Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Mateus 28
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
- France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew .
- Lente Teológica: Evangélica Crítica com forte ênfase na Teologia Bíblica e na continuidade da História da Salvação. France lê Mateus como o clímax da narrativa de Israel.
- Metodologia: Abordagem narrativa e intertextual. Ele foca em como o capítulo 28 resolve os fios literários tecidos ao longo do Evangelho (ex: o Reino, o Filho do Homem), com menos ênfase em reconstruções especulativas das fontes e mais na estrutura literária final do texto.
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Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew .
- Lente Teológica: Acadêmica Crítico-Exegética. Foca na precisão filológica e na história da tradição.
- Metodologia: Exegese gramatical rigorosa (típico da série NIGTC) combinada com Crítica das Fontes (comparação detalhada com Marcos e Lucas). Nolland disseca as camadas de redação e tradição para entender como Mateus moldou suas fontes (especialmente em relação à guarda do túmulo e à aparição na Galileia).
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Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew .
- Lente Teológica: Evangélica Reformada/Conservadora. Carson demonstra uma preocupação apologética e sistemática, defendendo a historicidade dos eventos contra leituras céticas.
- Metodologia: Exegese teológica e harmonização histórica. Ele interage extensivamente com a teologia sistemática (ex: Trindade, Eclesiologia) e busca resolver tensões históricas e cronológicas entre os Evangelhos, mantendo o foco no cumprimento profético.
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de R. T. France: O capítulo 28 não é apenas um epílogo, mas a resolução narrativa onde a entronização do Filho do Homem e a soberania de Jesus revertem o veredito humano de Jerusalém, lançando uma missão universal modelada nas narrativas de comissionamento do Antigo Testamento.
- Argumento: France argumenta que a ressurreição “reverte o veredito humano de Jerusalém” (France, NICNT). Ele destaca que a chamada “Grande Comissão” ecoa as narrativas de comissionamento de figuras do AT como Moisés e Jeremias, marcando um começo (“Commencement”) e não um fim (France, NICNT). Para ele, o foco central é a culminação do tema da realeza (kingship), onde a autoridade universal de Jesus, anteriormente insinuada, é finalmente declarada abertamente, movendo a missão das “ovelhas perdidas de Israel” para “todas as nações” (France, NICNT).
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Tese de John Nolland: Mateus estrutura o final do Evangelho em um padrão tripartido para contrastar a falsidade oficial judaica (a guarda) com a verdade cristã (a comissão), fundamentando a missão universal na autoridade vindicada de Jesus, que é uma reafirmação de seu poder terreno, agora em escala cósmica.
- Argumento: Nolland identifica uma “estrutura tripla simples”: a explicação da visão judaica falsa é “sanduichada” entre as duas partes da visão cristã (Nolland, NIGTC). Ele enfatiza que a ordem de ir a todas as nações não é um abandono dos judeus, mas um alargamento do escopo missionário para incluir toda a humanidade, baseada na “reafirmação da autoridade” após a rejeição em Jerusalém (Nolland, NIGTC). Ele também destaca, via crítica das fontes, como Mateus “sobrescreveu pesadamente” suas fontes para integrar a narrativa da guarda à sua teologia (Nolland, NIGTC).
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Tese de D. A. Carson: A ressurreição e a Grande Comissão funcionam como a recapitulação teológica dos temas de Mateus, onde o Senhor Ressurreto (Deus conosco) autoriza uma missão de discipulado contínuo que cumpre as escrituras e estende a bênção abraâmica a todas as nações, incluindo Israel.
