Análise Comparativa: Mateus 1

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Carson, D. A. (2010). Matthew. Revised Expositor’s Bible Commentary (REBC). Zondervan.
  • France, R. T. (2007). The Gospel of Matthew. New International Commentary on the New Testament (NICNT). Eerdmans.
  • Nolland, J. (2005). The Gospel of Matthew. New International Greek Testament Commentary (NIGTC). Eerdmans.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: France, R. T., The Gospel of Matthew (NICNT).

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica com ênfase na Teologia Bíblica e Narrativa. France situa o texto dentro da tradição evangélica moderada, aceitando a autoridade das Escrituras, mas engajando-se profundamente com a crítica literária e a estrutura narrativa.
    • Metodologia: O autor adota uma abordagem de crítica narrativa combinada com tipologia do Antigo Testamento. Ele não se detém excessivamente em questões técnico-linguísticas (embora as pressuponha), focando mais em como Mateus “tece uma rica tapeçaria de cenas” para apresentar Jesus como o clímax da história de Israel (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”). Ele enfatiza a intertextualidade, observando como o texto pressupõe um conhecimento profundo do AT por parte do leitor para captar as “sutilezas de seus argumentos” (France, “I. INTRODUCING THE MESSIAH”).
  • Autor/Obra: Nolland, J., The Gospel of Matthew (NIGTC).

    • Lente Teológica: Acadêmica Crítico-Histórica com foco filológico. Nolland opera dentro de uma tradição exegética técnica, priorizando a análise do texto grego e o contexto do Segundo Templo.
    • Metodologia: Sua abordagem é marcada por uma rigorosa exegese gramatical e histórico-crítica. Ele dedica espaço significativo à crítica textual (analisando variantes como “Asaf” vs “Asa”) e ao uso de fontes judaicas e veterotestamentárias (LXX vs TM). Nolland analisa minuciosamente a estrutura da genealogia, debatendo a historicidade e as fontes, como 1 Crônicas e Rute, e a função das anotações genealógicas (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”).
  • Autor/Obra: Carson, D. A., Matthew (REBC).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora/Reformada. Carson defende vigorosamente a historicidade dos relatos (nascimento virginal, genealogia) contra leituras puramente midráshicas ou ficcionais.
    • Metodologia: Utiliza uma metodologia teológica e apologética. Carson combina exegese com teologia sistemática, focando em temas como a cristologia do “Filho de Davi” e a defesa da dupla paternidade de Jesus (legal e divina). Ele interage frequentemente com a crítica liberal para refutar teorias que negam o sobrenatural ou classificam o texto como midrash não-histórico (Carson, “The Genealogy of Jesus”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de France (Autor A): Mateus constrói uma narrativa teológica onde Jesus não é apenas uma figura histórica, mas o clímax do propósito de Deus para Israel, validado pelo cumprimento das Escrituras.

    • Argumento: France argumenta que a repetição de títulos como “Messias” e “Filho de Davi” visa apresentar o libertador aguardado. A genealogia e o relato do nascimento são “ponteiros, à luz da Escritura, para o significado teológico da história”. Ele destaca que a narrativa de Mateus opera em um nível de cumprimento e alusão bíblica, onde os eventos são apresentados para demonstrar que “todos os propósitos de Deus para o seu povo… estão chegando ao seu cumprimento destinado” (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).
  • Tese de Nolland (Autor B): O capítulo 1 situa Jesus firmemente na história das relações de Deus com seu povo, evocando as glórias e tragédias de Israel, mas marcando uma descontinuidade divina através da concepção virginal.

    • Argumento: Nolland enfatiza que a genealogia é construída sobre a base do AT grego para evocar a história da salvação. Ele destaca a irregularidade introduzida na genealogia com as quatro mulheres e, finalmente, com Maria, sugerindo que a “produção” de Jesus envolveu uma “irregularidade conjugal” que aponta para a providência divina e a ação do Espírito Santo, superando o desenvolvimento puramente natural (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”). Ele argumenta que a função das mulheres é evocar aspectos da história de Israel, não necessariamente focar em sua pecaminosidade ou gentilidade (Nolland, “I. The Stock from Which Jesus Comes”).
  • Tese de Carson (Autor C): O prólogo estabelece a identidade de Jesus como o Messias davídico e o Filho de Deus, cujas origens duplas (legal via José, divina via Espírito Santo) cumprem as promessas da aliança e garantem a presença de Deus (“Emanuel”) com seu povo.

