Análise Comparativa: Mateus 7

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.
  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.

Análise dos Autores

  • Autor A: R. T. France (NICNT)

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica / Teologia Bíblica. France foca na estrutura narrativa e no cumprimento tipológico. Ele vê o Evangelho organizado em torno de grandes discursos que revelam Jesus como o Messias de Israel.
    • Metodologia: Análise literária e estrutural. Ele observa como Mateus constrói “padrões deliberados” e desenvolve a autoridade de Jesus através da estrutura de cinco discursos, vendo os capítulos 5-7 como uma construção substancial de material não-marcano desenhada para aumentar a impressão da autoridade de Jesus (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”).
  • Autor B: John Nolland (NIGTC)

    • Lente Teológica: Exegese Histórico-Gramatical minuciosa. Nolland foca intensamente na sintaxe grega, crítica textual e na história da tradição (comparação com Lucas/Q). Ele tende a ver as seções de Mateus 7 como unidades que completam o pensamento teológico do capítulo 6.
    • Metodologia: Filológica e Sintática. Ele analisa termos gregos específicos (ex: krinō, dokos, hupa/apantēsis) e variantes textuais. Sua abordagem busca a estrutura interna do texto, identificando quiasmos e inclusões, como a ligação entre a “Regra de Ouro” (7:12) e a “Lei e os Profetas” (5:17) (Nolland, 7:12).
  • Autor C: D. A. Carson (REBC)

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Histórico-Redentiva. Carson enfatiza Jesus como o cumprimento escatológico do AT. Ele lê o Sermão não apenas como ética, mas como as normas do Reino inaugurado.
    • Metodologia: Teológica e Contextual. Carson defende a historicidade dos discursos contra a crítica da forma radical. Ele busca harmonizar as tensões teológicas (ex: julgamento vs. discernimento) e foca na aplicação prática e na coerência do argumento de Mateus dentro da história da salvação (Carson, 5:17-20 Overview).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (Autor A): [O Sermão é uma construção literária estratégica para estabelecer a autoridade messiânica].

    • France argumenta que Mateus construiu este discurso substancial (caps. 5-7) quase inteiramente de material não-marcano para “aumentar consideravelmente a impressão da autoridade de Jesus”, fornecendo assim “alimento para o pensamento” antes que a narrativa avance para o discurso das parábolas (France, “NICNT… 4:12-16:20”). Ele vê a conclusão narrativa de 7:28-29 como um marcador estrutural vital que confirma o impacto dessa autoridade nas multidões (France, “NICNT…”).
  • Tese de Nolland (Autor B): [Mateus 7 atua como um apêndice ao capítulo 6, focando em ajustar Deus no cálculo humano e na integridade ética].

    • Nolland propõe que as unidades de 7:1-11 são melhor compreendidas como um “apêndice ao cap. 6”, todas preocupadas em “como alguém encaixa Deus em seu cálculo”. Ele argumenta que o julgamento (7:1-5) e a oração (7:7-11) continuam o foco no relacionamento vertical que define o horizontal. Ele vê a “Regra de Ouro” (7:12) como um resumo que fecha o corpo principal do sermão através de uma inclusão com 5:17, unindo a ética de Jesus à Lei e aos Profetas (Nolland, 7:1-5; 7:12).
  • Tese de Carson (Autor C): [O capítulo demanda uma decisão radical pelo Reino em face do cumprimento escatológico, equilibrando perfeição e discernimento].

    • Carson vê 7:1-12 sob o tema de “Equilíbrio e Perfeição”, onde Jesus adverte contra o perigo do julgamento hipócrita enquanto simultaneamente exige discernimento espiritual (para não dar pérolas aos porcos). A seção final (7:13-27) é estruturada como um “chamado à decisão e compromisso”, usando quatro pares de contrastes (dois caminhos, duas árvores, duas reivindicações, dois construtores) para forçar uma escolha baseada na escatologia: o caminho estreito é o caminho da perseguição que leva à vida (Carson, 7:13-14; 7:1-12).

