Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Mateus 6
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.
- Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew (NIGTC).
- Lente Teológica: Crítico-Histórica e Filológica. O autor foca intensamente na análise textual, na gramática grega e na história da tradição (comparação com Lucas/Q).
- Metodologia: Realiza uma exegese técnica detalhada, frequentemente discutindo variantes textuais e a composição das perícopes. Ele busca reconstruir as unidades pré-mateanas e analisar como Mateus as adaptou (redação). Sua abordagem é acadêmica e minuciosa quanto à sintaxe e ao vocabulário grego (Nolland, “The future ἔσεσθε… is imperatival”).
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Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew (REBC).
- Lente Teológica: Evangélica Reformada e Teologia Bíblica. O autor enfatiza a autoridade de Jesus, a continuidade/descontinuidade da História da Redenção e a aplicação teológica prática.
- Metodologia: Ataca o texto com foco na coerência teológica e na estrutura narrativa. Ele tende a defender a autenticidade dos cenários históricos apresentados por Mateus e busca harmonizar as tensões sinóticas sem recorrer excessivamente à fragmentação das fontes. Foca na “intenção do evangelista” de apresentar o ensino de Jesus como normativo para o Reino (Carson, “The focus returns to Jesus…”).
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Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew (NICNT).
- Lente Teológica: Narrativa e Redacional.
- Metodologia: Foca na “construção cuidadosa” do Evangelho por Mateus para criar um efeito literário e teológico específico. Ele vê os discursos (como o Sermão do Monte, caps. 5-7) como blocos substanciais desenhados para realçar a autoridade de Jesus antes das parábolas (France, “Matthew has considerably enhanced the impression of Jesus’ authority”).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Nolland (NIGTC): O capítulo 6 é uma composição de unidades pré-formadas sobre piedade (esmolas, oração, jejum) e exortações sapienciais, onde Mateus edita fontes (como Q) para enfatizar a recompensa secreta de Deus em contraste com a hipocrisia pública.
- Argumento: Nolland identifica Mt 6:1-6, 16-18 como uma “unidade pré-formada incorporada com poucas mudanças”, enquanto vê o Pai Nosso (6:7-15) como um “excurso sobre oração” anexado à seção (Nolland, “Mt. 6:1-6, 16-18 shows all the marks of being a preformed unit”). Ele destaca o uso de imagens antigas, como a teoria da visão onde o olho emite luz, para explicar metáforas difíceis (Nolland, “sight was understood to function by means of a flow of light from the eyes”).
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Tese de Carson (REBC): O ensino de Jesus em Mateus 6 exige uma lealdade indivisa aos valores do Reino, rejeitando a piedade ostentatória e o materialismo pagão em favor de uma confiança inabalável no Pai Celestial.
- Argumento: Carson argumenta contra a visão de que o capítulo é uma colcha de retalhos de ditos independentes, defendendo que o contexto estabelecido por Mateus é coerente e deve ser aceito “pelo seu valor nominal” (Carson, “The context Matthew establishes should be accepted at face value”). Ele enfatiza que a justiça do Reino é qualitativamente diferente, focada em um “Pai que vê em secreto” e na busca prioritária pelo Reino (Carson, “unswerving loyalty to kingdom values”).
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Tese de France (NICNT): Mateus constrói o discurso dos capítulos 5 a 7 (incluindo o cap. 6) como uma peça fundamental para estabelecer a autoridade messiânica de Jesus em palavras, preparando o terreno para a revelação em obras nos capítulos seguintes.
- Argumento: France observa que Mateus expandiu consideravelmente o material de Marcos para construir este “discurso substancial”, criando um padrão deliberado onde a autoridade de Jesus é o tema central que une o ensino ético e a narrativa subsequente (France, “enhanced the impression of Jesus’ authority”).
Análise Comparativa Detalhada: Mateus 6
A. A Prática da Justiça (Esmolas, Oração, Jejum) - Mt 6:1-18
Carson foca na estrutura lógica repetitiva das três práticas de piedade judaica: aviso contra a ostentação, a garantia de que os hipócritas já receberam sua recompensa, e a instrução para a prática secreta visando a recompensa do Pai (Carson, “In each act the logical structure is the same”). Ele define teologicamente a recompensa não como mérito, mas como a resposta graciosa do “Pai que vê o que é feito em segredo” (Carson, “assurance that the Father who sees in secret will reward openly”).
