Análise Comparativa: Gênesis 35

1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes

  • Wenham, G. J. (1987). Genesis 16-50. Word Biblical Commentary (WBC). Vol. 2. Dallas: Word Books.
  • Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis: Chapters 18-50. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Grand Rapids: Eerdmans.
  • Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). Vol. 1. Downers Grove: InterVarsity Press.

Análise dos Autores

  • Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis (WBC).

    • Lente Teológica: Evangélica Crítica / Análise Literária. Wenham dialoga extensivamente com a crítica das fontes (J, E, P), mas tende a defender a coerência da forma final do texto através de uma análise estrutural e retórica.
    • Metodologia: Sua abordagem é fortemente marcada pela crítica da forma e análise estrutural. Em Gênesis 35, ele foca na estrutura quiástica e nos “ecos” literários (ex: o terror de Deus em 35:5 comparado a Êxodo 23:27). Ele examina como o capítulo serve de conclusão para o ciclo Jacó-Isaque, utilizando paralelos com as narrativas de Abraão.
  • Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis (NICOT).

    • Lente Teológica: Evangélica Confessional / Histórico-Gramatical. Hamilton foca na teologia do texto dentro do cânone, com atenção particular à filologia hebraica e aos paralelos com o Antigo Oriente Próximo.
    • Metodologia: Ataca o texto via exegese léxica detalhada (ex: a distinção entre os verbos para “enterrar” e “esconder” ídolos) e teologia bíblica. Ele busca mostrar a maturação espiritual de Jacó e usa tipologia intertextual (comparando o pecado de Rúben com eventos em 2 Samuel).
  • Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis (TOTC).

    • Lente Teológica: Conservadora Luterana / Teológica. Foca na aplicação teológica direta e na coerência narrativa, defendendo a historicidade e cronologia do texto.
    • Metodologia: Utiliza uma abordagem de síntese narrativa, categorizando o capítulo em eventos que “olham para trás” (encerramento) e “olham para frente” (transição). Ele oferece dados cronológicos específicos (ex: data a morte de Raquel em c. 1901 a.C.) e foca na fidelidade de Deus em meio à disfunção familiar.

2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)

  • Tese de Wenham (WBC): O capítulo 35 funciona estruturalmente como o “Fim da Jornada” para o ciclo de Jacó e Isaque, onde a repetição da mudança de nome e as mortes registradas servem para unificar tradições díspares sob a mão de um redator final habilidoso.

    • Argumento expandido: Wenham destaca que este capítulo fecha o ciclo iniciado no nascimento dos gêmeos. Ele argumenta que a ordem de Deus para ir a Betel não é apenas geográfica, mas teológica, ligada ao cumprimento de votos anteriores. Ele nota a simetria literária onde o enterro dos ídolos e o enterro da ama Deborah usam vocabulário contrastante, sugerindo que o autor está amarrando “pontas soltas” da narrativa patriarcal antes da história de José (Wenham, “Journey’s End for Jacob and Isaac”). Ele também aborda a questão crítica da repetição da mudança de nome de Jacó (32:28 vs 35:10), sugerindo que a versão em 35 funciona como uma confirmação solene da promessa no contexto de retorno à terra (Wenham, “Comment on 35:9-15”).
  • Tese de Hamilton (NICOT): Gênesis 35 retrata o clímax da maturação religiosa de Jacó, evidenciada pela purificação cúltica da família e a transição de uma fé baseada em barganhas para uma obediência proativa, apesar do contraponto contínuo de tragédias familiares.

