Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Marcos 2
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.
Análise dos Autores
-
Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. (NIGTC).
- Lente Teológica: Evangélica Erudita com ênfase na Crítica Redacional e Análise Histórica. France foca na estrutura narrativa de Marcos como uma apresentação teológica coerente da identidade de Jesus, situando-se dentro de uma ortodoxia bíblica rigorosa.
- Metodologia: Emprega uma exegese gramatical detalhada do texto grego (característica da série NIGTC). Sua abordagem em Marcos 2 concentra-se na sequência de histórias de conflito (2:1–3:6), analisando como Marcos constrói a progressão da hostilidade contra Jesus baseada em questões de autoridade (exousia) e interpretação da Lei.
-
Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. (PNTC).
- Lente Teológica: Evangélica Reformada com forte sensibilidade à Teologia Bíblica e Narrativa. Edwards lê o texto buscando conexões profundas com o Antigo Testamento (tipologia) e a formação do caráter do discipulado.
- Metodologia: Utiliza a crítica narrativa combinada com análise léxica. Em Marcos 2, ele destaca a tensão entre “insiders” e “outsiders” e a natureza escandalosa da graça. Ele frequentemente recorre a técnicas literárias de Marcos, como o “sanduíche” (intercalação), para explicar o texto, embora note que esta seção é uma coleção de controvérsias.
-
Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. (NIVAC).
- Lente Teológica: Evangélica Pastoral/Aplicada. A série NIVAC visa conectar o “significado original” com a “aplicação contemporânea”.
- Metodologia: Divide a análise em três estágios: Significado Original (exegese histórica), Pontes Contextuais (hermenêutica cultural) e Significância Contemporânea (aplicação homilética). Em Marcos 2, ele foca no choque entre duas visões religiosas incompatíveis: a pureza excludente dos fariseus versus a santidade inclusiva de Jesus.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
-
Tese de France (NIGTC): A narrativa de Marcos 2 é estruturada para demonstrar a autoridade divina (exousia) única de Jesus, que, ao perdoar pecados e redefinir o sábado, reivindica prerrogativas exclusivas de Deus, provocando uma oposição inevitável das autoridades religiosas.
- Argumento Expandido: France argumenta que a cura do paralítico (2:1-12) não é apenas um milagre, mas uma prova da autoridade do Filho do Homem para exercer um direito divino na terra. Ele rejeita a interpretação de que “Filho do Homem” em 2:10 e 2:28 refira-se genericamente à humanidade; para France, o termo é estritamente cristológico e deriva de Daniel 7:13-14, designando uma figura com “autoridade única sobre os povos da terra” (France, “healing proves the authority”). Em relação ao jejum (2:18-22) e ao sábado (2:23-28), France destaca que Jesus não está apenas corrigindo a Halakah farisaica, mas afirmando uma autoridade pessoal que supera as instituições (o Templo e o Sábado). Ele vê a imagem do noivo como uma “reivindicação messiânica velada” (France, “veiled messianic claim”), indicando que a presença de Jesus inaugura um tempo de celebração incompatível com as velhas formas do judaísmo.
-
Tese de Edwards (PNTC): Marcos 2 expõe o “escândalo da graça”, onde Jesus, atuando com a autoridade do próprio Deus, rompe barreiras sociais e religiosas para criar uma nova comunidade baseada no perdão e não no mérito moral.
- Argumento Expandido: Edwards enfatiza que o chamado de Levi e a comunhão com pecadores (2:13-17) ilustram a natureza radical do evangelho: Jesus não exige reforma moral como pré-condição para o discipulado, o que constitui o verdadeiro “escândalo” para os escribas (Edwards, “The Scandal of Grace”). Ele argumenta que a autoridade de Jesus para perdoar pecados (2:10) e sua soberania sobre o sábado (2:28) derivam de sua identidade como Filho de Deus e Servo Sofredor. Sobre o sábado, Edwards refuta vigorosamente a interpretação humanista de que “o sábado foi feito para o homem” dá soberania à humanidade; ele insiste que a reivindicação é cristológica: “A verdadeira soberania sobre o sábado é investida no Filho do Homem” (Edwards, “true lordship over the Sabbath”). Edwards também observa a ironia narrativa onde Jesus, ao curar e perdoar, troca de lugar com os marginalizados (como o leproso em 1:45), tornando-se ele próprio um “outsider” para as autoridades.