Nolland oferece uma análise mais técnica da redação. Ele sugere que o versículo 6:1 é provavelmente “redacional”, manifestando usos típicos de Mateus (como dikaiosynē), servindo como um resumo de abertura para uma unidade pré-existente (Nolland, “An opening summary is likely to be an original feature”). Nolland também destaca a imagética física do “quarto secreto” (tamieion) em 6:6, sugerindo uma despensa ou quarto de armazenamento, enfatizando a estranheza e privacidade total do local (Nolland, “imprecise word used with reference to any kind of storage chamber”).
B. A Oração do Senhor (Pai Nosso) - Mt 6:9-13
Contraste Metodológico:
- Carson defende a natureza paradigmática da oração (“Assim deveis orar”, não “Orem isto”), rejeitando a ideia de que seja uma liturgia padronizada rígida (Carson, “The emphasis is on paradigm or model”). Ele refuta a teoria de que Mateus expandiu a versão de Lucas, sugerindo que as diferenças linguísticas apontam para tradições ou ocasiões diferentes (Carson, “do not account for the linguistic differences”).
- Nolland, por outro lado, vê os versículos 6:7-8 como uma unidade de ensino pré-mateana usada para introduzir o Pai Nosso. Ele considera que a forma de Mateus contém “elaborações” da forma mais curta e original preservada em Lucas (como a frase “livra-nos do mal”), embora admita que a invocação “Nosso Pai que estás nos céus” de Mateus possa ser mais original que o simples “Pai” de Lucas (Nolland, “The extra elements in the Matthean form are most likely to represent elaboration”).
Interpretação de Termos Chave:
- Pão Diário (epiousios): Nolland discute as dificuldades linguísticas e opções de tradução (“para o dia”, “necessário”, “de amanhã”), notando que Mateus pode ter preservado uma formulação mais original em certos aspectos (Nolland, “The Greek epiousios… is rendered… as ‘daily’ and ‘supersubstantial’”).
- Perdão: Carson enfatiza o aspecto teológico de que o perdão humano é reflexo da graça, não mérito. Nolland observa a mudança de metáfora de “dívidas” (v.12) para “transgressões” (v.14-15), sugerindo que Mateus pretendia que “dívidas” fosse uma imagem para erros morais (Nolland, “intended ‘debts’ in v. 12 to be an image for wrongdoings”).
C. Tesouros e a Lâmpada do Corpo - Mt 6:19-24
Nolland propõe uma conexão literária interessante (“cross-stitch arrangement”) onde o versículo 6:19 antecipa a discussão sobre Mamom (v.24), enquanto o v.20 olha para trás, para as recompensas celestiais dos vv.1-18 (Nolland, “v. 19 anticipating what follows but v. 20 looking back”). Para a difícil metáfora do “olho bom/mau” (vv.22-23), Nolland recorre à teoria antiga da visão (extromissão), onde o olho emite luz; assim, um “olho mau” ou doente não emite luz, deixando o corpo em trevas (Nolland, “Sight was understood to function by means of a flow of light from the eyes”).
Carson interpreta o “olho mau” (ponēros) através de expressões idiomáticas judaicas, onde refere-se à avareza ou egoísmo (o “mau olhado”). Assim, ele vê uma conexão ética direta: o homem que divide seu interesse entre Deus e posses não tem visão clara ou direção moral (Carson, “refer to miserliness and selfishness”). Sobre “Mamom”, Carson destaca que a raiz semítica indica algo em que se confia, e aqui é personificado como um dono de escravos rival a Deus (Carson, “Both God and Money are portrayed… as slave owners”).
D. Ansiedade e o Reino - Mt 6:25-34
Carson foca na lógica do argumento a fortiori (“quanto mais”): se Deus cuida da vida e do corpo (o maior), cuidará do alimento e vestuário (o menor). Ele define “buscar primeiro o Reino” como desejar, submeter-se e propagar o reinado salvífico de Deus, substituindo a ansiedade pagã por prioridades espirituais (Carson, “desire above all to enter into, submit to… the saving reign of God”).
