Análise Comparativa: Mateus 27

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew .

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica / Teologia Bíblica. Enfatiza a narrativa do “Messias rejeitado, morto e vindicado”, focando na estrutura literária e no cumprimento dos propósitos divinos através da ironia narrativa.
    • Metodologia: Adota uma abordagem de crítica narrativa e teologia bíblica. France foca menos em questões técnicas de crítica textual (neste trecho) e mais no fluxo dramático da rejeição de Israel e na soberania paradoxal de Jesus. Ele destaca como a narrativa da paixão não é apenas uma crônica, mas um “modelo teológico” para entender a morte de Jesus (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”).
  • Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew .

    • Lente Teológica: Exegese Histórico-Crítica minuciosa com sensibilidade teológica. Foca intensamente na intertextualidade (uso do AT por Mateus) e na filologia grega.
    • Metodologia: Exegese gramatical e histórico-tradicional. Nolland dedica espaço significativo à análise textual (variantes gregas), comparação sinótica (especialmente com Marcos e Lucas) e investigação das fontes vétero-testamentárias (LXX e Texto Massorético), como visto na análise detalhada do uso de Zacarias e Jeremias em Mateus 27:3-10 (Nolland, “The Death of Judas”).
  • Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew .

    • Lente Teológica: Evangélica Reformada / Conservadora. Carson defende a historicidade dos relatos e enfatiza a natureza expiatória e vicária da morte de Jesus.
    • Metodologia: Crítica de Redação conservadora e Teologia Sistemática. Ele interage vigorosamente com teorias críticas (como a classificação de textos como midrash ou ficção criativa), defendendo a plausibilidade histórica (ex: a guarda do túmulo) e a coerência teológica intra-bíblica, conectando a narrativa a doutrinas como a expiação substitutiva e a nova aliança (Carson, “The death of Judas”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (Autor A): A Soberania na Humilhação e a Ironia da Rejeição. France argumenta que Mateus constrói uma “ironia sustentada” onde a aparente impotência de Jesus nas mãos dos inimigos contrasta com sua soberania final; os títulos zombeteiros (Rei dos Judeus, Filho de Deus) lançados contra ele em 27:27-43 revelam a verdade teológica inadvertida de que sua morte não é uma derrota, mas o cumprimento do propósito do Pai (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”). Ele destaca que Mateus “não deixa dúvidas onde reside a responsabilidade primária pela rejeição do Messias”, apontando para a liderança judaica (France, citando Mt 27:24-25).

  • Tese de Nolland (Autor B): Cumprimento Escriturístico e a Irrupção Escatológica de Deus. Nolland enfatiza como Mateus 27 é tecido com citações do AT para demonstrar que a morte de Jesus desencadeia eventos escatológicos imediatos. Na perícope de Judas (27:3-10), ele argumenta que Mateus não apenas identifica o texto com o evento, mas vê um “cumprimento” tipológico de padrões de apostasia e rejeição encontrados em Jeremias e Zacarias (Nolland, “Judas’s Remorse…”). Sobre a morte de Jesus, ele propõe que o rasgar do véu e o terremoto (27:51) simbolizam Deus “rompendo a partir de seu templo para agir de maneira dramática”, iniciando uma “corrida final da história para o desfecho escatológico” (Nolland, “The Death of Jesus”).

  • Tese de Carson (Autor C): A Morte de Jesus como Sacrifício Vicário e o Fim do Antigo Culto. Carson sustenta que a narrativa da paixão em Mateus deve ser lida à luz de Mateus 1:21 e 20:28, onde a morte de Jesus é fundamentalmente soteriológica e substitutiva. Ele rejeita a ideia de que o grito de desamparo (27:46) seja apenas um salmo de lamento, afirmando que representa um abandono ontológico real onde “o horror do pecado do mundo e o custo da nossa salvação são revelados” (Carson, “The death of Jesus”). Além disso, ele interpreta o véu rasgado (27:51) não apenas como julgamento, mas como a “obsolescência do ritual do templo”, pois Jesus se torna o Novo Templo (Carson, “Immediate impact of the death”).