- Argumento: Carson argumenta que a comissão em 28:16-20 “recapitula muitos dos temas de Mateus”, conectando explicitamente o final “Eu estou convosco” com o tema do Emanuel (“Deus conosco”) do capítulo 1 (Carson, REBC). Ele defende vigorosamente a historicidade da tumba vazia contra teorias céticas (Carson, REBC) e sustenta teologicamente que a frase panta ta ethnē (“todas as nações”) refere-se a todos os povos “sem distinção”, incluindo os judeus, contra a ideia de que Israel foi substituído ou excluído da missão (Carson, REBC).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de R. T. France | Visão de John Nolland | Visão de D. A. Carson |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Messianic Mission (Ênfase no título da perícope: The Messianic Mission is Launched) | Mathēteuein (Discipular) e Panta ta ethnē (Todas as nações) | Edistasan (Duvidaram) e Mathēteusate (Fazei discípulos) |
| Problema Central do Texto | A tensão entre a rejeição em Jerusalém e a vindicação na Galileia, onde a missão universal é inaugurada (France,). | A identidade do grupo que “duvidou” (hoi de) e a relação lógica entre a autoridade de Jesus e a extensão da missão a “todas as nações” (Nolland,). | A natureza da “dúvida” (intelectual ou hesitação?) e a interpretação de “todas as nações” (exclui ou inclui judeus?) (Carson,,). |
| Resolução Teológica | O capítulo 28 não é um mero epílogo, mas o clímax onde o “Messias Vindicado” lança sua missão, revertendo o veredito de rejeição anterior (France,). | A dúvida não é incredulidade absoluta; sugere a presença de “participantes invisíveis” (possivelmente as mulheres). A autoridade não é “nova”, mas vindicada, fundamentando a missão universal que inclui Israel (Nolland,). | A dúvida é “hesitação” diante da teofania. A comissão é fundamentada na autoridade universal do Filho do Homem (Dn 7), ordenando que os discípulos repliquem sua própria relação de aprendizado com outros (Carson,,). |
| Tom/Estilo | Narrativo-Teológico: Foca na macroestrutura de rejeição vs. vindicação e no movimento geográfico Jerusalém-Galileia (France,,). | Crítico-Exegético: Análise minuciosa da sintaxe grega (hoi de, mathēteuein) e diálogo extenso com hipóteses acadêmicas sobre fontes (Nolland,). | Apologético-Doutrinário: Defende a historicidade e a ortodoxia (ex: fórmula trinitária), com forte ênfase na aplicação prática da cristologia (Carson,). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: John Nolland oferece a reconstrução mais sofisticada do cenário da aparição na Galileia. Sua hipótese de que as mulheres seriam “participantes invisíveis” na cena final (baseada em paralelos literários dentro do próprio Evangelho) resolve elegantemente a tensão gramatical de hoi de (“alguns duvidaram”) sem recorrer a especulações externas (Nolland,).
- Melhor para Teologia: D. A. Carson apresenta a síntese teológica mais robusta, especialmente na conexão entre a autoridade do Filho do Homem (Daniel 7:13-14) e a Grande Comissão. Ele articula convincentemente como a autoridade de Jesus não é apenas soteriológica, mas cósmica, exigindo uma obediência que define o discipulado não como mero aprendizado, mas como submissão ao senhorio de Cristo (Carson,).
- Síntese: Para uma exegese completa de Mateus 28, deve-se integrar a visão de France sobre a estrutura narrativa de vindicação (France,), que situa o capítulo como a resposta divina à rejeição de Jerusalém; a precisão gramatical de Nolland (Nolland,) para entender a mecânica do discipulado e a inclusão de Israel nas “nações”; e a profundidade cristológica de Carson (Carson,), que ancora a missão na autoridade soberana do Ressurreto. O capítulo 28 emerge, assim, não como um adendo, mas como a recapitulação teológica onde o Emanuel (Deus Conosco) garante a continuidade da missão através da presença permanente de Jesus com seus discípulos.
Discipulado, Autoridade Universal, Missão aos Gentios e Hesitação são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Ressurreição e as Mulheres (28:1-10)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ὀψὲ σaββάτων (Opse sabbatōn - 28:1): A expressão temporal é debatida. Nolland observa que Mateus usa sabbatōn (plural) para “sábado” (primeiro uso) e “semana” (segundo uso: mian sabbatōn) na mesma frase, criando uma ambiguidade sobre se opse funciona como advérbio (“tarde no sábado”) ou preposição (“após o sábado”) (Nolland, nota 3). Carson sugere que opse deve ser entendido como “depois”, evitando a ideia de que as mulheres foram ao túmulo no sábado à noite (Carson,).
- Ἰδοὺ (Idou - 28:2, 7, 9): Nolland destaca o uso repetido de idou (“eis que”) como marcador de ênfase redacional de Mateus para destacar o terremoto, a mensagem do anjo e o encontro com Jesus, sinalizando os pontos teológicos cruciais (Nolland,).
