Análise Comparativa: Mateus 19

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.
  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.

Análise dos Autores

  • Autor A: France, R. T. (NICNT)

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica / Redação. Foca na estrutura narrativa e geográfica do evangelho.
    • Metodologia: Analisa o texto a partir de blocos narrativos maiores. France situa o capítulo 19 dentro da seção mais ampla (16:21—20:34) que descreve a jornada da Galileia para Jerusalém. Ele enfatiza que este movimento geográfico é teológico: Jesus e os discípulos saem de seu território natal para uma “região estrangeira” (Judeia) onde confrontarão a hostilidade das autoridades religiosas (France, excerto 1). O foco é o ensino para o “consumo interno” do grupo de discípulos sobre a natureza paradoxal do Reino dos Céus (France, excerto 2).
  • Autor B: Nolland, John (NIGTC)

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica / Filológica.
    • Metodologia: Realiza uma exegese técnica detalhada, com forte ênfase na crítica textual (comparação de manuscritos gregos) e na história da tradição (como Mateus editou Marcos e Q). Nolland disseca as nuances gramaticais, como o uso de porneia (imoralidade sexual) e a estrutura sintática das cláusulas de exceção, muitas vezes destacando as tensões criadas pela redação de Mateus sobre as fontes anteriores (Nolland, excerto 243).
  • Autor C: Carson, D. A. (REBC)

    • Lente Teológica: Reformada / Evangélica Conservadora.
    • Metodologia: Combina exegese gramatical com Teologia Bíblica e História da Redenção. Carson frequentemente polemiza contra leituras liberais ou críticas que sugerem que Mateus “corrigiu” a teologia de Marcos (por exemplo, na cristologia do jovem rico). Ele busca harmonizar as tensões teológicas (como a relação entre Lei e Graça) demonstrando como Jesus cumpre e redireciona as expectativas do AT, mantendo a coerência interna do cânon (Carson, excertos 625-627).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (Autor A): [A narrativa de Mateus 19 é uma transição geográfica e teológica para o confronto em Jerusalém, focada na instrução privada dos discípulos.]

    • France argumenta que esta seção (16:21–20:34) funciona como uma ponte onde o ensino de Jesus muda de foco: é “para o consumo interno do grupo de discípulos ao invés de uma divulgação pública mais ampla”, preparando-os para a rejeição e morte (France, excerto 2).
  • Tese de Nolland (Autor B): [Mateus 19 explora a tensão entre o ideal da criação e a realidade humana (dureza de coração), apresentando o celibato e a pobreza como respostas radicais ao Reino.]

    • Nolland destaca que, ao editar Marcos, Mateus cria uma tensão lógica na perícope do divórcio. Ele observa que Mateus tenta manter a consistência formal com Mt 5:31-32, mas ao fazer isso, “suprime a conexão linguística com Dt 24:1”, embora a ideia de exceção ainda seja um traço dessa ligação legalista (Nolland, excerto 243). Sobre o celibato (19:12), Nolland sugere que a imagem do eunuco é usada pelo seu “valor de choque” e não deve ser lida através de dualismos posteriores, mas como uma resposta à presença de Jesus e do Reino dos Céus que exige prioridades superiores ao casamento (Nolland, excerto 303).
  • Tese de Carson (Autor C): [Jesus radicaliza as exigências do discipulado em relação à família e riquezas, fundamentando a ética não no legalismo, mas na ordem da criação e na História da Redenção.]

