Texto Interlinear (Grego/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Mateus 18
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
- France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
- Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew (NICNT).
- Lente Teológica: Evangélica / Crítica de Redação. O autor foca em como Mateus expande e adapta a base sinótica (Marcos) para a sua audiência.
- Metodologia: Análise narrativa e teológica. France aborda o texto observando as grandes seções narrativas, vendo o capítulo 18 como uma expansão substancial da tradição de Marcos, voltada para o “consumo interno” da comunidade de discípulos (France, “The most substantial Matthean addition…”).
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Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew (NIGTC).
- Lente Teológica: Crítico-Histórica / Filológica. O autor utiliza uma exegese técnica do grego, comparando variantes textuais e o uso da LXX, com forte ênfase na estrutura literária e quiástica do texto.
- Metodologia: Exegese gramatical rigorosa e crítica textual. Nolland disseca o texto grego (ex: o uso de skandalon, paidion), propõe estruturas quiásticas (ex: em 18:10-14) e analisa o fluxo lógico das perícopes como “Status e Comportamento na Família Real” (Nolland, “XIV. Status and Behaviour…”).
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Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew (REBC).
- Lente Teológica: Evangélica Reformada / Teologia Bíblica. Carson defende a historicidade dos discursos e interpreta as instruções éticas dentro de uma escatologia inaugurada.
- Metodologia: Exegese teológica e histórica. Ele combate interpretações liberais (ex: Bultmann) e comparações anacrônicas (ex: Qumran), focando na aplicação prática da “Autoridade do Reino” na vida da igreja (Carson, “Fourth Discourse…“).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de France (NICNT): O capítulo 18 é o quarto grande discurso de Mateus, constituindo um ensino exclusivo para o “consumo interno” do grupo de discípulos sobre a preocupação e comportamento mútuos.
- Argumento: France identifica que, embora Mateus siga Marcos de perto na seção narrativa maior (16:21–20:34), o capítulo 18 é uma expansão substancial baseada em Marcos 9:33-37. A ênfase recai sobre a natureza paradoxal dos valores do reino aplicados à comunidade (France, “…takes off from a brief Synoptic base”).
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Tese de Nolland (NIGTC): O discurso estabelece o status e comportamento na ‘Família Real’, onde a humildade natural da criança é o modelo, e a comunidade possui autoridade divina para restaurar pecadores e regular comportamentos.
- Argumento: Nolland organiza o capítulo sob o título “Status and Behaviour in the ‘Royal Family’“. Ele argumenta que a humildade exigida não é apenas uma postura escolhida, mas comparável à “humildade natural” de uma criança, que a poupa da tentação de status (Nolland, “natural humility… positive significance”). Em relação à disciplina eclesiástica (18:15-20), Nolland enfatiza a restauração: a igreja, instruída por Jesus, tem autoridade (“ligar e desligar”) para confirmar padrões de comportamento apoiados por Deus, visando trazer de volta o irmão que errou (Nolland, “Challenging Sin with a Concern for Restoration”). Ele também destaca uma estrutura quiástica na parábola da ovelha perdida, centrada na busca e no encontro (Nolland, “chiastic pattern centred on the seeking”).
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Tese de Carson (REBC): O capítulo apresenta a Vida sob a Autoridade do Reino, rejeitando a ambição por status e estabelecendo a igreja como uma comunidade messiânica escatológica que exerce disciplina judicial e perdão ilimitado.
