Análise Comparativa: Marcos 15

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC).

    • Lente Teológica: Evangélica Erudita com forte ênfase na Crítica Histórica e Filológica. France opera dentro de uma tradição que busca harmonizar a historicidade dos eventos com a teologia narrativa de Marcos, mantendo um alto rigor acadêmico quanto ao texto grego e ao contexto do Segundo Templo.
    • Metodologia: O autor ataca o texto através de uma exegese histórico-gramatical minuciosa. Ele se preocupa com a plausibilidade histórica dos eventos (como a legalidade do julgamento e os costumes romanos de crucificação) e com a estrutura literária do drama marciano. France foca na ironia narrativa onde os inimigos de Jesus, inadvertidamente, proclamam a verdade teológica (France, “The Crucifixion, Death, and Burial…”).
  • Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC).

    • Lente Teológica: Teologia Bíblica com ênfase na Cristologia do Servo Sofredor. Edwards lê Marcos através das lentes da profecia do Antigo Testamento (especialmente Isaías 53 e Salmos 22/69) e da teologia da cruz (theologia crucis).
    • Metodologia: Utiliza a Crítica Narrativa, destacando técnicas literárias como a intercalação (“sanduíches de Marcos”) e o uso de títulos cristológicos. Sua exegese busca demonstrar como a identidade de Jesus como Filho de Deus é incompreensível sem a paixão. Ele destaca o contraste entre a fidelidade divina e o fracasso humano (Edwards, “The Cross and the Empty Tomb”).
  • Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC).

    • Lente Teológica: Evangélica Pastoral e Hermenêutica de Aplicação. Garland foca na relevância contemporânea do texto, movendo-se do significado original para a ética cristã moderna.
    • Metodologia: Emprega uma estrutura tripartite: “Significado Original” (exegese histórica), “Contextos de Ponte” (hermenêutica) e “Significado Contemporâneo” (homilética/aplicação). No capítulo 15, ele foca na psicologia dos personagens (Pilatos, a multidão) e nas implicações do sofrimento de Jesus para a teologia do lamento e a crítica ao poder secular (Garland, “Mark 15:1–20”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France, R. T.: A narrativa da paixão em Marcos apresenta Jesus como o paradoxal Vitorioso-Vítima, onde a zombaria e as acusações dos inimigos (judeus e romanos) funcionam ironicamente como a proclamação da verdade teológica de sua realeza e filiação divina.

    • France argumenta que, embora Jesus seja apresentado como uma vítima passiva que não resiste, em um nível teológico mais profundo, ele “reina supremo” e a narrativa atinge seu clímax cristológico na cruz (France, “The Arrest and Trials of Jesus”). Ele destaca que a zombaria dos soldados e o título na cruz (“Rei dos Judeus”) apontam para verdades ocultas aos zombadores: “o que eles proclamam por brincadeira é realmente verdade” (France, “The Crucifixion, Death, and Burial…”). France também enfatiza a historicidade, defendendo a plausibilidade dos horários e procedimentos descritos por Marcos contra tentativas de harmonização forçada com João, mantendo o foco na consistência interna de Marcos (France, “The Crucifixion, Death, and Burial…”).
  • Tese de Edwards, J. R.: A identidade de Jesus como Filho de Deus só pode ser corretamente compreendida e confessada através do escândalo da cruz e do sofrimento vicário, cumprindo o paradigma do Servo Sofredor de Isaías.

    • Edwards enfatiza o silêncio de Jesus diante de Pilatos como um cumprimento direto de Isaías 53:7 e uma demonstração de inocência soberana (Edwards, “The Cross and the Empty Tomb”). Ele argumenta que a confissão do centurião (“Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”) é o clímax do Evangelho porque é a primeira vez que um ser humano entende o título corretamente — não através de milagres, mas vendo “como ele morreu” (Edwards, “The Cross and the Empty Tomb”). Edwards vê a crucificação como uma entronização real irônica, onde a zombaria e a coroa de espinhos revelam a verdadeira natureza do reinado de Deus, oposta aos valores humanos de poder (Edwards, “The Cross and the Empty Tomb”).
  • Tese de Garland, D. E.: A crucificação de Jesus expõe a falência moral dos poderes humanos (religiosos e políticos) e revela um Deus que subverte as expectativas de poder através da fraqueza e do sofrimento solidário.