    • Argumento expandido: Hamilton enfatiza que esta é a “única vez em que um patriarca é expressamente instruído por Deus a construir um altar” (Hamilton, “Comment on 35:1”). Ele destaca a ironia trágica na vida de Jacó: no momento em que ele atinge o auge espiritual (tornando-se Israel em Betel), ele enfrenta suas maiores perdas terrenas (morte de Deborah, morte de Raquel). Hamilton faz uma análise filológica aguda sobre o ato de “esconder” (ṭāman) os ídolos em vez de apenas enterrá-los, sugerindo uma ruptura radical com o passado pagão (Hamilton, “Comment on 35:4”). Além disso, ele interpreta o incesto de Rúben não apenas como luxúria, mas como uma tentativa política de usurpação de autoridade, similar a Absalão (Hamilton, “Comment on 35:22”).
  • Tese de Steinmann (TOTC): O capítulo atua como um pivô narrativo que estabelece o monoteísmo estrito na casa de Jacó e prepara o cenário para a liderança futura de Judá e José, demonstrando a fidelidade de Deus através da preservação da linhagem messiânica em meio ao pecado e à morte.

    • Argumento expandido: Steinmann organiza o capítulo esquematicamente em incidentes que “olham para frente” (bênção de Deus, pecado de Rúben) e “olham para trás” (morte de Raquel e Isaque) (Steinmann, “Context: Gen 35”). Ele argumenta que a ordem de Jacó para se livrar dos deuses estrangeiros marca o momento em que o patriarca assume seu papel sacerdotal na família, rejeitando o sincretismo tolerado anteriormente (Steinmann, “Comment on 35:2-4”). Ele também fornece uma reconstrução cronológica precisa, notando que a morte de Isaque aos 180 anos implica que ele viveu durante a venda de José, o que adiciona peso ao silêncio de Jacó nos capítulos seguintes (Steinmann, “Comment on 35:28-29”).

3. Matriz de Diferenciação

CategoriaVisão de Wenham (WBC)Visão de Hamilton (NICOT)Visão de Steinmann (TOTC)
Palavra-Chave / Termo HebraicoToledot (História das Famílias). Wenham foca na estrutura literária onde Gênesis 35:29 (morte de Isaque) fecha a seção iniciada em 25:19, completando o quiasmo narrativo do ciclo de Jacó (Wenham, p. 169).Tāman (Esconder/Enterrar). Destaca que Jacó não apenas “enterrou” (qābar), mas “escondeu” (tāman) os ídolos, sugerindo um ritual de anulação de poder ou uma armadilha para as divindades, distinto de um funeral digno (Hamilton, p. 219).El Shaddai (Deus Todo-Poderoso). Enfatiza a conexão direta com Gênesis 17, onde este título divino garante a promessa de fertilidade e realeza, agora reafirmada a Jacó como cumprimento da aliança patriarcal (Steinmann, p. 436).
Problema Central do TextoFechamento Narrativo. A preocupação principal é como o texto amarra as pontas soltas da narrativa de Jacó — a resolução com Esaú e a sucessão de Isaque — criando uma moldura (inclusio) com o início do ciclo em Gênesis 25 (Wenham, p. 173).Sincretismo e Luto. O contraste agudo entre a maturação espiritual de Jacó (tornando-se Israel em culto exclusivo) e a sequência implacável de tragédias familiares (mortes de Débora, Raquel e Isaque, e o incesto de Rúben) (Hamilton, p. 228).Ameaça Externa e Interna. O perigo real de retaliação cananeia após o massacre de Siquém (resolvido pelo “terror de Deus”) e a ameaça interna da idolatria doméstica que precisava ser expurgada para a sobrevivência da linhagem (Steinmann, p. 433-434).
Resolução TeológicaEstrutural/Pactual. O capítulo funciona como o “Fim da Jornada”, validando a promessa divina através da preservação da linhagem até o enterro de Isaque, unindo os irmãos rivais na morte do pai (Wenham, p. 177).Santificação Progressiva. A resolução se dá na purificação do clã. Jacó finalmente age como “Israel”, exigindo monoteísmo estrito, o que permite que Deus “apareça” novamente e confirme a bênção (Hamilton, p. 232).Fidelidade Divina. A ênfase recai sobre a proteção sobrenatural de Deus (o terror nas cidades vizinhas) e a reafirmação da aliança, demonstrando que a promessa depende da graça de Deus, não da moralidade falha de Jacó (Steinmann, p. 446).
Tom/EstiloLiterário-Estrutural. Foca em quiasmos, palavras-guia e na arquitetura do texto dentro do Pentateuco.Exegético-Analítico. Detalhado em filologia, paralelos com o Antigo Oriente Próximo e nuances semânticas.Teológico-Pastoral. Foca na aplicação da doutrina, na coerência narrativa e na defesa da historicidade.