Nolland destaca a incompatibilidade entre a ansiedade pelas necessidades básicas e a natureza abrangente das reivindicações do Reino de Deus (Nolland, “Anxiety… is incompatible with the all-encompassing nature of the claims of the kingdom”). Ele analisa textualmente a frase difícil “acrescentar um côvado à sua vida” (v.27), preferindo a interpretação temporal (acrescentar tempo de vida) em vez de estatura física, pois se alinha melhor ao fluxo do pensamento sobre provisão (Nolland, “seniority and status… will come along in due course”). Nolland também observa que a designação “homens de pequena fé” (oligopistoi) é usada tipicamente por Mateus para discípulos que falham em confiar no cuidado divino (Nolland, “always points to their failure to believe that they will be taken care of”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Nolland (NIGTC) | Visão de Carson (REBC) | Visão de France (NICNT) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave / Termo Grego | Epiousios (6:11): Analisa três derivações etimológicas principais: “pão para subsistência”, “para o dia existente” ou “para o dia que amanhece” (escatológico). Prefere uma síntese onde a necessidade diária representa todas as necessidades básicas (Nolland,). | Mammon (6:24): Define māmônā como uma transliteração aramaica indicando “riqueza/propriedade”. Enfatiza que Jesus personifica o Dinheiro não como um empregador, mas como um dono de escravos (slave owner) que exige serviço exclusivo (Carson,). | Didaskalos (Implícito): Foca na construção do discurso (caps. 5-7) como uma unidade substancial desenhada para aumentar a impressão da autoridade de Jesus (exousia) como o Mestre messiânico diante das multidões (France,). |
| Problema Central do Texto | Incoerência Ritual: O problema é a desconexão entre a prática de piedade (esmola, oração) e a intenção do coração. O texto expõe a hipocrisia de buscar reconhecimento público (“ser visto”) em vez da recompensa do Pai que está em “segredo” (Nolland,,). | Idolatria e Lealdade Dividida: O problema fundamental não é apenas ético, mas teológico: a tentativa impossível de dividir a lealdade do “coração” (centro da personalidade) entre Deus e os tesouros terrenos (Carson,,). | Definição do Discipulado: O problema é estabelecer a identidade do discípulo em contraste com o judaísmo convencional, preparando o cenário para a revelação do Messias em palavras antes de suas obras (France,,). |
| Hermenêutica do “Olho” (6:22-23) | Física/Cultural: Recorre à antiga teoria da extromissão, onde o olho emite luz. Um “olho mau” não emite luz, deixando o corpo em trevas. Vê uma metáfora para generosidade (haplous) vs. mesquinhez (Nolland,,). | Metafórica/Moral: Interpreta o olho como equivalente ao “coração”. Haplous indica “lealdade indivisa” e Poneros refere-se à expressão judaica para avareza. O foco é a orientação moral e espiritual, não a física (Carson,). | Não especificado nos trechos fornecidos, mas foca na estrutura narrativa geral de autoridade. |
| Resolução Teológica | Recompensa do Pai: A solução é a confiança na recompensa “secreta” de Deus. A ansiedade é resolvida pela incompatibilidade lógica entre as reivindicações abrangentes do Reino e a preocupação com necessidades menores (Nolland,,). | Prioridade do Reino: A solução é substituir a busca pagã por coisas materiais pela busca prioritária do reinado salvífico de Deus (saving reign). A confiança no Pai elimina a ansiedade porque Ele conhece as necessidades (Carson,,). | Revelação Messiânica: O discurso resolve a questão da autoridade de Jesus, estabelecendo-o como aquele que cumpre o propósito antigo de Deus e lança a missão messiânica (France,). |
| Tom/Estilo | Técnico e Filológico: Foca em variantes textuais, etimologia grega e comparação com fontes Q/Lucas (Nolland,,). | Teológico e Polêmico: Combate interpretações liberais/existencialistas e foca na aplicação eclesiástica e doutrinária (Carson,,). | Narrativo e Redacional: Foca na macroestrutura do Evangelho e no design literário de Mateus (France,). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Nolland (NIGTC). Ele fornece o background histórico mais rico sobre conceitos antigos, como a teoria da visão no mundo antigo para explicar a metáfora da “luz do corpo” (Nolland,) e as práticas de armazenamento em despensas (tamieion) para explicar o “quarto secreto” (Nolland,).