    • Garland foca na figura de Pilatos como o arquétipo da “covardia moral”, alguém que cede à multidão para preservar a ordem política, contrastando com a coragem silenciosa de Jesus (Garland, “Mark 15:1–20”). Ele destaca a escolha da multidão por Barrabás (violência) em vez de Jesus (amor sacrificial) como uma preferência humana contínua pela força bruta. Teologicamente, Garland explora o “grito de desamparo” (Eloi, Eloi, lama sabachthani) não apenas como cumprimento profético, mas como um modelo de lamento bíblico, demonstrando que a fé robusta pode coexistir com a angústia extrema e o sentimento de abandono divino (Garland, “Mark 15:21–47”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France, R. T. (2002)Visão de Edwards, J. R. (2001)Visão de Garland, D. E. (1996)
Palavra-Chave/Termo GregoHuios Theou (v. 39): France argumenta que, embora a gramática grega (anartra) permita “um filho de Deus”, e historicamente o centurião pagão provavelmente tivesse essa intenção limitada, para os leitores de Marcos a confissão é absoluta: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (France, “The Death of Jesus”).Huios Theou (v. 39): Edwards defende vigorosamente que, gramaticalmente (predicado nominativo definido precedendo o verbo), a ausência do artigo não diminui o título. Ele insiste que a frase deve ser entendida no “sentido cristão pleno” como “O Filho de Deus”, rejeitando interpretações de divindade helenística menor (Edwards, “The Son of God”).Huios Theou (v. 39): Garland foca na mudança de paradigma sociopolítico. Para um centurião romano, “Filho de Deus” era título imperial associado ao poder. A confissão reconhece que a divindade reside “onde não há esplendor aparente”, subvertendo a teologia imperial romana (Garland, “Mark 15:21–47”).
Problema Central do TextoO paradoxo de como a realeza de Jesus pode ser revelada através de sua completa humilhação e passividade. O problema é a aparente contradição entre os fatos observáveis (derrota) e a verdade teológica (vitória) (France, “The Crucifixion…”).O escândalo do abandono total. Edwards destaca que Jesus não é apenas rejeitado pelos homens, mas experimenta uma alienação real de Deus (“Eloi, Eloi…”), tornando-se o portador do pecado sem o conforto da presença divina (Edwards, “Gethsemane…”).A preferência humana pela violência (Barrabás) sobre o caminho de Deus. O problema é a cegueira moral das autoridades e da multidão que escolhem um “messias” que mata em vez do Messias que morre (Garland, “Mark 15:1–20”).
Resolução TeológicaIronia Dramática: A verdade é proclamada involuntariamente pelos inimigos. A zombaria (“Rei dos Judeus”) e a acusação do Sumo Sacerdote funcionam como a entronização real de Jesus. “O que eles proclamam por brincadeira é realmente verdade” (France, “The Crucifixion…”).Revelação na Cruz: A cruz não é apenas o meio de expiação, mas o único lugar de revelação autêntica. Edwards argumenta que todos os outros títulos e milagres são ambíguos; somente na morte sacrificial a identidade de Jesus como Filho de Deus se torna inequívoca (Edwards, “The Son of God”).Teologia do Lamento: Jesus modela a fé robusta que não nega o sofrimento, mas grita “Por que?” a Deus. A resolução está em Deus absorvendo a violência humana na cruz para transformá-la em salvação, revertendo os símbolos de poder do mundo (Garland, “Mark 15:21–47”).
Tom/EstiloExegético-Crítico: Focado na precisão histórica (ex: horários, procedimentos legais) e na estrutura literária da narrativa de Marcos.Teológico-Dogmático: Ênfase pesada na Cristologia, na conexão com Isaías 53 (Servo Sofredor) e na refutação de leituras céticas.Pastoral-Aplicativo: Conecta o texto com a ética cristã contemporânea, focando na coragem moral e no sofrimento vicário.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: France, R. T. destaca-se pela sua atenção aos detalhes históricos e filológicos. Ele navega com precisão pelas questões de harmonização cronológica com João e pelos detalhes do julgamento romano e judaico, oferecendo a reconstrução mais sóbria do cenário histórico (France, “The Arrest and Trials…”).
  • Melhor para Teologia: Edwards, J. R. fornece a profundidade doutrinária mais robusta, especialmente ao conectar a narrativa da Paixão com a Cristologia do Servo Sofredor e a teologia da expiação. Ele articula convincentemente como o “segredo messiânico” é finalmente resolvido apenas na crucificação (Edwards, “The Son of God”).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Marcos 15, deve-se combinar a análise literária da Ironia Narrativa de France, que revela como Jesus reina através da zombaria, com a profundidade soteriológica de Edwards sobre a Filiação Divina revelada no abandono. A estes, deve-se adicionar a sensibilidade de Garland sobre o lamento e a crítica ao poder secular para a aplicação prática. Esta fusão ilumina como a cruz funciona simultaneamente como evento histórico, revelação dogmática suprema e paradigma ético.

