Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Marcos 1
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans. Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC). Eerdmans. Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC). Zondervan.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: France, R. T. (2002). The Gospel of Mark. New International Greek Testament Commentary (NIGTC).
- Lente Teológica: Evangélica Erudita / Exegese Crítica. France opera com um alto rigor acadêmico, focado na intenção do autor original e na historicidade, mas mantém uma postura teológica conservadora quanto à cristologia de Marcos.
- Metodologia: Exegese Gramatical e Sintática. Sua abordagem é fortemente ancorada no texto grego (NIGTC), analisando minuciosamente a sintaxe (ex: o uso de substantivos anartros em 1:1) e variantes textuais (ex: a inclusão de “Filho de Deus” em 1:1). Ele trata Marcos como um “dramatista” teológico, onde o prólogo (1:1-13) serve para dar ao leitor uma visão privilegiada (“God’s angle”) que os personagens da narrativa não possuem (France, “The Prologue…”).
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Autor/Obra: Edwards, J. R. (2001). The Gospel according to Mark. Pillar New Testament Commentary (PNTC).
- Lente Teológica: Teologia Bíblica / Narrativa. Edwards lê Marcos como uma confissão de fé (“gospel… is a person”), enfatizando a continuidade entre o AT (especialmente Isaías e o Servo Sofredor) e Jesus.
- Metodologia: Crítica Literária e Contexto Vital (Sitz im Leben). Ele combina análise literária com uma forte tese sobre a proveniência romana do evangelho. Ele interpreta detalhes narrativos específicos (como as “feras” em 1:13) à luz da perseguição de Nero aos cristãos em Roma, buscando relevância pastoral e histórica simultânea (Edwards, “GOD’S SON MEETS…”).
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Autor/Obra: Garland, D. E. (1996). Mark. NIV Application Commentary (NIVAC).
- Lente Teológica: Hermenêutica Aplicada / Pastoral. Garland foca na transposição do significado original para o contexto contemporâneo, sem sacrificar a exegese histórica.
- Metodologia: Análise de “Bridging Contexts” (Pontes Contextuais). Ele estrutura sua análise em três tempos: Significado Original, Pontes Contextuais e Significado Contemporâneo. Sua exegese de Marcos 1 destaca o conflito cósmico (Deus vs. Satanás) e a natureza “subversiva” do Reino de Deus em relação aos poderes terrenos e espirituais (Garland, “Mark 1:1–13”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de France (NIGTC): O Evangelho é um drama teológico onde o leitor recebe, através do prólogo, a chave cristológica (“Filho de Deus”) que permanece oculta aos personagens da narrativa até a cruz.
- Argumento Expandido: France argumenta que Marcos 1:1 funciona como um “título” para todo o livro, declarando a identidade de Jesus imediatamente. Ele vê os versículos 1:1-13 como um prólogo distinto que oferece uma perspectiva celestial (“from God’s angle”), separada da narrativa que começa em 1:14 na Galileia. Ele rejeita o adocionismo no batismo, afirmando que a voz divina declara o que Jesus é, e não o que ele se tornou: “The voice declares what Jesus is, not what he has now become” (France, “The Declaration of the Son of God”). Ele enfatiza que a autoridade de Jesus (Exousia) em 1:21-28 é apresentada como sem precedentes, unindo ensino e exorcismo.
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Tese de Edwards (PNTC): Marcos apresenta o Evangelho não como um livro ou doutrina, mas como a própria pessoa de Jesus, o Filho de Deus e Servo Sofredor, escrito para encorajar uma igreja sob perseguição (Roma).
- Argumento Expandido: Edwards defende que “Filho de Deus” é o título central de Marcos (1:1). Uma ênfase distintiva é sua interpretação de Marcos 1:13 (“com as feras”). Ele argumenta que isso não é uma restauração do Éden, mas um paralelo direto com os mártires romanos enfrentando feras sob Nero: “remind his Roman readers that Christ, too, was thrown to wild beasts… as the angels ministered to him, so, too, will they minister to Roman readers” (Edwards, “GOD’S SON MEETS…”). Ele também refuta a teoria do Segredo Messiânico de Wrede, vendo o segredo como uma estratégia para evitar mal-entendidos políticos e alinhar Jesus com o modelo do Servo Sofredor de Isaías (Edwards, “Excursus: The Secrecy Motif”).
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Tese de Garland (NIVAC): Marcos 1 narra a invasão decisiva de Deus na história humana para travar uma guerra cósmica contra Satanás, exigindo uma resposta imediata de arrependimento e discipulado radical.
