Texto Interlinear (Hebraico/Inglês - BibleHub)
Análise Comparativa: Gênesis 3
1. Mapeamento Hermenêutico das Fontes
- Wenham, G. J. (1987). Genesis. Word Biblical Commentary (WBC). Thomas Nelson.
- Hamilton, V. P. (1990). The Book of Genesis. New International Commentary on the Old Testament (NICOT). Eerdmans.
- Steinmann, A. E. (2019). Genesis. Tyndale Old Testament Commentaries (TOTC). InterVarsity Press.
Análise dos Autores
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Autor/Obra: Wenham, G. J., Genesis.
- Lente Teológica: Crítico-Literária / Teologia Bíblica. Wenham opera com uma abordagem que valoriza a forma final do texto, embora dialogue extensivamente com a crítica das fontes (J, E, P). Ele vê o texto como uma “relatório factual” teológico, mas hesita em classificá-lo como história no sentido moderno, preferindo termos como “proto-história” ou narrativa teológica.
- Metodologia: O autor emprega uma análise literária rigorosa, focando na estrutura palistrófica (quiástica) da narrativa (cenas dispostas em espelho: A-B-C-D-C’-B’-A’). Ele compara o texto com mitos do Antigo Oriente Próximo (como Adapa e Gilgamesh) não para provar dependência direta, mas para destacar como o autor bíblico transforma motivos mitológicos (como a planta da juventude ou a serpente) para expressar uma visão monoteísta distinta (Wenham, 1987).
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Autor/Obra: Hamilton, V. P., The Book of Genesis.
- Lente Teológica: Evangélica Conservadora / Análise Semítica. Hamilton situa-se na tradição que busca harmonizar a alta crítica com a confiabilidade do texto, focando na filologia semítica comparativa.
- Metodologia: Sua abordagem é marcada pela exegese léxico-gramatical. Ele dedica espaço considerável à análise de raízes hebraicas, jogos de palavras (ex: nāḥāš e adivinhação; ‘ārûm e ‘arûmîm) e sintaxe. Ele evita impor conceitos teológicos posteriores (como a Trindade em Gn 1:2) prematuramente, preferindo deixar o texto hebraico falar dentro de seu contexto cultural e linguístico (Hamilton, 1990).
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Autor/Obra: Steinmann, A. E., Genesis.
- Lente Teológica: Confessional / Canônica. Steinmann adota uma postura de alta historicidade, lendo Gênesis através da lente do Novo Testamento (particularmente a teologia paulina).
- Metodologia: O autor ataca o texto com uma ênfase na teologia histórica e tipologia. Ele rejeita categoricamente a leitura de Gênesis 3 como mito ou parábola, insistindo na historicidade de Adão e Eva como essencial para a soteriologia cristã (o “segundo Adão”). Sua exegese é menos técnica linguisticamente que a de Hamilton e menos estrutural que a de Wenham, focando mais na aplicação doutrinária e na trajetória do pecado e da redenção (Steinmann, 2019).
2. Tese Central e Ênfases (Síntese Executiva)
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Tese de Wenham (WBC): Gênesis 3 é uma narrativa sapiencial estruturada quiasticamente que define o pecado não apenas como desobediência, mas como uma busca autônoma por sabedoria divina, resultando na morte como expulsão da presença de Deus.
- Wenham argumenta que a “árvore do conhecimento do bem e do mal” refere-se à sabedoria total que pertence a Deus. Buscar essa sabedoria sem revelação é afirmar a autonomia humana. Ele observa que a estrutura da narrativa coloca a transgressão (cena 4) no centro, invertendo a ordem da criação: “A hierarquia de autoridade estabelecida na cena 2… é derrubada. Deus-homem-mulher-animal na cena 2 torna-se cobra-mulher-homem-Deus na cena 4” (Wenham, 1987).
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Tese de Hamilton (NICOT): A queda é apresentada como uma inversão trágica onde a busca por “ser como Deus” leva à descoberta da nudez e da vergonha, marcada por uma exegese lexical que destaca a ironia entre a astúcia da serpente e a vulnerabilidade humana.
