Análise Comparativa: Gênesis 9

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis 1-15 (WBC).

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica com forte ênfase na Análise Retórica e Crítica das Fontes (mas tende a ver o texto final como uma unidade coesa).
    • Metodologia: Wenham foca intensamente na estrutura literária (quiasmos e palistrofes) e na comparação com o Oriente Próximo Antigo (Gilgamesh, Atrahasis) para destacar a teologia distinta de Israel. Ele analisa o texto final, mas frequentemente dialoga com as teorias J/P (Javista/Sacerdotal), argumentando que o redator final criou uma obra teologicamente unificada (Wenham, “SOURCES IN GEN 6–9”).
  • Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora/Reformada moderada.
    • Metodologia: Foca na Exegese Linguística (análise de raízes hebraicas) e Teologia Bíblica. Sua abordagem destaca a natureza ética de Deus em contraste com as divindades caprichosas do Oriente Antigo. Nota: A análise de Hamilton neste relatório baseia-se na teologia geral do Dilúvio (Gn 6-9) presente nas fontes, uma vez que a exegese versículo a versículo específica do capítulo 9 não consta nos excertos fornecidos.
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).

    • Lente Teológica: Confessional Luterana/Evangélica Conservadora.
    • Metodologia: Adota uma abordagem Narrativa e Canônica, rejeitando explicitamente a Hipótese Documentária em favor de uma autoria única e coesa. Ele enfatiza a tipologia (conexões com o Novo Testamento) e a leitura do texto como história factual, focando na integridade literária e intertextualidade dentro do Pentateuco (Steinmann, “Additional note on Noah and the flood account”).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham: O relato do pós-dilúvio (Gn 9) apresenta a confirmação da aliança e a renovação da criação, onde o arco-íris serve como um sinal mnemônico para Deus (não para o homem) lembrar-se de sua misericórdia, e a maldição de Canaã justifica a futura subjugação histórica dos cananeus a Sem.

    • Argumento Expandido: Wenham destaca que a estrutura do Dilúvio é um grande quiasmo (palistrofe) centrado na lembrança de Deus. Em Gênesis 9, ele argumenta que o arco-íris é “um sinal que é visto pelo homem, mas serve para lembrar Deus de suas promessas”, contrastando com outros sinais como o Sábado que lembram o homem (Wenham, “9:12–17”). Sobre a embriaguez de Noé, Wenham sugere que o pecado de Cam foi a indiscrição e a quebra da piedade filial, rejeitando teorias de incesto ou castração, e vê a maldição sobre Canaã como uma prefiguração da história de Israel (Wenham, “Coda to the Noah Story”).
  • Tese de Steinmann: Gênesis 9 retrata o mundo pós-diluviano como uma nova criação transformada mas ainda marcada pelo pecado humano, onde a aliança fornece conforto à humanidade e a narrativa de Noé e seus filhos estabelece a trajetória da redenção através de Sem (e a exclusão de Canaã).

    • Argumento Expandido: Steinmann enfatiza os paralelos entre Noé e Adão (ambos “homens da terra”, plantam, pecado envolve fruto/vinho e nudez), mostrando que a natureza humana caída persiste (Steinmann, “B. Noah’s prophecy concerning his sons”). Ele argumenta contra a Hipótese Documentária, vendo a narrativa como uma unidade literária finamente elaborada. Sobre a maldição, Steinmann defende que o pecado de Cam foi a falta de honra ao pai, e a maldição recai sobre Canaã profeticamente em relação à conquista da Terra Prometida, não justificando escravidão racial moderna (Steinmann, “B. Noah’s prophecy concerning his sons”).
  • Tese de Hamilton: A narrativa do Dilúvio (Gn 6-9) serve para demonstrar que o julgamento divino é ético e moral, não caprichoso ou arbitrário, contrastando a justiça de Yahweh com a natureza amoral dos deuses mesopotâmicos, e reafirmando a capacidade de Deus de sentir dor e arrependimento diante da maldade humana.