Ironia Narrativa, Cristologia do Servo Sofredor, Filiação Divina e Teologia da Cruz são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Jesus Perante Pilatos (15:1-5)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Symboulion poiēsantes (v. 1): France discute se esta frase implica uma segunda reunião formal do Sinédrio ou apenas a formalização da decisão tomada à noite. Ele traduz como “tendo alcançado uma decisão”, argumentando que Marcos 15:1 não descreve um novo julgamento, mas a conclusão burocrática do anterior para entregar Jesus a Pilatos (France, “The Arrest and Trials…”).
  • Sy legeis (v. 2): A resposta de Jesus a Pilatos (“Tu o dizes”). Garland nota que a frase pode ter vários matizes dependendo da inflexão, variando de “Sim, é como você diz” a um mais evasivo “É você quem está dizendo isso” (Garland, “The Charge Against Jesus”). France observa que, embora não seja uma negação, também não é uma afirmação direta que daria a Pilatos motivos imediatos para execução, funcionando como uma resposta enigmática (France, “The Arrest and Trials…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Destaca a “redundância burocrática” na descrição do Sinédrio (v. 1: “todo o Sinédrio”, “amarraram”, “levaram”, “entregaram”), enfatizando o peso oficial da ação judaica contra Jesus. Ele também aponta que a acusação de “Rei dos Judeus” é uma reformulação política das acusações religiosas (blasfêmia) para que o governador romano fosse obrigado a intervir (France, “The Arrest and Trials…”).
  • Edwards: Foca na ironia cristológica. Ele observa que a pergunta de Pilatos (“Tu és o rei dos judeus?”) é formulada no grego de maneira que, ironicamente, coloca uma confissão na boca de Pilatos, similar ao que aconteceu com o Sumo Sacerdote em 14:61. Pilatos torna-se um “confessor inconsciente” (Edwards, “Pilate and Jesus”).
  • Garland: Ressalta a incompetência moral de Pilatos. Embora Pilatos perceba que a acusação é motivada por “inveja” (v. 10), sua hesitação não é por justiça, mas por cálculo político. Garland vê em Pilatos a figura do líder que “cede sua responsabilidade como juiz à multidão” (Garland, “The Charge Against Jesus”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza do Silêncio de Jesus:
    • Garland vê o silêncio como uma recusa em defender-se num tribunal gentio, deixando a resposta para Deus (Garland, “The Charge Against Jesus”).
    • Edwards interpreta o silêncio teologicamente como o cumprimento do Servo Sofredor de Isaías 53:7, uma “silêncio de rendição à soberania de Deus” e não de derrota (Edwards, “Pilate and Jesus”).
    • France trata o silêncio como parte da admiração de Pilatos (thaumazein), sugerindo que Pilatos estava acostumado a prisioneiros implorando por misericórdia, e a dignidade de Jesus o desarmou (France, “The Arrest and Trials…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 53:7: Edwards explicitamente conecta o silêncio de Jesus diante de Pilatos (“não respondeu nada”) com a ovelha muda diante dos tosquiadores.

5. Consenso Mínimo

  • Os três autores concordam que o título “Rei dos Judeus” é a acusação formal romana ( crimen laesae majestatis ) usada para justificar a execução política, embora Jesus não a tenha reivindicado politicamente.

