Análise Comparativa: Mateus 26

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor A: R. T. France (NICNT)

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica, com ênfase na teologia narrativa e na estrutura literária do Evangelho como uma biografia teológica.
    • Metodologia: France aborda o texto focando no fluxo narrativo e na ironia dramática. Ele divide a seção de Jerusalém em duas partes principais, vendo o capítulo 26 como o início do clímax onde a rejeição messiânica se transforma de palavras para ações. Sua exegese prioriza a função literária dos discursos de Jesus como preparação para os eventos da Paixão, destacando o cumprimento dos propósitos paradoxais do Pai (France, “V. JERUSALEM…”).
  • Autor B: John Nolland (NIGTC)

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica e Filológica, com forte atenção à crítica das fontes e ao texto grego.
    • Metodologia: Nolland emprega uma análise rigorosa da estrutura do texto, propondo uma divisão do relato da Paixão (caps. 26–27) em seis subseções maiores, muitas vezes arranjadas de forma quiástica ou simétrica (Nolland, “For 26:1-2”). Ele investiga profundamente o pano de fundo do Antigo Testamento (ex: Ezequiel e Jeremias) para explicar conceitos como a “nova aliança” e o perdão dos pecados, situando-os no contexto da esperança profética pós-Exílio (Nolland, “XXI. THE PASSION ACCOUNT”).
  • Autor C: D. A. Carson (REBC)

    • Lente Teológica: Reformada Evangélica, com foco na história da redenção e na confiabilidade histórica dos relatos.
    • Metodologia: Carson combina exegese gramatical com uma forte defesa apologética contra o reducionismo histórico. Ele busca harmonizar as discrepâncias cronológicas (ex: a data da Páscoa em relação a João) e enfatiza a cristologia do cumprimento, onde Jesus recapitula e cumpre os tipos do AT (ex: o Servo Sofredor, o sacrifício pascal) (Carson, “VII. THE PASSION…“).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de R. T. France: O capítulo 26 marca o início do clímax paradoxal de Mateus, onde a aparente impotência de Jesus nas mãos das autoridades judaicas é, na verdade, a manifestação de sua soberania messiânica, cumprindo livremente o propósito do Pai de estabelecer a aliança através do sangue derramado para o perdão dos pecados.

    • Argumento: France argumenta que a narrativa não é apenas uma crônica, mas uma “sustentada ironia” que contrasta o desamparo de Jesus com sua autoridade final (France, “But all this is not just a chronicle”). Ele destaca que a morte de Jesus não é uma derrota, mas a base de sua soberania eterna, interpretada através das palavras da Última Ceia que ecoam a profecia do Servo de Isaías (France, “Jesus’ death, then, is not a defeat”).
  • Tese de John Nolland: Mateus estrutura literariamente a Paixão em blocos simétricos para demonstrar que a morte de Jesus é a resposta divina ao fracasso da aliança de Israel (o Exílio), inaugurando uma nova fundação da aliança focada no perdão, que supera a deslealdade dos discípulos e a hostilidade dos líderes.

    • Argumento: Nolland propõe uma estrutura de seis partes para os capítulos 26–27, onde eventos como a unção em Betânia são emoldurados por conspirações e preparações (Nolland, “For 26:1-2”). Ele teologicamente conecta o “sangue da aliança” (Mt 26:28) com a expectativa profética de uma restauração pós-exílica, sugerindo que “falar de Deus estabelecendo novamente sua aliança… não é muito diferente de falar da vinda do reino de Deus” (Nolland, “The fresh beginning of the covenant”).
  • Tese de D. A. Carson: A narrativa da Paixão em Mateus apresenta Jesus como o Messias onisciente e sacrifício voluntário, cuja morte vicária inaugura a Nova Aliança, cumprindo os padrões tipológicos do AT (Páscoa e Êxodo 24:8) e oferecendo uma expiação penal substitutiva.