    • Argumento: Carson defende que a genealogia e o nascimento demonstram que Jesus é o herdeiro legítimo do trono (via José) e o Filho divino (via Espírito). Ele refuta a ideia de que a genealogia seja midrash ahistórico, afirmando que Mateus pretende apresentar “tanto história quanto teologia”. Sua ênfase recai sobre a Cristologia da Aliança Real, onde Jesus cumpre as promessas a Davi e Abraão, trazendo salvação do pecado como o verdadeiro “Deus conosco” (Carson, “The Birth of Jesus”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de France (Autor A)Visão de Nolland (Autor B)Visão de Carson (Autor C)
Escopo de 1:1 (Biblos Geneseōs)Narrativo: Vê 1:1 como o início de uma ampla seção (1:1–4:11) de “Introdução ao Messias”, focada em apresentar o libertador aguardado (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).Restrito: Traduz como “Registro da origem” e aplica primariamente à genealogia (1:1-17), notando o quiasma estrutural com 1:17 (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”).Prológico: Traduz como “Registro das origens” e aplica ao prólogo inteiro (1:1–2:23), rejeitando que seja título do livro todo, mas vendo-o como registro das origens de Jesus (Carson, “The Genealogy of Jesus”).
Problema Central do TextoContinuidade Histórica: Como demonstrar que Jesus não é apenas uma figura histórica, mas o clímax teológico e o cumprimento destinado da história de Israel (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).Anomalias Textuais: Explicar as irregularidades na genealogia (mulheres, omissões) e a sintaxe da concepção virginal (ek pneumatos) que quebra o padrão genealógico (Nolland, “The Circumstances of Jesus’ Birth”).Historicidade vs. Mito: Refutar a classificação do texto como midrash ou ficção teológica, defendendo a historicidade da concepção virginal e da genealogia contra céticos (Carson, “The Birth of Jesus”).
Resolução TeológicaTeologia do Cumprimento: A narrativa é construída sobre alusões ao AT para mostrar que “todos os propósitos de Deus… estão chegando ao seu cumprimento destinado” (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).Irregularidade Providencial: As anomalias (Tamar, Rute, Maria) sinalizam que a ação de Deus supera o desenvolvimento natural; a “irregularidade conjugal” aponta para a obra do Espírito (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”).Cristologia da Aliança Real: A dupla paternidade (legal via José, divina via Espírito) resolve a tensão, estabelecendo Jesus como Herdeiro Davídico e Filho de Deus, o verdadeiro Emanuel (Carson, “The Birth of Jesus”).
Tom/EstiloTeológico-Narrativo: Foca na “rica tapeçaria de cenas” e na estrutura literária (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).Técnico-Exegético: Foco intenso em crítica textual, filologia grega e variantes manuscritas (Nolland, “TEXTUAL NOTES”).Apologético-Evangélico: Combativo contra o liberalismo teológico; preocupa-se com a precisão histórica e doutrinária (Carson, “Overview”).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Nolland (Autor B). Fornece o background histórico e filológico mais denso, explorando detalhadamente o uso da LXX, variantes textuais (ex: Asaf vs Asa) e paralelos com literatura judaica do Segundo Templo (Nolland, “TEXTUAL NOTES”).
  • Melhor para Teologia: Carson (Autor C). Aprofunda melhor as implicações doutrinárias, sintetizando a cristologia do “Filho de Davi” com a “Filiação Divina” e defendendo a integridade histórica da encarnação dentro de uma Cristologia da Aliança Real (Carson, “The Genealogy of Jesus”).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Mateus 1, deve-se utilizar a estrutura de France para entender o fluxo narrativo do cumprimento messiânico, preencher os detalhes técnicos e as nuances do grego com a exegese rigorosa de Nolland, e firmar as conclusões doutrinárias e históricas com a argumentação robusta de Carson.

