Análise Comparativa: Gênesis 40

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis 16-50. Word Biblical Commentary (WBC), Vol. 2. Dallas: Word Books.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 18-50. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Grand Rapids: Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC), Vol. 1. Downers Grove: InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, G. J. (Genesis, WBC).

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica. Wenham engaja profundamente com a crítica das fontes (Documentary Hypothesis), mas frequentemente para refutar suas divisões excessivas, defendendo a unidade literária e teológica do texto final (forma canônica).
    • Metodologia: Sua abordagem é filológica e literária. Ele foca na análise detalhada de palavras hebraicas (ex: significados duplos) e na estrutura narrativa (cenas e diálogos). Em Gênesis 40, ele argumenta contra a divisão clássica de fontes J e E, vendo o capítulo como uma unidade coerente, provavelmente da fonte J (Wenham, 1987).
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E. (Genesis, TOTC).

    • Lente Teológica: Evangélica Confessional. Steinmann mantém uma alta visão da historicidade do texto e busca conexões canônicas, especialmente tipológicas, que liguem o Antigo ao Novo Testamento e a outros livros da Bíblia Hebraica.
    • Metodologia: Narrativa e Intertextual. Ele enfatiza a teologia bíblica, traçando paralelos literários e temáticos intencionais dentro do cânon. No capítulo 40, sua contribuição distintiva é a extensa comparação entre as narrativas de José e Daniel (Steinmann, 2019).
  • Autor/Obra: Hamilton, V. P. (The Book of Genesis, NICOT).

    • Lente Teológica: Evangélica Conservadora. Foca na fidelidade histórica e na teologia da aliança.
    • Metodologia: Exegese Histórico-Gramatical. Hamilton geralmente prioriza a análise léxica e paralelos com o Antigo Oriente Próximo.
    • Nota Crítica: Os excertos fornecidos para Hamilton apresentam uma lacuna textual específica sobre a exegese detalhada de Gênesis 40 (o texto salta de 39:12 para 41:53). Portanto, a análise deste autor basear-se-á em sua introdução geral ao “Ciclo de José” (Gênesis 37-50) e notas conexas fornecidas nos documentos.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham: A narrativa de José na prisão é uma unidade literária coesa (não uma colcha de retalhos de fontes) que serve como uma polêmica contra o ocultismo egípcio, demonstrando que a revelação pertence exclusivamente a Deus.

    • Wenham argumenta vigorosamente contra a divisão das fontes (J e E) neste capítulo, observando que as conexões entre os capítulos 39 e 40 são fortes demais para permitir tal separação (Wenham, 1987). Ele destaca a teologia de José ao confrontar os oficiais egípcios: “A resposta de José, ‘Não pertencem a Deus as interpretações?’, é completamente polêmica… José quer dizer que a interpretação de sonhos não é uma arte humana, mas um carisma que Deus pode conceder” (Wenham, 1987). Wenham também explora o jogo de palavras filológico na expressão “levantar a cabeça” (nāśāʾ rōʾš), que para o copeiro significa restauração, mas para o padeiro significa decapitação literal ou execução (Wenham, 1987).
  • Tese de Steinmann: O capítulo destaca a soberania de Deus sobre o futuro através da teologia dos sonhos, estabelecendo um paradigma intertextual que será espelhado posteriormente na vida do profeta Daniel.

    • Steinmann enfatiza que “interpretações pertencem a Deus” (40:8), desafiando a crença de que o treinamento humano (os sábios do Egito) pode desvendar o futuro (Steinmann, 2019). Sua contribuição singular é o mapeamento dos paralelos entre José e Daniel: ambos exilados, ambos servindo cortes estrangeiras, ambos interpretando sonhos de reis e sendo elevados ao poder. Steinmann argumenta que “Daniel modelou a narrativa de sua história na narrativa sobre José para chamar a atenção de seus leitores para a semelhança entre sua situação e a de José” (Steinmann, 2019). Ele também nota a ironia divina: o esquecimento do copeiro (40:23) foi providencial, garantindo que José estivesse disponível no momento exato para interpretar o sonho do Faraó anos depois.
  • Tese de Hamilton: A “História de José” não é apenas sobre a ascensão de um indivíduo, mas sobre a preservação providencial da família da aliança (Jacó/Israel) em meio a crises, onde o silêncio de Deus não implica Sua ausência.