📖 Perícope: Pilatos, Barrabás e a Multidão (15:6-15)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Phthonos (v. 10): “Inveja”. Garland e France destacam que Pilatos diagnosticou corretamente a motivação dos líderes judeus: não lealdade a Roma, mas ciúmes da popularidade religiosa de Jesus (Garland, “Barabbas”; France, “The Arrest and Trials…”).
  • Phragellosas (v. 15): “Açoitado”. Garland detalha o flagellum romano (chicote com ossos e chumbo), notando que o açoitamento era tão brutal que muitas vezes matava a vítima antes da cruz, servindo para encurtar a crucificação (Garland, “The Scourging and Mockery…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Oferece uma explicação logística para a multidão “subindo” (anabasa, v. 8). Ele localiza o Pretório no Palácio de Herodes (na colina oeste), o que exigiria que a multidão subisse fisicamente da cidade baixa, dando verossimilhança geográfica ao relato (France, “The Crucifixion…”).
  • Edwards: Aprofunda a teologia da Expiação Substitutiva na troca com Barrabás. Ele nota a ironia de que um “filho do pai” (Bar-Abbas) culpado é libertado, enquanto o verdadeiro Filho do Pai inocente é condenado. Edwards vê aqui uma ilustração de Romanos 5:8 (“enquanto éramos ainda pecadores”) (Edwards, “Pilate and Jesus”).
  • Garland: Foca na sociologia da multidão e no banditismo. Ele explica que Barrabás poderia ser visto como um “Robin Hood” pelos pobres, um herói da resistência, o que explica a preferência popular por ele em detrimento do passivo Jesus. A multidão escolhe o messias violento que reflete suas próprias aspirações nacionalistas (Garland, “Barabbas”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O “Costume” da Anistia (v. 6):
    • Garland admite que não há evidência extrabíblica direta para este costume específico de Páscoa, mas considera plausível dentro dos poderes arbitrários de um governador (Garland, “Barabbas”).
    • France é mais cauteloso, notando que embora solturas ocorressem, a regularidade implicada por Marcos (“costumava soltar”) é única aos Evangelhos, mas defende sua historicidade contra céticos (France, “The Arrest and Trials…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 53: A entrega de Jesus para ser crucificado e a soltura do culpado evocam o tema do Servo que “foi contado com os transgressores” (Edwards, “Pilate and Jesus”).

5. Consenso Mínimo

  • Pilatos não executou Jesus por convicção de culpa, mas por conveniência política (“querendo satisfazer a multidão”), sabendo que Jesus era inocente.

📖 Perícope: A zombaria dos Soldados (15:16-20)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Praitorion (v. 16): France e Edwards concordam que isso se refere ao Palácio de Herodes e não à Fortaleza Antônia, baseados no uso do termo aulē (pátio) e na lógica de acomodação do governador (Edwards, “Scourge and Scorn”; France, “The Soldiers’ Mockery”).
  • Porphyra (v. 17): “Púrpura”. France sugere que provavelmente usaram uma capa militar vermelha desbotada para simular a púrpura real, enfatizando o caráter de paródia improvisada (France, “The Soldiers’ Mockery”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Destaca a crueldade botânica da “coroa de espinhos”. Ele rejeita a ideia de que fosse apenas simbólica, sugerindo o uso de folhas de palmeira ou arbustos espinhosos locais (acanthus) para causar dor real além da zombaria (France, “The Soldiers’ Mockery”).
  • Edwards: Enfatiza a ironia involuntária. A zombaria (“Salve, Rei dos Judeus!”) e a genuflexão são, na narrativa de Marcos, a revelação da verdade. O que os soldados fazem por escárnio é a realidade teológica oculta (Edwards, “Scourge and Scorn”).
  • Garland: Conecta a cena com a profecia de Jesus em 10:34 (será zombado, cuspido e açoitado). Ele vê a passividade de Jesus aqui (sujeito de verbos passivos) como um contraste dramático com sua atividade curadora anterior no Evangelho (Garland, “The Scourging and Mockery…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Coorte” (Speira):
    • France questiona se “toda a coorte” (aprox. 600 homens) estava realmente presente, sugerindo que speira pode significar apenas “o destacamento de serviço” ou que é uma hipérbole de Marcos para efeito dramático.
    • Edwards e Garland tendem a aceitar a descrição como indicativa de um grande número de soldados participando da “diversão” de humilhar um judeu (Edwards, “Scourge and Scorn”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 50:6: “Ofereci as costas aos que me feriam… não escondi o rosto de zombarias e cusparadas.” Todos os três autores identificam este texto como o subtexto primário para a descrição de Marcos (France, “The Soldiers’ Mockery”).