3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (Autor A)Visão de Nolland (Autor B)Visão de Carson (Autor C)
Palavra-Chave/Termo GregoIronia Sustentada. Foca em como os títulos de escárnio (“Rei dos Judeus”, “Filho de Deus”) tornam-se verdades teológicas não intencionais na narrativa (France, “Jerusalem: The Messiah Rejected”).Hinati (Por que?). Analisa a tradução do Sl 22:2, argumentando que o uso do Salmo aponta para o sofrimento do justo, cuja abandono é apenas temporário e não final (Nolland, “The Death of Jesus”).Sabachthani (Desamparaste). Enfatiza o abandono real e judicial; rejeita que seja apenas um sentimento psicológico, vendo-o como o custo ontológico da expiação pelo pecado (Carson, “The death of Jesus”).
Problema Central do TextoA rejeição paradoxal: Como o Messias pode ser entronizado através da humilhação pública e da condenação pelos líderes de Israel? (France, “Jerusalem: The Messiah Rejected”).A cronologia escatológica em 27:51-53: Como os túmulos se abrem na morte de Jesus, mas os santos só aparecem após a ressurreição? (Nolland, “The Death of Jesus”).A historicidade dos eventos singulares (ex: os santos ressuscitados em 27:52): Combate a visão de que sejam midrash ou ficção simbólica criada pela igreja primitiva (Carson, “Immediate impact of the death”).
Resolução TeológicaA cruz é o cumprimento irônico. A zombaria valida a identidade de Jesus; sua impotência aparente revela a soberania divina em cumprir as Escrituras (France, “Jerusalem: The Messiah Rejected”).Irrupção Escatológica. A morte de Jesus inicia a “corrida final” da história; os eventos cósmicos e a ressurreição dos santos são antecipações prolépticas do Fim (Nolland, “The Death of Jesus”).Substituição Penal e Nova Aliança. O véu rasgado e o abandono do Pai sinalizam o fim do sistema sacrificial antigo e o acesso direto a Deus via sacrifício vicário (Carson, “Immediate impact of the death”).
Tom/EstiloNarrativo-Literário. Foca no drama, na estrutura do enredo e no impacto da ironia sobre o leitor.Técnico-Exegético. Minucioso com variantes textuais, gramática grega e paralelos intertextuais (LXX/Massorético).Apologético-Dogmático. Defende a historicidade dos relatos e conecta a exegese à teologia sistemática (soteriologia).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Nolland (Autor B). Sua análise filológica detalhada (ex: o uso de hinati vs. eis ti) e a exploração das variantes textuais e tradições judaicas (como o paralelo com Zacarias e Jeremias em 27:9-10) fornecem o background histórico-crítico mais robusto.
  • Melhor para Teologia: Carson (Autor C). Destaca-se na articulação das implicações doutrinárias, conectando a narrativa da paixão (ex: o grito de desamparo e o véu rasgado) com uma teologia robusta de expiação vicária e a obsolescência do antigo culto.
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 27, deve-se utilizar France para captar o fluxo dramático e a ironia narrativa da realeza de Jesus na cruz; Nolland para dissecar as complexidades textuais e as alusões ao AT (especialmente a irrupção escatológica em 27:51-53); e Carson para fundamentar a historicidade dos eventos e entender o significado soteriológico do abandono divino.