- Hamilton enfatiza a análise lexical, notando a conexão entre a serpente (nāḥāš) e a adivinhação, bem como o jogo de palavras entre “astuto” (‘ārûm) e “nu” (‘arûmîm). Para ele, o pecado é “um erro que traz uma vantagem, e um ganho que traz uma desvantagem” (Hamilton, 1990). Ele destaca a psicologia da tentação, onde a serpente projeta em Deus características de um “opressor cruel” em vez de um provedor beneficente (Hamilton, 1990).
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Tese de Steinmann (TOTC): Gênesis 3 é um relato histórico factual que explica a origem do pecado e introduz imediatamente o Protoevangelho (Gn 3:15), apontando para Cristo como a semente singular que reverterá a maldição.
- Steinmann defende vigorosamente a historicidade, afirmando que “a narrativa da queda não deve ser entendida como uma parábola ou mito”, citando o uso que o Novo Testamento faz de Adão (Steinmann, 2019). Sua ênfase recai sobre a promessa de redenção: ele argumenta gramaticalmente que a “semente” em 3:15 refere-se a um descendente particular (Cristo) e não a um coletivo, alinhando-se com a interpretação cristã primitiva do “primeiro evangelho” ou protoevangelium (Steinmann, 2019).
3. Matriz de Diferenciação
| Categoria | Visão de Wenham (WBC) | Visão de Hamilton (NICOT) | Visão de Steinmann (TOTC) |
|---|---|---|---|
| Palavra-Chave / Termo Hebraico | Conhecimento do Bem e do Mal: Define não como onisciência ou despertar sexual, mas como autonomia moral — a sabedoria para decidir o certo e o errado independentemente da revelação divina (Wenham, 1987). | Nāḥāš (Serpente): Explora a conexão filológica com a adivinhação (nāḥaš), sugerindo uma nuance sinistra de alguém que prediz o futuro ou oferece conhecimento oculto, além do jogo de palavras com o bronze polido (Hamilton, 1990). | Zera (Semente/Descendência): Argumenta gramaticalmente em Gn 3:15 que o pronome “ele” (hû’) aponta para uma semente singular (um indivíduo masculino), fundamentando a interpretação messiânica direta (Steinmann, 2019). |
| Problema Central do Texto | A Busca por Sabedoria Autônoma: O pecado é a rejeição da sabedoria dada por Deus em favor de uma “sabedoria” humana autoproclamada, uma inversão da ordem onde o homem ouve a mulher, a mulher a cobra, e todos ignoram Deus (Wenham, 1987). | A Psicologia da Tentação: O problema é a distorção do caráter de Deus pela serpente, que O pinta como um opressor mesquinho em vez de um provedor generoso, levando o homem a querer ser “mais” do que criatura (Hamilton, 1990). | A Entrada Histórica do Pecado: O foco é a historicidade da rebelião. Rejeita leituras míticas ou parabólicas, insistindo que a queda é a causa factual da corrupção antropológica e da necessidade de um segundo Adão (Steinmann, 2019). |
| Resolução Teológica | Expulsão como Misericórdia: A morte é o resultado inevitável, mas a expulsão do jardim previne que o homem coma da árvore da vida e viva eternamente em estado de pecado (uma “morte em vida”). Vê Gn 3:15 como uma luta contínua, não necessariamente messiânica no intento original do autor (Wenham, 1987). | Graça no Julgamento: Destaca que, embora haja castigo, Deus veste o casal (cobre a vergonha) e limita o poder da serpente. A maldição é sobre a serpente e o solo, mas o homem e a mulher recebem dores e fadigas que visam a disciplina, não a destruição total (Hamilton, 1990). | O Protoevangelho (Protoevangelium): A resolução é cristológica. Gn 3:15 é a promessa do “primeiro evangelho”, onde Cristo (a semente da mulher) destruirá o poder de Satanás (a serpente), oferecendo esperança imediata após a queda (Steinmann, 2019). |
| Tom/Estilo | Estruturalista e Literário: Foca na arquitetura do texto (quiasmos, cenas espelhadas) e no simbolismo do santuário. | Lexical e Exegético: Foca nas raízes das palavras, trocadilhos hebraicos e nuances gramaticais. | Confessional e Canônico: Lê o texto através da lente do Novo Testamento e da teologia sistemática cristã. |
4. Veredito Acadêmico
- Melhor para Contexto: Wenham (WBC). Sua análise da estrutura palistrófica (quiástica) do relato do Éden é inigualável para compreender como a narrativa foi construída literariamente para destacar a inversão da ordem criada. Além disso, ele navega com maestria pelos paralelos do Antigo Oriente Próximo (como Gilgamesh e Adapa), demonstrando como Gênesis usa motivos mitológicos conhecidos para subvertê-los e apresentar uma teologia monoteísta distinta (Wenham, 1987).