- Argumento Expandido: Garland foca na natureza apocalíptica e de combate do capítulo. Ele destaca que os céus sendo “rasgados” (schizo) em 1:10 significam que “God comes whether we choose or not… God is now in our midst and on the loose” (Garland, “Jesus’ Baptism”). A tentação no deserto é vista não como um teste moral interno, mas como uma luta de poder titânica contra o príncipe do mal. Ele enfatiza que o chamado ao discipulado (1:16-20) é um ato de autoridade divina (“He commands as God commands”) e que os milagres de cura e exorcismo são a atualização presente da salvação escatológica, derrotando o domínio de Satanás (Garland, “Mark 1:16–45”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de France (NIGTC) | Visão de Edwards (PNTC) | Visão de Garland (NIVAC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Euangelion: France enfatiza a ambiguidade gramatical do genitivo em 1:1 (“de Jesus Cristo”), permitindo um duplo sentido: Jesus é tanto o autor quanto o conteúdo da mensagem (France, “The Heading”). | Euangelion: Define evangelho não como um livro ou sistema de verdades, mas como uma pessoa. O evangelho é Jesus Cristo. Para ele, Marcos inaugura um novo gênero literário (Edwards, “The Key to Mark”). | Schizo (Rasgar): Destaca o verbo em 1:10 não apenas como “abrir”, mas como um rasgo violento e irreparável, significando que “Deus está à solta” (“God is on the loose”) e acessível sem barreiras (Garland, “Jesus’ Baptism”). |
| Interpretação de “Com as Feras” (1:13) | Escatologia de Esperança: Vê a presença com os animais e anjos como um tableau do deserto, sugerindo possivelmente a restauração da harmonia do Éden ou proteção divina, mas rejeita a ideia de que a tentação seja o foco principal (France, “The Context of Jesus’ Mission”). | Contexto de Perseguição: Argumenta contra a visão do “novo Adão”. Interpreta as “feras” (theria) como símbolos de horror e perigo, conectando diretamente com os cristãos de Roma sendo lançados às feras por Nero (Edwards, “God’s Son Meets God’s Adversary”). | Conflito Cósmico: Rejeita a visão idílica do “novo Adão”. Vê as feras como confederadas dos poderes do mal e aliadas de Satanás. O deserto é o reino de Satanás onde Jesus invade para travar uma batalha titânica (Garland, “Testing in the Desert”). |
| Problema Central do Texto | A Identidade Oculta: O problema narrativo é que o leitor recebe a “visão de Deus” (Filho de Deus) no prólogo, mas os personagens humanos (exceto Jesus) permanecem ignorantes até a cruz. O batismo é uma revelação privada para Jesus (France, “The Prologue…”). | O Segredo Messiânico: Enfrenta a teoria de W. Wrede. O problema é explicar por que Jesus silencia demônios e curados. Edwards vê isso não como invenção literária, mas como necessidade histórica e teológica para evitar mal-entendidos políticos (Edwards, “Excursus: The Secrecy Motif”). | Ambiguidade Política e Sofrimento: O problema é a justaposição do “Evangelho de Deus” (1:14) imediatamente após a prisão de João Batista. O Reino chega em meio ao perigo real e à ameaça de morte por tiranos como Herodes (Garland, “Mark 1:14–15”). |
| Resolução Teológica | Declaração vs. Adoção: Rejeita veementemente o adocionismo no batismo. A voz divina declara o que Jesus já é (Filho), equipando-o para o ministério público, não alterando seu status ontológico (France, “The Declaration of the Son of God”). | Modelo do Servo Sofredor: O segredo e a autoridade oculta são explicados pela tipologia do Servo Sofredor de Isaías. A revelação plena só é possível na cruz; qualquer messianismo sem sofrimento é falso (Edwards, “The Authority of Jesus”). | Vitória Decisiva: A tentação não é um teste moral interno, mas uma derrota objetiva de Satanás. O exorcismo e a cura são a “atualização” dessa vitória cósmica, libertando reféns do mal (Garland, “Contemporary Significance”). |
| Tom/Estilo | Exegético-Gramatical: Focado na sintaxe grega, variantes textuais e estrutura narrativa (ex: uso de euthys). | Narrativo-Histórico: Focado na conexão com a igreja de Roma, polêmica acadêmica (contra Wrede) e teologia bíblica. | Homilético-Aplicado: Focado na “ponte” entre o texto antigo e a relevância contemporânea, com forte ênfase no combate espiritual. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto (Sitz im Leben): Edwards (PNTC). Sua correlação entre as “feras” de Marcos 1:13 e a perseguição neroniana em Roma oferece uma ancoragem histórica vívida que ilumina o propósito pastoral do evangelho para uma igreja sofredora, superando as interpretações genéricas de France e Garland neste ponto.