    • Argumento: Carson enfatiza que Jesus não é uma “vítima cega do destino”, mas alguém que orquestra sua própria morte em obediência ao Pai (Carson, “4. Prediction of abandonment”). Ele defende vigorosamente que as palavras da instituição (26:28) fundem conceitos de sacrifício e aliança, argumentando que “a referência primária é a Êxodo 24:8”, estabelecendo Jesus como o mediador que ratifica a aliança através de sua morte expiatória (Carson, “28 This verse is rich in allusions”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão do R. T. France (NICNT)Visão do John Nolland (NIGTC)Visão do D. A. Carson (REBC)
Palavra-Chave/Termo GregoDei genesthai (26:54). Define como a “necessidade escriturística” que rege a narrativa, não como fatalismo, mas como cumprimento da vontade do Pai anunciada pelos profetas (France, “26:54”).Eis aphesin hamartion (26:28). Traduz conectando ao retorno do Exílio (Ez 16; Jr 31), onde o perdão dos pecados é o ato fundacional da nova aliança de Deus com o povo (Nolland, “XXI. THE PASSION…”).Peri/Hyper (26:28). Argumenta que estas preposições, no contexto da Ceia, apontam para a atividade de Cristo como Representante e Substituto, carregando um sentido de anti (em lugar de) (Carson, “c. The words of institution”).
Problema Central do TextoO escândalo do sofrimento do Messias e o fracasso dos discípulos. O foco é como a narrativa equilibra a soberania de Jesus com a traição humana (France, “V. JERUSALEM…”).A tensão estrutural entre “graça” (aliança) e “demanda” (julgamento). Como a morte de Jesus se relaciona com a exigência ética de justiça abundante em Mateus (Nolland, “XXI. THE PASSION…”).A harmonização histórica e cronológica com João (data da Páscoa) e a defesa da historicidade das predições de Jesus contra o reducionismo crítico (Carson, “3. The Lord’s Supper”).
Resolução TeológicaCristologia do Cumprimento: A Paixão não é uma derrota, mas o clímax paradoxal onde Jesus, rejeitado, ratifica a aliança e exerce autoridade real (France, “V. JERUSALEM…”).Soteriologia do Retorno do Exílio: A morte de Jesus resolve a falha da antiga aliança, inaugurando uma comunidade perdoada que supera a crise do Exílio espiritual de Israel (Nolland, “A. Section 1”).Expiação Penal Substitutiva: A Ceia do Senhor é um rito sacrificial onde o corpo quebrado e o sangue derramado efetuam a redenção e inauguram a Nova Aliança (Carson, “c. The words of institution”).
Tom/EstiloNarrativo-Teológico: Foca na ironia dramática e no fluxo da história como biografia teológica.Estruturalista-Técnico: Foca na arquitetura literária (quiasmos, seções) e conexões intertextuais com o AT e literatura judaica.Apologético-Dogmático: Foca na defesa da coerência histórica e na teologia sistemática derivada do texto.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: John Nolland. Sua análise da estrutura literária de Mateus 26-27 em seis seções e a conexão teológica que ele estabelece entre o “sangue da aliança” e a esperança profética pós-Exílio (Ezequiel/Jeremias) fornecem o background teológico-histórico mais rico para entender a profundidade da narrativa mateana (Nolland, “XXI. THE PASSION…”).
  • Melhor para Teologia: D. A. Carson. Oferece a defesa mais robusta da doutrina da expiação e da historicidade dos eventos (como a harmonização da data da Páscoa), sendo essencial para quem busca a dogmática cristã clássica fundamentada na exegese gramatical (Carson, “c. The words of institution”).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 26, deve-se utilizar a estrutura literária de Nolland para organizar a leitura, preenchendo-a com a sensibilidade narrativa de France para captar a ironia da rejeição messiânica, e fundamentando a doutrina com a exegese teológica de Carson sobre a expiação e a historicidade. O capítulo deve ser lido como o momento em que a Nova Aliança é inaugurada através de uma Expiação Substitutiva, cumprindo as Escrituras através de uma profunda Ironia Narrativa onde o Rei é coroado através do sofrimento, apontando para uma Escatologia Inaugurada no banquete futuro.