- Melhor para Teologia: Steinmann (TOTC). Para estudantes que buscam uma conexão direta entre o Antigo e o Novo Testamento, Steinmann oferece a defesa mais robusta da leitura cristológica tradicional. Ele combate interpretações puramente etiológicas ou míticas, fundamentando a doutrina do pecado original e a promessa messiânica (o Protoevangelho) na gramática do texto e na recepção apostólica (Steinmann, 2019).
- Síntese: Uma exegese completa de Gênesis 3 exige a integração das três perspectivas: a estrutura literária de Wenham fornece o esqueleto narrativo, revelando a teologia através da forma; a análise lexical de Hamilton preenche esse esqueleto com nuances semânticas vitais (como o jogo entre “astuto” e “nu”); e a leitura canônica de Steinmann conecta o evento histórico da Queda à trajetória redentora da Escritura. O pecado deve ser entendido, portanto, como uma busca autônoma por sabedoria (Wenham) instigada por uma distorção do caráter de Deus (Hamilton), cuja resolução só é encontrada na semente prometida que esmaga a serpente (Steinmann).
Protoevangelho, Sabedoria Autônoma, Nāḥāš e Estrutura Quiástica são conceitos chaves destacados na análise.
5. Exegese Comparada
📖 Perícope: A Tentação e a Distorção (Versículos 3:1-5)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Nāḥāš (Serpente): Hamilton destaca a conexão filológica com o verbo nāḥaš (“praticar adivinhação”), sugerindo uma nuance sinistra de alguém que oferece conhecimento oculto, e com neḥōšeṯ (“bronze”), implicando uma aparência luminosa (Hamilton, “NICOT_004”). Wenham observa que o termo é genérico para cobra, mas no contexto funciona como um símbolo anti-Deus, possivelmente uma transformação de motivos mitológicos como a serpente de Gilgamesh (Wenham, p. 502).
- ‘Ārûm (Astuto/Prudente): Hamilton nota a ambivalência do termo: em Provérbios é uma virtude (“prudente”), mas em Jó é pejorativo (“ardiloso”). Ele destaca o jogo sonoro com ‘arûmîm (“nus”) de 2:25, ligando a narrativa da Criação à Queda (Hamilton, “NICOT_004”). Wenham concorda, apontando que o narrador usa a palavra para sugerir que as observações da serpente devem ser examinadas com cautela, pois ela fala meias-verdades (Wenham, p. 501).
- Elohim vs. Yahweh Elohim : Wenham enfatiza que no diálogo entre a serpente e a mulher, o nome da aliança (Yahweh) é omitido, usando-se apenas o genérico Elohim, sugerindo um distanciamento relacional (Wenham, p. 503).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton (NICOT): Observa que a serpente não é chamada pelo nome próprio (Satanás) aqui, mas é definida como uma criatura de Deus, eliminando dualismos cósmicos (origem independente do mal). Ele nota que a serpente fala no plural (“vós”), dirigindo-se implicitamente a ambos, homem e mulher, e que sua tática inicial não é uma pergunta, mas uma exclamação de surpresa fingida para pintar Deus como um opressor cruel (Hamilton, “NICOT_004”).
