Análise Comparativa: Gênesis 6

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, Genesis.

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica com forte ênfase na Análise Literária e na forma final do texto canônico. Embora interaja profundamente com a hipótese documental (J e P), ele tende a ver o redator final como um teólogo habilidoso que unificou as tradições.
    • Metodologia: Utiliza extensivamente a análise estrutural (quiasmos e palistrofes) para determinar o significado teológico. Dedica atenção significativa aos paralelos do Antigo Oriente Próximo (como Gilgamesh e Atrahasis) para demonstrar como Gênesis “desmitologiza” essas narrativas (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
  • Autor/Obra: Hamilton, The Book of Genesis.

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora/Moderada. Mantém um alto apreço pela historicidade e unidade do texto, mas engaja seriamente com a linguística comparada semítica (Ugarítico, Acadiano).
    • Metodologia: Exegese filológica e sintática detalhada. Hamilton foca nas nuances das palavras hebraicas e cognatos semíticos para resolver ambiguidades textuais. Ele apresenta múltiplas opções interpretativas (história da interpretação) antes de sugerir uma preferência, mantendo uma postura cautelosa (Hamilton, “NICOT_007…”).
  • Autor/Obra: Steinmann, Genesis.

    • Lente Teológica: Confessional Conservadora (Luterana/Evangélica). Rejeita explicitamente a Hipótese Documental em favor de uma autoria unitária e coerente.
    • Metodologia: Teologia Bíblica e Narrativa. Steinmann foca na coerência interna da história da salvação e na teologia prática, muitas vezes buscando harmonizar o texto com o Novo Testamento e a tradição cristã clássica (Steinmann, “TOTC_015…“).

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham: O relato do Dilúvio é uma narrativa palistrófica (quiástica) unificada que retrata o julgamento divino como uma reversão da criação, onde os “filhos de Deus” são seres angelicais que transgridem os limites cósmicos, e a virada teológica ocorre na memória pactual de Deus (“Deus lembrou-se de Noé”).

    • Argumento: Wenham argumenta que Gênesis 6:1-4 descreve a violação dos limites entre o céu e a terra por seres espirituais (“anjos”), o que provoca a limitação da vida humana. Ele identifica uma estrutura concêntrica em todo o relato do dilúvio, centrada em Gênesis 8:1, demonstrando que a narrativa não é uma colcha de retalhos de fontes, mas uma obra literária coesa onde o julgamento é temperado pela graça (Wenham, “The Story of Noah…”).
  • Tese de Hamilton: Gênesis 6 apresenta uma intrusão ilegítima do mundo divino/angelical na esfera humana, causando um caos que “entristece” o coração de Deus (antropopatismo real), levando a um decreto de julgamento que é simultaneamente uma purificação moral e uma preservação soberana.

    • Argumento: Hamilton examina as opções para “filhos de Deus” (anjos, reis, setistas) e sugere que a interpretação angelical, embora “bizarra”, possui menos dificuldades exegéticas do que as outras, representando uma tentativa de alcançar status divino ilegítimo. Ele destaca a dor de Deus (6:6) não apenas como uma mudança de mente, mas como uma capacidade real de sentir pesar pelo pecado humano, contrapondo-se à apatia dos deuses mesopotâmicos (Hamilton, “NICOT_007…” e “NICOT_008…”).
  • Tese de Steinmann: O capítulo 6 descreve a falha total da humanidade, onde até mesmo a linhagem piedosa (“filhos de Deus” como descendentes de Sete) se corrompe ao se casar com a linhagem ímpia (“filhas dos homens” como descendentes de Caim), demonstrando que a salvação de Noé é um ato de pura graça divina e não mérito intrínseco.