Cristologia da Aliança Real, Cumprimento, Irregularidade Providencial e Gematria Davídica são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Genealogia e o Prólogo (1:1-17)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Biblos geneseōs (v. 1):
    • Nolland traduz como “Registro da origem”, argumentando que a frase se aplica primariamente à genealogia (1:1-17), criando um quiasma com o resumo no versículo 17. Ele nota que a falta de artigos sugere um cabeçalho (Nolland, “1:1”).
    • Carson traduz como “Registro das origens” e, observando a repetição de genesis em 1:18, argumenta que o título cobre todo o prólogo (1:1–2:23), rejeitando a visão de que seria o título do livro todo (Carson, “1:1”).
    • France vê esta frase iniciando uma seção maior (1:1–4:11) designada como “Introduzindo o Messias”, onde Mateus tece uma “rica tapeçaria” de cumprimento (France, “I. INTRODUCING THE MESSIAH”).
  • Christos (v. 1, 16):
    • Nolland sustenta que, apesar da falta de artigo em 1:1, o uso é titular (“O Cristo”), apoiado pelo quiasma com 1:17 onde o artigo está presente. Em 1:18, torna-se um nome duplo (Nolland, “1:1”).
    • Carson destaca que Mateus escreve de uma perspectiva pós-ressurreição onde “Cristo” já funcionava como nome, mas mantém a força titular, refletindo a precisão histórica de que seus contemporâneos não o chamavam assim casualmente (Carson, “1:1”).
  • Gematria (v. 17):
    • Tanto Nolland quanto Carson concordam que a estrutura de “catorze gerações” deriva do valor numérico do nome de Davi em hebraico (dwd: 4+6+4=14) (Nolland, “1:17”; Carson, “1:17”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Destaca que a repetição proeminente do título “Messias” (1:1, 16, 17, 18; 2:4) visa apresentar não apenas uma figura histórica, mas o libertador aguardado, cujos eventos de vida são “ponteiros, à luz da Escritura, para o significado teológico” (France, “I. INTRODUCING THE MESSIAH”).
  • Nolland: Realiza uma minuciosa análise textual, notando que a genealogia é construída sobre o texto grego do AT (LXX), especificamente Rute 4:18-22 e 1 Crônicas 3. Ele oferece uma explicação detalhada para a omissão de três reis (Acazias, Joás, Amazias) em 1:8, ligando-a à maldição sobre a casa de Acabe (ligada a Jorão por casamento), que duraria até a terceira ou quarta geração (Nolland, “1:8”).
  • Carson: Foca na apologética histórica, defendendo que as genealogias antigas podiam ser mnemônicas e seletivas sem perder a historicidade. Ele sugere uma solução para a divergência com Lucas baseada na teoria de J. Gresham Machen: Matthan (Mt) e Matthat (Lc) não são a mesma pessoa, evitando a necessidade de múltiplos casamentos leviratos complexos para harmonizar as listas (Carson, “1:2–17”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • As Mulheres na Genealogia:
    • Carson apresenta a visão de que elas podem ser gentias ou pecadoras, mas parece favorecer a ideia de que mostram a “estranha e inesperada operação da providência”, preparando para o nascimento virginal (Carson, “1:6”).
    • Nolland rejeita a classificação simples de “pecadoras” (notando que Bate-Seba é apresentada passivamente como “a mulher de Urias”) ou “gentias” (questiona se Tamar e Bate-Seba eram vistas assim). Ele argumenta que a função delas é apontar para uma “irregularidade” na linhagem que sinaliza a intervenção divina e o Espírito Santo, superando processos naturais (Nolland, “1:3”).
  • Harmonização com Lucas:
    • Nolland é cético quanto às harmonizações, afirmando que são “especulativas” e que é melhor deixar cada genealogia fazer sua própria contribuição teológica (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”).
    • Carson engaja-se ativamente na harmonização, sugerindo que Mateus segue a sucessão do trono (legal) enquanto Lucas pode seguir a linha biológica ou outra linha legal via lei do levirato (Carson, “1:2–17”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 2:4 / 5:1: Ambos Nolland e Carson identificam a frase Biblos geneseōs como um eco direto da LXX, ligando a história de Jesus à criação e à história patriarcal.
  • 1 Crônicas 1–3 e Rute 4: Nolland identifica estes textos como a “base” literal da estrutura genealógica de Mateus (Nolland, “The Stock from Which Jesus Comes”).
  • Salmo 130:8: Carson conecta a explicação do nome “Jesus” (v. 21) diretamente a este Salmo (“Ele redimirá Israel de todos os seus pecados”), vendo Jesus desempenhando o papel do próprio Yahweh (Carson, “1:21”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que a genealogia não é apenas um registro biológico, mas uma declaração teológica de que Jesus é o clímax da história de Israel, o “Filho de Davi” messiânico, estruturada artificialmente em grupos de catorze (gematria davídica).

