Análise Comparativa: Mateus 21

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew (NICNT).

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica / Teologia Bíblica Narrativa. France adota uma abordagem que prioriza a estrutura literária e o fluxo narrativo do evangelho como uma “peça em três atos” (embora modifique isso para Mateus), focando no cumprimento cristológico dentro da história da salvação.
    • Metodologia: Análise literária e narrativa. Ele enfatiza como os blocos narrativos (ex: confrontação em Jerusalém) servem para desenvolver a teologia de Mateus sobre a autoridade real de Jesus e a redefinição do verdadeiro Israel.
  • Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew (NIGTC).

    • Lente Teológica: Acadêmica Crítico-Exegética. O autor foca rigorosamente no texto grego, com forte ênfase na crítica textual e na crítica das fontes (comparação sinótica), mantendo uma postura teológica que reconhece a historicidade substancial das perícopes.
    • Metodologia: Exegese gramatical detalhada. Nolland disseca as variações textuais, o uso da LXX versus texto massorético (MT) e as nuances redacionais de Mateus em relação a Marcos, focando na precisão filológica.
  • Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew (REBC).

    • Lente Teológica: Reformada Evangélica / Histórico-Redentiva. Carson combina uma defesa robusta da historicidade dos relatos com uma teologia do cumprimento (promise-fulfillment), vendo Jesus como o clímax da revelação do AT.
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Exegese Sistemática. Ele ataca o texto buscando a coerência teológica, refutando interpretações liberais ou minimalistas e destacando a continuidade/descontinuidade entre os Testamentos.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (NICNT): O capítulo 21 inaugura o clímax do drama evangélico, onde Jesus confronta as autoridades religiosas para estabelecer a realeza do Filho do Homem sobre e contra o regime falido do Templo.

    • France argumenta que os capítulos 21–25 formam uma unidade narrativa de “confronto decisivo” onde a autoridade de Jesus é o tema central (France, “the focus has fallen on the question of his authority”). Ele vê a ação no Templo não apenas como uma purificação, mas como o sinal do “fim de uma era” e o julgamento sobre a “liderança desacreditada” de Jerusalém, preparando o leitor para entender que a derrota aparente na cruz é, paradoxalmente, o estabelecimento do reinado de Jesus (France, “defeat… is in fact the paradoxical way to the establishment of his kingship”).
  • Tese de Nolland (NIGTC): Mateus constrói uma narrativa de “ministério provocativo” em Jerusalém, acentuando a identidade cristológica de Jesus como o Filho de Davi e Senhor, cuja rejeição pelos líderes judeus sela o julgamento nacional e a transferência da vinha.

    • Nolland destaca que Mateus intensifica a apresentação de Jesus como o “Filho de Davi” messiânico, mas “ferozmente protetor dos privilégios judaicos com Deus” até que a incredulidade force uma mudança (Nolland, “He is fiercely protective of Jewish privileges”). Ele enfatiza como as parábolas (Dois Filhos, Lavradores Maus) funcionam para interpretar a reação dos líderes, onde a falha em reconhecer João Batista está intrinsecamente ligada à falha em reconhecer Jesus (Nolland, “failure of the leaders… to respond to the ministry of the Baptist”).
  • Tese de Carson (REBC): O capítulo apresenta Jesus exercendo sua autoridade messiânica real através de atos proféticos (entrada, purificação, maldição da figueira) que declaram o julgamento sobre a religiosidade estéril de Israel e prefiguram a comunidade da nova aliança.