- Προσεκύνησαν (Prosekynēsan - 28:9): O verbo “adorar” ou “prestar homenagem”. Nolland nota que Mateus usa este verbo consistentemente com Jesus como objeto, empurrando a narrativa para a adoração religiosa, antecipando a adoração climática em 28:17 (Nolland,).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Nolland: Realiza uma análise estrutural detalhada, notando um quiasmo na ordem das palavras entre os versículos 5 e 6: “[Jesus] o crucificado” — “procurais”; “não está aqui” — “foi ressuscitado”. Ele argumenta que essa ordem é lógica, não cronológica, fazendo da ressurreição a explicação direta para o túmulo vazio (Nolland,). Ele também conecta a descrição do anjo (“aparência como relâmpago”) diretamente a Daniel 10:6 e 7:9 (Nolland,).
- Carson: Destaca a geografia teológica. A omissão das aparições em Jerusalém (exceto às mulheres) e o foco na Galileia não negam outras tradições (como Lucas/João), mas servem para conectar o fim do evangelho com o início (o ministério na Galileia) e com a missão aos gentios, contrastando a “Galileia da revelação” com a “Jerusalém da rejeição” (Carson,).
- France: (Baseado na síntese geral fornecida anteriormente, pois o trecho específico de 28:1-10 não está detalhado nos excertos, foca-se na macroestrutura de vindicação).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Harmonização Cronológica: Carson tenta harmonizar as narrativas divergentes dos evangelhos (diferentes horários e números de anjos) argumentando que as aparições podem ser organizadas em três maneiras diferentes e que Mateus não conta tudo o que sabe (Carson,,). Nolland, por outro lado, foca na redação de Mateus sobre Marcos, sugerindo que Mateus fundiu os dois tempos de Marcos (sábado à noite e manhã seguinte) em uma única narrativa fluida, onde as ações são compactadas (Nolland,).
- Aparência do Anjo: Nolland vê a descrição do anjo (roupas brancas como a neve) como uma transferência direta de atributos divinos de Daniel 7:9 (o Ancião de Dias) para o mensageiro, indicando que ele age com o poder de Deus (Nolland,).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Daniel 10:6 e 7:9: Nolland identifica a descrição do anjo (“rosto como relâmpago”, “vestes brancas como a neve”) como ecos diretos das teofanias e seres angelicais em Daniel (Nolland,).
- Salmo 23 ou Zacarias? Embora não explicitamente citado nesta seção dos excertos, o tema do “pastor” que vai adiante (proagei, v. 7) é uma continuação da imagem de Zacarias 13:7 citada em Mateus 26:31 (Nolland,).
5. Consenso Mínimo
- Mateus reescreve Marcos para enfatizar a intervenção divina sobrenatural (terremoto, anjo descendo) e a resposta imediata de adoração e alegria das mulheres, contrastando com o medo e silêncio final de Marcos 16:8.
📖 Perícope: A Guarda e o Suborno (28:11-15)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ἀργύρια (Arguria - 28:12, 15): “Dinheiro/Moedas de prata”. Nolland observa que, em Mateus, este termo (fora das parábolas) é usado exclusivamente em conexão com Judas e os guardas, criando um vínculo temático de corrupção e traição (Nolland,).
- Διεφημίσθη (Diephēmisthē - 28:15): “Divulgou-se”. Nolland nota o contraste irônico: Mateus usou este verbo anteriormente para a fama de Jesus (9:31), e agora o usa para a disseminação da desinformação (Nolland,).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Nolland: Destaca a ironia estrutural onde os guardas se tornam “apóstolos da falsidade” comissionados pelos sacerdotes, paralelo às mulheres que são apóstolas da verdade comissionadas por Jesus. Ele também nota que a reunião dos sacerdotes e anciãos (synachthentes) ecoa as reuniões conspiratórias anteriores da Paixão (Nolland,,).