    • Argumento Expandido: Hamilton foca na motivação teológica do Dilúvio. Diferente do Épico de Atrahasis, onde os deuses destroem a humanidade por causa do ruído, em Gênesis o motivo é “claramente moral” devido à depravação crônica do homem (Hamilton, “The Reason for a Flood”). Ele destaca a linguagem antropopática de Deus “se arrependendo” e sentindo dor, argumentando que isso revela um Deus que não é um “Absoluto Impassível”, mas alguém que reage pessoalmente à quebra da ordem moral (Hamilton, “The Reason for a Flood”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Wenham (WBC)Visão de Steinmann (TOTC)Visão de Hamilton (NICOT)
Palavra-Chave / Termo HebraicoBerît (Aliança). Wenham argumenta que o verbo hēqîm (confirmar) em Gn 6:18 e 9:9 implica a ratificação de um compromisso pré-existente ou uma promessa solene, sugerindo que Noé já vivia numa relação pactual implícita antes do Dilúvio (Wenham, “6:18”).Κ hāʾădāmâ (Homem da terra). Steinmann destaca esta frase em Gn 9:20 como uma alusão intertextual direta a Adão (formado da ădāmâ), estabelecendo Noé como um “segundo Adão” que falha num jardim/vinha (Steinmann, “20–21”).Nāḥam (Arrepender-se/Sentir dor). Embora focado em Gn 6, Hamilton define este termo não como mudança de mente arbitrária, mas como uma resposta emocional profunda de Deus (dor no coração) diante da maldade humana, refutando a ideia de um Deus impassível (Hamilton, “6:6”).
Problema Central do TextoA estabilidade da criação pós-catástrofe e a justificação da maldição de Canaã. Wenham questiona por que Canaã sofre pelo pecado de Cam, sugerindo uma punição “espelho” (o filho mais novo de Cam sofre pelo pecado do filho mais novo de Noé) (Wenham, “9:25”).A persistência do pecado na nova criação. Steinmann foca na tensão de que, mesmo após o “batismo” do Dilúvio e a aliança divina, o homem (Noé) recai imediatamente no pecado (embriaguez), replicando a Queda de Adão (Steinmann, “Context”).A justiça moral versus o capricho divino. O problema abordado é a motivação do Dilúvio. Contra a visão mesopotâmica (ruído humano incomoda os deuses), Hamilton insiste que o problema é ético: a “extensão e intensidade” da depravação humana (Hamilton, “6:5”).
Resolução TeológicaA Aliança Unilateral garantida pelo arco-íris. O arco serve primariamente para lembrar Deus (não o homem) de sua misericórdia, garantindo que a ordem cósmica não será revogada apesar da falha humana contínua (Wenham, “9:14–15”).A Graça Preservadora e a eleição messiânica. Apesar da falha de Noé, Deus preserva a estrutura da criação e, através da bênção a Sem, estabelece a linha da redenção que culminará em Cristo, contrastando com a rejeição de Canaã (Steinmann, “26–27”).O Julgamento Discriminado. A resolução de Deus não é destruição total, mas a preservação de um remanescente justo (Noé). Deus “apaga” (māḥâ) o pecado, mas sente a dor da punição, demonstrando um equilíbrio entre santidade e pathos (Hamilton, “6:7”).
Tom/EstiloLiterário-Estrutural. Foca intensamente em quiasmos, palí,strofes e na estrutura concêntrica do Dilúvio para revelar a ênfase teológica na “lembrança” de Deus (Wenham, “Form/Structure/Setting”).Canônico-Tipológico. Lê o texto à luz do Novo Testamento e da teologia bíblica mais ampla, conectando Noé a Adão e à história da salvação (Steinmann, “Meaning”).Léxico-Comparativo. Enfatiza a etimologia das palavras hebraicas e o contraste polêmico com os mitos do Oriente Próximo Antigo (Gilgamesh, Atrahasis) (Hamilton, “The Reason for a Flood”).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Wenham fornece o background literário e histórico mais robusto. Sua análise detalhada da estrutura quiástica do Dilúvio e das comparações com o Épico de Gilgamesh e Atrahasis oferece a melhor compreensão de como a narrativa foi composta para destacar a teologia distinta de Israel frente aos seus vizinhos (Wenham, “ANCIENT PARALLELS”).
  • Melhor para Teologia: Steinmann se destaca na aplicação teológica cristã e na intertextualidade. Ele conecta magistralmente a narrativa de Noé (o “homem da terra” que planta uma vinha e se desnuda) com a narrativa de Adão (fruto e nudez), demonstrando a natureza intratável do pecado humano e a necessidade contínua da graça divina, prefigurando a redenção futura (Steinmann, “B. Noah’s prophecy concerning his sons”).
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Gênesis 9, deve-se integrar a análise estrutural de Wenham, que situa a aliança e o arco-íris como o clímax literário da recriação, com a sensibilidade teológica de Steinmann, que expõe a fragilidade humana pós-diluviana na embriaguez de Noé. A contribuição de Hamilton (baseada em Gn 6) fundamenta ambos ao estabelecer que o Dilúvio não foi um ato arbitrário, mas uma resposta dolorosa de um Deus pessoal à maldade moral, preparando o palco para a aliança de preservação em Gênesis 9.