    • Carson argumenta que a entrada triunfal e a purificação do templo são atos de auto-revelação messiânica que cumprem as Escrituras (Zc 9:9; Sl 118), onde Jesus age como o “Rei Messiânico” (Carson, “messianic significance as any of Jesus’ miracles”). Ele rejeita interpretações que veem a maldição da figueira apenas como uma lição de fé, insistindo em sua conexão orgânica com o julgamento do templo e de Israel por falta de frutos espirituais, alinhando-se a uma “perspectiva histórico-salvífica” (Carson, “judgment on the Jewish nation”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (NICNT)Visão de Nolland (NIGTC)Visão de Carson (REBC)
Palavra-Chave/Termo GregoExousia (Autoridade). France define este termo como o eixo temático unificador dos capítulos 21–25, onde Jesus confronta a legitimidade da liderança do templo (France, p.).Pōlon (Potro). Nolland realiza uma dissecção filológica técnica, contrastando o uso secular (cavalo) com o uso na LXX (jumento), justificando a escolha de Mateus pelo termo para denotar um jumento macho jovem (Nolland, p.).Ethnos (Nação/Povo). Em 21:43, Carson argumenta que o termo, usado sem artigo, refere-se não aos gentios exclusivamente, mas a um novo “povo” (a igreja messiânica) que substitui os líderes judeus (Carson, p.).
Problema Central do TextoO conflito jurisdicional entre o Reino do Filho do Homem e o “regime falido” do Templo. Para France, o problema é narrativo: como a rejeição de Jesus paradoxalmente estabelece seu reinado (France, p.,).A continuidade da incredulidade. Nolland foca na falha dos líderes em responder tanto a João Batista quanto a Jesus, vendo a crise no Templo como uma extensão dessa rejeição histórica e teológica (Nolland, p.).A esterilidade espiritual de Israel. Carson vê a maldição da figueira e a purificação do templo como atos proféticos interligados que expõem a hipocrisia e a falta de frutos da nação sob a antiga aliança (Carson, p.,).
Resolução TeológicaA transferência do “Verdadeiro Israel”. A destruição do templo não é apenas o fim de um edifício, mas o “fim de uma era”, onde a autoridade é transferida para Jesus e sua comunidade (France, p.,).A substituição da liderança. Deus remove os arrendatários originais (líderes judeus) e entrega a vinha a novos líderes (comunidade cristã) que prestarão contas a Ele, garantindo a continuidade do povo de Deus (Nolland, p.).O julgamento e a inauguração da graça. Apesar da rejeição nacional, Deus cria uma comunidade messiânica (judeus e gentios) baseada na fé, cumprindo as tipologias do AT através do Messias (Carson, p.,).
Tom/EstiloNarrativo-Teológico. Foca na estrutura dramática e no fluxo da história da salvação.Técnico-Crítico. Foca nas variantes textuais, crítica das fontes e precisão filológica.Apologético-Exegético. Foca na coerência histórica, refutação de críticos e teologia bíblica.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Nolland (NIGTC). Sua atenção minuciosa às variantes textuais (ex: a ordem dos filhos na parábola dos Dois Filhos) e ao background semítico (ex: uso de fontes rabínicas e intertextualidade com a LXX) fornece a base histórica mais granular para o pesquisador (Nolland, p.,).
  • Melhor para Teologia: Carson (REBC). Ele oferece a síntese mais robusta sobre como o capítulo se encaixa na história da redenção (Redemptive History), conectando a Autoridade Messiânica de Jesus com o Cumprimento Profético do Antigo Testamento de forma a evitar anacronismos eclesiológicos, mantendo o foco cristológico (Carson, p.,).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 21, deve-se utilizar a estrutura dramática de France para situar o capítulo como o clímax do conflito real de Jesus, preenchendo os detalhes exegéticos e críticos com a análise técnica de Nolland, e finalmente aplicando a lente de Carson para entender as implicações do Julgamento Escatológico sobre a liderança de Israel e a formação do novo Povo de Deus. Esta abordagem tridimensional impede tanto o espiritualismo desencarnado quanto o criticismo estéril.