    • Carson argumenta vigorosamente que a “cláusula de exceção” em 19:9 é genuína e não contradiz o ensino de Jesus, pois a infidelidade sexual viola a unidade “uma só carne” estabelecida na criação (Carson, excerto 617). No episódio do Jovem Rico, Carson rejeita a tese de que Mateus alterou a pergunta (“Por que me perguntas sobre o bem?”) para proteger a divindade de Jesus; em vez disso, ele afirma que o foco é confrontar a compreensão inadequada do homem sobre o que é “bom”, apontando que apenas Deus é o padrão absoluto (Carson, excerto 627). Ele enfatiza que a palingenesia (regeneração/renovação) em 19:28 refere-se à consumação do reino, onde a graça triunfa apesar da rejeição humana (Carson, excertos 604, 630).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (Autor A)Visão de Nolland (Autor B)Visão de Carson (Autor C)
Palavra-Chave/Termo GregoTransição Geográfica (19:1). Enfatiza o movimento de metēren (partiu) como um marcador estrutural decisivo da Galileia para a Judeia, sinalizando a aproximação da Paixão (France, excerto 1; 252).Porneia (19:9). Analisa a sintaxe de mē epi porneia (“exceto por imoralidade sexual”). Observa que Mateus suprime a ligação linguística explícita com Dt 24:1 encontrada em Mt 5:32, criando uma tensão gramatical no texto (Nolland, excerto 271).Palingenesia (19:28). Define como a “renovação de todas as coisas” na consumação do reino, associando-a ao trono glorioso do Filho do Homem e à esperança escatológica judaica, não apenas a um conceito estoico (Carson, excerto 656).
Problema Central do TextoO foco narrativo é a mudança de público e local: de um ministério público na Galileia para uma instrução privada aos discípulos no caminho para a cruz, preparando-os para o confronto em Jerusalém (France, excerto 1).A dificuldade lógica criada pela edição mateana de Marcos. Ao inserir a cláusula de exceção, Mateus tenta harmonizar a proibição absoluta de Jesus com a realidade da porneia, mas deixa “traços” da legislação de Deuteronômio que complicam o argumento da criação (Nolland, excerto 271).O confronto com o casuísmo farisaico (Hillel vs. Shammai). O problema não é apenas legal, mas antropológico: o homem tenta justificar o divórcio “por qualquer motivo”, revelando uma compreensão inadequada da imago Dei e da união “uma só carne” (Carson, excerto 625-628).
Resolução TeológicaA narrativa serve como uma ponte teológica. Os ensinos sobre divórcio e riquezas não são apenas ética, mas testes de discipulado radical diante da iminente rejeição do Messias pelas autoridades (France, excerto 1).O celibato (eunucos) em 19:12 não é um estado espiritual superior, mas uma resposta pragmática e radical às demandas urgentes do Reino, que podem exigir o sacrifício da vida conjugal (Nolland, excerto 277).A indissolubilidade do casamento baseia-se na Ordem da Criação, anterior à Lei Mosaica. A exceção é válida porque a imoralidade sexual rompe a unidade ontológica do casal. O celibato é um dom carismático para utilidade no Reino, não um estado intrinsecamente mais santo (Carson, excerto 641, 647).
Tom/EstiloNarrativo-Crítico. Foca na estrutura literária e no movimento geográfico como chave hermenêutica.Técnico-Filológico. Minucioso na crítica textual e na análise das variantes gregas e tensões redacionais.Teológico-Harmonístico. Busca integrar as tensões éticas dentro da História da Redenção e polemiza contra leituras liberais.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Nolland (Autor B). Oferece a análise mais detalhada das nuances do texto grego e das variantes textuais, especialmente na complexa relação entre Mateus, Marcos e a legislação de Deuteronômio 24:1 (Nolland, excertos 262-271).
  • Melhor para Teologia: Carson (Autor C). Aprofunda melhor as doutrinas ao situar a ética do casamento e do discipulado dentro da História da Redenção, conectando a ordem da criação (Gênesis) com a escatologia (a palingenesia), evitando o legalismo e enfatizando a graça divina diante da impossibilidade humana de salvação (Carson, excertos 628, 656).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 19, deve-se utilizar a estrutura narrativa de France para situar o capítulo como o início da “via crucis” em direção a Jerusalém. Dentro dessa estrutura, a exegese de Nolland é essencial para navegar as complexidades técnicas da Cláusula de Exceção e do termo porneia. Finalmente, a teologia de Carson fornece a cola doutrinária, explicando como as exigências radicais sobre casamento, riquezas e renúncia (os Eunucos pelo Reino) não são condições legalistas, mas respostas à graça de Deus que opera o impossível (salvar o rico) e renovará o mundo na Palingenesia.