Comparação de Tópicos Específicos em Mateus 7

1. O Julgar e o Discernimento (7:1-6)

  • Nolland: Foca na ironia e nas imagens grotescas (“trave” vs. “cisco”). Ele sugere que 7:1-5, 6 e 7-11 formam um bloco sobre relacionamento com Deus. Sobre 7:6 (“não deis aos cães…”), Nolland admite a dificuldade de interpretação e rejeita especulações sobre “tradução errônea do semítico”, preferindo ver uma advertência sobre a aplicação inadequada de coisas santas, embora o referente exato seja obscuro (Nolland, 7:6).
  • Carson: É enfático que 7:1 não proíbe todo julgamento, citando a necessidade de discernimento teológico em outras partes do NT. Ele interpreta 7:6 (“o que é sagrado”) especificamente como o Evangelho do Reino. A proibição é contra proclamar o evangelho a pessoas (“cães e porcos”) que apenas o desprezariam violentamente, exigindo assim discernimento espiritual (Carson, 7:6).

2. A Oração e a Bondade de Deus (7:7-11)

  • Nolland: Destaca a estrutura retórica e a continuidade com o tema de relacionamento com Deus. Ele nota que Mateus tem “boas coisas” (v. 11) onde Lucas tem “Espírito Santo”, considerando a forma de Mateus mais original neste ponto (Nolland, 7:7-11).
  • Carson: Enfatiza a teologia da paternidade de Deus. Ele argumenta contra a ideia de que o homem ser “mau” (v. 11) seja uma inserção tardia, afirmando que Jesus assumia regularmente a pecaminosidade humana. O foco é a imagem de Deus: não um tirano malicioso, mas um Pai celestial que dá “boas dádivas” (dons do Reino) (Carson, 7:7-11).

3. Os Dois Caminhos e Falsos Profetas (7:13-23)

  • Nolland: Vê a “porta estreita” e o caminho apertado (v. 14) possivelmente como uma metonímia para a perseguição e sofrimento daqueles que viajam por ele. Sobre os falsos profetas (v. 15), ele define sua falsidade não apenas doutrinariamente, mas pela falha em produzir o “fruto” ético correspondente à profecia de Jesus (Nolland, 7:13-14; 7:15).
  • Carson: Concorda que o caminho estreito implica perseguição (thlipsis), mas enfatiza o aspecto escatológico. Ele argumenta que os “falsos profetas” não são um grupo histórico único (como Zelotes ou Gnósticos), mas um aviso amplo aplicável a várias formas de engano. Carson é firme ao dizer que a obediência à vontade do Pai (v. 21) é a condição sine qua non para entrada no Reino, rejeitando uma leitura antinomiana da graça (Carson, 7:13-14; 7:21-23).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (Autor A)Visão de Nolland (Autor B)Visão de Carson (Autor C)
Palavra-Chave / Termo GregoAutoridade (exousia - 7:29). France foca na construção literária de Mateus para “aumentar consideravelmente a impressão da autoridade de Jesus” (France, NICNT).Tethlimmenē (7:14). Nolland traduz como “constringido” ou “sob pressão”, sugerindo uma metonímia para a perseguição e sofrimento daqueles que viajam pelo caminho (Nolland, 7:13-14).Krinō (7:1). Carson define não como proibição judicial ou moral absoluta, mas como advertência contra o julgamento hipócrita, equilibrado pela necessidade de discernimento em 7:6 (Carson, 7:1).
Problema Central do TextoO problema é literário-estrutural: como os discursos (caps. 5-7) se encaixam na narrativa para preparar o leitor para o discurso das parábolas e estabelecer a identidade messiânica (France, NICNT).O problema é sintático e histórico: como interpretar imagens bizarras (cães/porcos em 7:6) sem alegorização excessiva, focando na aplicação prática de não expor o santo à profanação (Nolland, 7:6).O problema é teológico-escatológico: como equilibrar a graça do Reino com a demanda radical por uma decisão (“Dois Caminhos”), onde a entrada na porta estreita define o destino eterno (Carson, 7:13-14).
Resolução TeológicaA resolução está na Cristologia: O Sermão não é apenas ética, mas a revelação do Messias em Palavra, paralela à revelação em Obras nos caps. 8-9 (France, NICNT).A resolução está na Integridade Ética: O capítulo atua como um apêndice ao cap. 6, resolvendo a tensão entre “ouvir” e “fazer” através da sabedoria prática e da Regra de Ouro como inclusio (Nolland, 7:12; 7:24).A resolução está no Cumprimento Profético: Jesus cumpre a Lei/Profetas (7:12 resume 5:17), e a obediência exigida (7:21) não é mérito, mas evidência de pertencer ao Reino inaugurado (Carson, 7:21-23).
Tom/EstiloNarrativo/Estrutural. Foca nos padrões deliberados de Mateus e na macroestrutura do Evangelho.Técnico/Filológico. Minucioso em variantes textuais, sintaxe grega e paralelos com Q/Lucas.Teológico/Pastoral. Foca na aplicação doutrinária, harmonização canônica e desafio à decisão pessoal.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Nolland (Autor B). Sua obra oferece o background histórico mais denso, explorando detalhadamente o uso de termos na LXX, paralelos em Qumran (ex: 4Q521) e nuances da sintaxe grega (como a discussão sobre tethlimmenē em 7:14 e kynarion vs kyōn em 15:26/7:6). É indispensável para a exegese gramatical rigorosa.
  • Melhor para Teologia: Carson (Autor C). Apresenta a melhor síntese doutrinária, conectando o Sermão do Monte com a História da Redenção. Ele evita o legalismo e o antinomianismo ao situar as demandas de Jesus (7:13-27) dentro da estrutura do “cumprimento” escatológico e da natureza do Reino dos Céus, oferecendo uma leitura robusta sobre o julgamento e a graça.
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 7, deve-se utilizar France para situar o discurso na macroestrutura narrativa de Mateus (a autoridade messiânica), Nolland para dissecar as ambiguidades linguísticas e as conexões intertextuais (especialmente a relação com Lucas/Q), e Carson para a aplicação teológica que equilibra as exigências éticas com a escatologia do Reino. A combinação revela que o capítulo não é apenas moralismo, mas um ultimato cristológico para alinhar a vida com a realidade do Reino inaugurado.