- Melhor para Teologia: Carson (REBC). Ele aprofunda melhor as doutrinas, conectando o ensino ético de Mateus 6 com a teologia sistemática, especificamente a natureza do Reino como o “reinado salvífico de Deus” e a definição de “coração” como o centro da personalidade humana que não admite lealdade dividida (Carson,,).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 6, deve-se utilizar France para situar o discurso na estrutura narrativa de autoridade messiânica do Primeiro Evangelho; Nolland para exegetar os detalhes técnicos e o background cultural das práticas de piedade (esmola, oração, jejum); e Carson para a aplicação teológica sobre a lealdade exclusiva a Deus contra o materialismo. A combinação revela um Jesus que exige uma Justiça Superior baseada não na performance ritual, mas na Lealdade Indivisa de um coração focado no Pai em Secreto.
Justiça Superior, Lealdade Indivisa, Pai em Secreto e Mau são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Prática da Justiça e Esmolas (6:1-4)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Dikaiosynē (Justiça) vs. Eleēmosynē (Esmolas): O termo textual em 6:1 é debatido. Carson nota que eleēmosynē (“esmolas”) aparece em alguns manuscritos como uma glosa marginal antiga para explicar dikaiosynē (“justiça”), mas defende dikaiosynē como o texto original suportado por forte evidência externa (Carson, “Two variants are of interest… The external evidence strongly supports dikaiosynē”). Nolland concorda, afirmando que a leitura de “esmolas” destrói o papel do versículo 1 como princípio geral para os três exemplos seguintes (esmola, oração, jejum) (Nolland, “at the expense of destroying the role of v. 1 as establishing the principle”).
- Salpisēs (Tocar trombeta): Nolland discute se isso é literal ou metafórico, notando que tentativas de relacionar isso a algo diferente do toque de trombeta não são persuasivas, sugerindo que pode ecoar uma metáfora comum na antiguidade (Nolland, “The usage may echo a widespread metaphor”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Nolland]: Destaca que Mateus 6:1-6, 16-18 mostra marcas de ser uma “unidade pré-formada” incorporada ao Sermão, onde o versículo 1 serve como um resumo editorial (redacional) de Mateus, utilizando vocabulário típico dele como prosechein e dikaiosynē (Nolland, “V. 1 is, however, mostly judged redactional”).
- [Carson]: Critica as traduções modernas (como a NIV “acts of righteousness”) por “ultrapassarem a evidência” (overstepping the evidence). Ele argumenta que “Sua justiça” em 6:1 retoma o tema de 5:20, mas com o foco mudando de uma justiça positiva para o perigo da hipocrisia religiosa externa (Carson, “the focus has changed… to ‘righteousness’ in a formal, external sense”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Recompensa: Carson enfatiza a ironia teológica: os hipócritas buscam honra humana e é exatamente isso (e apenas isso) que recebem (“they have received their reward in full”), usando um termo comercial (apechō) para recibo de pagamento integral (Carson, “guarantee that those who ignore this warning will get what they want but no more”). Nolland argumenta contra a ideia de que o problema seria receber uma recompensa “dupla” (humana e divina). Para ele, o ponto não é a injustiça de ser pago duas vezes, mas que a ação hipócrita “nunca foi o ato religiosamente motivado… que pretendia ser”, logo, não há base para recompensa divina (Nolland, “no basis for a divine reward since the action never was the religiously motivated act”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Carson conecta a prática de esmolas (Tsedacá) com a piedade judaica, mas não cita um texto específico do AT para este trecho, focando na literatura rabínica (Tosefta e Mishná) sobre esmolas.
5. Consenso Mínimo
- Ambos concordam que o versículo 1 funciona como um cabeçalho estrutural que governa os três exemplos de piedade (esmola, oração, jejum) que se seguem.
📖 Perícope: Oração e o Pai Nosso (6:5-15)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Tameion (Quarto/Despensa): Nolland define como uma palavra imprecisa para qualquer “câmara de armazenamento” (storage chamber), sugerindo um local pouco adequado para oração, talvez escuro ou apertado (Nolland, “image of going to a place that is not well suited to the task”). Carson amplia o significado para despensa, quarto interior ou até “quarto de dormir”, citando Isaías 26:20 LXX (Carson, “can refer to a storeroom… or even a bedroom”).
- Epiousios (Pão de cada dia): Carson admite que o termo é difícil, aparecendo apenas aqui e em Lucas, e rejeita derivações baseadas apenas em etimologia duvidosa, mantendo a tradução tradicional por falta de melhor evidência (Carson, “That does not mean that epiousios is easy to translate”). Nolland lista as opções antigas: “para o dia”, “necessário”, “do amanhã”, “contínuo” (Nolland, “early translations suggest ‘uninterrupted’, ‘necessary’, ‘coming’, and ‘of tomorrow’”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Nolland]: Traz uma contribuição única sobre a palavra battalogein (v. 7, “vãs repetições”), sugerindo uma ligação com a figura de “Battos”, um gago, ou a palavra “gago” (battalos). Ele rejeita a derivação semítica de batal (inútil), preferindo ver como uma onomatopeia grega para gagueira ou falação incessante (Nolland, “βάττος (‘stutterer’)… mimicry”).