    • Argumento: Steinmann rejeita a interpretação angelical baseando-se na teologia do Novo Testamento (anjos não se casam), preferindo a visão agostiniana/reformada da linhagem piedosa. Ele enfatiza que a corrupção humana era universal e que os 120 anos (6:3) representam um período de graça e paciência divina para o arrependimento antes do julgamento, e não uma redução da longevidade biológica (Steinmann, “TOTC_015…“).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Wenham (Autor A)Visão de Hamilton (Autor B)Visão de Steinmann (Autor C)
Palavra-Chave: Benê-hāʾĕlōhîm (“Filhos de Deus”)Seres Angelicais/Espirituais. Traduz como “filhos dos deuses”. Argumenta que o contraste com “filhas dos homens” exige uma categoria não-humana, apoiando-se em Jó 1:6 e paralelos ugaríticos (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).Seres Angelicais (Preferencial). Reconhece as dificuldades, mas argumenta que a visão angelical explica melhor a natureza bizarra da narrativa e o contraste com a humanidade, embora note a visão de “aristocracia real” como possível (Hamilton, “NICOT_007…”).Descendentes Piedosos (Setitas). Rejeita a visão angelical baseada na teologia do NT (anjos não casam). Define como a linhagem fiel de Sete que se corrompeu ao casar com a linhagem de Caim (“filhas dos homens”) (Steinmann, “TOTC_015…”).
Termo: Nephilim (Gên 6:4)Gigantes/Guerreiros. Associa aos gibborim. Vê os Nephilim provavelmente como o produto da união ilícita entre o divino e o humano, heróis da antiguidade com fama mítica (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).”Os Caídos” ou “Aqueles que fazem cair”. Distingue os Nephilim da prole da união (os gibborim). Nota que eles já estavam na terra antes e depois dos casamentos, sugerindo uma classe distinta de pessoas imponentes ou violentas (Hamilton, “NICOT_007…”).Gigantes/Tiranos. Segue a LXX (gigantes). Enfatiza que o termo descreve pessoas excessivamente altas ou poderosas, mas não necessariamente resultado de cruzamento genético sobrenatural, citando Números 13:33 (Steinmann, “TOTC_015…”).
Problema Central do TextoTransgressão de Limites Cósmicos. O pecado é a ruptura da ordem criada através da mistura proibida entre as esferas celestial e terrena, uma tentativa humana de usurpar a imortalidade divina (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).Intrusão Ilegítima e Dor Divina. O foco está na invasão do divino na esfera humana e, crucialmente, na resposta emocional de Deus: o arrependimento e a dor no coração (yitʿaṣṣēb), mostrando um Deus pessoal e sensível (Hamilton, “NICOT_007…”, “NICOT_008…”).Corrupção da Linhagem da Fé. O problema é o fracasso total da humanidade, onde até a linhagem da promessa (Sete) se comprometeu com o mundo (Caim), resultando em maldade universal e contínua (Steinmann, “TOTC_015…”).
Interpretação dos 120 Anos (Gên 6:3)Novo Limite Biológico. Interpreta como a redução da longevidade humana máxima decretada por Deus para impedir a imortalidade, implementada gradualmente após o Dilúvio (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).Período de Graça. Vê como um período probatório antes do Dilúvio, um tempo de paciência divina antes da execução do julgamento, rejeitando a redução da vida útil biológica (Hamilton, “NICOT_007…”).Período de Graça. Concorda que refere-se ao tempo até o Dilúvio, argumentando que as pessoas continuaram a viver mais de 120 anos após o dilúvio (ex: Abraão), invalidando a tese do limite biológico (Steinmann, “TOTC_015…”).
Tom/EstiloCrítico-Literário e Comparativo. Foca na estrutura do texto (palistrofes) e na desmitologização de paralelos do Antigo Oriente Próximo (Atrahasis/Gilgamesh).Filológico e Exegético. Detalha nuances gramaticais do hebraico e cognatos semíticos, ponderando opções com cautela acadêmica e sensibilidade teológica.Teológico e Canônico. Prioriza a coerência com o Novo Testamento e a história da redenção, com forte ênfase na doutrina do pecado e da graça.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Wenham. Sua análise é insuperável no mapeamento das estruturas literárias (quiasmos do Dilúvio) e na comparação com a literatura do Antigo Oriente Próximo, demonstrando como Gênesis 6 atua como uma polêmica contra as cosmovisões mesopotâmicas de “casamentos sagrados” e deuses caprichosos (Wenham, “Spirit-Human Marriages…” e “The Story of Noah…”).
  • Melhor para Teologia: Hamilton. Ele oferece a análise mais profunda sobre a teologia própria (a natureza de Deus), especialmente ao tratar do antropopatismo em 6:6. Ele equilibra a transcendência de Deus com Sua capacidade real de sofrer “dor no coração” pelo pecado humano, evitando simplificações sobre a imutabilidade divina (Hamilton, “NICOT_008…”).
  • Síntese: Para uma exegese robusta de Gênesis 6, deve-se adotar a estrutura literária de Wenham para entender a narrativa do Dilúvio como uma unidade “palistrófica” de des-criação e re-criação. No entanto, deve-se temperar a interpretação dos “filhos de Deus” com a cautela filológica de Hamilton, que admite a natureza “bizarra” do texto sem forçar uma harmonização racionalista. Por fim, a leitura deve ser ancorada na soteriologia de Steinmann, que corretamente identifica que a salvação de Noé (6:8) é baseada na graça imerecida (Hen) e não em mérito intrínseco, alinhando o texto com a teologia bíblica mais ampla.