-
Tese de Garland (NIVAC): O capítulo apresenta um conflito irreconciliável entre duas perspectivas religiosas: uma religiosidade de regras e exclusão (fariseus) versus o Reino de Deus (Jesus), que traz cura, alegria e inclusão, exigindo uma ruptura total com as velhas estruturas (“odres velhos”).
- Argumento Expandido: Garland foca na incompatibilidade entre o “velho” e o “novo”. Ele argumenta que a atitude dos fariseus era “preventiva” em relação ao pecado (afastamento), enquanto a de Jesus era “criativa” e transformadora (aproximação) (Garland, “approach sin from the creative side”). Em sua análise de 2:1-12, Garland destaca que a paralisia é tratada como consequência do pecado, e a cura valida a reivindicação teológica de perdão. Sobre o jejum (2:18-22), ele enfatiza que a espiritualidade cristã não deve ser um “fardo que impede o espírito de voar”, mas caracterizada pela alegria da presença do Noivo (Garland, “Joy versus gloom”). Garland utiliza as controvérsias do sábado para ilustrar que, para Jesus, a necessidade humana supera o protocolo ritual, e que a rigidez legalista transforma a religião em uma provação em vez de uma celebração da graça.
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de France (NIGTC) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Garland (NIVAC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Exousia (Autoridade) e Ho Huios tou Anthropou (O Filho do Homem). France define este último estritamente como um título cristológico derivado de Daniel 7:13-14, rejeitando a interpretação de “humanidade em geral” e enfatizando a autoridade única conferida a Jesus (France, “unique authority over the peoples”). | Nymphios (Noivo) e Hamartōloi (Pecadores). Edwards destaca a imagística nupcial não apenas como messiânica, mas divina, pois no AT Deus é o marido de Israel. O termo “pecadores” é definido teologicamente como aqueles fora da Torá, a quem Jesus estende a comunhão (Edwards, “nuptial imagery”). | Oinos Neos (Vinho Novo) e Askoi Kainoi (Odres Novos). Garland foca na metáfora da ruptura radical. Ele define os termos em contraste com a religiosidade “preventiva” dos Fariseus, enfatizando que o novo vinho do Reino exige estruturas de alegria e não de luto (Garland, “Joy versus gloom”). |
| Problema Central do Texto | O desafio à prerrogativa divina. Para France, o cerne do conflito em Marcos 2 é a acusação de blasfêmia, pois Jesus reivindica direitos que pertencem exclusivamente a Deus, como perdoar pecados e legislar sobre o sábado (France, “infringe the divine prerogative”). | O “Escândalo da Graça”. Edwards argumenta que o problema não é apenas teológico, mas social e moral: Jesus ofende a elite religiosa ao oferecer comunhão e perdão sem exigir reforma moral prévia, invertendo a ordem de mérito religioso (Edwards, “The Scandal of Grace”). | A incompatibilidade de Paradigmas Religiosos. Garland vê o problema como o choque entre uma religião de fronteiras e exclusão (Fariseus) versus o poder transformador e inclusivo de Jesus. O problema é tentar conter a vitalidade do Reino em formas mortas (Garland, “incompatible with the old”). |
| Resolução Teológica | A cura física atua como prova forense da autoridade invisível. Jesus valida sua reivindicação teológica (exousia para perdoar) através de um milagre verificável, demonstrando que o Filho do Homem exerce funções divinas na terra (France, “healing proves the authority”). | A redefinição da Santidade. Jesus não é contaminado pelos “pecadores”; ao contrário, sua santidade é “contagiosa” e purifica o impuro. Ele estabelece que o verdadeiro Senhor do Sábado é o Filho do Homem, não a humanidade, subordinando a Lei à sua própria pessoa (Edwards, “true lordship over the Sabbath”). | A Santidade Criativa. Jesus resolve o conflito movendo-se da “santidade preventiva” (afastamento) para a “santidade criativa” (aproximação). A cura e o perdão não são fins em si mesmos, mas sinais de que Deus está restaurando a integridade humana e a alegria da criação (Garland, “approach sin from the creative side”). |
| Tom/Estilo | Técnico-Exegético. Focado na precisão gramatical, crítica textual e na rejeição de interpretações modernizantes que diminuam a cristologia (France, “exegesis of the Greek”). | Teológico-Narrativo. Rico em conexões intertextuais com o AT e focado na tensão dramática da narrativa e na natureza radical do discipulado (Edwards, “Theological perspective”). | Pastoral e Aplicado. Preocupado em traduzir o choque cultural do primeiro século para a prática eclesial contemporânea, confrontando o legalismo moderno (Garland, “Bridging Contexts”). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: France (NIGTC) oferece a análise mais robusta do background histórico e linguístico, especialmente na discussão sobre o termo “Filho do Homem” e as nuances das leis de pureza e do Sábado no judaísmo do Segundo Templo, refutando leituras anacrônicas com precisão técnica (France, “scholarly debate over this term”).