Reino dos Céus, Escatologia, Discernimento Espiritual e Cumprimento Profético são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: O Julgar e o Cisco no Olho (7:1-5)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Krinō (Julgar): Carson argumenta que o verbo possui um amplo campo semântico, podendo significar “julgar judicialmente”, “condenar” ou “discernir”, insistindo que o contexto não proíbe todo tipo de julgamento, visto que 7:6 e 7:15 exigem discernimento crítico (Carson, 7:1). Nolland observa que a forma passiva (“ser julgado”) é um passivo divino, indicando o julgamento escatológico de Deus (Nolland, 7:1-5).
  • Karphos (Cisco) vs. Dokos (Trave): Nolland detalha que karphos refere-se a uma lasca ou cisco de material seco, enfatizando a pequenez, enquanto dokos é uma viga de sustentação de construção, criando uma imagem grotesca e impossível de visualizar concretamente, servindo como tática de choque (Nolland, 7:3). Carson concorda que dokos é uma “hipérbole colorida” (Carson, 7:3-5).
  • Hypokrita (Hipócrita): Nolland destaca que aqui o hipócrita pode não estar consciente de sua falsidade, mas é culpado por sua falha em perceber a realidade de sua própria condição (Nolland, 7:3).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Destaca a estrutura literária, observando um quiasmo detalhado no verso 3 (vê/cisco/olho/irmão // teu/olho/trave/notas) e sugere que esta seção deve ser lida como um “apêndice ao capítulo 6”, lidando com a forma como encaixamos Deus em nossos cálculos (Nolland, 7:3; 7:1-5).
  • [Carson]: Traz uma aplicação eclesiológica, sugerindo que “irmão” refere-se especificamente à comunidade de discípulos. Ele cita 2 Samuel 12:1-12 (Natã e Davi) como um exemplo vétero-testamentário da dinâmica correta de julgamento: autocrítica antes da crítica (Carson, 7:3-5).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza do Julgamento: Existe uma tensão sobre o escopo da proibição. Nolland foca na “percepção seletiva grosseira” e na falta de integridade pessoal (Nolland, 7:3). Carson é mais preocupado em proteger o texto de uma interpretação que proíba o discernimento moral, argumentando que proibir todo julgamento contradiria o próprio contexto imediato (cães e porcos em 7:6) e outras passagens do NT como 1 Coríntios 5:5 (Carson, 7:1).
  • Veredito: Carson apresenta o argumento teológico mais robusto para a harmonização canônica, enquanto Nolland é superior na análise da estrutura interna do texto grego.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Carson conecta a medida do julgamento (v. 2) à literatura rabínica (m. Sotah 1:7), mas nota que Jesus lhe dá um uso distinto (Carson, 7:2).