4. Veredito Acadêmico

  • Melhor para Contexto: Hamilton (NICOT). Oferece a análise mais rica sobre o background cultural, discutindo paralelos com textos de Nuzi e rituais do Antigo Oriente Próximo (ex: o significado de enterrar ídolos sob o terebinto e a análise dos nomes tribais em Gênesis 36).
  • Melhor para Teologia: Steinmann (TOTC). Destaca-se na articulação da teologia da aliança, conectando consistentemente os eventos de Gênesis 35 (como a purificação e a bênção de El Shaddai) com a fidelidade monoteísta e a preservação messiânica da linhagem contra o sincretismo.
  • Síntese: Para uma compreensão holística de Gênesis 35, deve-se utilizar Wenham para entender a arquitetura literária que encerra o ciclo de Jacó, Hamilton para aprofundar a exegese dos rituais de purificação e as nuances linguísticas do texto hebraico, e Steinmann para capturar a aplicação teológica da fidelidade de Deus em meio à crise familiar. O capítulo atua como um pivô crucial onde El Shaddai reafirma a promessa, exigindo o abandono dos Teraphim e deuses estrangeiros, consolidando a identidade de Israel antes da narrativa de José.

Purificação do Clã, Terror de Deus, El Shaddai e Inclusio Narrativo são conceitos chaves destacados na análise.


5. Exegese Comparada

📖 Perícope: A Purificação em Siquém e Retorno a Betel (Versículos 1-8)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Elohey hannekar (Deuses estrangeiros): Hamilton observa que a ordem é para se livrar (hāsîrû) destes deuses. Ele conecta isso a Josué 24:14 e 1 Samuel 7:3, onde a remoção é um pré-requisito para o serviço legítimo a Yahweh. A frase sugere deuses que são “estranhos” à aliança (Hamilton, “Comment on 35:2-4”).
  • Tāman (Esconder/Enterrar): O verbo usado para o ato de Jacó com os ídolos no v. 4. Hamilton destaca que tāman é frequentemente usado em contextos de armadilhas ou esconderijos (ex: Salmos, Jó 3:16 para um aborto escondido), distinto de qābar (sepultamento digno). Isso pode implicar um ritual de anulação mágica ou medo de que os ídolos fossem recuperados (Hamilton, “Comment on 35:2-4”). Wenham nota o contraste literário: os ídolos são “escondidos” (tāman), enquanto a ama Débora é “sepultada” (qābar) no v. 8 (Wenham, “Comment on 35:8”).
  • Hittat elohim (Terror de Deus): No v. 5, descreve o pânico sobrenatural que protegeu Jacó. Wenham traduz como “terror divino” e liga a Êxodo 23:27, sugerindo uma guerra santa defensiva onde Deus luta por Israel (Wenham, “Comment on 35:5”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hamilton: Observa que Gênesis 35:1 é a “única vez em que um patriarca é expressamente instruído por Deus a construir um altar”. Em todas as outras ocasiões (Abraão, Isaque), a construção do altar foi uma resposta espontânea (Hamilton, “Comment on 35:1”). Ele também sugere que a “purificação e mudança de roupas” (v. 2) ecoa a liturgia de peregrinação e preparação para teofanias, similar ao Sinai em Êxodo 19 (Hamilton, “Comment on 35:2-4”).
  • Wenham: Destaca a inclusão “curiosa” da morte de Débora, ama de Rebeca (v. 8). Ele argumenta que isso serve para lembrar o leitor de Rebeca e sua ausência: Jacó volta para casa, mas encontra a morte (da ama, e depois de Raquel e Isaque), não a mãe que planejou sua fuga. É uma nota de “Fim da Jornada” marcada por luto (Wenham, “Comment on 35:8”).
  • Steinmann: Enfatiza o contraste teológico agudo. Jacó exige “monoteísmo estrito” em preparação para Betel, contrastando o El Shaddai que o protegeu com os deuses que podem ser “secretados sob um carvalho” e abandonados. Ele vê isso como o ponto de maturação da fé de Jacó (Steinmann, “Meaning: 35:1-15”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Natureza dos “Brincos” (v. 4):
    • Steinmann sugere duas possibilidades: poderiam ser despojos do saque de Siquém ou amuletos ligados à idolatria (Steinmann, “Comment on 35:2-4”).
    • Hamilton é mais decisivo, ligando-os explicitamente à idolatria, notando que em contextos posteriores (Bezerro de Ouro, Êxodo 32), joias são matéria-prima para ídolos. Ele vê o enterro dos brincos como parte da rejeição total do paganismo, não apenas limpeza de espólio (Hamilton, “Comment on 35:4”).
  • A Identidade de “El-Betel” (v. 7):
    • O texto diz que Jacó chamou o lugar de “Deus de Betel”. Wenham nota a estranheza sintática e teológica de chamar um lugar de Deus, mas aceita como uma intensificação da experiência anterior: o foco mudou da “Casa de Deus” (Betel, cap. 28) para o “Deus da Casa” (El-Betel) (Wenham, “Comment on 35:7”).
    • Steinmann foca na obediência do ato de renomear, reafirmando o compromisso feito no voto de Gênesis 28:20-21 (Steinmann, “Comment on 35:5-7”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Josué 24: Tanto Hamilton quanto Wenham veem um paralelo direto com a renovação da aliança em Siquém sob Josué. Ambos envolvem: reunião em Siquém, demanda para afastar deuses estrangeiros (hāsîrû), e uma pedra/árvore como testemunha. Jacó prefigura a nação.
  • Êxodo 19: Hamilton conecta a ordem de “mudar as roupas” e “purificar-se” com a preparação de Israel para receber a Lei no Sinai.

