Análise Comparativa: Mateus 14

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor A: John Nolland (The Gospel of Matthew)

    • Lente Teológica: Crítico-Histórica com forte ênfase na Crítica Literária e Crítica das Fontes. Nolland demonstra um interesse meticuloso na estrutura do texto grego e nas variações textuais.
    • Metodologia: Sua abordagem é altamente técnica, focada na história da tradição e na redação mateana. Ele frequentemente compara Mateus com Marcos e Lucas para identificar a “mão” editorial de Mateus. Em Mateus 14, ele utiliza uma análise estrutural (quiasmo) para explicar a organização da narrativa e recorre a paralelos do Antigo Testamento (ex: Elias/Eliseu) e literatura judaica (Josefo) para iluminar o texto (Nolland, p. 169, 173).
  • Autor B: D. A. Carson (Matthew)

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Reformada. Carson mantém uma postura de defesa da historicidade dos relatos evangélicos e uma leitura histórico-redentora.
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Exegese Gramatical. Carson interage com a crítica moderna (como Bultmann e Held), muitas vezes para refutar conclusões céticas ou reducionistas. Ele busca harmonizar as discrepâncias sinóticas (ex: as diferenças entre Marcos e Mateus no andar sobre as águas) sem sacrificar a integridade histórica, focando na intenção teológica do autor de apresentar Jesus como o Filho de Deus (Carson, p. 721-722).
  • Autor C: R. T. France (The Gospel of Matthew)

    • Lente Teológica: Evangélica Moderada com foco na Narrativa.
    • Metodologia: France prioriza a estrutura literária ampla e o fluxo narrativo do Evangelho. Ele situa o capítulo 14 dentro da grande seção “A Galileia: O Messias Revelado em Palavra e Ação” (4:12–16:20). Sua abordagem busca identificar padrões deliberados e o desenvolvimento da autoridade de Jesus através da reordenação de perícopes marcanas e a inserção de material discursivo (France, p. 1-2).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de John Nolland: O capítulo 14 deve ser lido dentro de uma estrutura quiástica maior (14:1–16:20) que destaca a identidade de Jesus e o destino paralelo entre o precursor (João) e o Messias, enfatizando a perspectiva do Emanuel (“Deus conosco”) nos milagres.

    • Argumento Expandido: Nolland propõe que Mateus 14 inicia uma seção estruturada quiasticamente, onde a opinião de Herodes sobre Jesus (14:1-2) corresponde à confissão de Pedro (16:13-20) (Nolland, p. 169). Ele destaca que a alimentação dos cinco mil é “moldada por material centralmente interessado na identidade de Jesus”, contribuindo para a Cristologia (Nolland, p. 181). Sobre a morte de João Batista, Nolland argumenta que Mateus a utiliza como um flashback para antecipar a rejeição e o destino de Jesus (Nolland, p. 173). No episódio de andar sobre as águas, ele sugere que a adoração dos discípulos é uma resposta à percepção de que “Jesus age como Deus age” (Nolland, p. 194).
  • Tese de D. A. Carson: Os eventos de Mateus 14 servem para demonstrar a autoridade única e a divindade de Jesus (Filho de Deus) diante da crescente polarização e oposição, rejeitando interpretações que minimizam a historicidade ou supervalorizam o papel dos discípulos.

    • Argumento Expandido: Carson enfatiza que os milagres, como a alimentação da multidão, focam na compaixão messiânica de Jesus e em um “milagre de criação”, rejeitando leituras racionalistas ou puramente eucarísticas anacrônicas (Carson, p. 718). Contra a tese de Held de que Mateus idealiza os discípulos, Carson argumenta que a narrativa contrasta a autoridade de Jesus com a “pequena fé” e compreensão limitada dos discípulos (Carson, p. 720). No andar sobre as águas, Carson defende que a ênfase de Mateus na confissão “Verdadeiramente és o Filho de Deus” é compatível com a “dureza de coração” relatada por Marcos, refletindo uma caracterização sutil da fé incipiente (Carson, p. 722).
  • Tese de R. T. France: O capítulo 14 está inserido na seção do ministério na Galileia, onde a autoridade messiânica de Jesus é demonstrada através de atos de poder que preparam o cenário para a rejeição futura, inserindo-se num padrão deliberado de revelação progressiva.