Cláusula de Exceção, Palingenesia, Dureza de Coração e Eunucos pelo Reino são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: Ensino sobre Divórcio e Celibato (Mateus 19:1-12)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Aitia (αἰτία): Em 19:3, Nolland observa que a adição de kata pasan aitian (“por qualquer motivo”) muda o foco de “se o divórcio é lícito” (Marcos) para “se o divórcio é lícito sob qualquer pretexto” (Nolland, excerto 268). Em 19:10, ele nota que o termo reaparece, mas com o sentido de “caso” ou “situação” (case/situation), e não “causa” (Nolland, excerto 277).
  • Porneia (πορνεία): Carson rejeita definições restritivas como “incesto” (visão de Mahoney) ou “prostituição espiritual”. Ele argumenta que porneia se sobrepõe a moicheia (adultério) mas é mais amplo, referindo-se a “infidelidade conjugal” ou “impureza sexual” (Carson, excerto 629).
  • Chōreō (χωρέω): Em 19:11-12, traduzido frequentemente como “receber” ou “aceitar”. Nolland critica a tradução “podem aceitar”, preferindo o sentido espacial de “ter espaço para” ou “compreender/agarrar” (grasp), sugerindo um entendimento mental e existencial profundo (Nolland, excerto 280).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Destaca a função estrutural da fórmula “tendo Jesus concluído estas palavras” (19:1) como um marcador de transição que encerra o quarto discurso e move a narrativa da Galileia para a Judeia, preparando o confronto final (France, excerto 1).
  • Nolland: Nota uma tensão redacional única em Mateus: ao tentar manter a consistência formal com Mt 5:32 (a cláusula de exceção), Mateus edita Marcos mas “suprime a conexão linguística com Dt 24:1”, embora a própria ideia de exceção seja um “traço” dessa ligação legalista que Jesus está superando (Nolland, excerto 276). Ele também sugere que a imagem do “eunuco” (v. 12) é usada pelo seu “valor de choque” (shock value), típico do Jesus histórico (Nolland, excerto 267).
  • Carson: Argumenta vigorosamente que a Cláusula de Exceção (19:9) é autêntica e não uma contradição de Marcos/Lucas. Ele refuta a teoria da “preterição” (que a cláusula seria um parêntese: “independente da porneia”) e a teoria da “separação sem novo casamento” (Quesnell/Wenham), insistindo que a gramática exige que a exceção governe toda a prótase, permitindo, portanto, o divórcio e o recasamento em caso de infidelidade sexual (Carson, excerto 630, 634).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Cláusula de Exceção (19:9): Existe um debate técnico sobre a relação entre Mateus e Marcos. Nolland vê a inserção da cláusula como uma tentativa de Mateus de harmonizar a proibição absoluta de Jesus com a realidade da impureza sexual, criando uma tensão lógica com o argumento da criação (vv. 4-8) (Nolland, excerto 276). Carson, por outro lado, harmoniza teologicamente: ele vê a exceção não como uma concessão legalista, mas como o reconhecimento de que a porneia rompe a unidade “uma só carne” estabelecida na criação, validando assim a dissolução (Carson, excerto 626).
  • A Resposta dos Discípulos (19:10-11): Nolland sugere que a frase “nem todos compreendem esta palavra” refere-se à alta exigência do ensino de Jesus sobre o casamento, e não ao comentário cínico dos discípulos (Nolland, excerto 279). Carson discorda, argumentando que “esta palavra” refere-se ao comentário dos discípulos (“melhor não casar”), mas interpretado por Jesus de uma forma que eles não pretendiam (falando mais verdade do que sabiam sobre o celibato pelo Reino), pois seria improvável Jesus dizer que sua própria ordem moral “não pode ser aceita por todos” (Carson, excerto 638, 281).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 1:27 e 2:24: Ambos Nolland (excerto 270) e Carson (excerto 626) concordam que Jesus apela para a “ordem da criação” para superar a concessão Mosaica. Nolland nota especificamente que Mateus segue a LXX ao incluir “os dois” (hoi dyo) em 19:5, o que reforça a monogamia contra a poligamia, uma nuance ausente no Texto Massorético (Nolland, excerto 271).
  • Deuteronômio 24:1-4: Identificado como o texto de prova dos Fariseus. Carson destaca que Jesus trata isso como uma concessão à “dureza de coração”, não como um mandamento absoluto (Carson, excerto 627).