Ironia Narrativa, Irrupção Escatológica, Expiação Vicária e Fim do Templo são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Morte de Judas e o Campo de Sangue (27:3-10)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Metamelētheis (Mudou de ideia/Sentiu remorso): Nolland observa que, diferentemente da liderança judaica que “não mudou de ideia” (21:32), Judas “viu… e mudou de ideia” (27:3). No entanto, Carson argumenta que isso não implica arrependimento salvífico, mas remorso pelas consequências.
  • Athoion (Inocente): Mateus usa a expressão haima athoion (sangue inocente), termo encontrado 19 vezes na LXX. Nolland liga isso a Dt 27:25 (maldição sobre quem aceita suborno para matar inocentes) e 1 Sm 19:5 (pecar contra sangue inocente) (Nolland, “The Death of Judas”).
  • Korbanas (Tesouro): Os sacerdotes discutem se é lícito colocar o dinheiro no korbanas. Nolland nota que a variante textual hyōṣr (oleiro) versus hʾwṣr (tesouro) em Zacarias pode ter influenciado a narrativa (Nolland, “Textual Notes”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Destaca que esta seção é uma das “adições curtas, mas significativas” de Mateus, não encontrada em Marcos, enfatizando que Mateus não deixa dúvidas sobre onde reside a responsabilidade primária pela rejeição do Messias, compartilhada entre Judas e os líderes (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”).
  • Nolland: Aprofunda-se na geografia e tradição, sugerindo que “Campo de Sangue” pode ter sido um nome existente (ligado à cor do solo ou atividades de oleiros) que a tradição cristã ressignificou. Ele conecta o “oleiro” aos textos de Jeremias 18-19 e Zacarias 11, sugerindo uma fusão textual intencional (Nolland, “The Death of Judas”).
  • Carson: Argumenta contra a visão de que a narrativa é um midrash criativo sem base histórica (contra Doeve e outros). Ele defende que a complexidade da citação (misturando Zacarias e Jeremias) torna menos provável que o evento tenha sido inventado para cumprir a profecia, pois os detalhes não se encaixam perfeitamente sem esforço exegético (Carson, “The death of Judas”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Citação de “Jeremias” (v. 9): O texto cita Jeremias, mas o conteúdo é majoritariamente de Zacarias 11:12-13.
    • Nolland sugere que Mateus está ciente da fusão. A menção de Jeremias se deve à inclusão de temas de Jer 18, 19 (o oleiro, o vale da matança) e 32 (compra do campo).
    • Carson concorda que é um “mosaico de motivos escriturísticos”. Ele rejeita a ideia de erro de Mateus ou erro de copista. Ele propõe que Jeremias é citado porque é o profeta “mais importante” teologicamente para o tema do julgamento e rejeição nacional que Mateus quer evocar, funcionando como uma tipologia de apostasia (Carson, “The death of Judas”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Zacarias 11:12-13: Ambos (Nolland e Carson) concordam que este é o texto fonte primário para as “trinta moedas de prata” e o ato de atirá-las na casa do Senhor/para o oleiro.
  • Jeremias 19:1-13 e 32:6-15: Identificados como a fonte para a compra do campo e o tema do julgamento no Vale de Hinom (Nolland, “The Death of Judas”; Carson, “The death of Judas”).

5. Consenso Mínimo

  • A citação em 27:9-10 não é um erro simples, mas uma fusão teológica deliberada de Zacarias e Jeremias para interpretar a morte de Judas e o dinheiro de sangue como cumprimento das Escrituras.