    • Argumento Expandido: France localiza este capítulo na seção 4:12–16:20, intitulada “O Messias Revelado em Palavra e Ação”. Ele argumenta que, após a introdução de Jesus como o Messias de Israel e Filho de Deus, a narrativa avança para lançar a missão messiânica (France, p. 1). Ele observa que, embora haja padrões deliberados, “há menos sinal de um design abrangente” nesta seção do que em outras, sugerindo que Mateus agrupa materiais para preencher o período do ministério do norte, expandindo o relato de Marcos para aumentar a impressão da autoridade de Jesus (France, p. 2).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de John Nolland (NIGTC)Visão de D. A. Carson (REBC)Visão de R. T. France (NICNT)
Palavra-Chave/Termo Gregoκόφινος (kophinos): Define como uma cesta geral, possivelmente usada por soldados ou camponeses, distinta da spyris (usada na alimentação dos 4.000). Vê o número 12 como simbólico para “alimento para todo Israel” (Nolland, s.v. Mt 14:20).ὀλιγόπιστοι (oligopistoi): Traduz não apenas como “pequena fé”, mas qualitativamente como “fé pobre”. Argumenta que Mateus não idealiza os discípulos, mas mostra que a fé deles, embora presente, é de má qualidade e precisa crescer (Carson, s.v. Mt 14:31).ἀναχωρέω (anachōreō): Destaca o “retirar-se” de Jesus como um movimento estratégico recorrente em Mateus (cf. 2:22; 4:12; 12:15). Em 14:13, marca o recuo diante do perigo político representado por Herodes, preparando o cenário para o milagre no deserto (France, s.v. Mt 14:13).
Problema Central do TextoO problema é estrutural e cristológico: Como as narrativas de rejeição (Nazaré, Herodes) se contrastam com a revelação da identidade de Jesus aos discípulos? Vê a confissão no barco como a resposta correta à pergunta de Herodes e do povo (Nolland, s.v. Mt 14:33).O problema é apologético e histórico: Combate interpretações críticas (ex: G. Bornkamm, H.J. Held) que veem a narrativa como uma alegoria do discipulado pós-pascal ou negam o milagre físico (ex: interpretações eucarísticas anacrônicas) (Carson, s.v. Mt 14:13-21, 23-25).O problema é narrativo e geográfico: Como explicar a transição da rejeição para a demonstração de poder divino. France foca na continuidade do ministério na Galileia e na ironia de que a tentativa de privacidade leva a uma demonstração pública de compaixão (France, s.v. Mt 14:13-14).
Resolução TeológicaTeofania e Adoração: A caminhada sobre as águas culmina na adoração dos discípulos e na confissão “Verdadeiramente és o Filho de Deus”, que Nolland vê como um reconhecimento de que Jesus age como Deus age, superando a “dureza de coração” relatada em Marcos (Nolland, s.v. Mt 14:33).Senhorio e Fé: Resolve a tensão mostrando que Jesus é o Mestre da natureza e o Filho de Deus. A resposta teológica é que a fé verdadeira expulsa o medo; a “pequena fé” é repreendida não por não existir, mas por não confiar no poder presente de Jesus (Carson, s.v. Mt 14:31-33).O Messias de Israel: Jesus é apresentado como o pastor compassivo (ecoando Ez 34 e Moisés/Maná), cujas ações revelam sua identidade messiânica em contraste com a falsa realeza de Herodes. O milagre é uma antecipação do banquete messiânico (France, s.v. Mt 14:16-21).
Tom/EstiloTécnico-Redacional: Foca intensamente em como Mateus altera Marcos e nas nuances do grego e paralelos da LXX (Nolland, s.v. Mt 14:22).Polêmico-Doutrinário: Engaja-se vigorosamente contra a alta crítica e defende a historicidade e a coerência interna da narrativa (Carson, s.v. Mt 14:13-21).Narrativo-Expositivo: Flui com a história, conectando pontos geográficos e temas literários de forma acessível (France, s.v. Mt 14:1).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: John Nolland. Ele oferece o detalhamento mais rico sobre o background histórico (ex: a distinção entre os Herodes, a geografia de Genesaré) e filológico (análise de termos gregos raros como basanizomenon e distazō), situando o texto firmemente dentro das tradições judaicas e da redação mateana (Nolland, s.v. Mt 14:1, 14:24).
  • Melhor para Teologia: D. A. Carson. Sua análise é superior na extração de implicações doutrinárias robustas, especialmente na defesa da Cristologia do “Filho de Deus” e na definição precisa de fé (oligopistia) contra interpretações existencialistas ou reducionistas. Ele conecta os milagres diretamente à identidade divina de Jesus e à formação dos discípulos (Carson, s.v. Mt 14:33).
  • Síntese: Para uma exegese completa de Mateus 14, deve-se utilizar a estrutura literária de Nolland para entender como a morte de João Batista prefigura a Paixão de Cristo, unida à defesa histórica de Carson sobre a natureza dos milagres como atos de criação e não meras parábolas eclesiais. France deve ser utilizado para conectar a narrativa da alimentação à tipologia do Novo Êxodo, onde Jesus atua como o novo Moisés no deserto. A compreensão holística exige reconhecer que a Autoridade Divina de Jesus sobre a natureza (andar sobre as águas) e sobre a provisão (alimentação) tem como objetivo final conduzir os discípulos da “pequena fé” para a confissão plena de sua Filiação Divina.