5. Consenso Mínimo Todos concordam que este episódio marca o cumprimento final do voto feito por Jacó em sua fuga (Gênesis 28), transformando sua fé de uma barganha condicional em devoção exclusiva.


📖 Perícope: A Bênção e o Novo Nome (Versículos 9-15)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • El Shaddai (Deus Todo-Poderoso): O título divino usado no v. 11. Wenham nota que este título está sempre associado em Gênesis com a promessa de fertilidade e descendência (17:1, 28:3, 48:3) (Wenham, “Comment on 35:11”).
  • Qehal goyim (Multidão/Assembleia de nações): Usado na bênção do v. 11. Steinmann destaca que, como Jacó gerou apenas uma nação (Israel), esta promessa tem implicações escatológicas ou espirituais (Steinmann, “Comment on 35:11-13”).
  • Nesek (Libação/Oferta de bebida): Hamilton aponta que esta é a primeira e única vez em Gênesis que o verbo nāsaḵ (derramar libação) ou o substantivo nesek aparecem. É um desenvolvimento no culto patriarcal (Hamilton, “Comment on 35:14-15”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Analisa a estrutura como um doublet (duplicata) da mudança de nome em Gênesis 32 (Peniel). Enquanto críticos da fonte atribuem Gênesis 35 a “P” (Sacerdotal) devido ao estilo formal e falta de diálogo, Wenham argumenta que a repetição serve como “confirmação solene” no contexto do retorno à terra, similar a como as promessas a Abraão foram repetidas (Wenham, “Comment on 35:9-10”).
  • Hamilton: Observa a ausência de diálogo. Em Gênesis 32, há luta e perguntas (“Qual é o teu nome?”). Aqui, Deus simplesmente declara. Hamilton sugere que Gênesis 35 funciona como um “lembrete” divino de que Jacó deve viver à altura do nome que já recebeu, enterrando sua natureza de “Jacó” (enganador) junto com os ídolos (Hamilton, “Comment on 35:10”).
  • Steinmann: Interpreta a promessa de “reis saindo de seus lombos” (v. 11) e a “assembleia de nações” cristologicamente. Ele vê o cumprimento final na inclusão dos gentios no Reino de Deus, citando Mateus 8:11 (Steinmann, “Comment on 35:11-13”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Relação entre Gênesis 32 e 35:
    • Wenham tende a ver Gênesis 35:9-15 como a versão da Fonte P para o evento de mudança de nome, paralela à versão J/E de Gênesis 32. Ele destaca as características de P: “El Shaddai”, “sejam fecundos e multipliquem-se” (Wenham, “Comment on 35:9-10”).
    • Steinmann rejeita a hipótese documental, argumentando que a narrativa é coerente como uma reafirmação. Deus aparece “novamente” (v. 9) para confirmar a bênção na terra prometida, fechando o ciclo de exílio (Steinmann, “Comment on 35:9-10”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 17: Todos os autores notam o paralelo maciço com a aliança abraâmica: a aparição de El Shaddai, a ordem de ser fecundo, a promessa de reis e a mudança de nome. Gênesis 35 é a transferência formal da “Bênção de Abraão” para Jacó.
  • Gênesis 1:28: A ordem “Sê fecundo e multiplica-te” (imperativo singular aqui, vs. plural em Gênesis 1) ecoa o mandato da criação, agora focado no patriarca.