- Melhor para Teologia: Edwards (PNTC) aprofunda melhor as doutrinas da Graça e da Cristologia. Ele conecta magistralmente as ações de Jesus com a identidade de Deus no Antigo Testamento (como a metáfora do Noivo) e expõe a profundidade soteriológica do chamado de Levi, articulando o conceito de “graça escandalosa” de forma pungente (Edwards, “scandal of the gospel”).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Marcos 2, deve-se fundamentar a exegese na análise rigorosa de France sobre a exousia (autoridade) de Jesus como uma reivindicação divina juridicamente validada pelos milagres. A esta base, deve-se adicionar a percepção teológica de Edwards de que esta autoridade se manifesta paradoxalmente como graça imerecida aos marginalizados (“pecadores”), e concluir com a aplicação de Garland de que tal realidade exige uma ruptura total com as estruturas religiosas rígidas (“odres velhos”) em favor de uma espiritualidade de celebração e transformação.
Exousia, Filho do Homem, Graça Escandalosa e Odres Novos são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Cura do Paralítico (Versículos 2:1-12)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ho Huios tou Anthropou (O Filho do Homem): Este é o termo mais debatido. France argumenta vigorosamente contra a interpretação genérica de “humanidade”. Para ele, é um título de autoridade única derivada de Daniel 7:13-14, usado para reivindicar exousia (autoridade) divina na terra (France, “unique authority over the peoples”). Edwards concorda, notando que Jesus usa o título na terceira pessoa para designar sua vocação divina de humilhação e exaltação (Edwards, “designates his humiliation”).
- Teknon (Filho): Edwards nota que este termo (do hebraico beni) não é apenas afetuoso, mas autoritativo, de um superior agindo com benevolência (Edwards, “superior who acts with authority”).
- Exoryxantes (Escavando/Arrancando): France destaca a violência do verbo grego usado no v. 4, literalmente “cavando para fora”, indicando uma demolição significativa do telhado, não apenas uma remoção de telhas (France, “major demolition job”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Destaca a sintaxe estranha do versículo 1, onde ēkousthē (foi ouvido) pode ter Jesus como sujeito implícito, criando um “objeto duplo” gramaticalmente desajeitado (“Ele foi ouvido, que estava em casa”) (France, “syntactically awkward idiom”).
- Edwards: Levanta a possibilidade de que Jesus tivesse conhecimento específico de um pecado particular do paralítico. Ele argumenta que, embora doença e pecado estejam ligados genericamente no pensamento judaico, a especificidade do endereço “teus pecados” sugere um conhecimento sobrenatural da condição moral do indivíduo (Edwards, “reflects knowledge of his particular sins”).
- Garland: Fornece detalhes arqueológicos sobre as casas de Cafarnaum (paredes de basalto bruto, sem argamassa, telhados de palha e lama), explicando que a “demolição” mencionada por France não exigiria uma britadeira, mas seria facilmente reparável (Garland, “easily repaired”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Fé (v. 5):
- Garland e France focam na fé dos amigos (“vendo a fé deles”) como o catalisador.
- Edwards debate se a fé do paralítico está inclusa. Ele conclui que, embora o texto diga “deles”, é difícil imaginar o paralítico sendo trazido contra a vontade, e que Jesus frequentemente atende a petição de uma parte em favor de outra (intercessão) (Edwards, “faith of the porters”).
- Blasfêmia e Monoteísmo:
- Há um consenso de que a acusação de blasfêmia (v. 7) é tecnicamente correta sob a lei judaica se Jesus fosse apenas um homem.
- France enfatiza que o uso de heis (um) em vez de monos (apenas) em “Senão um só, que é Deus” pode ser uma alusão ao Shema (Dt 6:4), colocando Jesus em rota de colisão direta com o credo central do judaísmo (France, “defence of the Jewish creed”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Daniel 7:13-14: Tanto France quanto Edwards identificam esta passagem como a fonte primária para o título “Filho do Homem”, denotando autoridade judicial e escatológica.