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Entrada Triunfal e a Identidade Messiânica (21:1-11)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Pōlon (πῶλον): Nolland dedica extensa análise a este termo. Enquanto em grego secular pode significar “cavalo”, na LXX e contextos judaicos refere-se a um “jumento”. A especificação de Mateus de uma “jumenta” (fêmea) e um pōlon com ela indica que Mateus entende o termo especificamente como um “jumento macho jovem” (Nolland, “The reference to a female donkey… make clear that for Matthew πῶλον means a young male donkey”).
  • Praus (πραΰς): Traduzido como “humilde” ou “manso”. Carson destaca que, embora Mateus siga a LXX, o uso de praus e epibebēkōs (montado) sugere uma dependência da forma da LXX, embora Matthew mostre domínio de múltiplas formas textuais ao lidar com o hebraico massorético (Carson, “Matthew shows himself to be master of multiple text forms”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Observa a geografia precisa e a lógica de Betfagé estar “oposta” (katenanti) à estrada, sugerindo que era um desvio necessário para adquirir os animais, ao invés de estar diretamente no caminho (Nolland, “makes better sense if we give the word its more normal sense, ‘opposite’”).
  • Carson: Destaca a função teológica da citação de Zacarias, rejeitando a ideia de que Mateus inventou os dois animais por não entender o paralelismo hebraico. Ele argumenta contra a visão de que a menção de dois animais seria um mal-entendido do texto hebraico, afirmando que Mateus demonstra bom comando do hebraico em outras partes (Carson, “quite unreasonable to suggest that Matthew… added the extra animal to fit a text he radically misunderstood”).
  • France: Enfatiza a estrutura dramática, vendo a chegada a Jerusalém como o início do “confronto decisivo” com as autoridades da Judeia, sob a sombra das predições da paixão (France, “beginning of the decisive confrontation”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Questão dos Dois Animais (v. 2, 7):
    • Existe um debate sobre por que Mateus menciona dois animais (jumenta e jumentinho) enquanto Marcos e Lucas mencionam apenas um.
    • Nolland sugere uma leitura pragmática e literária: Mateus tem “um papel em sua história para dois animais”, possivelmente imaginando a mãe acalmando o filhote não montado, e não está restrito a uma leitura literalista da LXX (Nolland, “He has two animals in this text only because he has a role in his story for two animals”).
    • Carson é mais apologético, refutando críticos como McNeile e Schniewind. Ele insiste que Mateus não criou a história a partir da profecia (o que seria historicização da profecia), mas que o evento histórico levou Mateus a buscar as Escrituras. Ele rejeita a ideia de “fontes não assimiladas” (Carson, “Still less likely is the appeal to unassimilated sources”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Zacarias 9:9: Todos concordam que é a citação central.
  • Isaías 62:11: Nolland e Carson notam que a frase introdutória “Dizei à filha de Sião” vem de Isaías, substituindo o “Alegra-te muito” de Zacarias, talvez porque o contexto de Mateus (julgamento iminente) não se encaixe puramente na alegria (Nolland, “Is. 62:11 is thematically similar”).
  • Gênesis 49:11: Carson e Nolland discutem a possível alusão à bênção de Judá (amarrar o jumentinho à videira), que pode ter influenciado a linguagem de “amarrar” (desantes) os animais.

5. Consenso Mínimo

  • A entrada em Jerusalém é um ato deliberado de auto-revelação messiânica que cumpre as escrituras proféticas, especificamente Zacarias 9:9, definindo a realeza de Jesus como humilde e não militar.

📖 Perícope: A Purificação do Templo (21:12-17)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ekballō (ἐξέβαλεν): “Expulsou”. Nolland nota que Mateus prefere o aoristo (ação pontual) ao “começou a expulsar” de Marcos, para criar um balanço com o verbo “entrou” (eisēlthen), enfatizando a eficácia imediata da ação (Nolland, “produces a nice balance between εἰσῆλθεν and ἐξέβαλεν”).
  • Lēstōn (λῃστῶν): “Salteadores/Bandidos”. Frequentemente traduzido como “ladrões”, mas refere-se a nacionalistas violentos ou bandidos.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Destaca a omissão da frase “para todas as nações” (de Marcos/Isaías 56:7). Ele argumenta que Mateus remove isso porque, no contexto de julgamento do Templo, essa frase “adiciona uma complicação desnecessária” à narrativa focada na corrupção interna de Israel (Nolland, “adds an unnecessary complication”).
  • Carson: Foca na autoridade messiânica. Ele vê a purificação não apenas como um ato de reforma, mas com “significado messiânico tanto quanto qualquer um dos milagres de Jesus” (Carson, “messianic significance as any of Jesus’ miracles”). Ele também rejeita a ideia de que Jesus estava apenas protestando contra o pagamento por sacrifícios (visão de Chilton).
  • France: Aponta para a ironia narrativa onde os líderes ficam “indignados” com a cura de cegos e coxos (um sinal messiânico), enquanto as crianças (os “infantes”) reconhecem a verdade que os sábios não veem (France, “recognition of the royal authority of the Son of Man”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Significado de “Covil de Salteadores”:
    • Nolland argumenta que a referência a Jeremias 7:11 não ataca os vendedores em si, mas a hipocrisia dos adoradores que usam o templo como um “esconderijo seguro” (covil) após cometerem injustiças fora dele (Nolland, “It is not likely to be the market vendors who are accused of wickedness”).
    • Carson tende a ver o ato como um julgamento sobre todo o sistema sacrificial corrompido, alinhando-se com a tipologia de Jesus substituindo o templo.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 56:7: “Minha casa será chamada casa de oração”.
  • Jeremias 7:11: “Covil de salteadores”.
  • Salmo 8:2 (LXX): Citado por Jesus no v. 16 (“Da boca de pequeninos…”). Nolland observa que Mateus segue a LXX (“louvor”) em vez do TM (“força”), o que é essencial para o argumento de Jesus sobre a adoração das crianças (Nolland, “The citation agrees exactly with the LXX”).