5. Consenso Mínimo É indisputável que esta seção ratifica Jacó como o herdeiro exclusivo das promessas abraâmicas, formalizando a mudança de nome para Israel dentro da terra de Canaã.


📖 Perícope: Nascimento, Morte e Pecado (Versículos 16-22a)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Ben-oni vs. Binyamin:
    • Ben-oni: Hamilton discute as opções: “Filho do meu sofrimento”, “Filho da minha força” (uso raro de on) ou “Filho da minha iniquidade”. Ele prefere “sofrimento/luto” (Hamilton, “Comment on 35:16-18”).
    • Binyamin: Pode significar “Filho da mão direita” (favor/força) ou “Filho do Sul” (único nascido em Canaã, ao sul de Padã-Arã). Steinmann nota a ironia futura: a tribo de Benjamim será famosa por canhotos (Juízes 3:15) (Steinmann, “Comment on 35:16-18”).
  • Kibrah (Distância): Um termo de medida incerto. Steinmann sugere que significa uma distância de cerca de duas horas de viagem ou 7 milhas (Steinmann, “Comment on 35:16-18”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Hamilton: Destaca a ironia trágica de Raquel. Ela, que disse “Dá-me filhos ou morrerei” (Gn 30:1) e chamou o primeiro de José (“que acrescente outro”), morre justamente ao ter seu desejo atendido. Hamilton também nota que o pai (Jacó) nomeia a criança, anulando o nome dado pela mãe, um ato raro de autoridade patriarcal imediata para evitar um nome de mau agouro (Hamilton, “Comment on 35:16-18”).
  • Steinmann: Foca na geografia e arqueologia. Ele localiza o túmulo de Raquel ao norte de Jerusalém (território de Benjamim), tentando harmonizar com 1 Samuel 10:2, apesar da menção de “Efrata (que é Belém)” no texto, que ele vê como uma glosa explicativa posterior ou referente a uma área clânica (Steinmann, “Comment on 35:19-20”).
  • Wenham: Analisa o pecado de Rúben (v. 22) estruturalmente. Ele nota que a frase “e Israel soube disso” termina abruptamente no texto massorético (há um espaço ou piska no meio do versículo). Wenham sugere que o silêncio de Jacó aqui é ensurdecedor, contrastando com sua futura maldição em Gênesis 49 (Wenham, “Comment on 35:22”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Motivação de Rúben (v. 22):
    • Hamilton e Steinmann concordam que não foi apenas luxúria. Dormir com a concubina do pai (Bila) é uma reivindicação política de sucessão, similar a Absalão (2 Sm 16) e Adonias (1 Rs 2). Rúben, sentindo sua primogenitura ameaçada pelo favorecimento aos filhos de Raquel (José/Benjamim), ataca a serva de Raquel para afirmar domínio (Hamilton, “Comment on 35:22a”; Steinmann, “Comment on 35:22a”).
  • Localização do Túmulo de Raquel:
    • Existe uma tensão entre Gênesis 35:19 (caminho de Efrata/Belém - sul) e 1 Samuel 10:2 (Zelza/Benjamim - norte). Steinmann tenta resolver sugerindo que “caminho de Efrata” não significa em Efrata, mas na rota para lá, permitindo uma localização mais ao norte.