- Isaías 43:25 / Miqueias 7:18: Garland cita estes textos para validar a posição dos escribas de que “Só Deus perdoa pecados”, estabelecendo o alto risco teológico da reivindicação de Jesus (Garland, “God alone forgives sins”).
5. Consenso Mínimo
- A cura física não é o fim em si mesma, mas uma prova forense verificável da autoridade invisível de Jesus para perdoar pecados, uma prerrogativa exclusivamente divina.
📖 Perícope: O Chamado de Levi e o Jantar com Pecadores (Versículos 2:13-17)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Telōnēs (Cobrador de Impostos): Garland esclarece que Levi não coletava o imposto de capitação (direto romano), mas tarifas alfandegárias e pedágios (impostos por Herodes Antipas), o que o tornava um “oficial local” propenso à extorsão (Garland, “toll collectors”).
- Hamartōloi (Pecadores): Edwards define este termo não apenas como transgressores ocasionais, mas como os “ímpios” dos Salmos, uma categoria de párias que viviam fora da Torá, comparáveis a ladrões e jogadores (Edwards, “categorically reprobate”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Analisa a gramática “obscura” da pergunta dos escribas no v. 16. Ele sugere que o hoti pode ser interrogativo (“Por que é que…?”), refletindo uma expressão de indignação chocada (France, “outraged comment”).
- Edwards: Destaca a ironia posicional: Jesus está “reclinado” (katakeimai) à mesa. Edwards nota que, embora seja a casa de Levi, a linguagem sugere que Jesus atua como o verdadeiro anfitrião messiânico, antecipando o banquete escatológico onde a graça, não o mérito, é o critério de entrada (Edwards, “Jesus… is the real host”).
- Garland: Aponta a distinção entre a “santidade preventiva” dos fariseus (evitar contágio) e a “santidade contagiosa” de Jesus (transmitir pureza). Ele usa Celsus (crítico pagão do séc. II) para mostrar como a associação de Jesus com pecadores era vista como uma impossibilidade moral na antiguidade (Garland, “Celsus… was astounded”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Identidade de Levi (v. 14):
- France questiona a identificação automática de Levi com Mateus. Ele sugere que Levi pode ser uma figura que não entrou para os Doze, ou que a harmonização com Mateus 9:9 é posterior. Ele acha estranho que Levi e Tiago (ambos filhos de Alfeu) não sejam listados como irmãos se o fossem (France, “otherwise unknown man named Levi”).
- Edwards aceita mais prontamente a identificação tradicional Levi/Mateus, notando que nomes duplos eram comuns (Simão/Pedro), e que Mateus aparece nas listas apostólicas (Edwards, “Levi… identified with Matthew”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Oseias 6:6: Embora não citado explicitamente no texto de Marcos, Garland alude ao princípio de “misericórdia, não sacrifício” para explicar a atitude de Jesus.
- Ezequiel 34 vs. 44: Garland contrasta a postura dos Fariseus (Ezequiel 44: regras de exclusão do santuário) com a postura de Jesus (Ezequiel 34: o pastor que busca a ovelha perdida) (Garland, “No admission” vs “seeks out”).
5. Consenso Mínimo
- A comunhão de mesa de Jesus com os marginalizados não condona o pecado, mas demonstra que a graça divina precede a reforma moral, invertendo a ordem religiosa estabelecida pelos fariseus.
📖 Perícope: Jejum e Odres Novos (Versículos 2:18-22)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Nymphios (Noivo): Edwards argumenta que esta metáfora é implicitamente divina, pois no AT Deus é o marido de Israel. Jesus assume o papel de Deus na nova aliança (Edwards, “divine associations”).
- Apairein (Ser tirado): France observa que este verbo sugere uma remoção violenta, uma alusão velada à morte de Jesus, rejeitando a visão de que isso seria uma adição da igreja primitiva (France, “suggests force rather than natural causes”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Observa a prática de jejum dos fariseus (segundas e quintas) e sugere que a pergunta dos críticos (“Por que…?”) implica uma reivindicação de superioridade moral dos outros grupos sobre os discípulos de Jesus (France, “covert claim to superior religious fervour”).
- Edwards: Conecta a imagem dos “filhos da câmara nupcial” (huioi tou nymphōnos) com a alegria obrigatória de um casamento judaico, onde até o estudo da Torá poderia ser interrompido. Ele vê as parábolas do remendo e dos odres como declarações de “incompatibilidade final” entre o Evangelho e o Judaísmo tradicional (Edwards, “incompatible with the old”).