5. Consenso Mínimo

  • Os autores concordam que Jesus radicaliza a exigência sobre o casamento, movendo a base da discussão da permissão legal (Deuteronômio) para a intenção original da Criação (Gênesis).

📖 Perícope: Jesus e as Crianças (Mateus 19:13-15)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Epetimēsan (ἐπετίμησαν - repreenderam): Nolland observa que, em Mateus, sempre que alguém além de Jesus repreende, essa ação está errada (cf. 16:22; 20:31). A repreensão dos discípulos sugere que viam Jesus como “importante demais” para ser incomodado (Nolland, excerto 285).
  • Cheiras (χεῖρας - mãos): A imposição de mãos é central aqui. Nolland nota que Mateus adiciona a “oração” (proseuxētai) à imposição de mãos, algo que Marcos não explicita tão claramente como propósito da vinda das crianças (Nolland, excerto 284).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Destaca uma mudança sutil: Mateus altera a construção ativa de Marcos (“traziam crianças”) para a passiva (“foram trazidas crianças a ele”), focando menos nos pais e mais no significado teológico do acesso das crianças ao Reino (Nolland, excerto 284).
  • Carson: Enfatiza que o Reino pertence “aos que são semelhantes a estes” (such as these), não necessariamente às crianças em si, mas àqueles que demonstram a dependência e humildade tipificadas por elas. Ele alerta contra o uso deste texto para justificar o batismo infantil sacramental, focando na disposição do discipulado (Carson, excerto 197 - implícito no contexto geral de sua teologia).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não há grande fricção teológica aqui, mas uma diferença na ênfase redacional. Nolland aponta que Mateus remove os elementos emocionais de Marcos (a indignação de Jesus e o abraço nas crianças), apresentando um Jesus mais hierático e focado na imposição de mãos como ato de bênção formal/oração (Nolland, excerto 284).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nolland observa que a combinação de “impor as mãos” e “orar” não é comum na LXX, embora a imposição de mãos para bênção seja uma prática patriarcal (Gênesis 48) (Nolland, excerto 284, nota 76).

5. Consenso Mínimo

  • As crianças servem como modelo para a entrada no Reino, e a atitude dos discípulos reflete uma incompreensão contínua sobre a natureza do ministério de Jesus.