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Conspiração e a Unção em Betânia (26:1-16)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Kai egeneto hote etelesen (26:1): Carson identifica esta frase (“E aconteceu que, quando Jesus concluiu”) como a quinta e última fórmula de transição que encerra os grandes discursos de Mateus, marcando um ponto de virada estrutural para a Paixão (Carson, “28–29 This is the first”).
  • Tote (26:14): Nolland observa que Mateus usa tote (“então”) para ligar a oferta de Judas à conspiração dos sacerdotes em v. 3, embora o termo seja flexível e não indique necessariamente uma sequência cronológica imediata, podendo sugerir uma visita noturna ou na manhã seguinte (Nolland, “26:14 ‘One of the Twelve’”).
  • Hetaire (26:50 - antecipado no contexto de Judas): Nolland nota que Mateus é o único do NT a usar este vocativo (“Amigo/Companheiro”), sempre indicando alguém que tem algo em comum com o interlocutor, mas usado aqui com ironia (Nolland, “26:50 Mark does not”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [France]: Destaca a ironia dramática suprema: os líderes planejam não matar Jesus durante a festa (26:5) para evitar tumulto, mas a oferta de Judas permite que eles façam exatamente o oposto do planejado, cumprindo inconscientemente o propósito divino de que Jesus morra na Páscoa (France, “V. JERUSALEM…”).
  • [Nolland]: Aponta uma conexão intertextual rara em 26:13 (“memorial dela”). Ele argumenta que “memória” (mnemosynon) aqui reflete o costume do AT de registrar eventos importantes para mantê-los vivos, mas observa o paradoxo de que, embora a ação seja lembrada, o nome da mulher foi perdido na tradição mateana (Nolland, “26:13 Only a modest”). Ele também sugere que a unção em Betânia e a de Lucas 7:36-50 podem ter sofrido uma “transferência de motivos” entre si na tradição oral (Nolland, “26:7 Matthew abbreviated”).
  • [Carson]: Defende que a menção de “Caifás” (26:3) e a reunião específica não são meros adornos literários, mas refletem tradição histórica sólida, corroborada por João 11:47-53. Ele refuta a ideia de que Mateus criou o cenário apenas para dar suporte teológico (Carson, “26:17–19 1′. Arrangements”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza da Unção: Carson argumenta contra a teoria de Holst de que houve apenas uma unção na vida de Jesus. Ele defende a plausibilidade de dois eventos distintos (uma em Lucas 7, outra em Mateus/Marcos/João), sustentando que as ferramentas críticas não devem ser “intrinsecamente incapazes de reconhecer dois incidentes superficialmente semelhantes” (Carson, “1. Anointed at Bethany”). Nolland é mais cauteloso, sugerindo uma possível contaminação cruzada entre as tradições de Lucas e João, onde a “pecadora” de Lucas e a “Maria” de João se fundem na imaginação popular ou na redação pré-evangélica (Nolland, “26:7 Matthew abbreviated”).
  • Motivação de Judas: Nolland vê a oferta de Judas (26:14-16) como a chave narrativa que resolve o problema logístico dos sacerdotes (evitar o tumulto), focando na oportunidade (eukairian) (Nolland, “26:16 Matthew stays”). Carson enfatiza que, embora os evangelistas saibam que Judas traiu, eles podem não saber por que ele o fez, rejeitando tentativas modernas de reabilitar Judas como “especulação descontrolada” (Carson, “10. The death of Judas”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Salmo 31:13: Nolland identifica uma alusão na frase “conspiraram juntos” (synebouleusanto) em 26:4, ligando a situação de Jesus à aflição clássica do justo perseguido nos Salmos (Nolland, “26:4 The provision”).
  • Deuteronômio 15:11: Tanto Carson quanto Nolland concordam que a frase “pobres sempre tereis convosco” (26:11) ecoa Deuteronômio, não para encorajar a negligência, mas para estabelecer prioridades de culto em momentos de crise (Nolland, “26:11 Matthew drops”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a justaposição da conspiração sacerdotal com a unção em Betânia serve para contrastar o ódio dos líderes com a devoção extravagante da mulher, preparando o cenário para a Paixão como um evento de realeza e sepultamento.