- Argumento: Carson rejeita comparações diretas com as regulações de Qumran (1QS), argumentando que Mateus lida com princípios e não apenas regras legais (Carson, “contrasts with 1QS are far more noticeable”). Ele interpreta “ligar e desligar” e a concordância de “dois ou três” (18:19-20) não como uma promessa geral de oração, mas como um contexto judicial (“about any judicial matter”), onde a presença de Jesus valida as decisões disciplinares da igreja (Carson, “judges solemnly convened before the church”). Carson conecta teologicamente a cura e a autoridade sobre o pecado, vendo a comunidade como uma “ecclesia escatológica” que deve refletir a graça do empregador da parábola (Carson, “amazing grace and compassion”).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão do France (NICNT) | Visão do Nolland (NIGTC) | Visão do Carson (REBC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave/Termo Grego | Discurso (Logia): Vê o capítulo 18 como o quarto grande discurso, uma expansão substancial da base sinótica para “consumo interno” do grupo (France, “internal consumption…”). | Skandalon (Escândalo/Tropeço): Analisa a raiz grega ligada a causar a queda de terceiros, conectando-a tematicamente com 13:41 (Nolland, “causes of stumbling”). | Ekklesia (Igreja): Define não apenas como assembleia local, mas como o “povo escatológico” do Messias, que exerce o ministério das chaves (Carson, “eschatological ekklēsia”). |
| Problema Central do Texto | A necessidade de instrução sobre o comportamento mútuo dentro da comunidade de discípulos, contrastando com ambições de status (France, “mutual concern and behavior”). | A proteção dos “pequeninos” (little ones) e como a comunidade deve lidar com o pecado para evitar a perda de um membro da “Família Real” (Nolland, “Challenging Sin with a Concern for Restoration”). | A carnalidade da disputa por grandeza e a necessidade de uma justiça radical que supere a dos escribas, focada na humildade e perdão (Carson, “carnality of the opening question”). |
| Resolução Teológica | Propõe que os valores do reino são paradoxais: a verdadeira grandeza é a humildade e o cuidado pastoral pelos vulneráveis (France, “paradoxical nature of the values”). | A autoridade de ligar e desligar (18:18) refere-se à capacidade da igreja de confirmar padrões de comportamento apoiados por Deus para restauração (Nolland, “confirm the standard of behaviour”). | A promessa de “dois ou três” (18:20) refere-se a juízes/testemunhas reunidos judicialmente para decidir sobre disciplina, com a presença de Jesus ratificando a decisão (Carson, “judges solemnly convened”). |
| Tom/Estilo | Narrativo/Redacional: Foca em como Mateus expande Marcos para instruir a comunidade (France, “most substantial Matthean addition”). | Técnico/Estrutural: Enfatiza quiasmos (ex: 18:10-14) e análise léxica detalhada do grego e variantes textuais (Nolland, “chiastic pattern”). | Teológico/Polêmico: Engaja-se com debates históricos (ex: Qumran, Derrett) e implicações dogmáticas sobre autoridade e graça (Carson, “contrasts with 1QS”). |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Nolland (NIGTC) fornece o melhor background técnico e literário. Sua análise da estrutura quiástica da parábola da ovelha perdida (18:10-14) e as conexões léxicas com o Antigo Testamento (ex: Ezequiel 34) oferecem uma compreensão profunda da composição do texto e da “Família Real” de Deus (Nolland, “chiastic pattern centred on the seeking”).
- Melhor para Teologia: Carson (REBC) aprofunda melhor as doutrinas eclesiásticas e escatológicas. Sua interpretação de “ligar e desligar” e da reunião de “dois ou três” não como uma promessa genérica de oração, mas como um contexto judicial de disciplina eclesiástica, oferece uma resolução teológica robusta e prática para a vida da igreja (Carson, “judges solemnly convened before the church”).
- Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 18, deve-se começar com a estrutura literária de Nolland, que organiza o texto como normas para a “Família Real”, integrando a humildade da criança com a autoridade da comunidade. Deve-se, então, aplicar a teologia de Carson, que define essa autoridade (chaves do reino) como um exercício disciplinar e judicial visando a pureza e o perdão, fundamentado na graça do rei (parábola do credor incompassivo). Por fim, a visão de France ancora essas instruções na realidade narrativa de um discurso interno para o discipulado, prevenindo que o texto se torne apenas um manual de regras legais, mantendo-o como um ensino sobre valores paradoxais do Reino.