📖 Perícope: Jesus diante de Pilatos (27:11-26)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Hēgemōn (Governador): Título usado para Pilatos.
  • Barabbas: Carson nota a ironia do nome, que significa “Filho do Pai” (Bar-Abba). Algumas tradições textuais (citadas por Nolland) leem “Jesus Barrabás”, criando um contraste dramático entre o “Filho do Pai” bandido e o verdadeiro Filho do Pai (Carson, “Jesus before Pilate”).
  • Episēmon (Notório/Famoso): Mateus descreve Barrabás como um prisioneiro episēmon. Carson observa que a palavra é neutra (“significativo”), podendo significar “ilustre” ou “notório”. Mateus a usa para indicar que ele era um “peixe grande”, talvez popular entre a multidão (Carson, “Jesus before Pilate”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Observa que a acusação mudou de “blasfêmia” (no Sinédrio) para acusações implícitas de sedição diante de Pilatos. Ele destaca como o silêncio de Jesus (v. 12, 14) é uma continuação direta da sua postura no julgamento judaico, cumprindo o papel do servo sofredor (Nolland, “Jesus before Pilate”).
  • Carson: Destaca o papel da esposa de Pilatos (v. 19), um detalhe exclusivo de Mateus. Ele interpreta o “sonho” (kat’ onar) como um eco das narrativas da infância em Mateus, onde sonhos são veículos de revelação divina e aviso (Carson, “Jesus before Pilate”).
  • France: Enfatiza a responsabilidade da liderança: “Mateus não deixa dúvidas onde reside a responsabilidade primária pela rejeição do Messias”, apontando para os líderes que persuadiram a multidão (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Culpa de Sangue” (v. 25): “O sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos”.
    • Nolland vê isso como o povo judeu assumindo a responsabilidade enquanto povo da aliança (laos), trazendo vergonha sobre si mesmos. É uma ironia trágica onde eles invocam uma maldição que resultará na destruição de Jerusalém em 70 d.C. (Nolland, “Jesus before Pilate”).
    • Carson é enfático ao negar uma interpretação antissemita étnica. Ele argumenta que o “nós e nossos filhos” refere-se à geração específica que rejeitou Jesus e sofreu o julgamento em 70 d.C., não uma culpa eterna sobre a raça judaica. Ele nota que a teologia de Mateus mostra que o sangue de Jesus é, paradoxalmente, o que oferece perdão a “muitos” (26:28) (Carson, “Jesus before Pilate”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 22 e Isaías 53: Embora não citados explicitamente nesta seção específica, o silêncio de Jesus (27:14) é visto por Carson e Nolland como eco de Isaías 53:7.
  • Deuteronômio 21: O ato de Pilatos lavar as mãos (v. 24) pode aludir ao ritual de inocência em casos de homicídio não resolvido (Dt 21:6-9), embora Carson note que paralelos greco-romanos também existiam (Carson, “Jesus before Pilate”).

5. Consenso Mínimo

  • Pilatos percebeu a inocência de Jesus (ou a inveja dos líderes) e tentou libertá-lo, mas capitulou à pressão política para evitar um tumulto.

📖 Perícope: Crucificação e Morte (27:27-56)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Golgotha: Nolland discute a tradução “Lugar da Caveira”, sugerindo que o aramaico gulgōlet pode referir-se à forma da colina ou ser um local tradicional de execução (Nolland, “The Soldiers Crucify Jesus”).
  • Ozos (Vinagre/Vinho Azedo) vs. Oinon: Carson discute a mistura de “fel” (Mateus) versus “mirra” (Marcos). Mateus altera para “fel” (cholē) para alinhar explicitamente com o Salmo 69:21 (Carson, “The Soldiers Crucify Jesus”).
  • Eli, Eli, lema sabachthani: Carson nota que alguns manuscritos harmonizam com Marcos (Eloi). A confusão com “Elias” depende se os espectadores entenderam o aramaico/hebraico ou se foi uma zombaria deliberada (Carson, “The death of Jesus”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Identifica uma estrutura de “três grupos de zombadores” (transeuntes, líderes, bandidos) em 27:39-44 que forma um “suporte interno” na narrativa, contrastando com os três grupos que afirmam Jesus (centurião, mulheres, José de Arimateia) após a morte (Nolland, “Three Lots of Mockers”).
  • Carson: Sobre o grito de desamparo (v. 46), rejeita a ideia de que Jesus recitou o Salmo 22 apenas como uma declaração de confiança final. Ele insiste que expressa um “abandono real”, um horror ontológico onde Jesus suporta a separação do Pai pelo pecado (Carson, “The death of Jesus”).
  • France: Destaca a ironia suprema da zombaria “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar” (v. 42); a incapacidade de salvar a si mesmo é precisamente a condição para salvar os outros (France, “NICNT - The Gospel of Matthew”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Os Santos Ressuscitados (vv. 52-53): Túmulos se abrem, santos ressuscitam e entram na cidade após a ressurreição de Jesus.
    • Nolland vê isso como uma “visão pré-formada” baseada em Ez 37 e Zc 14, que Mateus inseriu. Ele interpreta como “manifestações prolépticas” das realidades escatológicas desencadeadas pela morte de Jesus (Nolland, “The Death of Jesus”).
    • Carson interage com a visão de que isso seria um midrash simbólico (D. Senior), mas questiona por que Mateus inventaria um midrash tão problemático (com a estranha cronologia de “esperar” até a ressurreição). Carson inclina-se cautelosamente para a historicidade do evento como um sinal apocalíptico real, embora admita as dificuldades (Carson, “Immediate impact of the death”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 22: Onipresente. Roupas repartidas (v. 35), zombaria com gestos de cabeça (v. 39), “confiou em Deus” (v. 43 - exclusivo de Mateus, citando Sl 22:8 LXX), e o grito de abandono (v. 46).
  • Salmo 69:21: A oferta de vinho com fel (v. 34).
  • Amós 8:9: A escuridão sobre a terra (implícito).