- Wenham (WBC): Destaca que a serpente é classificada como um animal do campo, e segundo a classificação de Levítico 11, seria um animal “imundo” arquetípico. Ele argumenta que o narrador escolhe a cobra porque um animal morto (mais imundo) não poderia falar, tornando a serpente o símbolo anti-Deus mais óbvio dentro do simbolismo animal do AT (Wenham, p. 502).
- Steinmann (TOTC): Ressalta que o primeiro ato astuto da serpente é questionar o que Deus disse, levantando a dúvida teológica antes da desobediência moral (Steinmann, p. 158).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Ameaça de Morte:
- Hamilton vê a resposta da serpente (“Certamente não morrereis”) como um ataque frontal dogmático à ameaça de Deus (Hamilton, “NICOT_004”).
- Wenham propõe uma leitura mais sutil baseada na sintaxe hebraica incomum: pode ser uma ambiguidade deliberada significando “Não é certo que morrereis” ou “Não ‘certamente morrereis’” (negando a certeza imediata, não o fato). Ele vê isso como uma “meia-verdade” astuta, pois eles não morrem fisicamente no dia, mas morrem no sentido de expulsão da presença de Deus (Wenham, p. 507-508).
- Veredito: Wenham oferece uma explicação mais robusta para o fato de o casal não cair morto fisicamente no instante da mordida, apelando para a nuance de “morte” como exílio do santuário.
4. Ecos do Antigo Testamento
- Hamilton conecta a serpente (nāḥāš) com a serpente de bronze de Moisés (Nm 21:9) e o ídolo destruído por Ezequias (Neustã, 2 Rs 18:4) (Hamilton, “NICOT_004”).
- Wenham cita Provérbios 12:16 e 13:16 para mostrar o uso positivo de ‘ārûm (prudente), contrastando com o uso negativo aqui (Wenham, p. 501).
5. Consenso Mínimo
- A serpente é uma criatura (não um deus rival) que distorce a palavra de Deus para apresentar a autonomia como superior à obediência.
📖 Perícope: O Ato da Transgressão (Versículos 3:6-7)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Neḥmāḏ (Desejável): Hamilton liga este termo à cobiça, a atitude de “precisar de algo que não tenho para ser feliz” (Hamilton, “NICOT_004”).
- Śākal (Dar entendimento/Sabedoria): Wenham rejeita a tradução “desejável para olhar” (baseada na Vulgata), insistindo no sentido de “insight” ou sabedoria intelectual, ligando o ato à busca por autonomia moral (Wenham, p. 511).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Hamilton (NICOT): Realiza uma análise sonora do versículo 6, notando uma estrutura de consoantes duplicadas (wattiqqah, mippiryô, wattō‘kal, wattittēn) que força uma “concentração impiedosa” em cada passo da queda. Ele também desmistifica a tradição da “maçã”, atribuindo-a ao trocadilho latino malus (mal) / malum (maçã) (Hamilton, “NICOT_004”).
- Wenham (WBC): Aponta a inversão de papéis como o coração da tragédia: o homem ouve a mulher, a mulher ouve a criatura, invertendo a hierarquia de Gênesis 2 (Deus-Homem-Mulher-Animais). Ele destaca que a mulher usurpa prerrogativas divinas: ela “vê que é bom” (ecoando Gn 1) e ela “toma” (Wenham, p. 510).
- Steinmann (TOTC): Observa a ironia teológica: os olhos se abrem não para a sabedoria divina, mas para a nudez. Ele conecta isso à cegueira espiritual mencionada no resto da Escritura (ex: Is 35:5, At 26:18), onde apenas Deus pode abrir os olhos verdadeiramente (Steinmann, p. 160).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Culpa do Homem:
- Hamilton descreve o pecado do homem como “pecado de aquiescência” em contraste com o “pecado de iniciativa” da mulher; ele não questiona, apenas aceita (Hamilton, “NICOT_004”).
- Wenham enfatiza a frase “com ela” (‘immāh), indicando que o homem estava presente e associado à ação, tornando seu ato a desobediência decisiva e final (Wenham, p. 511).