- Melhor para Teologia (Cristologia): France (NIGTC). Oferece a análise mais rigorosa sobre a natureza da filiação divina de Jesus, desmontando o adocionismo através de uma exegese precisa da sintaxe do batismo e diferenciando a perspectiva do leitor (“God’s angle”) da perspectiva dos personagens, o que é crucial para uma hermenêutica correta de Marcos.
- Síntese: Para uma compreensão holística de Marcos 1, deve-se utilizar a estrutura gramatical e a correção cristológica de France como base exegética; sobrepor a essa base a leitura de Edwards acerca do “Segredo Messiânico” e do contexto romano para entender a tensão narrativa e o sofrimento; e, finalmente, aplicar a lente de Garland sobre o “Conflito Cósmico” para captar a urgência da batalha espiritual e o chamado radical ao arrependimento e discipulado no mundo contemporâneo.
Filiação Divina, Segredo Messiânico, Conflito Cósmico e Exousia são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Título e Prólogo (1:1)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Euangelion (Evangelho): France nota que a ausência de artigo definido e verbo cria um título “cru”, típico do estilo bíblico, e explora a ambiguidade do genitivo “de Jesus Cristo” (subjetivo: pregado por Ele; ou objetivo: sobre Ele), concluindo que Marcos provavelmente pretendia um double entendre (France, “The Heading”). Edwards define o termo não como um livro, mas como uma proclamação de vitória (fundo greco-romano e de Isaías), argumentando que para Marcos o evangelho “é uma pessoa” (Edwards, “The Key to Mark”).
- Huios Theou (Filho de Deus): Um ponto crítico de crítica textual. France discute a omissão desta frase em alguns manuscritos (como o Codex Sinaiticus original), sugerindo erro mecânico ou descuido, mas defende sua inclusão baseada na estrutura teológica do livro (France, “Textual Note”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Destaca que Archē (Princípio) funciona sintaticamente ligada ao versículo 2 pelo kathōs (conforme), fazendo dos versículos 1-3 uma unidade sintática onde o título “flui” para a profecia (France, “The Heading”).
- Edwards: Faz uma conexão teológica profunda entre o Archē de Marcos 1:1 e Gênesis 1:1 (“No princípio”), sugerindo que a vinda de Jesus é tão momentosa quanto a criação do mundo: “uma nova criação está à mão” (Edwards, “The Key to Mark”).
- Garland: Enfatiza que este versículo serve como título para toda a obra, fornecendo ao leitor “informação privilegiada” sobre a identidade de Jesus que os personagens da narrativa desconhecem (Garland, “Mark 1:1–13”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza do “Princípio”: Enquanto France vê uma função literária paralela a Oseias 1:2 (“as literary rather than theological”), Edwards insiste no peso teológico do termo, ligando-o à cosmologia de Gênesis e ao Prólogo de João.
- Variante Textual: France engaja-se profundamente na disputa sobre a autenticidade de “Filho de Deus” no v. 1, aceitando-a com cautela baseada em evidência interna, enquanto Edwards e Garland assumem a leitura longa sem grande debate textual, focando na teologia do título.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Nenhum autor cita o AT dentro do versículo 1, mas todos notam que o conceito de “Boas Novas” (euangelion) deriva de Isaías 40:9, 52:7 e 61:1 (o arauto da salvação).
5. Consenso Mínimo
- O versículo 1 funciona como um título ou cabeçalho que define a identidade de Jesus (Cristo e Filho de Deus) antes que a narrativa comece.
📖 Perícope: O Precursor e o Batismo (1:2-11)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Schizomenous (Rasgar): Garland e France contrastam o verbo violento de Marcos (rasgar) com o mais suave “abrir” (anoigo) de Mateus/Lucas. Garland traduz como “Deus está à solta” (God is on the loose), implicando uma invasão irrevogável (Garland, “Jesus’ Baptism”).