- [Carson]: Defende vigorosamente que o Pai Nosso é um paradigma, não uma liturgia. Ele argumenta contra a ideia de que Mateus expandiu liturgicamente o texto de Lucas, sugerindo que as diferenças linguísticas (como os tempos verbais na petição do perdão) apontam para tradições independentes ou ocasiões diferentes (Carson, “The emphasis is on paradigm or model, not liturgical form”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Doxologia Final (6:13b): Carson é enfático ao afirmar que a evidência manuscrita é “esmagadoramente a favor da omissão” da doxologia (“Pois teu é o reino…”), apesar de admitir que ela é teologicamente profunda (Carson, “The MS evidence is overwhelmingly in favor of omission”). Nolland concorda que é um reflexo do uso litúrgico posterior adicionado ao texto (Nolland, “Liturgical use is being reflected”).
- Peirasmos (Tentação/Provação): Carson argumenta teologicamente que peirasmos aqui não pode significar “tentação para o pecado”, pois Tiago 1:13 diz que Deus não tenta ninguém. Ele prefere “teste” ou “provação” (Carson, “cannot easily mean ‘temptation’ here… for that would be to pray that God would not do what in fact he cannot do”). Nolland sugere uma nuance escatológica ou de “grande provação”, ligando a Mateus 26:41 (“vigiai e orai para que não entreis em peirasmos”) (Nolland, “intended to find an echo of this petition in Mt. 26:41”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Carson cita Isaías 26:20 (LXX) como paralelo para o “fechar a porta” no quarto (tameion) em 6:6.
- Nolland conecta a estrutura da oração e a santificação do Nome com textos judaicos como o Qaddish (Nolland, “Though it is definitely ancient… Qaddish”).
5. Consenso Mínimo
- Ambos concordam que a proibição de oração pública em 6:5-6 não é absoluta, mas foca na motivação de ser visto pelos homens versus a audiência exclusiva de Deus.
📖 Perícope: Jejum (6:16-18)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Aphanizō (Desfigurar/Desaparecer): Nolland nota o jogo de palavras irônico de Mateus: eles “fazem desaparecer” (aphanizousin) seus rostos (desfigurando-os) para que “apareçam” (phanōsin) aos homens que estão jejuando (Nolland, “probably an ironic echo… The invisibility of the fasting to others”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Carson]: Fornece o contexto histórico de que o jejum na legislação Mosaica era ordenado apenas no Dia da Expiação (Lev 16), contrastando com a prática expandida de jejuns pessoais ou comunitários por humilhação ou mérito no tempo de Jesus (Carson, “fasting was commanded only on the Day of Atonement”).
- [Nolland]: Analisa a prática de ungir a cabeça e lavar o rosto não apenas como higiene, mas como uma recusa deliberada das marcas tradicionais de humilhação pública, citando Zacarias 7:5 para questionar a motivação do jejum: “foi para mim que jejuastes?” (Nolland, “point of the challenge… can be well expressed in words from Zc. 7:5”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Não há fricção significativa nesta seção nos textos fornecidos; ambos focam na coerência do ensino de Jesus contra a piedade performática.
5. Consenso Mínimo
- O jejum cristão deve ser um ato secreto de devoção a Deus, sem os sinais externos de tristeza que buscam aprovação social.
📖 Perícope: Tesouros e a Visão (6:19-24)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mammon: Carson define como transliteração do aramaico māmônā (“riqueza”, “propriedade”), indicando aquilo em que se confia (raiz mn). Ele destaca que Jesus personifica o Dinheiro como um “dono de escravos” (slave owner), não um empregador (Carson, “portrayed, not as employers, but as slave owners”).
