Números 27:17: Garland e France citam esta passagem para a frase “ovelhas sem pastor”, referindo-se à oração de Moisés por um sucessor (Josué) (Garland, “Original Meaning”).
5. Consenso Mínimo
- O milagre demonstra Jesus como o provedor sobrenatural que repete e supera os milagres de Moisés e Eliseu, apontando para o banquete escatológico.
📖 Perícope: Jesus Anda sobre as Águas (6:45-52)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ἤθελεν παρελθεῖν (Ēthelen parelthein - Queria passar por eles - v. 48):
- Edwards: Interpreta como termo técnico de Teofania. Parerchomai é o verbo usado na LXX quando Deus “passa por” Moisés (Ex 33) e Elias (1 Rs 19). Jesus está revelando sua glória divina (Edwards, p. 416).
- Garland: Concorda com a leitura teofânica. Rejeita a ideia de que Jesus queria ignorá-los ou testar a fé deles de forma brincalhona (Garland, “Original Meaning”).
- France: Adota uma visão mais psicológica/ótica: Do ponto de vista dos discípulos no barco, Jesus parecia estar ultrapassando-os em direção à margem. Ele reconhece a alusão ao AT, mas foca na perspectiva humana da narrativa (France, “Walking on the Water”).
- Ἐγώ εἰμι (Egō eimi - Sou Eu / EU SOU - v. 50):
- Edwards e Garland enfatizam que esta não é apenas uma auto-identificação (“sou eu, Jesus”), mas a fórmula divina do Nome de Deus (YHWH) do Êxodo e Isaías (Edwards, p. 415; Garland, “Original Meaning”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Edwards: Conecta o evento a Jó 9:8 (“caminha sobre as ondas do mar”). Edwards argumenta que, para leitores judeus, caminhar sobre o mar é uma prerrogativa exclusiva de YHWH, tornando esta a cristologia mais alta de Marcos: Jesus faz o que apenas o Criador pode fazer (Edwards, p. 417).
- France: Destaca a dureza de coração (v. 52). Ele nota que Marcos usa linguagem tipicamente reservada para oponentes (“coração endurecido”) para descrever os discípulos, iniciando um tema de falha discipular que dominará a próxima seção (France, “Walking on the Water”).
- Garland: Discute a tradução de basanizomenous (atormentados/fatigados) no v. 48. O termo sugere não apenas esforço físico, mas uma tormenta espiritual ou existencial, paralela à tormenta demoníaca em outros contextos (Garland, “Original Meaning”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O significado de “Passar por eles”:
- A divergência é teológica vs. narrativa. Edwards e Garland veem uma revelação intencional da glória divina (Teofania). France prefere manter a ambiguidade narrativa da perspectiva dos discípulos (Jesus ia passar direto até que eles gritaram).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Jó 9:8: Deus caminhando sobre as ondas (Edwards).
- Êxodo 33:19-22: Deus “passando por” Moisés para revelar Sua glória (Edwards, Garland).
- Salmo 77:19: O caminho de Deus pelo mar (France).
5. Consenso Mínimo
- A cena revela a incapacidade dos discípulos de compreender a identidade de Jesus; eles confundem uma revelação divina com um fantasma devido à cegueira espiritual.
📖 Perícope: Curas em Genesaré (6:53-56)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Κράσπεδον (Kraspedon - Orla/Franja - v. 56):
- France identifica como as borlas rituais (tzitzit) exigidas por Números 15:38, marcando Jesus como um judeu observante da Lei (France, “Many Healings”).
- Edwards nota que o toque na orla reflete a cura da mulher com fluxo de sangue (5:27), sugerindo que a fé dela se tornou um modelo para a multidão (Edwards, p. 426).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Observa a ausência de exorcismos neste sumário. Diferente de sumários anteriores (1:32, 3:11), aqui o foco é puramente físico/médico, e a “fé” parece ser generalizada, contrastando com Nazaré (France, “Many Healings”).
- Edwards: Faz um contraste geográfico. Jesus foi rejeitado em sua própria “pátria” (Nazaré, 6:1), mas é recebido triunfalmente por estranhos em Genesaré. Edwards vê isso como uma ironia trágica da missão (Edwards, p. 427).
- Garland: Destaca a intensidade da atividade (“corriam por toda a região”). Ele vê isso como uma resposta humana frenética à presença divina, onde a necessidade física impulsiona a busca, mas questiona se há profundidade espiritual, já que buscam o “toque” mágico (Garland, “Mark 6:45-56”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Não há fricção significativa nesta seção; é um sumário de transição amplamente aceito.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Números 15:38-39: A lei sobre as franjas nas vestes (France, Edwards).
5. Consenso Mínimo
- Esta seção serve como um “bookend” (fechamento) para a rejeição em Nazaré, mostrando que, embora rejeitado pelos seus, Jesus continua sendo uma fonte de poder inesgotável para aqueles que o buscam com fé básica.