5. Consenso Mínimo

  • A ação no Templo é um julgamento profético sobre a liderança religiosa de Israel e uma reivindicação de autoridade sobre a “Casa de Deus”.

📖 Perícope: A Figueira Estéril (21:18-22)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Parachrēma (παραχρῆμα): “Imediatamente”. Nolland observa que o uso desta palavra (rara em Mateus) intensifica o caráter milagroso: “nenhuma praga natural poderia ter efeito tão instantâneo” (Nolland, “no natural blight could take effect so instantaneously”).
  • Monon (μόνον): “Apenas”. Mateus adiciona que a árvore tinha “apenas” folhas, enfatizando a esterilidade total.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Carson: Conecta fortemente este episódio com Jeremias 24:1-8 (os figos bons e ruins), argumentando que, assim como em Jeremias, há uma divisão entre judeu e judeu. Ele rejeita a visão de que é apenas uma lição sobre fé, insistindo na conexão orgânica com o julgamento de Israel (Carson, “organic connection with the narrative”).
  • Nolland: Oferece uma explicação técnica sobre a botânica das figueiras, citando estudos modernos e Plínio, para explicar que a presença de folhas geralmente indicaria a presença de figos temporãos (breba), justificando a expectativa de Jesus de encontrar fruto (Nolland, “leaves appear before figs… implied it was the same day”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Cronologia e Estrutura:
    • A divergência principal é com Marcos, que divide o episódio em dois dias.
    • Nolland afirma que Mateus “unifica, abrevia e clarifica a lógica” ao juntar a maldição e o murchamento no mesmo momento narrativo para maior impacto dramático (Nolland, “Matthew unifies… the logic of the material”).
    • Carson defende que é um “arranjo tópico típico”, e que Mateus deixa o tempo “indistinto”, mas implica que foi no mesmo dia (Carson, “typical topical arrangement”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Jeremias 8:13 / 24:1-8: Imagens de julgamento sobre Israel como uma figueira sem frutos.
  • Zacarias 14:4: Nolland sugere que a frase sobre “mover o monte” pode aludir ao Monte das Oliveiras se fendendo no Dia do Senhor, embora Mateus não faça essa conexão explícita (Nolland, “Zc. 14:4 has an intriguing mention”).

5. Consenso Mínimo

  • A figueira representa o julgamento de Deus sobre a hipocrisia religiosa (aparência de folhas sem fruto) e prefigura o julgamento do Templo.

📖 Perícope: A Questão da Autoridade (21:23-27)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Exousia (ἐξουσίᾳ): “Autoridade”. O termo central que une este bloco. Refere-se não apenas a poder (dynamis), mas ao direito legítimo e jurisdição para agir.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Nota como Mateus elimina os “escribas” do grupo de interrogadores (presentes em Marcos) e expande “anciãos” para “anciãos do povo”, focando na liderança civil/laica juntamente com os sacerdotes (Nolland, “omission of ‘the scribes’… expansion of ‘the elders’”).
  • Carson: Compara a cena a um “concílio de ordenação” onde o candidato (Jesus) vira o jogo contra os examinadores. Ele observa que a contra-pergunta de Jesus não é evasiva, mas teológica: a autoridade de Jesus e a de João Batista têm a mesma origem (Carson, “The scene is like an ordination council”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza da Pergunta de Jesus (Armadilha ou Teologia?):
    • Nolland enfatiza que Jesus “negocia resposta por resposta” porque o direito de saber depende da atitude de quem pergunta. A resposta deles (“não sabemos”) é interpretada corretamente por Jesus como uma evasiva calculada (Nolland, “right to know is not independent of what one intends to do”).
    • Carson vê a pergunta como um meio de expor a incompetência espiritual dos líderes: se eles não podem discernir o profeta João, são desqualificados para julgar o Messias Jesus (Carson, “incompetence to judge”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Não há citações diretas aqui, mas o conceito de profeta (v. 26, referindo-se a João) evoca toda a tradição profética de autoridade divina rejeitada pelo establishment.

5. Consenso Mínimo

  • A autoridade de Jesus, como a de João, é “do céu” (divina), e a rejeição dos líderes a João os desqualifica para avaliar Jesus.