- Eis (Para dentro/Em): France debate se o Espírito desceu eis (para dentro) ou epi (sobre) Jesus. Ele conclui que eis em Marcos tem uma gama ampla e provavelmente significa “sobre”, rejeitando a ideia de possessão interna literal, enquanto Edwards argumenta que o grego intensifica a união: “o Espírito estava descendo para dentro dele” (Edwards, “The Baptism of Jesus”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Observa que a voz do céu (“Tu és”) e a visão são experiências privadas de Jesus, não uma demonstração pública para João ou a multidão, diferentemente do relato de João ou Mateus (France, “The Declaration…”). Ele rejeita vigorosamente o Adocionismo, afirmando que a voz “declara o que Jesus é, não o que ele se tornou”.
- Edwards: Conecta a voz do batismo (“Filho amado”) não apenas ao Salmo 2, mas especificamente à tipologia de Isaque em Gênesis 22, sugerindo uma teologia de sacrifício iminente: “Jesus é Israel reduzido a um” (Edwards, “The Baptism of Jesus”).
- Garland: Destaca que João Batista usa roupas de “profeta tipo Elias” (Zc 13:4, 2 Rs 1:8) e que o chamado de “toda a Judeia” para o batismo implica que, aos olhos de João, todo o Israel (não apenas os gentios) estava impuro e precisava de purificação (Garland, “Mark 1:2–8”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Pomba: France descarta simbolismos complexos (como Israel ou a pomba de Noé), vendo apenas uma símile visual. Edwards, contudo, vê uma realidade empírica objetiva, não uma experiência mística interna.
- O Batismo de Arrependimento: Garland levanta a questão teológica: “Por que Jesus se submeteu a um batismo de arrependimento?” Ele resolve isso vendo o ato como Jesus “juntando-se à renovação de Israel” e entrando nas fileiras dos pecadores, prefigurando a cruz (Garland, “Bridging Contexts”). France nota que Marcos, diferentemente de Mateus, não demonstra embaraço teológico com isso.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Citação Mista (v. 2-3): Todos notam que a citação atribuída a Isaías é, na verdade, uma fusão de Êxodo 23:20, Malaquias 3:1 e Isaías 40:3. France sugere que isso mostra como Marcos vê a vinda de Jesus como a vinda do próprio Yahweh (France, “The Forerunner”).
- Isaías 64:1: Garland e Edwards conectam o “rasgar dos céus” (schizo) ao clamor de Isaías: “Oh! se fendesses os céus e descesses!“.
5. Consenso Mínimo
- O batismo é o momento de inauguração messiânica, onde Jesus é ungido pelo Espírito e confirmado pelo Pai, cumprindo as Escrituras que fundem as figuras de Elias (João) e do Senhor que vem.
📖 Perícope: A Tentação no Deserto (1:12-13)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ekballei (Impelir/Expulsar): France nota a violência do termo (usado para exorcismos), sugerindo que o Espírito “expulsou” Jesus para o deserto, implicando a seriedade do conflito, embora sem conotação de resistência de Jesus (France, “The Context of Jesus’ Mission”).
- Peirazomenos (Sendo tentado/provado): France prefere “Testing” (provação) a “Temptation” (tentação sedutora), ligando ao teste de Israel no deserto.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Edwards (O Argumento Decisivo sobre as Feras): Apresenta uma leitura histórica única. Ele argumenta que a frase “estava com as feras” (meta tōn thēriōn) conecta-se especificamente aos leitores romanos de Marcos sob Nero (anos 60 d.C.), que eram jogados às feras (bestiarii). Marcos estaria dizendo: “Cristo também foi jogado às feras… e os anjos o serviram” (Edwards, “God’s Son Meets…”).
- Garland: Vê o deserto não como retiro, mas como o reino de Satanás. As feras são “confederadas dos poderes do mal”. Ele rejeita a visão romântica do “Paraíso Restaurado”, afirmando que Jesus entra em combate titânico (Garland, “Testing in the Desert”).
- France: Vê a perícope como um tableau (quadro estático) e não uma narrativa de movimento. Ele diverge ligeiramente dos outros ao sugerir que a presença com as feras poderia sugerir a restauração da harmonia do Éden (Isaías 11), embora reconheça a ambiguidade (France, “The Context of Jesus’ Mission”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Simbolismo das Feras: O grande debate.
- Visão “Adâmica” (Paz): Jesus como novo Adão restaurando a paz com a criação (citado por France como possibilidade, rejeitado por Garland).
- Visão de “Terror/Perseguição”: Edwards e Garland insistem que as feras representam perigo mortal e aliança com Satanás. Edwards vence na especificidade contextual (Roma/Nero), oferecendo a razão mais convincente para Marcos incluir esse detalhe único.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Salmo 91:11-13: Garland e France citam este salmo (anjos protegendo contra feras/pedras) como fundo para o serviço angélico.