📖 Perícope: A Última Ceia (26:17-30)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Eis aphesin hamartion (26:28): Nolland destaca que esta frase (“para perdão dos pecados”) liga a morte de Jesus à esperança profética de restauração do Exílio (Jr 31; Ez 16), onde o perdão é fundacional (Nolland, “A. Section 1”).
  • Peri / Hyper (26:28): Carson argumenta que a preposição peri (“por” muitos) em Mateus equivale a hyper em Marcos e Lucas, carregando um sentido de substituição (anti), indicando atividade vicária (Carson, “28 This verse is rich”).
  • Hymnesantes (26:30): Ambos, Nolland e Carson, identificam isso como o canto da segunda parte dos Salmos de Hallel (Salmos 115–118), tradicionalmente cantados no final da refeição pascal (Carson, “NOTES 29 BDF”; Nolland, “26:29 Surprisingly”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [France]: Enfatiza a natureza paradoxal da “soberania” de Jesus nesta seção: ele não é uma vítima passiva, mas aquele que determina o tempo de sua própria entrega (“O meu tempo está próximo”, 26:18) (France, “V. JERUSALEM…”).
  • [Nolland]: Traz uma conexão teológica única entre o “sangue da aliança” e o Exílio. Ele argumenta que falar de Deus estabelecendo novamente sua aliança (fundo de Ezequiel 16:59-63) é equivalente a falar da vinda do Reino de Deus, pois resolve a ruptura causada pelo pecado de Israel (Nolland, “XXI. THE PASSION ACCOUNT”).
  • [Carson]: Oferece uma defesa robusta da autenticidade das palavras de instituição contra o ceticismo litúrgico. Ele argumenta que “isto é o meu sangue” alude primariamente a Êxodo 24:8, rejeitando a visão de Lindars de que seria apenas Zacarias 9:11, pois a tipologia de Êxodo era comum no judaísmo do Segundo Templo (Carson, “28 This verse is rich”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza da Aliança (Exodo vs. Jeremias/Ezequiel):
    • Carson insiste que a referência primária de 26:28 é Êxodo 24:8 (“o sangue da aliança que o Senhor fez convosco”), enfatizando o aspecto sacrificial e de ratificação sangrenta (Carson, “28 This verse is rich”).
    • Nolland concorda com o vínculo sacrificial, mas coloca peso significativo na teologia do retorno do Exílio (Jeremias 31, Ezequiel 16), vendo o “sangue” como o mecanismo que lida com o fracasso da antiga aliança e inaugura a nova comunidade perdoada (Nolland, “A. Section 1”).
  • A “Abstinência” (26:29):
    • Carson interpreta a promessa de não beber vinho até o Reino como uma referência à Parusia ou ao banquete messiânico final, rejeitando interpretações que veem o cumprimento na ressurreição ou na Eucaristia da igreja (Carson, “64 Perhaps this is”).
    • Nolland vê isso como uma “previsão da Paixão”: Jesus antecipa a morte tão próxima que não haverá outra ocasião para beber vinho. O foco é a separação física até a consumação escatológica (Nolland, “26:29 Surprisingly”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Êxodo 24:8: Identificado por Carson como a base textual primária para “sangue da aliança” (Carson, “28 This verse is rich”).
  • Isaías 53:12: Carson liga “por muitos” (peri pollon) ao Servo Sofredor que justifica a muitos (Carson, “3. Dependence on Isaiah 53”).
  • Zacarias 13:7: Citado explicitamente em 26:31 (“Ferirei o pastor”). Nolland observa que Mateus aplica a Jesus a figura do “homem que é meu associado” de Zacarias, sugerindo status de vice-regente divino (Nolland, “26:32 Except for”).

5. Consenso Mínimo

  • A Última Ceia é apresentada como uma refeição Pascal (Seder) reinterpretada, onde Jesus atribui significado soteriológico à sua morte iminente, inaugurando uma nova relação pactual com Deus através de seu sangue.

📖 Perícope: Getsêmani e Prisão (26:36-56)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Perilypos (26:38): “Profundamente triste”. Nolland conecta este termo ao Salmo 42/43 (LXX) e a Tobias 3:1, indicando uma angústia mortal da alma (Nolland, “26:38 An added”).
  • Gregoreite (26:38, 41): “Vigiai”. Carson nota que o termo ganha uma conotação escatológica e moral: vigilância não apenas física, mas espiritual contra a tentação que acompanha a crise da Paixão (Carson, “5. Gethsemane”).
  • Hetaire (26:50): Jesus chama Judas de “Amigo/Companheiro”. Nolland aponta que, na boca de Jesus em Mateus, este termo carrega sempre uma distância irônica ou repreensão (Nolland, “26:50 Mark does not”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [France]: (Implícito em Source 4) Destaca a tensão entre a fragilidade humana de Jesus e sua submissão voluntária, contrastando com a falha dos discípulos.
  • [Nolland]: Oferece uma contribuição única sobre o uso da espada (26:52), ligando a frase “volve a tua espada ao seu lugar” a um texto apócrifo judaico, Joseph and Asenath 29:4, sugerindo uma tradição comum sobre a não-violência contra inimigos indefesos ou, no caso de Jesus, a aceitação da vontade divina (Nolland, “26:52 For vv.”).
  • [Carson]: Enfatiza que a angústia de Jesus no Getsêmani não é medo da morte (comparado aos mártires macabeus), mas o horror diante do cálice da ira de Deus que ele deve beber como substituto (Carson, “5. Gethsemane”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Resposta de Jesus a Judas (26:50): A frase eph’ ho parei é elíptica (“para o que vieste”).
    • Nolland debate se deve ser completada com um imperativo (“Faça o que veio fazer”) ou se é uma pergunta. Ele prefere o imperativo, indicando que o evento só prossegue com a permissão de Jesus (Nolland, “26:50 Mark does not”).
    • Carson (implícito na discussão geral de onisciência) tende a ver Jesus no controle total, sabendo exatamente o propósito de Judas.
  • O uso da Espada (26:52):
    • Nolland vê aqui um princípio formal de justiça divina baseado em Gênesis 9:6 (“quem derramar sangue…”), mas ampliado para condenar o uso da violência para autoproteção contra a vontade de Deus (Nolland, “26:52 For vv.”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Zacarias 13:7: A dispersão das ovelhas (26:31) é o cumprimento explícito citado por Jesus. Nolland nota que isso valida a dissolução momentânea da comunidade messiânica (Nolland, “26:32 Except for”).
  • Gênesis 9:6: Nolland identifica este princípio (“sangue por sangue”) como a base legal por trás do ditado “todos os que lançarem mão da espada…” (26:52) (Nolland, “26:52 For vv.”).