    • Embora a exegese detalhada de Hamilton para o capítulo 40 não esteja disponível nos excertos, sua abordagem geral ao ciclo (37:1-50:26) enfatiza a estrutura literária onde a humilhação de José (capítulos 39-40) é um prelúdio necessário para sua exaltação e a salvação da família. Hamilton observa que o narrador bíblico é intencional ao alternar o foco entre os irmãos (cap. 38) e José (cap. 39-41), criando uma tensão narrativa que se resolve apenas na reunião final, sublinhando que a bênção divina sobre José transborda para as nações (Egito) mesmo antes de alcançar sua própria família (Hamilton, 1990).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Wenham (WBC)Visão de Hamilton (NICOT)Visão de Steinmann (TOTC)
Palavra-Chave / Termo Hebraiconāśāʾ rōʾš (“levantar a cabeça”). Wenham destaca a ambiguidade filológica intencional: para o copeiro significa restauração (recenseamento/honra), mas para o padeiro é literal (decapitação) (Wenham, 1987).gunnōḇ gunnaḇtî (“fui roubado”). Hamilton foca na discrepância semântica de 40:15 (Joseph diz “roubado” vs. 37:28 “vendido”), definindo-a como estratégia retórica para ganhar a confiança do copeiro, evitando implicar seus irmãos (Hamilton, 1990).pāṯar (“interpretar”). Steinmann conecta a terminologia de interpretação de sonhos (pāṯar/piṯrôn) com os textos de Daniel (Aramaico pšar), estabelecendo um vínculo intertextual de sabedoria divinamente concedida (Steinmann, 2019).
Problema Central do TextoO conflito entre a ciência onírica egípcia e a revelação hebraica. O problema não é apenas o sonho, mas a ausência de especialistas técnicos acessíveis na prisão (Wenham, 1987).A validade teológica dos sonhos onde Deus não fala. Hamilton nota que, diferente dos patriarcas, aqui Deus não aparece no sonho; a ambiguidade exige um intérprete carismático para validar a revelação (Hamilton, 1990).A impotência humana diante do futuro. O desespero dos oficiais revela a falência da sabedoria cortesã pagã em acessar os mistérios divinos sem a mediação de um servo de Deus (Steinmann, 2019).
Resolução TeológicaA interpretação é um carisma exclusivo, não uma técnica. A resposta de José (“Não pertencem a Deus as interpretações?”) é uma polêmica contra a adivinhação, afirmando que o futuro é propriedade exclusiva de Deus (Wenham, 1987).A providência oculta. Mesmo na manipulação da narrativa por José (ao dizer que foi “roubado”), Deus preserva o inocente. A resolução depende da integridade de José em meio à injustiça sistêmica (Hamilton, 1990).A soberania de Deus sobre o tempo. Steinmann enfatiza que o esquecimento do copeiro (40:23) não foi acidente, mas plano divino para que José estivesse disponível no momento exato da crise do Faraó, dois anos depois (Steinmann, 2019).
Tom/EstiloLiterário-Crítico. Foca na estrutura da narrativa, jogos de palavras e na unidade da fonte J, refutando divisões excessivas de fontes (Wenham, 1987).Sócio-Retórico. Analisa como as personagens usam a linguagem para negociação social e defesa pessoal dentro da trama familiar e política (Hamilton, 1990).Canônico-Intertextual. Lê a narrativa de José como um protótipo para a literatura de exílio (Daniel/Ester), com foco na fidelidade em terra estranha (Steinmann, 2019).

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Steinmann (TOTC). Destaca-se ao conectar a narrativa de Gênesis 40 com o contexto canônico mais amplo, especificamente os paralelos com o livro de Daniel (ambos exilados, intérpretes de sonhos de reis pagãos, elevados ao poder). Ele fornece uma base robusta para entender a função da “sabedoria na diáspora” (Steinmann, 2019).
  • Melhor para Teologia: Wenham (WBC). Oferece a análise mais profunda sobre a natureza da revelação e a polêmica contra o ocultismo. Sua exegese da frase “Não pertencem a Deus as interpretações?” (40:8) define o coração teológico do capítulo: a batalha entre a técnica humana e a soberania divina na revelação do mistério (Wenham, 1987).
  • Síntese: Para uma compreensão holística, deve-se fundir a análise literária detalhada de Wenham, que desvenda os jogos de palavras irônicos (levantar a cabeça), com a sensibilidade retórica de Hamilton, que explica as nuances do discurso de defesa de José (“fui roubado”), enquadrando tudo na estrutura tipológica de Steinmann, que vê em José o modelo do sábio sofredor vindicado por Deus.