Skandalon, Ekklesia, Mikroi e Palingenesia são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: Verdadeira Grandeza (Versículos 18:1-5)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- στραφῆτε (straphēte - “converter-se/mudar”): Carson argumenta que este verbo não deve ser lido como um termo técnico para “conversão” soteriológica paulina, mas sim como uma mudança de direção imediata: afastar-se da ambição por status (Carson, “unless you change…”).
- ταπεινώσει (tapeinōsei - “humilhar-se”): Existe um debate sobre a natureza desta humildade. Nolland insiste que não se trata de uma virtude moral auto-imposta, mas de uma aceitação objetiva de “status baixo”, comparável à “humildade natural” de uma criança que não tem poder social (Nolland, “Natural humility…”).
- παιδίον (paidion - “criança”): Ambos os autores concordam que o termo não idealiza a inocência moral da criança, mas sua posição social de dependência e falta de status.
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- France: Destaca que este discurso é para “consumo interno” do grupo de discípulos, focado no comportamento mútuo, diferindo do ensino público das parábolas (France, “internal consumption of the disciple group”).
- Nolland: Observa que a frase “naquela hora” (v. 1) marca uma continuidade temática com o episódio anterior (o imposto do templo), mantendo o interesse em “status e comportamento na Família Real”. Ele também identifica que Mateus generaliza o material de Marcos 10:15 (“receber o reino”), transformando-o em uma exigência ontológica: “tornar-se como crianças” (Nolland, “generalised the Mk. 10:15 material”).
- Carson: Sugere uma harmonização psicológica para a introdução abrupta da pergunta dos discípulos. Enquanto Marcos diz que eles discutiam no caminho e Lucas que Jesus discerniu seus pensamentos, Carson propõe que Jesus detectou a rivalidade (Lucas), silenciou-os (Marcos), e então eles “deixaram escapar” a pergunta em Mateus (Carson, “blurted out their question”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Natureza da Humildade:
- Nolland foca no status objetivo: a criança é modelo porque é pequena socialmente.
- Carson enfatiza a ação volitiva: “quem se humilhar”, conectando isso à reversão de valores do Reino onde o serviço define a grandeza.
- Quem é a Criança no v. 5?
- Carson e Nolland concordam que a criança literal do v. 2 torna-se um modelo para o “filho de Deus” metafórico ou o discípulo humilde no v. 5. Nolland nota que “uma tal criança” refere-se a alguém que se tornou como a criança do v. 2 (Nolland, “refers to one who has ‘become like children’”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Nenhum dos comentaristas destaca uma citação direta do AT nestes versículos específicos, focando mais na estrutura interna do ensino de Jesus e paralelos sinóticos.
5. Consenso Mínimo
- A entrada e a grandeza no Reino exigem uma reversão radical de valores, onde a posição social de dependência e “pequenez” (como a de uma criança) é o pré-requisito, em contraste direto com a ambição dos discípulos.
📖 Perícope: Tropeços e Tentações (Versículos 18:6-9)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- σκανδαλίσῃ (skandalisē - “fazer tropeçar/escandalizar”): Carson define como “fazer pecar” ou “entrapment” (armadilha), ligando ao termo paulo proskomma (obstáculo) (Carson, “heinousness of causing believers to sin”).
- μύλος ὀνικὸς (mylos onikos - “moinho de asno”): Nolland destaca o detalhe filológico de que se trata de uma grande pedra de moinho, movida por um animal, em contraste com as pedras manuais menores, enfatizando a severidade do julgamento (Nolland, “donkey millstone… heavy weight”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Nolland: Analisa a mudança gramatical para a segunda pessoa do singular nos versículos 8-9 (“tua mão”), sugerindo que isso reforça a responsabilidade individual dentro da comunidade. Ele vê uma conexão temática com Mateus 5:29-30, mas com uma aplicação mais ampla aqui: não apenas pecado sexual, mas qualquer pecado que cause tropeço (Nolland, “wider sense… any sin”).