5. Consenso Mínimo

  • A proibição não é sobre o discernimento crítico, mas sobre a hipocrisia de corrigir outros sem antes submeter-se a uma autocrítica rigorosa diante de Deus.

📖 Perícope: Profanação do Sagrado (7:6)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Hagion (Santo) e Margaritas (Pérolas): Nolland discute a teoria de que “o que é santo” (to hagion) seria uma tradução errônea de um original semítico para “anel” ou “brinco” (para paralelizar com pérolas), mas rejeita isso como especulativo e desnecessário (Nolland, 7:6). Carson interpreta “o que é sagrado” especificamente como a mensagem do evangelho (Carson, 7:6).
  • Kysin (Cães) e Choirōn (Porcos): Ambos concordam que são termos para impuros/gentios ou opositores do evangelho. Nolland nota que aqui se usa kysin (cães de rua/selvagens) e não kynarion (cães domésticos) como em Mt 15:26 (Nolland, 7:6).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Faz um levantamento exaustivo de propostas interpretativas, incluindo a visão de que o texto proibia a eucaristia a não batizados (Didache 9:5), mas prefere ver como um aviso sapiencial sobre a aplicação inadequada de verdades religiosas (Nolland, 7:6).
  • [Carson]: Identifica uma estrutura quiástica no versículo: Cães (A) e Porcos (B); Porcos pisam (B’), Cães despedaçam (A’). Ele enfatiza que os animais não são apenas impuros, mas perigosos (“despedaçam”), indicando que a proibição visa proteger o evangelho de escárnio violento (Carson, 7:6).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade dos Cães/Porcos: Nolland é cauteloso e admite a dificuldade de identificar o referente exato, sugerindo que a imagem é “bizarra” e “obscura” (Nolland, 7:6). Carson é mais assertivo teologicamente, definindo-os como pessoas que mostram desprezo decidido e violento pelo evangelho (Carson, 7:6).

5. Consenso Mínimo

  • O evangelho (ou verdades espirituais preciosas) não deve ser oferecido indiscriminadamente a quem demonstra hostilidade ou incapacidade de valorizá-lo.

📖 Perícope: A Oração e a Bondade do Pai (7:7-11)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ponēroi (Maus): Termo central no versículo 11. Carson refuta Lachs, que argumentava ser este conceito uma inserção teológica tardia; Carson insiste que Jesus “regularmente assume a pecaminosidade da humanidade” e que o termo é autêntico e essencial para o contraste a fortiori com Deus (Carson, 7:7-11). Nolland nota que ponēros aqui funciona em contraste com a bondade paterna de Deus (Nolland, 7:11).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Observa que a inclusão de “boas coisas” (v. 11) em Mateus é provavelmente mais original do que o “Espírito Santo” em Lucas 11:13, argumentando contra a visão comum de que Mateus espiritualiza o texto; aqui, Mateus é mais concreto (Nolland, 7:7-11).
  • [Carson]: Enfatiza a pedagogia divina. Deus não é um “estranho relutante” que precisa ser persuadido (como em 6:7-8) nem um “tirano malicioso” (como sugerido pela antítese da pedra/cobra), mas um Pai que treina sua família (Carson, 7:7-11).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Lógica da Oração: Nolland foca na estrutura retórica e na certeza da resposta baseada na bondade de Deus. Carson insere uma advertência teológica: as bênçãos prometidas não são de “graça comum” (como sol e chuva em 5:45), mas bênçãos específicas do Reino para discípulos (Carson, 7:7-11).