- Israel no Deserto: O “40 dias” evoca os 40 anos de Israel (consenso).
5. Consenso Mínimo
- A tentação não é um debate moral interno, mas um conflito cósmico objetivo onde Jesus, guiado pelo Espírito, confronta Satanás no seu território.
📖 Perícope: O Sumário e o Chamado (1:14-20)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Basileia tou Theou (Reino de Deus): France define como o governo dinâmico de Deus (kingship), não um território ou lugar estático. Ele argumenta por uma escatologia realizada em 1:15 (“o tempo está cumprido”), contra a visão futurista (France, “Introduction…”).
- Halieis anthrōpōn (Pescadores de homens): France aponta a metáfora de Jeremias 16:16, onde “pescar” homens é um ato de julgamento divino, mas argumenta que Jesus transforma a metáfora em salvação (resgatar do julgamento).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Destaca que o verbo “seguir” (akolouthein) torna-se um termo técnico para discipulado. Ele observa o detalhe social de que a família de Zebedeu tinha “empregados” (misthōtoi), indicando que os discípulos não eram da classe mais baixa, mas empresários de classe média (France, “The Formation…”).
- Garland: Foca na autoridade do chamado. Jesus comanda “como Deus comanda” (Salmo 33:9). O arrependimento em 1:15 não é apenas contrição, mas uma mudança de lealdade política: “Deus é rei, e Herodes (e qualquer outro) não é” (Garland, “The Death of John…”).
- Edwards: Contrasta Jesus com os rabinos. Rabinos não chamavam alunos; alunos escolhiam rabinos. Jesus quebra o protocolo ao tomar a iniciativa e exigir lealdade à sua pessoa, não à Torá (Edwards, “Calling the First Disciples”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Paradothēnai (Ser entregue/preso - 1:14): Garland vê no uso deste verbo para João Batista um prenúncio divino e irônico: João foi “entregue” (assim como Jesus será), sugerindo que por trás da ação política de Herodes está o plano de Deus. France concorda, notando que o verbo é usado deliberadamente para ligar o destino de João ao de Jesus e dos discípulos.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- 1 Reis 19:19-21: Edwards vê o chamado de Eliseu por Elias como o único precedente bíblico para o chamado de Jesus, mas nota que Jesus é mais radical: Elias permitiu despedidas, Jesus exige ruptura imediata.
5. Consenso Mínimo
- O chamado ao discipulado é um ato de autoridade soberana de Jesus que exige ruptura imediata com as estruturas econômicas (redes) e sociais (pai) anteriores.
📖 Perícope: O Endemoniado de Cafarnaum (1:21-28)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Epitiman (Repreender): Edwards e France discutem este termo. Edwards identifica-o como um termo técnico do judaísmo para subjugar poderes malignos (Zc 3:2). France nota que phimoō (“Cala-te”) é literalmente “ser amordaçado”, um termo coloquial e não uma fórmula mágica esotérica (France, “A Power Encounter…”).
- Hagios tou Theou (Santo de Deus): O título usado pelo demônio.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Ressalta a falta de “técnica” no exorcismo de Jesus. Diferente de Tobias ou Eleazar (em Josefo), não há raízes, anéis ou encantamentos. É pura autoridade verbal (Exousia). Ele também observa a ironia de que a “doutrina nova” (v. 27) é validada não por argumentos, mas pelo poder sobre demônios.
- Edwards: Sugere uma ligação tipológica com Sansão, a única outra figura bíblica chamada “Santo de Deus” (Jz 16:17 LXX), sugerindo uma cristologia de força contra os filisteus espirituais. Ele também vê a confissão do demônio não como rendição, mas como uma tentativa de defesa mágica (nomear para controlar) (Edwards, “The Authority of Jesus”).
- Garland: Enfatiza que o exorcismo é uma “guerra santa”. O grito do demônio é um “rugido de morte” (death roar) semelhante ao grito de Jesus na cruz (Garland, “Teaching with Authority”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Confissão do Demônio: O demônio fala para se defender ou para adorar? Garland e Edwards tendem para a visão de que nomear Jesus é uma tentativa de controle ou defesa desesperada (“Have you come to destroy us?”). France é mais contido, focando no fato de que o demônio possui conhecimento sobrenatural (“privileged insight”) que os humanos não têm, validando a cristologia para o leitor.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Zacarias 13:2: A profecia de que Deus baniria o “espírito imundo” da terra é vista como cumprida aqui (citado por Edwards e France ao discutir pneuma akatharton).