- Carson: Observa que a inclusão de versículos “duros” como 8-9 serve para sublinhar a “radicalidade” das demandas de Jesus, conectando o “fogo eterno” (v. 8) e a “Geena de fogo” (v. 9) como evidências de que Mateus não suaviza o julgamento (Carson, “seriousness of the challenges issued”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Literalidade da Mutilação:
- Ambos concordam que é hiperbólico. Carson afirma que a mão e o olho representam os meios primários de contato com o mundo, e o ponto é que “o pecado é um assunto tão sério que qualquer sacrifício vale a pena para eliminá-lo” (Carson, “sin is such a serious matter”).
- O “Pequenino” (Mikroi):
- Nolland vê uma transição de crianças literais para “pequeninos que creem”, ampliando a categoria para qualquer discípulo vulnerável (Nolland, “category broadens”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Isaías 66:24: Carson nota que a frase “Geena de fogo” e o conceito de fogo eterno ecoam o julgamento final descrito em Isaías (Carson, “quote from Is. 66:24 in Mk 9:48”).
5. Consenso Mínimo
- É infinitamente pior causar a queda espiritual de um discípulo (ou permitir o próprio pecado) do que sofrer uma morte física violenta ou mutilação; o destino eterno está em jogo.
📖 Perícope: A Ovelha Perdida (Versículos 18:10-14)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- πλανηθῇ (planēthē - “desgarrar-se”): Nolland nota que Mateus usa este verbo (“ser levado ao erro”) para conectar com a linguagem de “tropeço” dos versos anteriores, diferindo de Lucas que foca na “perda” (Nolland, “led astray… fits with causing-to-stumble”).
- θέλημα ἔμπροσθεν (thelēma emprosthen - “vontade perante”): Nolland identifica esta construção como um semitismo (“vontade diante do meu Pai”), indicando um desejo divino ativo (Nolland, “Semitic… something desired in the presence of”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Nolland: Identifica uma estrutura quiástica precisa nos vv. 12-13 centrada na sequência: ir buscar → encontrar → alegrar-se. O ponto pivotal é a esperança de encontrar (Nolland, “chiastic pattern centred on the seeking”).
- Carson: Argumenta contra a visão de que os “anjos” (v. 10) referem-se a espíritos guardiões de crianças literais. Ele insiste que “pequeninos” são discípulos, e a passagem afirma o alto valor que o Pai atribui a cada crente, garantindo acesso direto à presença divina (Carson, “access to the divine presence”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- O Objeto da Parábola (Mateus vs. Lucas):
- Carson: Em Lucas 15, a parábola é apologética (defesa de Jesus comer com pecadores). Em Mateus, é pastoral/eclesiológica (responsabilidade da igreja de buscar o cristão que se desvia).
- Nolland: Concorda, notando que Mateus “corta e adapta” (top and tail) a parábola para focar na responsabilidade da comunidade (“royal family”) de não deixar ninguém perecer (Nolland, “rescue effort… participation in that of God”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Ezequiel 34: Nolland vê uma relação direta com Ezequiel 34:10-16, onde o próprio Deus é o pastor que busca. A comunidade cristã deve modelar-se nas prioridades de Deus (Nolland, “link to Ez. 34… rescue effort”).
5. Consenso Mínimo
- A comunidade não pode ser passiva em relação aos que se desviam; a vontade de Deus é ativa na busca e restauração de cada “pequenino”, e o desprezo por um membro errante é contrário à vontade do Pai.
📖 Perícope: Disciplina na Comunidade (Versículos 18:15-20)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ἐκκλησία (ekklesia - “igreja”): Carson defende que o uso não é anacrônico, referindo-se à comunidade messiânica escatológica que Jesus estava edificando (Carson, “eschatological ekklesia”).
- δέειν / λύειν (deein/lyein - “ligar/desligar”): Carson explica que estes termos rabínicos referem-se a proibir e permitir (autoridade haláquica) e, por extensão, excomungar e absolver (disciplina) (Carson, “prohibit and command… discipline”).