5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Morte de João Batista e a Opinião de Herodes (14:1-12)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Τετράρχης (Tetrarchēs): Nolland observa que Mateus corrige o título de Herodes para “tetrarca” (governante de um quarto) em 14:1, sendo tecnicamente preciso, embora deslize para o uso popular de “rei” (basileus) em 14:9 (Nolland, s.v. Mt 14:1). Carson concorda que “tetrarca” é o título oficial, observando que Herodes Antipas governava a Galileia e a Pereia (Carson, s.v. Mt 14:1).
  • Γενέσια (Genesia): Termo usado em 14:6. Nolland aponta que no grego helenístico significava tanto “aniversário” quanto “celebração de aniversário”, sugerindo aqui a festa em si. Ele nota o uso incomum do dativo (genesiois genomenois) (Nolland, s.v. Mt 14:6). Carson destaca a dificuldade gramatical da frase, possivelmente um dativo absoluto, raro no NT (Carson, nota sobre 14:6).
  • Ὁμολογέω (Homologeō): Em 14:7, traduzido como “prometeu”. Nolland nota que o significado de “prometer” não tem paralelo exato no NT, mas encontra eco em Josefo e no uso da LXX para votos e ofertas voluntárias (Nolland, s.v. Mt 14:7).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Destaca que a narrativa da execução de João funciona como um flashback (14:3-12) necessário para explicar a opinião de Herodes em 14:2. Ele sugere que, na narrativa de Mateus, a opinião de Herodes e a execução de João ocupam “aproximadamente o mesmo bloco de tempo”, criando uma continuidade imediata entre a morte de João e o retiro de Jesus (Nolland, s.v. Mt 14:13). Ele também observa a ironia de que a cabeça de João é tratada como um “troféu de guerra” num contexto de banquete (Nolland, s.v. Mt 14:8).
  • Carson: Traz uma harmonização detalhada com Flávio Josefo. Ele argumenta que os motivos políticos (citados por Josefo) e os morais/religiosos (citados pelos Evangelhos) para a morte de João não são excludentes, mas se misturam: o fanatismo religioso com tons messiânicos era politicamente perigoso (Carson, s.v. Mt 14:3-5). Ele também oferece uma análise psicológica de Herodes, comparando-o a Acabe (mau mas fraco) e Herodias a Jezabel (má e implacável) (Carson, s.v. Mt 14:3-5).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Tristeza de Herodes (v. 9):
    • Nolland: Vê a tristeza de Herodes (lypētheis) relacionada à antecipação do impacto público negativo de executar um profeta popular como João, além do respeito que ele poderia ter por ele (Nolland, s.v. Mt 14:9).
    • Carson: Interpreta a “tristeza” como evidência da ambivalência moral de Herodes. Ele defende a leitura textual mais difícil que liga a tristeza diretamente ao rei, sugerindo que, apesar de endurecido, ele temia ser visto como fraco diante dos convidados (Carson, s.v. Mt 14:9).
  • A Crença na Ressurreição (v. 2):
    • Nolland: Considera a ideia de Herodes (João ressurreto) como uma noção popular intrinsecamente não improvável, mas teologicamente inadequada, embora aponte na direção correta ao ligar Jesus à ressurreição (Nolland, s.v. Mt 14:2).
    • Carson: Vê a declaração de Herodes como fruto de uma consciência culpada combinada com superstição e uma visão eclética da ressurreição farisaica, já que João não realizou milagres em vida (Carson, s.v. Mt 14:1-2).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nolland: Cita Juízes 11:30 (o voto de Jefté) como paralelo para o juramento grandioso e imprudente de Herodes em 14:7. Também conecta a decapitação a vários textos do AT e Apócrifos onde cabeças são removidas (ex: Jd 13:1; 1 Mac 7:47) (Nolland, s.v. Mt 14:7, 10).
  • Carson: Concorda com a tipologia implícita de Acabe e Jezabel para Herodes e Herodias, sugerindo que a narrativa evoca a perseguição aos profetas do AT, como Elias (Carson, s.v. Mt 14:3-5).