Soberania Divina, Revelação Onírica, Provindência Oculta e Tipologia do Exílio são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

Nota Metodológica: O arquivo fonte de Hamilton (NICOT) fornecido contém exegese detalhada de Gênesis 32-34 e 37-39, saltando então para 41:53 em diante. Portanto, a análise abaixo focará primariamente no contraste entre Wenham (WBC) e Steinmann (TOTC) para o capítulo 40, citando Hamilton apenas quando houver inferências gerais ou notas de rodapé cruzadas disponíveis nos textos dos outros autores.

📖 Perícope: A Prisão dos Oficiais (40:1-4)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • sar haṭṭabbāḥîm (Capitão da guarda/Chefe dos carrascos): Wenham nota a ambiguidade se este oficial (em cuja casa ficava a prisão) ainda é Potifar. Ele cita Vergote sugerindo que o termo pode significar “mordomo real responsável pelo catering” (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • ḥāṭāʾ (Pecar/Ofender): Steinmann observa que a palavra para a ofensa dos oficiais é a mesma usada por José em 39:9 (“como poderia… pecar contra Deus?”), criando um contraste irônico: José é preso por se recusar a pecar; eles são presos por terem, de fato, pecado/ofendido (Steinmann, “Joseph in prison”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Traz o contexto egípcio para os títulos. Identifica o mašqeh (copeiro) com o termo egípcio wb’ e o ’ōpeh (padeiro) com retehti. Ele destaca que estes oficiais, muitas vezes estrangeiros, detinham influência política, comparando o copeiro à posição de Neemias na corte persa (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • Steinmann: Destaca a repetição enfática de que a prisão ficava “na casa do capitão da guarda”, “na casa redonda”, “no lugar onde José estava”, para garantir que o leitor entenda que a providência divina colocou esses altos oficiais exatamente no domínio de José (Steinmann, “Joseph in prison”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Identidade do Carcereiro:
    • Wenham levanta a questão: O “capitão da guarda” aqui ainda é Potifar? Se for, isso explicaria por que José foi designado para servir oficiais de tão alta patente (retomando seu papel de 39:4). No entanto, o texto usa “governador da prisão” em 39:21, sugerindo uma distinção ou subordinação (Wenham, “Joseph in Prison”).
    • Steinmann assume mais diretamente a continuidade, observando que a prisão era onde os prisioneiros do rei ficavam (39:20) e que o local é descrito com os mesmos termos de 39:1, implicando que José volta a servir na esfera de Potifar, embora sob uma nova dinâmica de encarceramento (Steinmann, “Joseph in prison”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Steinmann conecta a frase “depois destas coisas” (40:1) com 39:7, notando que ambas introduzem complicações na vida de José: a primeira levou à prisão, a segunda levará (eventualmente) à libertação.

5. Consenso Mínimo

  • Os dois autores concordam que a prisão não era uma masmorra comum, mas um local de detenção para oficiais de alto nível do estado, e que a designação de José para atendê-los (“servir”, šārat) indica um status privilegiado dentro da prisão.