- Garland: Traz uma aplicação prática sobre a espiritualidade cristã não ser um “bola e corrente” (ball and chain). Ele cita o historiador Jules Michelet sobre a tristeza religiosa medieval para contrastar com a alegria do “Noivo” (Garland, “Joy versus gloom”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Alegoria do Versículo 20 (“dias virão…“):
- Muitos críticos consideram este versículo uma criação da igreja pós-páscoa para justificar o jejum cristão.
- France e Edwards defendem a autenticidade. France argumenta que, se Jesus previu sua paixão (8:31), esta alusão velada é coerente antes de Cesareia de Filipe. Edwards vê uma conexão linguística com Isaías 53:8 (“cortado da terra dos viventes”), reforçando a autoconsciência messiânica de Jesus como o Servo Sofredor (Edwards, “Servant of the Lord”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 62:5 / Oseias 2:19: Edwards cita estes textos para mostrar que a imagem do casamento é teológica: Deus se alegra com seu povo como o noivo com a noiva.
- Isaías 53:8: Edwards conecta o verbo “ser tirado” (aparthē) com o destino do Servo Sofredor.
5. Consenso Mínimo
- A presença de Jesus inaugura um tempo messiânico de alegria que torna as velhas formas de piedade (como o jejum ritualístico) obsoletas e estruturalmente incompatíveis com a nova vida do Reino.
📖 Perícope: Senhor do Sábado (Versículos 2:23-28)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Odos poiein (Abrir caminho): France nota a estranheza da frase grega, que literalmente significa “fazer uma estrada”. Ele debate se isso implica que eles estavam “abrindo caminho arrancando espigas” (o que seria trabalho pesado) ou apenas caminhando e comendo. Ele conclui que Marcos se expressou de forma desajeitada para indicar que comiam enquanto iam (France, “expressed it awkwardly”).
- Kyrios (Senhor): Edwards destaca que a sintaxe grega no v. 28 coloca Kyrios em posição enfática no início da frase (“E quem é Senhor do Sábado? O Filho do Homem!”), afirmando divindade (Edwards, “emphatic”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Aborda o “erro” histórico de citar Abiatar em vez de Aimeleque (1 Sm 21). Ele sugere que Marcos compartilha uma confusão existente na tradição ou que “nos dias de Abiatar” refere-se à era em que Abiatar (o sacerdote mais famoso) vivia, mesmo que seu pai estivesse oficiando (France, “Mark seems to share that confusion”).
- Edwards: Enfatiza a tipologia davídica. Jesus não cita Davi apenas como um precedente legal (casuística), mas como um precedente messiânico. Se Davi, o ungido, podia violar o ritual por necessidade, quanto mais o Filho de Deus (Edwards, “royal messianic prototype”).
- Garland: Foca na definição de “trabalho” na Mishná (Shabbat 7:2). Colher espigas era classificado como “ceifar/colher”, uma das 39 obras proibidas. Ele argumenta que a objeção dos fariseus era técnica e legalista, transformando um dom de Deus (descanso) em um fardo (Garland, “finespun interpretation”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Significado de “Filho do Homem” (v. 28):
- Alguns intérpretes modernos sugerem que, com base no v. 27 (“o sábado foi feito para o homem”), o v. 28 significa que a humanidade é senhora do sábado.
- France rejeita isso categoricamente. Para ele, Marcos e a igreja primitiva nunca entenderiam “Filho do Homem” como “homem genérico”. O argumento é cristológico: Jesus tem autoridade sobre a Torá (France, “clearly christological”).
- Edwards concorda: Jesus reivindica a prerrogativa de Deus, que instituiu o sábado (Gn 2:3). Dizer que a humanidade tem autoridade sobre o sábado seria inconcebível no judaísmo (Edwards, “inconceivable”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- 1 Samuel 21:1-6: A base explícita da defesa de Jesus (Davi e os pães da proposição). France nota que Jesus argumenta a fortiori: “Algo maior que Davi está aqui”.
- Deuteronômio 23:25: Garland lembra que colher espigas na borda do campo era permitido pela lei; o problema era quando isso era feito (Sábado).
5. Consenso Mínimo
- Jesus afirma uma autoridade soberana sobre a instituição mais sagrada do judaísmo (o Sábado), declarando que as necessidades humanas têm prioridade sobre o ritual e que Ele, como Filho do Homem, tem o direito divino de legislar sobre a Lei.