📖 Perícope: O Nascimento de Jesus (1:18-25)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Dikaios (v. 19 - José como “justo”):
    • Carson: Discute três interpretações e rejeita a ideia de que “justo” signifique apenas “misericordioso”. Ele prefere a visão de que, porque José era um observador da lei (justo), ele não poderia casar-se com uma suposta adúltera, mas escolheu o divórcio “quieto” (permitido por Dt 24:1) para equilibrar justiça e compaixão (Carson, “1:19”).
    • Nolland: Concorda que “justo” se refere à obediência à lei (intenção de divórcio), e que a cláusula “não querendo expô-la” explica o modo (lathra - secretamente), sem ver tensão entre justiça e misericórdia (Nolland, “1:19”).
  • Parthenos (v. 23 - “Virgem”):
    • Carson: Insiste que, embora almah (hebraico) possa significar “jovem”, a tradução da LXX por parthenos e o contexto de Mateus exigem o significado de “virgem”. Ele rejeita a tradução “jovem mulher” como insuficiente para o “sinal” miraculoso exigido por Isaías 7:14 (Carson, “1:23”).
    • Nolland: Observa que a LXX, ao traduzir hārâ (hebraico para “grávida”) por en gastri hexei (“terá no ventre”), foca no estado de gravidez de uma virgem, em vez do processo de engravidar, facilitando a leitura de uma concepção virginal (Nolland, “1:23”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • France: Enfatiza que o relato pressupõe que o leitor conheça as Escrituras para captar as “sutilezas dos argumentos”, sugerindo que o texto servia para instrução teológica na igreja primitiva (France, “INTRODUCING THE MESSIAH”).
  • Nolland: Traz um paralelo com as lendas judaicas (haggadah) sobre o nascimento de Moisés, onde o pai, Anrão, recebe uma visão em sonho para não temer sobre a gravidez de sua esposa e o destino da criança como libertadora (Nolland, “1:20”). Ele também destaca que a narrativa mantém Maria totalmente passiva, com sua identidade embutida na de José (Nolland, “1:18”).
  • Carson: Argumenta vigorosamente contra a classificação do gênero literário como “midrash” ou “haggadah midráshica”, defendendo que as dificuldades de harmonização com o AT (o cumprimento de profecias difíceis) atestam a credibilidade histórica, pois ninguém inventaria cumprimentos que fossem problemáticos (Carson, “Overview”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Immanuel e a Divindade de Jesus (v. 23):
    • Carson: Defende uma cristologia alta. Argumenta que se o Immanuel de Isaías é o “Deus Poderoso” (Is 9:6), então Mateus intenciona dizer que Jesus é “Deus conosco” em um sentido ontológico forte (Carson, “1:23”).
    • Nolland: É mais cauteloso. Argumenta que “Jesus = Deus” é uma declaração cristológica “demasiado poderosa” para este estágio inicial da narrativa judaica de Mateus. Ele prefere ver “Deus conosco” como uma afirmação da presença e ação de Deus através de Jesus, reservando a identificação plena para o desenvolvimento narrativo posterior (Nolland, “1:23”).
  • A Citação de Isaías 7:14:
    • Nolland: Vê a aplicação messiânica facilitada pela tradução da LXX que já sugeria uma virgindade no momento do parto (Nolland, “1:23”).
    • Carson: Adota a visão de J.A. Motyer de que a profecia de Isaías sempre teve um horizonte messiânico e escatológico, referindo-se a um futuro descendente davídico após a ruína da dinastia, o que Mateus captou corretamente (Carson, “1:23”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Isaías 7:14: Todos concordam que é a base textual central.
  • Moisés (Lendas de Anrão): Nolland vê ecos da tradição de Anrão (pai de Moisés) tranquilizado em sonho, paralela à de José (Nolland, “1:20”).
  • Salmo 130:8: Carson liga a função de “salvar o povo dos pecados” a este salmo, onde Yahweh redime Israel (Carson, “1:21”).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável entre os três que Mateus apresenta a concepção de Jesus como um ato criativo sobrenatural do Espírito Santo, sem envolvimento sexual humano, cumprindo as Escrituras e legitimando Jesus legalmente (via José) e divinamente (via Espírito).