📖 Perícope: O Jovem Rico (Mateus 19:16-22)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Agathon (ἀγαθόν - bom): O debate central gira em torno da pergunta “Mestre, que bom farei?” (Mateus) versus “Bom Mestre…” (Marcos/Lucas).
  • Neaniskos (νεανίσκος): Traduzido como “jovem”. Nolland define como alguém que já passou da puberdade, fisicamente maduro, um passo acima de meirakion (rapaz). Sugere que, por ser jovem, ele tinha “mais futuro para abrir mão” do que um ancião (Nolland, excerto 313).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Carson: Oferece uma defesa robusta da alteração de Mateus na pergunta do jovem. Enquanto críticos sugerem que Mateus mudou o texto para evitar que Jesus negasse sua própria bondade (cristologia), Carson argumenta que a questão em Mateus é sobre a natureza das “boas obras”. O jovem pensa que pode fazer algo “bom” para garantir a vida eterna; Jesus corrige essa teologia de mérito apontando que apenas Deus é o padrão de bondade (Carson, excerto 641-643).
  • Nolland: Observa que a resposta de Jesus em Mateus (“Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos”) cria uma estrutura mais integrada onde a pergunta sobre o “bem” leva diretamente ao Decálogo, unificando o diálogo mais do que em Marcos (Nolland, excerto 312).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Pergunta sobre o “Bom”: A divergência é primariamente Crítico-Redacional. A maioria dos críticos (citados por Carson) vê a mudança de Mateus como uma proteção teológica à impecabilidade de Jesus. Carson rejeita isso, argumentando que tanto em Mateus quanto em Marcos, o foco é teocêntrico: definir o “bom” apenas em relação a Deus (Carson, excerto 642). Nolland concorda que a edição de Mateus serve para focar o diálogo na ação ética exigida (“o que devo fazer”), em vez de um debate sobre títulos honoríficos (Nolland, excerto 311).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Decálogo (Êxodo 20 / Deuteronômio 5): Jesus cita a segunda tábua da lei (relações humanas). Carson nota que a omissão dos mandamentos sobre Deus não implica que sejam menos importantes, mas que o amor ao próximo é a prova visível da obediência (Carson, excerto 669 - contexto geral).
  • Levítico 19:18: A adição de “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v. 19) é exclusiva de Mateus neste ponto, resumindo a segunda tábua.

5. Consenso Mínimo

  • A posse de riquezas não é condenada per se, mas o apego a elas é apresentado como um obstáculo insuperável para o discipulado radical, exigindo uma escolha binária entre Deus (seguir Jesus) e Mamom (bens).

📖 Perícope: Perigos da Riqueza e Recompensa (Mateus 19:23-30)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Kamilon vs. Kamelon: Nolland menciona a variante textual kamilon (cabo/corda) em vez de kamelon (camelo) em alguns manuscritos tardios, mas rejeita-a como uma tentativa de suavizar a imagem do “camelo pelo buraco de uma agulha” (Nolland, excerto 314).
  • Palingenesia (παλιγγενεσία): Termo raro (v. 28). Carson e Nolland concordam que se refere à renovação escatológica. Nolland nota que não há equivalente semítico direto, mas o conceito é enraizado em Isaías 65:17 (novos céus e nova terra) (Nolland, excerto 323).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Analisa a variante trupēma (buraco) em Mateus 19:24 versus trumalia em Marcos. Sugere que Mateus pode ter evitado trumalia devido a possíveis conotações sexuais ou vulgares associadas à palavra em certos contextos gregos (Nolland, excerto 316).
  • Carson: Destaca que a promessa dos “doze tronos” (v. 28) implica que os apóstolos participarão do julgamento/governo escatológico sobre o Israel reconstituído, ligando a eclesiologia de Mateus à esperança de Israel (Carson, excerto 321, 322).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Salvação dos Ricos (19:26): “Para os homens é impossível”. Carson enfatiza que isso se refere especificamente à salvação dos ricos (que a teologia popular via como abençoados), quebrando o paradigma de que riqueza = favor divino (Carson, excerto 318). Nolland concorda que a impossibilidade é humana, mas destaca que o “olhar fixo” (emblepsas) de Jesus marca a solenidade da intervenção divina necessária para quebrar o “efeito hipnotizante” das riquezas (Nolland, excerto 318).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Daniel 7:13 e Salmo 110:1: A imagem do “Filho do Homem assentado no trono da sua glória” (v. 28) é vista por Nolland como uma fusão da visão de Daniel com a entronização do Salmo 110, possivelmente mediada por 1 Enoque (Nolland, excerto 322, nota 130).

5. Consenso Mínimo

  • A salvação é um ato soberano de Deus (“possível para Deus”) e não uma conquista humana; a renúncia presente será recompensada desproporcionalmente na palingenesia.