5. Consenso Mínimo

  • O Getsêmani revela a humanidade plena de Jesus em sua agonia, mas estabelece sua obediência perfeita ao Pai como o antídoto para o fracasso dos discípulos em vigiar.

📖 Perícope: Julgamento no Sinédrio e Negação de Pedro (26:57-75)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Su eipas (26:64): “Tu o disseste”. Carson e Catchpole argumentam que esta não é uma resposta ambígua, mas uma afirmação relutante ou circunloquial (“Sim, mas não nos termos que você pensa”) (Carson, “64 Perhaps this is”).
  • Ap’ arti (26:64): “De agora em diante”. Carson insiste que isso não se refere apenas à Parusia final, mas ao início da vindicação de Jesus através da ressurreição e ascensão, sentando-se à direita do Pai (Carson, “64 Perhaps this is”).
  • Blasphemia (26:65): Nolland observa que a “blasfêmia” aqui não precisa ser o uso do Nome Divino (o que exigiria apedrejamento segundo a Mishná), mas a reivindicação de Jesus de sentar-se à direita de Deus, usurpando uma prerrogativa divina única (Nolland, “26:65 As so often”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Nolland]: Nota que a acusação sobre destruir o templo (26:61) é formulada como uma pretensão de poder messiânico/divino (“Eu posso destruir…”), o que para o Sumo Sacerdote soa como uma reivindicação de autoridade impossível e perigosa (Nolland, “26:62 Matthew abbreviates”).
  • [Carson]: Destaca o contraste entre o juramento imposto a Jesus pelo Sumo Sacerdote (ao qual Jesus responde com a verdade, v. 63-64) e os juramentos voluntários de Pedro (v. 72, 74), que são usados para sustentar uma mentira (Carson, “26:63 Matthew both”).
  • [France]: Vê no julgamento a ironia suprema onde Jesus, o Juiz Escatológico, é julgado por homens corruptos, e sua condenação à morte é o meio pelo qual ele entra em seu reino (France, “But all this”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Silêncio de Jesus (26:63):
    • Nolland sugere que o silêncio inicial é uma recusa em dignificar as testemunhas falsas com uma resposta, forçando o Sumo Sacerdote a intervir diretamente (Nolland, “26:62 Matthew abbreviates”).
    • Carson vê isso como cumprimento do Servo Sofredor (Is 53:7), embora Mateus não cite o texto explicitamente aqui.
  • A Identidade do “Filho de Deus” (26:63):
    • Carson argumenta que “Cristo” e “Filho de Deus” são paralelos aqui, mas Jesus reinterpreta ambos através do título “Filho do Homem” (v.64), fundindo Daniel 7 com Salmo 110 para corrigir a teologia de Caifás (Carson, “64 Perhaps this is”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Daniel 7:13 e Salmo 110:1: A resposta de Jesus (26:64) funde a vinda do Filho do Homem com o assento à direita de Deus. Carson nota que isso transforma o julgamento humano em um prelúdio para o julgamento divino onde Jesus será o Juiz (Carson, “64 Perhaps this is”).
  • Isaías 50:6: A zombaria, cusparadas e bofetadas (26:67) são vistas como ecos do Terceiro Cântico do Servo (“ofereci as costas aos que me feriam… não escondi o rosto…”), embora Nolland seja cauteloso em afirmar uma conexão textual direta, preferindo ver uma “transferência” de motivos (Nolland, “26:67 Matthew adds”; Carson, “12. The soldiers’”).

5. Consenso Mínimo

  • O julgamento diante do Sinédrio é o clímax cristológico onde Jesus rompe o silêncio para definir sua identidade messiânica em termos de exaltação escatológica, provocando a condenação por blasfêmia que sela seu destino sacrificial.