Filhos de Deus, Nephilim, Antropopatismo e Aliança são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Intrusão Divina e a Corrupção Humana (Gênesis 6:1-4)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Benê-hāʾĕlōhîm (“Filhos de Deus”):
    • Wenham: Traduz como “filhos dos deuses” ou “filhos de Deus”. Ele associa este termo a seres membros do panteão divino ou corte celestial, baseando-se no uso ugarítico (bn il) e paralelos bíblicos como Jó 1:6 e Salmo 29:1 (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
    • Hamilton: Explora três opções principais (anjos, reis dinásticos, setitas). Ele nota que, linguisticamente, a frase é idêntica ao ugarítico bn il. Ele prefere a interpretação de seres angelicais/divinos que transgrediram limites, apesar de reconhecer a dificuldade teológica (Hamilton, “NICOT_007…”).
    • Steinmann: Rejeita veementemente a interpretação angelical com base na teologia do NT (anjos não casam) e na ausência de precedentes de “mistura sexual” na tradição semítica ocidental. Ele interpreta como “descendentes fiéis” (linhagem de Sete) que apostataram (Steinmann, “TOTC_015…”).
  • Yādôn (Gên 6:3):
    • Hamilton: Dedica extensa análise a este hapax legomenon. Rejeita a conexão com “humilhar” (árabe dun) ou “substituto” (acadiano danānu). Prefere a tradução da LXX e Vulgata: “permanecer” ou “habitar”. O sentido é que o Espírito vivificante de Deus não sustentará indefinidamente o homem rebelde (Hamilton, “NICOT_007…”).
    • Wenham: Concorda com o sentido de “permanecer” ou “habitar”, apoiado por cognatos acádios, aramaicos e árabes (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
  • Nephilim (Gên 6:4):
    • Hamilton: Traduz literalmente como “os caídos” ou “aqueles que foram lançados abaixo” (forma passiva qaṭīl), distinguindo-os dos gibborim (valentes). Ele nota que eles estavam na terra antes e depois dos eventos, sugerindo que não são necessariamente a prole da união ilícita (Hamilton, “NICOT_007…”).
    • Steinmann: Nota que a LXX traduz como gigantes. Ele sugere que, embora a origem seja obscura, Números 13:33 indica que eram caracterizados por estatura excessiva e eram famosos (Steinmann, “TOTC_015…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Destaca que a frase “quando o homem começou a multiplicar-se” (6:1) e a ênfase nas “filhas” cria um contraste irônico com o capítulo 5, onde o foco eram os filhos homens. Ele vê aqui uma polêmica contra os cultos de fertilidade do Oriente Próximo, onde casamentos sagrados entre deuses e humanos eram celebrados; Gênesis apresenta isso como uma abominação que causa a redução da vida (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
  • [Hamilton]: Observa um paralelo teológico profundo entre a retirada do Espírito em 6:3 e a presença do Espírito em 1:2. Em 1:2, o Espírito pairava trazendo ordem ao caos; em 6:3, a retirada do Espírito permite que o caos (pecado e morte) floresça sem controle. Ele também nota que o julgamento de “120 anos” é paralelo ao aviso de Jonas a Nínive (“ainda 40 dias”), funcionando como um ultimato de graça e não apenas uma sentença biológica (Hamilton, “NICOT_007…”).
  • [Steinmann]: Argumenta que o pecado dos “filhos de Deus” espelha a queda de Eva. Ambos “viram” que o objeto de desejo era “bom” (belo) e “tomaram”. Ele vê nisso uma repetição estrutural da Queda, onde a busca por autonomia e satisfação fora dos limites divinos traz julgamento universal (Steinmann, “TOTC_015…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Natureza dos “Filhos de Deus”:
    • O debate é frontal. Hamilton e Wenham favorecem a visão sobrenatural (anjos/seres divinos), argumentando que o contraste textual entre “filhos de Deus” e “filhas dos homens” exige categorias ontológicas diferentes. Hamilton admite que é uma interpretação “bizarra”, mas exegeticamente mais sólida (Hamilton, “NICOT_007…”).
    • Steinmann defende a visão agostiniana/reformada (Setitas vs. Cainitas), argumentando que o contexto imediato (capítulos 4 e 5) estabelece a dicotomia entre a linhagem da promessa e a linhagem do pecado. Ele considera teologicamente incongruente que Deus puna a humanidade por um pecado iniciado por anjos (Steinmann, “TOTC_015…”).
    • Veredito Textual: A visão de Wenham/Hamilton lida melhor com a filologia hebraica crua (Elohim vs Adam), enquanto Steinmann lida melhor com a teologia sistemática posterior.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Jó 1:6, 2:1: Citado por Wenham e Hamilton para definir “filhos de Deus” como corte celestial.
  • Números 13:33: Todos os autores conectam os Nephilim aos gigantes de Canaã, indicando uma tipologia de guerreiros anti-Deus.
  • Salmo 82: Hamilton cita este salmo ao discutir a possibilidade (que ele acha menos provável, mas possível) de “filhos de Deus” serem reis ou juízes injustos (Hamilton, “NICOT_007…”).