5. Consenso Mínimo Ambos concordam que a narrativa serve para prefigurar a rejeição violenta que Jesus também sofrerá e que a execução de João foi injusta e manipulada por Herodias.


📖 Perícope: A Alimentação dos Cinco Mil (14:13-21)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Σπλαγχνίζομαι (Splanchnizomai): Traduzido como “teve compaixão” (14:14). Carson nota que aqui a compaixão está ligada à cura, enquanto em 15:32 está ligada à fome (Carson, s.v. Mt 15:32). Nolland observa que Mateus omite o ensino de Marcos e foca na cura como expressão dessa compaixão (Nolland, s.v. Mt 14:14).
  • Κλάσας (Klasas): “Partiu”. Nolland observa que Mateus reduz a forma intensiva de Marcos (kateklasen) para a simples, e que a sequência de verbos (tomou, abençoou, partiu, deu) reflete a liturgia da Última Ceia (Nolland, s.v. Mt 14:19).
  • Κόφινος (Kophinos): “Cesto”. Carson define como um cesto de vime rígido, possivelmente usado por judeus para transportar comida kosher e evitar contaminação (Carson, s.v. Mt 14:20). Nolland concorda que é um termo geral, mas sugere que poderiam ser cestos do barco de pesca (Nolland, s.v. Mt 14:20).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Enfatiza fortemente a conexão Eucarística. Ele argumenta que Mateus altera a narrativa (ex: minimizando os peixes na distribuição) para alinhar o vocabulário com a Última Ceia (Mt 26:26), sugerindo que o evento tem um significado afim à Eucaristia para a identidade de Jesus (Nolland, s.v. Mt 14:19). Ele também vê o número 12 (cestos) como simbólico para “alimento para todo Israel” (Nolland, s.v. Mt 14:20).
  • Carson: Rejeita a interpretação puramente eucarística como anacrônica para o momento histórico, embora admita que cristãos posteriores possam ter visto paralelos. Ele foca no milagre como um ato de Criação e na responsabilidade dos discípulos. Ele critica a teoria de que o “novo Moisés” é o tema central, argumentando que as diferenças com Êxodo 16 (deserto não enfatizado, sobras guardadas) são maiores que as semelhanças (Carson, s.v. Mt 14:13-21, Overview).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Fonte dos Cestos:
    • Nolland: Sugere que os cestos poderiam pertencer ao equipamento do barco (Nolland, s.v. Mt 14:20).
    • Carson: Concorda com a possibilidade e cita Juvenal para sugerir que kophinos era característico de judeus viajantes, o que reforça o caráter judaico desta multidão em contraste com a alimentação dos 4.000 (Carson, s.v. Mt 15:37).
  • O Papel dos Discípulos:
    • Carson: Argumenta que o papel dos discípulos é limitado à organização e distribuição, e que a ordem de Jesus “dai-lhes vós de comer” expõe a incapacidade e falta de fé deles (Carson, s.v. Mt 14:16).
    • Nolland: Vê a ordem de Jesus como um eco direto de Eliseu (2 Reis 4:42), onde a obediência e o recurso humano limitado (o que eles têm) são fundamentais para o milagre ocorrer (Nolland, s.v. Mt 14:16).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nolland: Identifica um eco claro de 2 Reis 4:42-44 (Eliseu alimentando cem homens). Ele vê um padrão de “quanto mais” (a fortiori): se Eliseu alimentou 100 com 20 pães, Jesus alimenta 5.000 com 5 (Nolland, s.v. Mt 14:16).
  • Carson: Reconhece as alusões, mas é cético quanto à tipologia do maná (Êxodo 16), preferindo ver o milagre como demonstração de que Jesus transcende as categorias de profeta ou mestre (Carson, s.v. Mt 14:13-21, Overview).

5. Consenso Mínimo Ambos concordam que o milagre demonstra a compaixão messiânica de Jesus e sua capacidade de prover superabundantemente para o povo, antecipando o banquete messiânico.