5. Consenso Mínimo

  • A zombaria romana não era apenas contra Jesus pessoalmente, mas um ato de desprezo antissemita, ridicularizando a ideia de um “Rei” vindo de um povo subjugado.

📖 Perícope: A Crucificação (15:21-32)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Angareuō (v. 21): “Forçaram/Requisitaram”. Termo técnico persa/romano para serviço compulsório. Garland nota a ironia de que Simão, um estranho, “toma a cruz” literalmente, fazendo o que os discípulos prometeram mas falharam em fazer (Garland, “To Golgotha”).
  • Lēstai (v. 27): “Salteadores/Bandidos”. France observa que, embora Josefo use o termo para zelotes/revolucionários, Marcos pode estar usando no sentido comum de bandidos, embora a conexão com a insurreição de Barrabás sugira revolucionários (France, “The Crucifixion”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Resolve a discrepância cronológica (“terceira hora” em Marcos vs. “sexta hora” em João 19:14). France defende a plausibilidade do esquema de Marcos (3h em intervalos: 9h crucificação, 12h trevas, 15h morte) como uma estrutura litúrgica ou mnemônica, mas admite que é uma questão de harmonização difícil (France, “The Crucifixion”).
  • Edwards: Vê os dois lēstai (ladrões) crucificados à direita e à esquerda como uma resposta irônica ao pedido de Tiago e João em 10:37. Os lugares de “honra” na glória de Jesus são lugares de sofrimento na cruz (Edwards, “Crucifixion”).
  • Garland: Explora a “teologia visual” da recusa do vinho com mirra (v. 23). Ele sugere que Jesus recusou não apenas para manter a consciência, mas para “beber o cálice” que o Pai lhe deu (Getsêmani) sem atalhos narcóticos (Garland, “To Golgotha”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Vinho com Mirra (v. 23):
    • France vê como um gesto de misericórdia, possivelmente de mulheres de Jerusalém (baseado em costumes judaicos), que Jesus recusa.
    • Garland e Edwards leem através de Salmos 69:21 (“fel por comida… vinagre para sede”), sugerindo que, na narrativa de Marcos, isso compõe o quadro de sofrimento e escárnio, mesmo que a intenção original histórica fosse anestésica.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 22: Onipresente. Repartir as vestes (v. 24 = Sl 22:18), menear a cabeça (v. 29 = Sl 22:7), o escárnio “confiou em Deus” (v. 31 = Sl 22:8). Edwards argumenta que Marcos modelou a narrativa para mostrar Jesus como o “Justo Sofredor” (Edwards, “Crucifixion”).

5. Consenso Mínimo

  • A crucificação é apresentada não com foco na tortura física, mas como o cumprimento das Escrituras (especialmente Salmos) e a entronização irônica do Rei.