5. Consenso Mínimo

  • Todos concordam que Gênesis 6:1-4 descreve a transgressão de limites divinamente estabelecidos e que os 120 anos representam um limite imposto por Deus à corrupção humana, seja como tempo de vida ou prazo para o dilúvio.

📖 Perícope: O Arrependimento Divino e a Graça em Noé (Gênesis 6:5-8)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Niḥam (Arrepender-se/Lamentar):
    • Hamilton: Nota que o Nifal de niḥam ocorre 48 vezes no AT, sendo Deus o sujeito em 34. Ele rejeita a ideia de “mudança de mente” simples, argumentando por “dor emocional” genuína e uma retratação de ação. Ele observa que a LXX evita traduzir como “arrepender-se” aqui para proteger a imutabilidade divina, usando “refletiu” ou “considerou” (Hamilton, “NICOT_008…”).
    • Wenham: Aponta para o jogo de palavras (paronomásia) com o nome de Noé (nōăḥ). Lameque esperava que Noé trouxesse “consolo” (niḥam, 5:29), mas agora Deus sente “pesar” (niḥam, 6:6) (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
  • Yēṣer (Desígnio/Imaginação):
    • Hamilton: Conecta este termo a Gênesis 2:7 (formar). Deus “formou” (yāṣar) o homem; agora o homem “forma” (yēṣer) pensamentos maus. O homem tornou-se um “oleiro” perverso de seus próprios propósitos (Hamilton, “NICOT_008…”).
  • ʿAṣab (Dor/Tristeza):
    • Hamilton: Enfatiza que esta palavra denota dor física e mental intensa (usada para o parto em 3:16). Deus sente uma “estocada no coração”, refutando a ideia de um Deus estoico ou apático (Hamilton, “NICOT_008…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Identifica uma estrutura palistrófica (quiasmo) perfeita nestes versículos: A. Deus vê a maldade (v.5) B. Deus se arrepende (v.6) C. Sentença de destruição (v.7) B’. Deus se arrepende (v.7) A’. Deus vê Noé (v.8). Isso coloca o foco central no decreto de julgamento, mas suavizado pela graça final a Noé (Wenham, “Spirit-Human Marriages…”).
  • [Hamilton]: Oferece uma visão única sobre a antropopatia. Ele argumenta que atribuir dor a Deus não é uma metáfora vazia, mas revela a capacidade de Deus de ser afetado pelas ações de Suas criaturas. Ele contrasta isso com o épico de Gilgamesh, onde os deuses enviam o dilúvio por capricho ou irritação com o barulho humano, sem dimensão moral ou dor pessoal (Hamilton, “NICOT_008…”).
  • [Steinmann]: Foca na universalidade do pecado (“todo desígnio… era continuamente mau”). Ele usa isso para argumentar que Noé não foi salvo por mérito intrínseco, mas “achou” (recebeu) graça, estabelecendo um padrão soteriológico para o restante da Bíblia (Steinmann, “TOTC_015…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza de Noé (v. 8):
    • Steinmann é enfático: Noé é um pecador salvo pela graça. O texto diz que ele “achou favor”, não que ele “ganhou favor” (Steinmann, “TOTC_015…”).
    • Hamilton faz uma distinção sutil. Ele concorda que māṣāʾ ḥēn (“achar graça”) geralmente implica favor imerecido, mas nota que no versículo 9 Noé é chamado de ṣaddîq (justo). Hamilton sugere que a graça é a causa, e a retidão de Noé é a evidência ou o resultado, evitando separar totalmente o caráter de Noé de sua eleição (Hamilton, “NICOT_008…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 1:31: Wenham e Steinmann notam o contraste trágico: Deus “viu” que tudo era muito bom (1:31), agora Deus “viu” que a maldade era grande (6:5).
  • Êxodo 32:32: Hamilton conecta o verbo māḥâ (apagar/borrar) de Gênesis 6:7 com o pedido de Moisés para ser “riscado” do livro, sugerindo uma linguagem de julgamento forense (Hamilton, “NICOT_008…”).