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Miquéias 4:8: A menção de Migdal-Eder (Torre do Rebanho) no v. 21 é ecoada profeticamente em Miquéias como um local associado ao domínio real, ligando o local do pecado de Rúben (perda do reino) à promessa messiânica.
  • Jeremias 31:15: O choro de Raquel por seus filhos é ligado diretamente à sua morte neste caminho.

5. Consenso Mínimo Os autores concordam que o pecado de Rúben resulta na perda de sua primogenitura, o que explica a futura elevação de Judá (liderança) e José (porção dupla), reconfigurando o futuro de Israel.


📖 Perícope: A Lista dos Filhos e a Morte de Isaque (Versículos 22b-29)

1. Análise Filológica & Termos-Chave

  • Gava (Expirar/Render o espírito): Usado para a morte de Isaque (v. 29). Hamilton nota o paralelo exato com a morte de Abraão (25:8), usando os mesmos quatro termos: gava (expirou), met (morreu), ye’asef (foi reunido ao povo), zaken (velho) (Hamilton, “Comment on 35:27-29”).

2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)

  • Wenham: Aponta uma discrepância técnica na lista dos filhos (vv. 22b-26). O texto diz “estes são os filhos… que lhe nasceram em Padã-Arã”, mas Benjamim nasceu em Canaã (v. 18). Wenham vê isso como uma generalização estilística comum em genealogias antigas (P), que sacrificam a precisão minuciosa pela unidade do grupo (Wenham, “Comment on 35:22b-26”).
  • Steinmann: Oferece uma análise cronológica detalhada. A morte de Isaque aos 180 anos significa que ele viveu mais 12 anos após a venda de José. Isso implica que Jacó e Isaque conviveram em Hebrom por cerca de 14 anos, e Isaque partilhou do luto pela “morte” de José (Steinmann, “Comment on 35:28-29”).
  • Hamilton: Observa o fechamento do ciclo. A morte de Isaque reúne Esaú e Jacó (v. 29), assim como a morte de Abraão reuniu Isaque e Ismael. É o ato final de reconciliação, onde a rivalidade é suspensa diante da morte (Hamilton, “Comment on 35:29”).

3. Fricção Interpretativa (O Debate)

  • A Cronologia da Morte de Isaque:
    • Narrativamente, a morte de Isaque é colocada aqui antes da história de José (Gênesis 37). Wenham explica isso como uma técnica literária para fechar o “Toledot de Isaque” antes de abrir o próximo ciclo, embora cronologicamente Isaque ainda estivesse vivo durante os eventos iniciais de José.
    • Steinmann defende vigorosamente a historicidade dos números, usando a idade de 180 anos para demonstrar que Isaque estava vivo quando José foi vendido (1899 a.C.) e morreu pouco antes de José ser elevado no Egito (1886 a.C.) (Steinmann, “Comment on 35:28-29”).

4. Ecos do Antigo Testamento (Intertextualidade)

  • Gênesis 25: O enterro de Abraão. O paralelo literário confirma que Isaque, apesar de sua passividade na narrativa, recebe as mesmas honras de aliança que seu pai.
  • Êxodo 1: A lista dos doze filhos segue uma ordem (Lia, Raquel, servas) que é repetida em Êxodo 1:1-4, ligando a família patriarcal à nação em gestação.

5. Consenso Mínimo A morte de Isaque serve como o marcador estrutural que encerra a era dos patriarcas individuais (Abraão/Isaque/Jacó) e inaugura a história dos doze filhos (Israel tribal).