📖 Perícope: Parábola dos Dois Filhos (21:28-32)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Metamelomai (μεταμέλομαι): “Mudar de ideia” ou “arrepender-se”. Usado para descrever a ação do primeiro filho. Carson nota que é um verbo raro nos Sinóticos, aparecendo apenas em Mateus (Carson, “occurs in the Synoptics only in Matthew”).
  • Proagousin (προάγουσιν): “Precedem” ou “vão à frente”. Indica que publicanos e meretrizes entram no Reino antes (ou em vez de) os líderes.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Dedica-se intensamente à crítica textual sobre a ordem dos filhos (quem diz sim/não vs. quem diz não/sim). Ele discute a confusão nos manuscritos, onde algumas versões (como B e Θ) invertem a ordem ou a resposta, mas conclui que a leitura que condena os líderes (dizem sim, mas não vão) é a intencional (Nolland, “The reading pedantically fills an obvious lacuna”).
  • Carson: Defende a leitura “Ocidental” (o primeiro filho diz não mas vai) como a original baseada na lógica interna da aplicação aos líderes judeus que professam obediência (dizem sim) mas não creem (não vão). Ele chama a leitura inversa de “nonsense” teológico no contexto (Carson, “Clearly 3 is the hardest reading… either nonsensical, or else…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Significado de João vindo no “Caminho da Justiça”:
    • Carson interpreta isso como João pregando um padrão de justiça que exigia arrependimento, o qual os líderes rejeitaram (Carson, “John’s demand for repentance”).
    • Nolland conecta isso com Lc 7:29, sugerindo que “justiça” aqui é a resposta adequada à aliança, que os marginalizados demonstraram e os líderes não (Nolland, “proper response to the covenant”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nolland aponta a linguagem de “fazer a vontade do pai” como eco de Mateus 7:21 e 12:50, criando uma teologia intra-textual de obediência versus lip-service (Nolland, “echoing ‘does the will of my Father’ language”).

5. Consenso Mínimo

  • A obediência religiosa não é verbal (promessas), mas performativa (arrependimento e ação). Os marginalizados que se arrependem são superiores à elite religiosa hipócrita.

📖 Perícope: Parábola dos Lavradores Maus (21:33-46)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Geōrgous (γεωργούς): “Lavradores/Arrendatários”.
  • Lithon (λίθον): “Pedra”.
  • Ethnei (ἔθνει): “Nação/Povo” (v. 43). Singular, anartro (sem artigo).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Destaca que Mateus inverte a ordem de Marcos no v. 39: em Mateus, eles “lançam fora” o filho e depois o matam (em Marcos matam e depois lançam fora). Nolland sugere que isso pode ser um “toque alegórico” referindo-se a Jesus sofrendo “fora do portão” da cidade (Hebreus 13:12) (Nolland, “allegorical touch… Jesus suffering ‘outside the gate’”).
  • Carson: Foca na cristologia do “Filho”. Ele argumenta vigorosamente que a alegoria (Deus=Dono, Vinha=Israel, Filho=Jesus) não é uma adição tardia da igreja, mas remonta ao Jesus histórico, baseada no “Auto-entendimento” de Jesus como o Filho amado (Carson, “This parable is irretrievably semiallegorical, but… belongs no less likely to the historical Jesus”).
  • France: Vê a transferência da vinha para “outra nação” (v. 43) não como uma substituição de judeus por gentios per se, mas como a criação de um “novo povo” (a igreja) definido não por etnia, mas pela produção de frutos (France, [implícito na teologia de “True Israel”]).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Identidade do “Ethnei” (v. 43):
    • Carson: Argumenta que ethnei (povo) no singular não exclui judeus, mas refere-se a um “povo messiânico” composto de judeus e gentios que creem. Ele refuta a ideia de que Mateus é anti-semita aqui; o foco é na liderança falida (Carson, “uses ethne… meaning ‘all peoples [without distinction]’… thereby including Jews”).
    • Nolland: Concorda que o singular é “surpreendente” e sugere que se refere à comunidade dos discípulos como a nova entidade política de Deus, substituindo a liderança atual (Nolland, “The use of the singular… is striking”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 5:1-7: A Canção da Vinha. Base fundamental da parábola.
  • Salmo 118:22-23: A pedra rejeitada. Carson observa que Jesus usa isso para explicar a rejeição do “Filho” na parábola anterior (Carson, “Jesus asks… In each case… the Scriptures point to him”).
  • Daniel 2: A pedra que esmiúça (alusão possível no v. 44).

5. Consenso Mínimo

  • A liderança de Israel falhou em produzir os frutos do Reino e perdeu seu lugar de privilégio; o Reino é transferido para um novo povo (os seguidores de Jesus) que produzirá os devidos frutos.