Aliança Noética, Teologia da Retribuição, Antropopatismo Divino e Tipologia Bíblica são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Bênção e as Ordenanças da Nova Criação (9:1-7)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Šārak / Rāmāś (Enxamear/Rastejar): Em Gn 9:7, o termo traduzido como “povoai” ou “multiplicai-vos abundantemente” é debatido. Wenham nota que originalmente a ordem de “enxamear” (šārak) foi dada apenas às criaturas marinhas em Gn 1:20, mas agora é estendida à humanidade, sugerindo uma nova era de proliferação (Wenham, “9:7”). Steinmann observa que a expansão da bênção de 9:1 usa este termo para explicar o comando de “encher a terra” (Steinmann, “9:7”).
  • Hayyâ (Animal/Fera): Em 9:5, sobre a retribuição do sangue. Steinmann destaca que a responsabilidade é exigida de “toda a fera” (wild animal), estabelecendo uma responsabilidade corporativa da criação pela vida humana (Steinmann, “9:4–6”).
  • Bǝṣelem ֱElōhîm (Imagem de Deus): Ambos os autores concordam que esta é a base jurídica para a pena capital em 9:6. O assassinato é um ataque direto à propriedade divina.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Destaca o uso de terminologia militar em 9:2 (“temor” e “pavor”, cf. Dt 1:21; 11:25), sugerindo que a relação homem-animal mudou de domínio pacífico para animosidade pós-queda, e não apenas medo do dilúvio. Ele também observa a estrutura quiástica poética precisa de 9:6 (“derramar, sangue, homem : homem, sangue, derramar”) para enfatizar a “lex talionis” (Wenham, “9:2”, “9:6”).
  • Steinmann: Traz uma conexão intertextual estrutural forte com Gênesis 1. Ele argumenta que Deus não está apenas recriando, mas transformando a terra. Ele observa exclusivamente que a permissão para comer carne em 9:3 é um contraste explícito com as instruções vegetarianas de Gn 1:29-30, refutando teorias modernas de que animais domésticos já eram comidos antes do dilúvio (Steinmann, “9:1–3”, “Additional note on the seven days…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Vegetarianismo Antediluviano:
    • Steinmann é enfático ao defender que Gênesis retrata humanos e animais como estritamente herbívoros antes do dilúvio, usando 9:3 como prova de uma nova dispensação (Steinmann, “Additional note on Noah…”).
    • Wenham concorda que houve uma mudança na lei alimentar, mas levanta a questão se Noé poderia comer animais impuros. Ele sugere que a distinção puro/impuro (já presente no dilúvio) pode implicar restrições implícitas, embora o texto de 9:3 pareça dar liberdade total (Wenham, “9:3”).
  • A Pena Capital (9:6):
    • Ambos concordam que a autoridade é delegada à sociedade humana. No entanto, Wenham enfatiza o aspecto teológico da “imagem de Deus” como a razão inviolável (Wenham, “9:6”), enquanto Steinmann foca na estrutura concêntrica do versículo como um dispositivo mnemônico para a autoridade social (Steinmann, “9:4–6”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 1: Ambos os autores veem 9:1-7 como uma reiteração modificada de Gênesis 1:28-29.
  • Gênesis 4: Wenham conecta a exigência de sangue em 9:5 (“da mão do irmão”) diretamente com a narrativa de Caim e Abel, onde a palavra “irmão” é repetida enfaticamente para destacar a incongruência do assassinato (Wenham, “9:5”).

5. Consenso Mínimo

  • É indisputável que a permissão para comer carne é uma concessão nova pós-dilúvio, mas restrita pela proibição do sangue, que representa a vida (nephesh) e pertence a Deus.

📖 Perícope: A Aliança e o Arco-Íris (9:8-17)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Hēqîm (Confirmar/Estabelecer): Wenham argumenta que este verbo (hiphil de qûm) é usado para ratificar compromissos já existentes, sugerindo que Noé já vivia sob uma promessa anterior (ver 6:18), diferentemente de kārat (“cortar” uma aliança nova) (Wenham, “9:9–10”).
  • ’Ôt (Sinal): O arco-íris. Wenham define três tipos de sinais no AT: prova, profético e mnemônico. O arco é classificado como mnemônico, similar aos filactérios ou ao sábado (Wenham, “Excursus on Circumcision”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Oferece uma análise detalhada da estrutura concêntrica (palístrofe) dos versículos 9-17, dividindo o discurso divino em três partes que giram em torno do “sinal da aliança”. Ele rejeita explicitamente a teoria popular de que o arco-íris representa o “arco de guerra de Deus” pendurado após a batalha, preferindo ver o arco como uma conexão natural entre céu e terra que reflete a glória divina (Ezequiel 1:28) (Wenham, “9:13”).
  • Steinmann: Foca na função do sinal para a humanidade. Embora o texto diga que Deus verá o arco e se lembrará, Steinmann argumenta que “o conforto derivado do sinal é para os humanos”, garantindo-lhes que Deus mantém sua promessa (Steinmann, “9:12–16”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • O Destinatário do Sinal:
    • Wenham: Enfatiza o teocentrismo do sinal: “O arco é um sinal que é visto pelo homem, mas serve para lembrar Deus”. É uma garantia unilateral baseada na memória divina, não na observância humana (Wenham, “Excursus on Circumcision”).
    • Steinmann: Concorda que Deus “lembra”, mas interpreta a função retórica do texto como pastoral: o sinal serve para encorajar Noé e seus descendentes a confiarem na graça, similar à circuncisão ou ao sábado (Steinmann, “Meaning”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Levítico 26 / Êxodo: Wenham liga o conceito de Deus “lembrar” (zākar) a aliança com passagens como Levítico 26:42 e Êxodo 2:24, onde a memória de Deus precipita uma ação salvadora (Wenham, “9:14–15”).