5. Consenso Mínimo

  • A narrativa da crucificação em Mateus é estruturada intencionalmente para mostrar Jesus como o Justo Sofredor dos Salmos, cujo sofrimento e morte cumprem as Escrituras e inauguram eventos escatológicos.

📖 Perícope: Sepultamento e a Guarda do Túmulo (27:57-66)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Koustodia (Guarda): Termo latino transliterado, indicando uma guarda oficial romana.
  • Taphos vs. Mnēmeion: Nolland nota que Mateus alterna entre mnēmeion (túmulo - v. 60) e taphos (sepultura - v. 61, 64, 66) nesta seção, sugerindo o uso de uma fonte específica para a história da guarda que usava taphos (Nolland, “The Guard at the Tomb”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Analisa a cronologia de “o dia seguinte, que é depois da preparação” (v. 62). Ele sugere que Mateus usa essa frase desajeitada para evitar chamar o dia de Sábado, talvez ironizando que os líderes judeus estavam violando o descanso do Sábado para selar um túmulo, enquanto José de Arimateia observou a preparação corretamente (Nolland, “A Guard of Soldiers…”).
  • Carson: Defende a plausibilidade histórica da guarda. Ele argumenta que a história é uma apologética contra a acusação judaica de roubo do corpo (28:11-15), que seria desnecessária se o túmulo não estivesse vazio e se não houvesse rumores sobre guardas (Carson, “The guard at the tomb”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Fraude” (v. 64): Os fariseus temem que a “última fraude” (ressurreição) seja pior que a primeira (Jesus vivo).
    • Nolland vê um paralelo linguístico com Mt 12:45 (“o último estado torna-se pior que o primeiro”), sugerindo que Mateus vê os líderes ironicamente cumprindo a profecia de Jesus sobre a geração perversa (Nolland, “A Guard of Soldiers…”).
    • Carson foca na função apologética: Mateus inclui isso para mostrar que os próprios inimigos de Jesus lembravam da predição da ressurreição (mesmo que os discípulos tivessem esquecido) e tomaram precauções que, ironicamente, serviram para confirmar o milagre (Carson, “The guard at the tomb”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Daniel 6:17: Carson nota o paralelo com a cova dos leões, onde uma pedra é colocada e selada com o anel do rei para que nada fosse alterado. A selagem do túmulo de Jesus ecoa a proteção divina sobre Daniel (Carson, “The guard at the tomb”).
  • Isaías 53:9: A menção de José ser “rico” (v. 57) é vista frequentemente como alusão a “com o rico na sua morte”, embora Carson e Nolland não enfatizem isso dogmaticamente como uma citação direta, mas como parte do cumprimento geral.

5. Consenso Mínimo

  • Mateus inclui a narrativa exclusiva da guarda para combater boatos contemporâneos de que os discípulos roubaram o corpo, transformando a precaução dos inimigos em uma prova adicional da ressurreição.