5. Consenso Mínimo

  • Os três concordam que o julgamento do Dilúvio é uma resposta moral de um Deus pessoal à depravação total e interna da humanidade, e não um ato arbitrário de poder.

📖 Perícope: A Ordem para Construir a Arca (Gênesis 6:9-22)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Tēbâ (Arca):
    • Steinmann: Observa que a palavra hebraica é usada apenas aqui e em Êxodo 2 (para o cesto de Moisés). Provavelmente deriva do egípcio “caixa” (tbt). Não é um navio para navegar, mas um recipiente para flutuar e preservar vida (Steinmann, “TOTC_018…”).
    • Wenham: Concorda com a origem egípcia e nota que as dimensões (300x50x30 côvados) fazem da arca uma caixa gigante, não um barco hidrodinâmico, enfatizando a dependência total de Deus para a sobrevivência (Wenham, “The Story of Noah…”).
  • Ṣaddîq vs. Tāmîm (Gên 6:9):
    • Hamilton: Ṣaddîq refere-se à conduta legal/moral correta (justo no tribunal). Tāmîm refere-se à integridade física ou moral completa (usado para animais de sacrifício sem defeito). Noé possuía ambas as qualidades (Hamilton, “NICOT_008…”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • [Wenham]: Destaca o paralelo estrutural entre a construção da Arca e a construção do Tabernáculo (Êxodo 25-31). Ambos envolvem instruções divinas detalhadas, materiais específicos e a frase “fez conforme tudo o que Deus ordenou”. A Arca é um proto-templo flutuante onde a santidade é preservada no meio do caos (Wenham, “The Story of Noah…”).
  • [Hamilton]: Nota a ironia de que a madeira gôper (identidade incerta) é usada apenas aqui, enquanto a arca babilônica (Gilgamesh) é um cubo perfeito de 120 côvados, o que seria nauticamente instável. Ele argumenta que as dimensões bíblicas (proporção 6:1) são incrivelmente realistas e adequadas para estabilidade em mar agitado (Hamilton, “NICOT_008…”).
  • [Steinmann]: Enfatiza a aliança (berît) mencionada em 6:18. É a primeira vez que a palavra “aliança” aparece na Bíblia. Steinmann nota que Deus promete a aliança antes do dilúvio, mas só a ratifica depois (cap. 9), exigindo de Noé uma fé perseverante baseada apenas na palavra falada (Steinmann, “TOTC_018…”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Contradição” dos Animais (6:19 vs 7:2):
    • O texto diz “dois de cada espécie” em 6:19, mas “sete pares dos limpos” em 7:2.
    • Steinmann: Ataca a hipótese documental (que vê duas fontes contraditórias, J e P). Ele argumenta que 6:19 é a instrução geral (preservação da espécie) e 7:2 é a instrução específica posterior (para sacrifício). Não há contradição, apenas ampliação (Steinmann, “TOTC_018…”).
    • Wenham: Embora use a terminologia de fontes (J/P) para análise literária, ele concorda funcionalmente que o texto final é uma unidade coerente onde a instrução posterior refina a anterior (Wenham, “The Story of Noah…”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Êxodo 39-40: Wenham conecta repetidamente a frase “Noé fez tudo o que Deus lhe ordenou” (6:22) com o refrão da obediência de Moisés na construção do Tabernáculo.
  • Ezequiel 14:14: Steinmann cita Ezequiel listando Noé, Daniel e Jó como paradigmas de justiça, para reforçar a historicidade e o caráter de Noé dentro do cânon (Steinmann, “TOTC_018…”).

5. Consenso Mínimo

  • Os três autores concordam que a construção da arca foi um ato de fé e obediência absoluta de Noé, servindo como o meio exclusivo de salvação divina frente a um julgamento universal decretado.