📖 Perícope: Os Sonhos e a Interpretação (40:5-19)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • zō‘ăpîm (Tristes/Abatidos): Wenham analisa este termo raro (v. 6), usado também em Daniel 1:10 (“rosto abatido”), sugerindo uma aparência doentia ou furiosa devido à frustração (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • nāśāʾ rōʾš (Levantar a cabeça): Termo central para ambos.
    • Wenham explora o duplo sentido: pode significar “recensear/contar” (Ex 30:12) ou “tratar com bondade/restaurar” (2 Rs 25:27). Porém, no caso do padeiro, é usado literalmente para decapitação ou exposição do corpo (Wenham, “Joseph in Prison”).
    • Steinmann concorda com o jogo de palavras, notando que para o copeiro é figurativo (restauração), mas para o padeiro a adição de “de sobre ti” (mē‘āleykā) confirma a decapitação (Steinmann, “Joseph in prison”).
  • ḥōrî (Cestos de pão branco/Cestos perfurados): Wenham cita Dahood e textos de Ebla para sugerir “pastéis feitos com farinha branca”, indicando a alta culinária egípcia (Wenham, “Joseph in Prison”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Enfatiza a polêmica teológica no v. 8 (“Porventura não pertencem a Deus as interpretações?”). Ele argumenta que isso contrapõe a visão egípcia, onde sonhos eram mensagens dos deuses decifráveis por uma ciência técnica complexa, à visão hebraica de que a interpretação é um carisma exclusivo concedido por Yahweh (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • Steinmann: Realiza uma análise estrutural detalhada baseada no número três. No sonho do copeiro: três ramos, três estágios de crescimento, três ações (pegar, espremer, entregar). No sonho do padeiro: três cestos. Isso valida a interpretação de “três dias” (Steinmann, “Joseph in prison”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A “Terra dos Hebreus” (v. 15):
    • Wenham: Defende que a frase não é necessariamente um anacronismo (visto que “hebreu” pode estar ligado a Habiru, termo comum no segundo milênio a.C.). Ele cita Anbar, que encontrou a frase “terra dos hebreus” em textos ugaríticos, sugerindo uma região geográfica específica ao norte de Siquém, e não apenas um designativo étnico posterior (Wenham, “Joseph in Prison”).
    • Steinmann: Foca mais na função retórica da frase. José usa “terra dos hebreus” para contrastar sua origem com “aqui” (o Egito/a cova), enfatizando a injustiça de sua situação como estrangeiro sequestrado (Steinmann, “Joseph in prison”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Steinmann estabelece um paralelo extensivo entre José e Daniel. Ambos os textos usam:
    • A frase “espírito perturbado” (Gn 41:8; Dn 2:1).
    • O termo para “magos/sábios” (ḥarṭummîm).
    • O reconhecimento de que a interpretação pertence a Deus (Gn 40:8; Dn 2:28).
    • A palavra para “triste/abatido” (zō‘ăpîm em Gn 40:6; Dn 1:10) (Steinmann, “Additional note on parallels between Joseph and Daniel”).

5. Consenso Mínimo

  • Ambos concordam que a execução do padeiro (suspendê-lo no madeiro) reflete uma pena de morte agravada, onde a exposição do cadáver impedia o descanso do espírito na vida após a morte, algo aterrorizante na teologia egípcia.

📖 Perícope: Cumprimento e Esquecimento (40:20-23)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • yôm hulledet (Aniversário): Wenham observa que anistias em aniversários de Faraós são atestadas, embora mais frequentemente em aniversários de ascensão ao trono (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • zākar / šākaḥ (Lembrar / Esquecer): Steinmann aponta a ironia: José pediu para ser lembrado (zākar, v. 14), mas o copeiro não apenas “não lembrou”, como “esqueceu” (šākaḥ, v. 23). Esta redundância verbal sublinha a total desesperança humana de José (Steinmann, “Joseph in prison”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Destaca o quiasmo literário entre os versículos 21 e 22, onde as palavras de José nos versículos 13 e 19 são ecoadas quase verbatim para demonstrar o cumprimento exato, provando que “o SENHOR estava com ele” (Wenham, “Joseph in Prison”).
  • Steinmann: Observa a inversão teológica da “lembrança”. Quando o copeiro é restaurado à abundância, ele esquece José (40:23). Mais tarde, na profecia da fome, José dirá que a abundância do Egito será esquecida (41:30-31), invertendo a sorte do copeiro. O esquecimento humano serve ao propósito divino de manter José no lugar certo até o momento crítico (Steinmann, “Joseph in prison”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • Não há debate significativo nesta seção final; ambos os autores focam na função narrativa do esquecimento do copeiro como um dispositivo para estender a prova de José e preparar o cenário para o capítulo 41.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Wenham conecta o pedido de José (“tira-me desta casa”, v. 14) com a linguagem do Êxodo (“Eu sou o Senhor que te tirou da casa da servidão”, Ex 20:2), sugerindo que o clamor pessoal de José prefigura a redenção nacional de Israel (Wenham, “Joseph in Prison”).

5. Consenso Mínimo

  • A capacidade de José de interpretar sonhos corretamente é a prova textual, dentro da narrativa, de que sua inspiração é divina e não fruto de adivinhação técnica, validando sua afirmação teológica anterior (v. 8).