4. Ecos do Antigo Testamento
- Wenham liga os verbos de desejo (ta’ăwâ e ḥāmad) diretamente ao vocabulário do Décimo Mandamento (Êx 20:17, Dt 5:21) sobre não cobiçar (Wenham, p. 511).
5. Consenso Mínimo
- A promessa da serpente de “olhos abertos” cumpre-se ironicamente: eles ganham conhecimento imediato não de divindade, mas de sua própria vulnerabilidade e vergonha (nudez).
📖 Perícope: O Inquérito Divino (Versículos 3:8-13)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Mithallēk (Andando): Wenham nota que esta forma verbal (Hithpael) é usada posteriormente para descrever a presença de Deus no Tabernáculo (Lv 26:12, Dt 23:15), sugerindo que o Éden é retratado como um santuário arquetípico (Wenham, p. 513).
- Lĕrûaḥ hayyôm (Viração do dia): Hamilton traduz como a parte “ventosa” ou com brisa do dia. Steinmann concorda com “brisa da tarde” (Steinmann, p. 161).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham (WBC): Identifica uma estrutura quiástica perfeita na cena. Os atores são abordados na ordem inversa da transgressão (Homem → Mulher → Serpente) e o interrogatório extrai a confissão na ordem inversa dos atos (Wenham, p. 514).
- Steinmann (TOTC): Destaca que Adão é o primeiro humano a falar com Deus após o pecado, e suas primeiras palavras são para culpar a Deus (“a mulher que tu me deste”), implicando que o Criador é o autor do problema (Steinmann, p. 161).
- Nota: A partir daqui, as contribuições diretas de Hamilton (NICOT) cessam devido ao limite do texto fonte fornecido.
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Natureza da Pergunta “Onde estás?”:
- Wenham argumenta contra a visão de que Deus ignorava o esconderijo (Gunkel). Ele vê a pergunta como retórica, similar a um pai chamando um filho ou um juiz chamando o réu, citando o paralelo com “Onde está Abel?” em Gn 4:9, onde Deus claramente sabia o fato (Wenham, p. 515).
- Steinmann foca menos na retórica e mais na função judicial de expor a culpa através do diálogo (Steinmann, p. 161).
4. Ecos do Antigo Testamento
- Wenham conecta a expulsão do jardim à expulsão do acampamento de Israel (leprosos/imundos), reforçando a teologia de “vida” como presença no santuário e “morte” como exílio (Wenham, p. 508).
5. Consenso Mínimo
- O inquérito divino revela a ruptura dos relacionamentos: o homem culpa a mulher (e a Deus), e a mulher culpa a serpente, destruindo a solidariedade humana criada em Gênesis 2.
📖 Perícope: O Veredito e o Protoevangelho (Versículos 3:14-19)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Zera (Semente/Descendência - v.15): Steinmann argumenta gramaticalmente que, embora zera possa ser coletivo, o pronome seguinte “ele” (hû’) é singular, referindo-se a um descendente específico que esmagará a serpente (Steinmann, p. 162).
- Šûp (Ferir/Esmagar - v.15): Wenham discute a dificuldade deste hapax legomenon. Ele nota que a maioria prefere “esmagar/bater” para ambas as ocorrências (serpente e homem), rejeitando traduções que suavizem o conflito para “almejar” (Wenham, p. 526).
- Tĕšûqâ (Desejo - v.16): Wenham analisa a teoria de Susan Foh de que isso significa “desejo de dominar” (baseado no paralelo com Gn 4:7), mas permanece cauteloso (Wenham, p. 532). Steinmann rejeita a leitura de “dominação”, preferindo “desejo de intimidade/casamento” apesar da dor, argumentando que o hebraico de Gn 4:7 é difícil demais para ditar o sentido aqui (Steinmann, p. 163).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Steinmann (TOTC): É o mais enfático na defesa do Protoevangelho (protoevangelium). Ele insiste que esta passagem foi entendida pelos primeiros cristãos como a primeira promessa do Evangelho, apontando diretamente para Cristo (Steinmann, p. 162).