5. Consenso Mínimo

  • A aliança noética é incondicional, universal (incluindo animais) e unilateral, dependendo exclusivamente da fidelidade de Deus em preservar a ordem cósmica.

📖 Perícope: A Embriaguez de Noé e a Maldição (9:18-29)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Κ hāʾădāmâ (Homem da terra): Em 9:20. Steinmann vê isso como uma alusão direta a Adão (formado da ădāmâ), indicando que Noé é um “segundo Adão” que falha num jardim (vinha) (Steinmann, “B. Noah’s prophecy concerning his sons”). Wenham sugere que pode ser um título irônico relacionado a Gênesis 5:29, onde se esperava que Noé trouxesse alívio do trabalho na terra (Wenham, “9:20”).
  • Rā’â / Gālâ (Ver / Descobrir): Debate sobre se “ver a nudez” (v. 22) implica ato sexual.

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Argumenta que a descrição da ação de Sem e Jafé (v. 23) é deliberadamente lenta e repetitiva (“pegaram a capa… ombros de ambos… andando de costas… rostos virados”) para contrastar sua piedade com a indiscrição precipitada de Cam. Ele também nota que a ordem dos filhos (Sem, Cam, Jafé) pode ser eufônica e não cronológica (Wenham, “9:23”, “9:24”).
  • Steinmann: Conecta a nudez de Noé com a de Adão (3:7), observando que ambos exigiram que outros cobrissem sua vergonha (Deus cobriu Adão; Sem/Jafé cobriram Noé). Ele destaca que Noé “plantou” (nāṭa‘) uma vinha assim como Deus “plantou” o Éden, reforçando o paralelismo de queda (Steinmann, “B. Noah’s prophecy concerning his sons”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza do Pecado de Cam:
    • Wenham: Rejeita teorias de incesto materno ou castração. Ele insiste que, no contexto do Oriente Próximo, a simples visão da nudez do pai e a fofoca subsequente (“contou a seus irmãos”) constituem uma quebra gravíssima da honra filial. Ele cita o épico de Aqhat onde o filho deve carregar o pai bêbado, não expô-lo (Wenham, “9:22”).
    • Steinmann: Concorda que não houve incesto. Define o pecado como “voyeurismo” ou falta de discrição e lealdade. O pecado foi não honrar o pai cobrindo sua vergonha (Steinmann, “9:22–23”).
  • Por que Canaã foi amaldiçoado?
    • Wenham: Oferece três razões: 1) Noé não poderia amaldiçoar Cam porque Deus já o havia abençoado (9:1); 2) Punição espelho: o filho mais novo de Ham (Canaã) sofre pelo pecado do filho mais novo de Noé; 3) Tipologia: Canaã personifica as práticas sexuais aberrantes que Ham demonstrou (Wenham, “9:25”).
    • Steinmann: Enfatiza o caráter profético. A maldição recai sobre Canaã antecipando a conquista da Terra Prometida por Israel (descendentes de Sem). Ele condena explicitamente o uso deste texto para justificar escravidão racial, notando que a maldição foi sobre Canaã, não sobre todos os filhos de Cam (Cuxe/África) (Steinmann, “9:24–25”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Levítico 18: Wenham conecta a nudez de Noé com as leis de incesto e as “abominações” de Canaã listadas em Levítico, sugerindo que a narrativa justifica a subjugação futura dos cananeus (Wenham, “9:25”).
  • Gênesis 3:15: Steinmann vê a bênção sobre Sem (v. 26) como uma extensão/reintrodução da promessa da semente da mulher (o protoevangelho), restringindo a linha messiânica à descendência de Sem (Steinmann, “Meaning”).

5. Consenso Mínimo

  • O episódio da embriaguez serve para diferenciar a linhagem da bênção (Sem) da linhagem da maldição (Canaã), estabelecendo o palco histórico e teológico para a eleição de Israel e a conquista da terra.