📖 Perícope: A Morte de Jesus (15:33-39)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Eloi, Eloi, lama sabachthani (v. 34): Aramaico. Garland argumenta vigorosamente que isso não é apenas uma citação litúrgica do Salmo 22, mas expressa uma desolação real e ontológica; Jesus sentiu o abandono divino ao carregar o pecado (Garland, “Jesus’ Cry from the Cross”).
  • Katapetasma (v. 38): “Cortina/Véu”. Edwards faz uma análise extensa debatendo se é o véu interior (Santo dos Santos) ou o exterior. Ele prefere o véu exterior porque seria o único visível ao centurião e público, simbolizando o fim da exclusividade do Templo e o julgamento do sistema sacrificial (Edwards, “The Son of God”).
  • Huios Theou (v. 39): “Filho de Deus”. (Ver Matriz de Diferenciação na resposta anterior para o debate gramatical e teológico).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Rejeita a ideia de que o “grito” de Jesus (v. 37) causou o rasgo do véu ou foi um grito de vitória (tetelestai). Para France, é um grito inarticulado de morte, e a reação do centurião baseia-se na totalidade de “como ele morreu” (possivelmente a rapidez e a força incomuns), não em um milagre visível (France, “The Death of Jesus”).
  • Edwards: Conecta o rasgar do véu (schizomenon) em 15:38 com o rasgar dos céus (schizomenous) no batismo em 1:10. O que começou com os céus se abrindo termina com o Templo se abrindo; o acesso a Deus agora é livre através da morte de Jesus (Edwards, “The Son of God”).
  • Garland: Destaca a mudança de paradigma do Centurião. Para um romano, “Filho de Deus” era César. Reconhecer isso num criminoso executado subverte toda a teologia imperial e redefine poder não como coerção, mas como sacrifício (Garland, “The Centurion’s Confession”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Grito de Abandono (v. 34):
    • France tende a ver o grito como real desolação, mas adverte contra superinterpretações trinitárias dogmáticas que Marcos não explicita. Ele enfatiza o mistério (France, “The Death of Jesus”).
    • Garland e Edwards são mais teológicos, insistindo que Jesus experimentou a alienação do pecado. Edwards nota que é a única vez que Jesus não chama Deus de “Pai” (Abba), mas de “Deus” (El), indicando ruptura relacional (Edwards, “The Son of God”; Garland, “Jesus’ Cry from the Cross”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Amós 8:9: As trevas ao meio-dia são vistas como sinal de julgamento escatológico sobre Israel (Edwards, “The Son of God”).
  • Salmo 22:1: A citação direta do abandono.

5. Consenso Mínimo

  • O véu rasgado simboliza o fim da barreira entre Deus e a humanidade (ou o fim da validade do Templo), e a confissão do centurião marca o clímax do Evangelho: Jesus é reconhecido como Filho de Deus na sua morte.

📖 Perícope: O Sepultamento (15:40-47)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ptōma (v. 45): “Cadáver”. France nota o uso desta palavra crua (usada apenas aqui e em Mt 24:28 no NT para corpo humano) em vez de soma (corpo). Pilatos verifica o “cadáver”, garantindo a realidade da morte contra teorias de desmaio (France, “The Burial…”).
  • Euschēmōn (v. 43): “Distinto/Nobre”. Refere-se à posição social de José de Arimateia.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Sugere que a frase “esperava o Reino de Deus” (v. 43) sobre José de Arimateia pode indicar um “companheiro de viagem” simpático, mas não necessariamente um discípulo pleno naquele momento, contrastando com a descrição mais explícita de Mateus (France, “The Burial…”).
  • Edwards: Foca no contraste de coragem. Enquanto os discípulos homens fugiram, e as mulheres olhavam “de longe” (v. 40), José “ousou” (tolmēsas) ir a Pilatos. Edwards vê isso como um modelo de discipulado emergindo de um lugar inesperado (o Sinédrio hostil) (Edwards, “Faithfulness versus Fearfulness”).
  • Garland: Enfatiza a obediência à Lei (Deuteronômio 21:23) como motivação para o enterro. Não deixar o corpo pendurado à noite era crucial para não contaminar a terra, especialmente na Páscoa. José age como um judeu piedoso (Garland, “The Burial”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade das Mulheres:
    • Há debate sobre se “Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José” é a mãe de Jesus. Edwards considera plausível, dado que os nomes dos filhos coincidem com Marcos 6:3, mas admite que a designação é estranha se for ela (Edwards, “Faithfulness versus Fearfulness”). France é cético, argumentando que Marcos a teria chamado de “sua mãe” se fosse o caso (France, “The Burial…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 53:9: Embora não citado explicitamente, o enterro de Jesus por um homem rico (José) é frequentemente visto pela tradição como alusão a “designaram-lhe a sepultura com os ímpios, mas com o rico esteve na sua morte”, embora os comentaristas aqui foquem mais na historicidade e na apologética da morte real.

5. Consenso Mínimo

  • O sepultamento é narrado com detalhes factuais (nomes, testemunhas, confirmação de morte por Pilatos) para estabelecer a realidade física da morte de Jesus e preparar o cenário irrefutável para a ressurreição.