- Haplous (Bons/Simples): Nolland nota que o sentido literal é “único” ou “simples”, mas evolui para “saudável” ou “generoso” (liberal). Carson concorda, notando que pode significar “lealdade indivisa” ou “generosidade” (Carson, “single, undivided loyalty… or… ‘generous’”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Nolland]: Oferece a explicação da teoria da extromissão da visão antiga. Para os antigos, o olho não apenas recebia luz, mas emitia luz. Assim, se o olho é “mau” (doente/avarento), ele não emite luz e o corpo fica em trevas. Isso unifica a metáfora física e moral (Nolland, “Sight was understood to function by means of a flow of light from the eyes”).
- [Carson]: Destaca a conexão poética e rítmica dos vv. 19-21, sugerindo que tal estrutura aponta para um ensino original dominical (de Jesus). Ele também observa que o “olho mau” é uma expressão idiomática judaica para avareza (Provérbios 28:22), o que liga diretamente a parábola do olho à questão do dinheiro (Mamom) que segue (Carson, “Jewish idiomatic expression ‘the evil eye’ can refer to miserliness”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Interpretação do Olho (v. 22): Nolland foca na mecânica da visão antiga para explicar a “luz dentro de ti”. Carson foca na equivalência metafórica Olho = Coração/Direção Moral. Para Carson, um “olho bom” é aquele focado em Deus; um olho dividido resulta em desorientação moral (Carson, “divides his interest… will live without clear orientation”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Carson cita Provérbios 28:22 para explicar o “olho mau” como avareza.
- Nolland cita Provérbios 23:6 e Eclesiástico 14:10 para o mesmo conceito de “olho mau” como mesquinharia (Nolland, “Jewish materials… apply the phrase to those who are miserly”).
5. Consenso Mínimo
- A metáfora do olho (6:22-23) serve de ponte lógica entre o ensino sobre tesouros (6:19-21) e a impossibilidade de servir a dois senhores (6:24), definindo a ganância como uma cegueira espiritual.
📖 Perícope: Ansiedade e o Reino (6:25-34)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Hēlikia (Estatura/Vida): Nolland discute se o termo em 6:27 refere-se a adicionar um côvado à “estatura” ou ao “tempo de vida”. Ele prefere “tempo de vida” (seniority/status), pois adicionar 45cm (um côvado) à altura seria grotesco e irrelevante para a ansiedade sobre sobrevivência (Nolland, “seniority and status… will come along in due course”). Carson concorda implicitamente ao traduzir como “vida” (“single hour to his life”).
- Kakia (Mal/Problema): Em 6:34, Carson explica que kakia aqui não é mal moral, mas “problema” ou “infortúnio” (trouble), traduzindo o hebraico rāʿâ (Carson, “what is evil from man’s point of view… crop damage”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- [Carson]: Observa que a ansiedade é “essencialmente pagã” (v. 32), pois reflete uma visão de mundo onde não há um Pai cuidando. A distinção do discípulo é viver uma vida “qualitativamente diferente” baseada na confiança (Carson, “an affront to God… essentially pagan”). Ele também define “buscar primeiro o Reino” como desejar, submeter-se e propagar o reinado salvífico de Deus (Carson, “participate in spreading the news of the saving reign of God”).
- [Nolland]: Nota a estrutura do argumento a fortiori (“quanto mais”) e sugere que a referência a Salomão (v. 29) serve para desvalorizar a glória humana máxima em comparação com a criação mínima de Deus (flores), reforçando a futilidade da preocupação humana com status (Nolland, “Solomon in all his glory… implies that human effort… cannot match the effortless beauty”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Justiça do Reino (v. 33): Carson interpreta “Sua justiça” aqui como viver em conformidade com a vontade de Deus e armazenar tesouros no céu, alinhado com as petições do Pai Nosso. Nolland discute a dificuldade gramatical da frase “Reino e justiça dele” (o pronome autou está deslocado), sugerindo que Mateus inseriu “e a justiça” em uma fonte Q original, enfatizando a conduta ética exigida (Nolland, “best explained as resulting from Matthew’s insertion”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Nolland cita Salmo 147:9 e Jó 38:41 sobre Deus alimentando os corvos/aves (Nolland, “See Job 38:39-41; Pss. 104:27-28”).
- Carson conecta o “basta a cada dia o seu mal” (v. 34) com o realismo da sabedoria judaica, embora não cite um texto específico do AT, menciona Amós 3:6 para o uso de kakia como desastre.
5. Consenso Mínimo
- A ansiedade pelas necessidades básicas é incompatível com a fé no Pai Celestial; a prioridade absoluta do discípulo deve ser o Reino de Deus, o que traz como consequência a provisão divina das necessidades.