5. Consenso Mínimo

  • A oração é fundamentada não na insistência humana, mas no caráter bondoso e paternal de Deus, que excede a bondade dos pais humanos falíveis.

📖 Perícope: A Regra de Ouro (7:12)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Houtōs (Assim/Portanto): Nolland argumenta que este advérbio/conjunção liga o verso a todo o corpo do Sermão (5:17-7:11), não apenas aos versos anteriores (Nolland, 7:12).
  • Nomos kai prophētai (Lei e Profetas): Ambos os autores concordam que esta frase forma uma inclusão (inclusio) com Mateus 5:17, delimitando o corpo principal do ensino ético de Jesus.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Destaca a linhagem antiga da regra (citando Zoroastrismo, Confucionismo, etc.), mas foca na forma como ela funciona em Mateus como um resumo que generaliza as demandas específicas anteriores (Nolland, 7:12).
  • [Carson]: Contrasta a formulação positiva de Jesus com a negativa do Rabino Hillel (b. Shabb. 31a: “O que é odioso para ti, não faças…”). Carson argumenta que a forma positiva é radicalmente mais exigente, condenando pecados de omissão (Carson, 7:12).

5. Consenso Mínimo

  • O verso 7:12 não é um mandamento isolado, mas o resumo hermenêutico e o clímax de toda a ética do Sermão do Monte, cumprindo a intenção da Torá.

📖 Perícope: Os Dois Caminhos (7:13-14)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Tethlimmenē (Apertado/Constrito): Nolland sugere que este particípio perfeito passivo implica tribulação e perseguição (relacionado a thlipsis), não apenas estreiteza arquitetônica. O caminho é “comprimido” pela hostilidade do mundo (Nolland, 7:13-14).
  • Apōleia (Destruição): Carson define como “destruição definitiva”, um “mergulho eterno no Hades”, rejeitando a ideia de aniquilação simples ou mera morte física (Carson, 7:13-14).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Analisa a estrutura sintática, notando um “quiocismo menor” que permite que “que leva à destruição” qualifique “o caminho” e “muitos são os que entram” remeta de volta à “porta larga” (Nolland, 7:13-14).
  • [Carson]: Argumenta teologicamente que Jesus não está encorajando “cristãos” a persistirem, mas ordenando que as pessoas entrem no caminho. Os “discípulos” em 5:1 ainda não são cristãos plenos no sentido pós-Pentecostes; estão sendo chamados a uma decisão de aliança (Carson, 7:13-14).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza da Porta: Nolland tende a ver a dificuldade como intrínseca ao discipulado (perseguição). Carson enfatiza o aspecto escatológico e a exclusividade da salvação (“poucos”), ligando isso à necessidade de regeneração e decisão radical contra a cultura (Carson, 7:13-14).

5. Consenso Mínimo

  • A entrada no Reino exige uma escolha deliberada e difícil, contrária à tendência da maioria, com destinos eternos divergentes em jogo.

📖 Perícope: Falsos Profetas e Frutos (7:15-20)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Harpages (Vorazes/Roubadores): Nolland liga este termo a lobos para descrever a periculosidade oculta dos falsos profetas. Ele observa que o contraste não é apenas doutrinário, mas ontológico (natureza da árvore) (Nolland, 7:15).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Carson]: Adverte contra uma leitura simplista que vê “frutos” apenas como obras. Ele argumenta que, no contexto de Mateus, “frutos” envolve tanto a retidão ética quanto a confissão doutrinária correta, prevenindo contra o antinomianismo (Carson, 7:15-20).
  • [Nolland]: Nota que a justaposição das imagens (lobos/ovelhas vs. árvores/frutos) é um pouco “discordante” (jarring) literariamente, pois mistura metáforas de espécies diferentes com metáforas de qualidade botânica, mas que Mateus subordina a imagem do lobo à da árvore para focar na qualidade intrínseca da pessoa (Nolland, 7:16).