5. Consenso Mínimo
- A autoridade (Exousia) de Jesus é qualitativamente diferente da dos escribas porque une ensino e poder efetivo sobre o reino espiritual, sem rituais intermediários.
📖 Perícope: Curas e a Missão (1:29-39)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Diakoneō (Servir): Em 1:31, a sogra de Pedro serve. Edwards faz uma conexão teológica vital: é o mesmo verbo usado para os anjos servindo Jesus (1:13) e para a missão do Filho do Homem (10:45). Servir é a prova da cura e a essência do discipulado.
- Ekbalein (Expulsar/Enviar): Em 1:43 (para o leproso) e 1:12 (Espírito impelindo Jesus).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Observa que a cura da sogra de Pedro é narrada com detalhes que sugerem “reminiscência pessoal” (provavelmente de Pedro). Ele nota que Jesus toca fisicamente os doentes (v. 41), o que contrasta com exorcismos onde ele usa apenas a palavra (France, “A Single Healing”).
- Garland: Destaca a “caça ao homem” (manhunt) em 1:36-37. O verbo katadiōkō (perseguir/rastrear) sugere que os discípulos estão tentando controlar Jesus e capitalizar sua popularidade, o primeiro sinal de fricção entre a agenda de Jesus (pregar) e a dos discípulos (milagres/sucesso) (Garland, “Summary of Healing”).
- Edwards: Interpreta o “Retiro para Orar” (1:35) como uma necessidade estratégica de Jesus para realinhar sua missão com o Pai, contra a tentação do sucesso popular imediato em Cafarnaum.
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Segredo Messiânico (1:34): Por que Jesus cala os demônios? France sugere que é para evitar testemunhas indesejáveis (“unclean spirits” não devem pregar o Santo). Edwards (em seu Excursus) refuta Wrede, argumentando que o segredo é histórico e teológico: serve para evitar interpretações político-militares do messianismo e para alinhar Jesus ao modelo do Servo Sofredor de Isaías, cuja missão é oculta e sacrificial.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 53: Edwards vê no segredo e na retirada de Jesus a encarnação do Servo que não clama nas ruas.
5. Consenso Mínimo
- A prioridade de Jesus é a pregação do Reino em outros lugares (1:38), recusando-se a ser domesticado como um curandeiro local em Cafarnaum.
📖 Perícope: O Leproso (1:40-45)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Splagchnistheis (Compaixão) vs. Orgistheis (Ira): O grande debate textual de 1:41. Edwards e Garland defendem a variante difícil Orgistheis (irado). Jesus estaria irado não com o homem, mas com a devastação do mal/doença ou com a exclusão social imposta. France menciona a variante mas tende a aceitar a leitura majoritária (compaixão) ou vê a ira dirigida à doença.
- Embrimasamenos (Advertiu severamente): Termo que implica “bufar de raiva” ou forte emoção, apoiando a leitura de Orgistheis.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Edwards: Desenvolve a teologia da “Troca de Lugares”. O leproso entra na cidade limpo; Jesus fica “fora, em lugares desertos” (v. 45), assumindo a exclusão do leproso. Isso prefigura a obra vicária da cruz (Edwards, “Jesus Trades Places”).
- France: Analisa a frase eis martyrion autois (para testemunho a eles) como provavelmente hostil: um aviso aos sacerdotes de que algo novo e poderoso chegou, desafiando a estrutura do Templo (France, “Leprosy…”).
- Garland: Foca na audácia teológica do leproso: “Se quiseres” (If you are willing). O leproso não duvida do poder (como Israel no deserto), mas submete-se à vontade soberana de Jesus, reconhecendo sua autoridade divina de curar o incurável (Garland, “Healing the Leper”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Causa da Ira (v. 41): Se aceita a leitura “irado”, por que Jesus se irou? Garland sugere ira contra as forças do mal que desfiguram a criação de Deus. Edwards concorda, vendo a cura como um ato de batalha espiritual.
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Levítico 13-14: O pano de fundo legal maciço sobre pureza e exclusão. Jesus toca o intocável, revertendo a direção do contágio (a santidade de Jesus “contagia” o leproso, em vez da lepra contaminar Jesus).
5. Consenso Mínimo
- Ao tocar o leproso, Jesus quebra a barreira ritual de Levítico, demonstrando que a pureza do Reino de Deus é ofensiva e contagiosa, superando a pureza defensiva da Lei.