- πρᾶγμα (pragma - “coisa/assunto”): No v. 19, refere-se a qualquer assunto judicial ou disciplinar dentro da comunidade (Carson, “any judicial matter”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Carson: Rejeita a comparação simplista com Qumran (1QS). Enquanto Qumran foca em regulações mecânicas, Mateus 18 foca na reconciliação. Carson interpreta o “dois ou três” (v. 20) não como um “grupo de oração”, mas como testemunhas/juízes em um contexto de disciplina eclesiástica, onde Jesus ratifica a decisão (Carson, “judges solemnly convened”).
- Nolland: Enfatiza que “ligar e desligar” no plural (v. 18) transfere a autoridade de Pedro (16:19) para a comunidade. A igreja tem autoridade para confirmar padrões de comportamento apoiados por Deus. Ele vê a presença de Jesus (v. 20) substituindo a Shekinah do templo ou do estudo da Torá (Nolland, “confirm the standard… Shekhinah”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- “Ganhar o irmão” (v. 15):
- Nolland destaca que o objetivo primário é a restauração (“gained your brother”), não a pureza asséptica da comunidade.
- O significado de “Gentio e Publicano” (v. 17):
- A tensão é: Jesus era amigo de publicanos, mas aqui o termo parece negativo. Carson resolve isso notando que, para a igreja, tratar alguém como gentio/publicano significa reconhecer que essa pessoa está fora da esfera da comunhão de aliança, necessitando de evangelização, não de comunhão interna (Carson, “outside the locus of the covenanted community”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Deuteronômio 19:15: Ambos os autores identificam a exigência de “duas ou três testemunhas” como uma aplicação direta da lei deuteronômica para processos judiciais justos (Carson & Nolland, ref. Dt 19:15).
5. Consenso Mínimo
- A igreja possui autoridade delegada por Deus para exercer disciplina; o processo deve ser gradual, visando sempre a restauração, mas com autoridade final para definir quem pertence ou não à comunidade visível, com a ratificação da presença de Jesus.
📖 Perícope: O Perdão Ilimitado (Versículos 18:21-35)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- ἑβδομηκοντάκις ἑπτά (hebdomēkontakis hepta): Carson e Nolland discutem se é 77 vezes ou 70 vezes 7. Ambos concordam que a precisão matemática é irrelevante; o ponto é o eco de Gênesis 4:24 (Lameque), revertendo a vingança ilimitada em perdão ilimitado (Carson, “reversing Lamech… no limit”).
- μυρίων ταλάντων (myriōn talantōn - “dez mil talentos”): Carson nota a hipérbole fantástica. Um talento equivalia a 6.000 denários. A dívida é incalculável, impagável (Carson, “fantastic hyperbole”).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Carson: Destaca que o limite rabínico para perdão era três vezes (baseado em Amós 1:3). Pedro, ao sugerir sete, pensava estar sendo extremamente generoso. Jesus explode essa contabilidade (Carson, “Rabbinic discussion… three times”).
- Nolland: Observa a estrutura da parábola. A introdução “O Reino dos céus é semelhante…” liga a atitude do rei à natureza do Reino. Ele argumenta que o versículo 34 (a entrega aos torturadores) é original e essencial para o clímax da parábola, enfatizando a seriedade do julgamento para quem não perdoa (Nolland, “punishment fits the crime”).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Base Teológica do Perdão:
- Nolland enfatiza que a parábola ilustra que a preservação do status de perdoado depende da disposição de “passar o favor adiante” (Nolland, “pass the favour on”).
- Carson adiciona que o perdão deve vir “do coração” (v. 35), o que localiza a identidade central da pessoa. Não é um ato legalista, mas uma transformação de caráter gerada pela graça recebida (Carson, “core identity… forgiveness that runs deep”).
4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)
- Gênesis 4:24: A reversão da canção de vingança de Lameque é o eco primário identificado por ambos para explicar a numerologia do perdão (Carson & Nolland).
5. Consenso Mínimo
- O perdão divino é a base e o modelo para o perdão humano; a recusa em perdoar um “irmão” demonstra que a pessoa não compreendeu ou não internalizou a graça de Deus, resultando em julgamento severo e revogação da misericórdia.