5. Consenso Mínimo

  • A aparência externa de piedade ou ortodoxia (pele de ovelha) é insuficiente; a verdadeira natureza é revelada pelo “fruto” ético e espiritual, que é impossível de falsificar a longo prazo.

📖 Perícope: A Falsa Profissão de Fé (7:21-23)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Anomia (Inequidade/Sem Lei): Nolland destaca este termo no v. 23 como a caracterização central dos rejeitados. Eles operam carismas, mas vivem sem a lei de Deus (Nolland, 7:21-23).
  • Oudepote egnōn (Nunca vos conheci): Carson interpreta “conhecer” aqui com um peso semítico, implicando uma relação de aliança e eleição pessoal, não mero conhecimento cognitivo (Carson, 7:21-23).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Observa que Jesus é chamado “Senhor” (Kyrios) 5 vezes no cap. 8, mas aqui o uso é rejeitado. O ponto não é o título, mas a falta de obediência. Ele vê o v. 22 (“naquele dia”) como uma fórmula escatológica fixa (Nolland, 7:21-23).
  • [Carson]: Destaca a ironia de que estes falsos discípulos profetizam e fazem milagres “em teu nome”, mas Jesus os bane citando o Salmo 6:8, onde o sofredor justo é vindicado. Jesus assume aqui o papel de Juiz Escatológico, uma reivindicação cristológica implícita massiva (Carson, 7:21-23).

4. Ecos do Antigo Testamento

  • Salmo 6:8: Ambos os autores (Nolland e Carson) identificam a citação “Apartai-vos de mim…” como direta do Salmo 6:8. Carson adiciona que Jesus inverte o papel: no Salmo, o sofredor fala; aqui, o Rei-Juiz fala (Carson, 7:23).

5. Consenso Mínimo

  • Carismas espirituais e confissões verbais ortodoxas não substituem a obediência à vontade do Pai; o julgamento final desmascarará a piedade sem prática.

📖 Perícope: Os Dois Construtores (7:24-27)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Phronimos (Prudente/Sábio) vs. Mōros (Tolo): Nolland observa que a mudança de “caiu” (v. 25) para “bateu contra” (prosekopsan) no v. 27 intensifica a descrição da ruína (Nolland, 7:24-27).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Sugere que a parábola trata do reconhecimento da autoridade das palavras de Jesus. O “fazer” situa esse reconhecimento no nível ético (Nolland, 7:24-27).
  • [Carson]: Conecta esta parábola com Ezequiel 13 (paredes caiadas caindo na tempestade) e Provérbios 10 (fundamentos eternos vs. tempestade). Ele vê a parábola como o clímax da reivindicação messiânica: a sobrevivência no julgamento final depende inteiramente da relação da pessoa com as palavras de Jesus (Carson, 7:24-27).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Rocha: Embora não haja um debate explícito acirrado aqui nos trechos, Carson tende a focar na “Rocha” teologicamente como o ensino de Jesus/o próprio Jesus, enquanto Nolland foca na ação de construir (o ouvir e fazer) como o elemento diferenciador.

5. Consenso Mínimo

  • A única segurança contra o julgamento escatológico (a tempestade) é a prática obediente dos ensinamentos de Jesus apresentados no Sermão.

📖 Conclusão Narrativa (7:28-29)

1. Análise Filológica

  • Exousia (Autoridade): Termo central que distingue Jesus dos escribas.

2. A Lupa dos Comentaristas

  • [France]: (Baseado na estrutura geral mencionada na Fonte 1) Vê estes versículos como um marcador estrutural vital que fecha o primeiro grande discurso, confirmando que o objetivo de Mateus 5-7 foi estabelecer a autoridade messiânica de Jesus antes dos milagres dos capítulos 8-9 (France, “NICNT…”).
  • [Carson]: Nota que a fórmula “Quando Jesus acabou de dizer essas coisas” é um dispositivo estilístico consciente de Mateus (repetido 5 vezes no Evangelho) para marcar transições estruturais, ligando o ensino à ação que segue (Carson, 7:28-29).

5. Consenso Mínimo

  • O Sermão não é apenas um conselho ético, mas um ato de autoridade soberana que exige espanto e submissão.