📖 Perícope: Jesus Anda sobre as Águas (14:22-33)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ἠνάγκασεν (Ēnankasen): “Compeliu/Obrigou” (14:22). Nolland nota que é um termo forte, não usado para Jesus em outros lugares, e sugere que Mateus o mantém (de Marcos) mesmo sem a explicação do contexto de João 6 (a tentativa de coroação) (Nolland, s.v. Mt 14:22). Carson sugere que a demora e a coação se devem à instrução de esperar por Jesus, que se atrasou orando (Carson, s.v. Mt 14:22).
  • Ὀλιγόπιστε (Oligopiste): “Homem de pequena fé” (14:31). Carson insiste que não se refere apenas à quantidade, mas à qualidade pobre da fé; é uma repreensão, mas dentro de uma relação de discipulado (Carson, s.v. Mt 8:26 [ref. cruzada]).
  • Φάντασμα (Phantasma): “Fantasma/Aparição” (14:26). Ambos observam o medo supersticioso dos discípulos.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Foca na Estrutura Quiástica da narrativa (ventos, barco, medo, Jesus), centrada nas palavras de Jesus “Sou eu”. Ele vê a caminhada de Pedro como uma “narrativa simbólica” criada ou elaborada por Mateus para ilustrar o discipulado, comparando-a a textos budistas sobre caminhar nas águas pela concentração, para destacar a diferença cristã: o foco é na pessoa de Jesus, não na técnica mental (Nolland, s.v. Mt 14:28-31).
  • Carson: Defende a Historicidade e a unidade das narrativas (andar sobre as águas e acalmar a tempestade). Ele argumenta contra Bultmann que via duas histórias fundidas. Carson destaca que a confissão “Verdadeiramente és o Filho de Deus” (v. 33) é o clímax teológico que Mateus antecipa em relação a Marcos, mostrando o crescimento (ainda que imperfeito) dos discípulos (Carson, s.v. Mt 14:32-33).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Reação dos Discípulos (v. 33):
    • Nolland: Vê uma grande divergência com Marcos. Marcos relata “corações endurecidos”; Mateus relata “adoração”. Nolland interpreta isso como Mateus oferecendo sua própria versão idealizada da resposta apropriada a uma teofania: os discípulos reconhecem que Jesus age como Deus (Nolland, s.v. Mt 14:33).
    • Carson: Harmoniza as visões. Argumenta que Mateus não contradiz Marcos, mas foca no resultado positivo (confissão). Ele sugere que a confissão, embora verbalmente correta (“Filho de Deus”), pode ainda conter incompreensão, como visto em 16:21-23. Não é uma “correção” de Marcos, mas uma ênfase diferente compatível com a realidade histórica (Carson, s.v. Mt 14:32-33).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nolland: Liga o “Sou eu” (Egō eimi) em 14:27 e o ato de caminhar sobre o mar a textos como Jó 9:8, Salmo 77:19 e Isaías 43:16, onde apenas Deus caminha sobre as ondas. É uma linguagem de teofania (Nolland, s.v. Mt 14:27).
  • Carson: Concorda com a alusão à divindade, notando que Jesus “passar por eles” (em Marcos/Mateus implícito) ecoa a glória de Deus passando por Moisés (Êxodo 33) e Elias (1 Reis 19) (Carson, s.v. Mt 14:27 [embora comente mais sobre isso na seção de Marcos em outras obras, aqui ele foca na confissão de Filho de Deus]).

5. Consenso Mínimo Ambos concordam que a narrativa serve para revelar a identidade divina de Jesus (“Filho de Deus”) e que a “pequena fé” de Pedro é um paradigma para o discipulado que mistura coragem e dúvida.


📖 Perícope: Curas em Genesaré (14:34-36)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Κράσπεδον (Kraspedon): “Orla/Franja” (14:36). Nolland conecta isso a Mateus 9:20 (a mulher com fluxo de sangue), sugerindo uma ligação intencional. Refere-se às franjas rituais (tzitzit) (Nolland, s.v. Mt 14:36).
  • Διεσώθησαν (Diesōthēsan): “Ficaram completamente curados” (14:36). Nolland nota que Mateus usa uma forma mais forte do verbo do que Marcos (esōzonto), enfatizando a completude da cura (Nolland, s.v. Mt 14:36).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Nolland: Observa que os “homens daquele lugar” (v. 35) assumem a liderança no reconhecimento de Jesus, substituindo o sujeito genérico de Marcos. Ele vê isso como um eco estrutural de 4:24 e 8:16, reforçando o padrão de ministério de Jesus (Nolland, s.v. Mt 14:35).
  • Carson: Trata esta seção brevemente como um “sumário transicional”, destacando que a pressão das multidões era constante e inevitável, impedindo o retiro que Jesus buscava em 14:13 (Carson, s.v. Mt 14:34-36).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não há debate significativo nesta seção breve; ambos a veem como um sumário de poder messiânico e popularidade.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Nenhum eco específico do AT é destacado fortemente por ambos nesta seção curta, além da implicação geral do Messias curador.

5. Consenso Mínimo A passagem resume a autoridade total de Jesus sobre a doença e a resposta massiva do povo, contrastando com a hostilidade da liderança religiosa.