- Carson: Argumenta contra a visão de que esta história é uma lenda apologética tardia. Ele afirma que “é pouco provável que os cristãos inventassem uma arma tão conveniente para seus críticos se a história já não estivesse em circulação”, defendendo um núcleo histórico (Carson,).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Historicidade: Carson defende a plausibilidade histórica, sugerindo que os sacerdotes poderiam tratar com Pilatos mesmo no sábado se não entrassem na residência (Carson,). Nolland tende a ver a narrativa como uma construção literária de Mateus (“sobrescreveu pesadamente sua fonte”) para explicar a polêmica judaica contemporânea, servindo como um “sanduíche” entre a ressurreição e a comissão (Nolland,).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Jeremias 19 / Zacarias 11: Embora a citação direta não ocorra aqui, a linguagem de “tomar conselho” e o uso de “dinheiro de prata” (arguria) ecoa a narrativa de Judas e o Campo de Sangue (27:3-10), mantendo a continuidade teológica da rejeição de Israel (Nolland,).
5. Consenso Mínimo
- A perícope tem uma função apologética clara para combater o boato judaico do roubo do corpo, vigente na época da redação do Evangelho (confirmado por Justino Mártir).
📖 Perícope: A Grande Comissão (28:16-20)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Ἐδίστασαν (Edistasan - 28:17): “Duvidaram” ou “hesitaram”. Verbo raro (usado apenas aqui e em Mt 14:31).
- Μαθητεύσατε (Mathēteusate - 28:19): “Fazei discípulos”. O imperativo principal que controla os particípios “indo”, “batizando” e “ensinando”.
- Πάντα τὰ ἔθνη (Panta ta ethnē - 28:19): “Todas as nações”. Nolland argumenta que aqui não significa “gentios” em contraste com judeus, mas “toda a humanidade”, englobando Israel (Nolland,).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Nolland: Oferece uma solução original para o problema da dúvida (hoi de edistasan). Ele rejeita que “alguns dos onze” duvidaram. Propõe que hoi de se refere a um subgrupo em uma cena mais ampla que inclui “participantes invisíveis” (provavelmente as mulheres mencionadas em 28:7-10), resolvendo a tensão de como os apóstolos poderiam adorar e duvidar simultaneamente (Nolland,).
- Carson: Rejeita a ideia de que a dúvida era sobre a propriedade de adorar Jesus (proposta por alguns estudiosos). Ele interpreta distazō como “hesitação” diante de uma teofania impressionante, não incredulidade absoluta. Ele conecta fortemente o “Eu estou convosco” (v. 20) com o tema do Emanuel (1:23), fechando o inclusio do livro (Carson,,).
- France: (Infere-se do título de sua seção no) Vê esta seção como o lançamento da “Missão Messiânica”, onde a autoridade universal é o clímax de todo o Evangelho.
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Identidade dos que Duvidaram:
- Nolland: Sugere que a dúvida não é dos Onze, mas de outros presentes (possivelmente as mulheres ou um grupo maior), baseando-se na gramática de hoi de (Nolland,).
- Carson: Assume que são os Onze, mas minimiza a “dúvida” para “hesitação” ou atordoamento diante do sobrenatural, comum em encontros de ressurreição (Carson,).
- A Natureza da Autoridade (v. 18):
- Nolland: A autoridade não é “nova” no sentido de recém-criada, mas é uma “vindicação da autoridade” que Jesus já possuía, agora manifesta universalmente. A novidade está no escopo (todas as nações) e não na autoridade em si (Nolland,,).
- Carson: Enfatiza a conexão com Daniel 7, onde a autoridade é conferida ao Filho do Homem após sua apresentação ao Ancião de Dias, sugerindo um estágio de exaltação pós-ressurreição (Carson,).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Daniel 7:13-14: Ambos, Nolland e Carson, concordam que a frase “Toda autoridade me foi dada… todas as nações” é uma alusão direta à figura do Filho do Homem em Daniel, a quem é dado domínio sobre todos os povos (Nolland,; Carson,).
- 2 Crônicas 36:23: Nolland cita a teoria de Malina de que a estrutura da comissão reflete o decreto de Ciro (autoridade dada por Deus → comando para ir → Deus está com ele), sugerindo uma restauração/novo começo para o povo de Deus (Nolland,).
- Êxodo 3:12 / Josué 1:9: A promessa “Estou convosco” ecoa as fórmulas de comissionamento divinas do AT (Nolland,).
5. Consenso Mínimo
- Os versículos 28:16-20 não são um epílogo isolado, mas a recapitulação teológica de todo o Evangelho, onde a autoridade universal de Jesus fundamenta uma missão que agora inclui explicitamente os gentios, sob a garantia de sua presença contínua (Emanuel).