- Wenham (WBC): Observa que nem o homem nem a mulher são amaldiçoados diretamente; apenas a serpente (v. 14) e o solo (v. 17) recebem a maldição (‘ārûr). O julgamento sobre os humanos é apresentado como uma “disrupção de seus papéis designados” (maternidade com dor, trabalho com fadiga) (Wenham, p. 530).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- A Identidade da “Semente” (v. 15):
- Steinmann: Adota uma postura messiânica direta e exclusiva. O “ele” é Cristo (TOTC, p. 162).
- Wenham: É mais contido exegeticamente. Ele vê o sentido original do narrador provavelmente como uma luta contínua onde a humanidade eventualmente triunfa sobre o mal/serpente. Ele aceita a leitura messiânica como um sensus plenior (sentido mais pleno) revelado posteriormente, mas distingue isso da intenção original do autor do Gênesis (Wenham, p. 529).
4. Ecos do Antigo Testamento
- Wenham liga a inimizade perpétua (v. 15) à rejeição de serpentes e à impureza em Levítico, e vê paralelos com a vitória final sobre o mal em Isaías 11:8 (Wenham, p. 525).
- Steinmann conecta a maldição da serpente (comer pó) à futilidade, notando que o pó é a matéria-prima do homem e o destino do homem na morte (Steinmann, p. 162).
5. Consenso Mínimo
- O versículo 15 estabelece uma hostilidade perpétua divinamente ordenada entre a linhagem da serpente (o mal) e a linhagem humana, culminando em ferimentos mútuos.
📖 Perícope: Expulsão e Graça (Versículos 3:20-24)
1. Análise Filológica & Termos-Chave
- Kārubîm (Querubins): Steinmann define-os através de suas aparições posteriores (Êx 37, Ez 1, 10) como guardiões associados ao trono e à presença de Deus (Steinmann, p. 165).
- Kotnôt ‘ôr (Túnicas de pele): Wenham vê Deus fazendo roupas como um ato de graça (cobrindo a vergonha) e uma reasserção dos direitos do Criador de definir a ordem, substituindo as folhas de figueira inadequadas (Wenham, p. 510).
2. A Lupa dos Comentaristas (Contribuições Exclusivas)
- Wenham (WBC): Nota a aposiopese (frase quebrada/interrompida) no versículo 22: “para que não estenda a mão… e viva para sempre —“. A sentença é deixada inacabada, convertendo-se em ação narrativa imediata (expulsão), o que sugere a urgência divina (Wenham, p. 416). Ele também liga a “espada que se revolve” e os querubins à iconografia do Templo, sugerindo que o acesso à “árvore da vida” agora é mediado pelo culto sagrado (Wenham, p. 398).
- Steinmann (TOTC): Interpreta o nome “Eva” (Ḥawwâ - Vida) dado por Adão como um ato de fé. Apesar da sentença de morte, Adão crê na promessa da semente e foca na continuidade da vida (Steinmann, p. 164). Ele enfatiza que a expulsão é um ato de “compaixão divina”, impedindo que o homem viva eternamente em estado de pecado (imortalidade condenada) (Steinmann, p. 165).
3. Fricção Interpretativa (O Debate)
- Significado das Roupas de Pele:
- Steinmann foca na provisão e compaixão de Deus cobrindo a vergonha (TOTC, p. 165).
- Wenham (em seções anteriores) discute a nudez não como mera pobreza, mas como vergonha teológica. As roupas de pele, exigindo a morte de um animal (implícito), prefiguram o sistema sacrificial onde a cobertura do pecado exige vida, embora ele seja cauteloso em não ler todo o sistema levítico de volta neste versículo (Wenham, p. 499, 510).
4. Ecos do Antigo Testamento
- Wenham faz uma conexão forte entre o Éden e o Tabernáculo: ambos têm entrada a Leste, querubins guardiões, e a presença de Deus “andando” (mithallēk). A expulsão do jardim é teologicamente paralela ao exílio de Israel da terra prometida (Wenham, p. 466, 473).
5. Consenso Mínimo
- A expulsão é definitiva e necessária para negar o acesso à Árvore da Vida a seres caídos; o caminho de volta está barrado por Deus até nova ordem.